Vaidade, tudo é vaidade

Jorge Béja

Este 28 de fevereiro de 2013, sem dúvida, será outro dia de glória para Bento XVI. Deixará de ser Papa, mas continuar “Papa Emérito”, uma espécie de aposentado. Ele próprio verá a retumbante manifestação dos mais de 150 mil visitantes que estarão plantados na Praça de São Pedro, para dar adeus ao Papa. Ele próprio desfilará em carro aberto, naturalmente ao som da Tocata de Fuga em Ré Menor de Bach, do portentoso Tamburini, o órgão da Basílica de São Pedro, com seis teclados, 220 registros e mais de 7 mil tubos.

Diante das câmeras da televisão e para que o mundo a tudo assista, vai se despedir dos cardeais, um por um, recebendo abraços, o tradicional beijo no anel pontifício e alguns “cochichos” ao pé do ouvido.Em seguida, sem antes sobrevoar a cidade de Roma, viajará 15 minutos de helicóptero, escoltado por caças da Força Aérea Italiana, até a residência de verão em Castelgandolfo, onde, disse ele, vai permanecer em oração e isolado do mundo.

Tudo colossal e cinematográfico, não fossem o naufrágio de sua renúncia e a vaidade de Bento XVI que preferiu estar vivo e presente à cerimônia de sua despedida do que estar morto, dentro de um caixão, ao som do Réquiem de Mozart e/ou da Marcha Fúnebre de Chopin, tal como toda a humanidade traz na lembrança quando morreu seu predecessor, João Paulo II.

JOÃO PAULO II

Antes de seu corpo ser levado até à tumba papal, nos subterrâneos da Basílica de São Pedro, o esquife de madeira de João Paulo II, simples e sem o menor adorno, como ele próprio desejou, permaneceu no chão da Praça de São Pedro, apenas com um exemplar da Bíblia sobre o caixão e que o vento, como um sinal divino, volvia suas folhas, como se alguém invisível as estivesse manuseando, ora vagarosamente, ora apressadamente.

Mas com Bento XVI é diferente. Ele mesmo quer ver a cerimônia, receber os aplausos e testemunhar com seus próprios olhos as lágrimas de muita gente a lhe acenar com lenços brancos.”Vaidade de vaidades, tudo é vaidade” (Eclesiastes, 1:2/3).

É verdade que a Bento XVI escrevi uma carta, publicada, primeiramente, aqui na Tribuna da Imprensa e em seguida recepcionada pelo jornal italiano La Repubblica e pelo próprio L’Osservatore Romano. Como cristão e católico, pedi que Bento XVI renunciasse à renúncia, sob a justificativa de que o mandato de um papa é metafísico, sobrenatural, insusceptível de renúncia e que somente a morte o extinguiria. Foi em vão. Bento XVI renunciou mesmo. Deixou a barca de Pedro à deriva e se foi. Porém, exigindo ele próprio manter as vestes papais e o título, admitindo apenas o acréscimo de “Emérito”, talvez mesmo a contragosto seu.

Mas faço perguntas aos teólogos que, pelos meios de comunicação, defendem a renúncia como um “gesto de grandeza”, uma vez que Bento XVI já estava com “idade avançada e sem condições físicas de continuar Papa”. E seus predecessores, que permaneceram no trono de Pedro até o último suspiro de vida? E o Bem-Aventurado João Paulo II, que visivelmente sem forças, martirizado, balbuciando as palavras, cabeça caída, queixo junto ao peito e quase moribundo, ainda teve motivação e meios de ir até a janela de seu aposento para dar sua última bênção apenas com mão e o braço direitos, fazendo o sinal da cruz?

MENOS VIRTUOSOS?

Foram todos aqueles outros Papas e mais João Paulo II, Papas de menor grandeza? Menos virtuosos ou sem virtude alguma? Sim, porque engrandecer, enaltecer e exaltar Bento XVI, que renuncia, corresponde a censurar e desmerecer todos os seus predecessores que levaram o mandato papal a termo e dele só se desligaram em razão da morte. Seja como for, a verdade é que este 28 de fevereiro de 2013 já entrou para a História.

Quando um Papa morre, o mundo cristão (e até não cristão) chora. No dia das exéquias papais, o sentimento é o mesmo que cada um sente como se fosse o próprio pai que estivesse sendo velado. Dias depois, iniciado o conclave e já antes da proclamação do “Habemus Papa”, o Papa que morreu é esquecido e o mundo católico aplaude o novo papa. Do que morreu ninguém fala mais.
Rapidamente.

Bento XVI pensou nisso e não quis isso, mas sim, ele próprio, em vida, receber as homenagens de um Papa que se vai (sem ter ido), e continuar seu pontificado “recluso, em meditação e sempre servindo à Igreja”.

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