Vamos ao almoço

Sebastião Nery

O coronel Chico Heraclio, de Limoeiro, o mais poderoso do Nordeste, jogou tudo em 50 na campanha de Agamenon Magalhães contra João Cleofas para governador de Pernambuco. Deu-lhe mais de 70% dos votos de sua região. Depois da eleição, foi ao palácio. Agamenon, eufórico:

– Chico, use e abuse de meu governo.

– Muito obrigado, governador. A Secretaria da Fazenda e a de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada. Só peço para colocar água em Limoeiro e pelos meus amigos, quando for preciso.

Um dia, voltou ao palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função. Agamenon não podia atender:

– Mas Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil, eu não vinha lhe pedir. Governo existe para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

***
TRATAMENTO ESPECIAL

Dr. Sidney era chefe do serviço médico da Penitenciária Lemos Brito, na Rua Frei Caneca, Rio. Carlos Lacerda, governador da Guanabara, recebeu denúncias, mandou fazer um inquérito na penitenciária, demitiu o diretor por corrupção, chamou o doutor Sidney:

– O senhor vai assumir a direção da Lemos Brito.

– Governador, não entendo de penitenciária. Sou apenas um médico.

– O senhor tem duas qualidades que me bastam: é um homem correto e é respeitado por funcionários e presos. Vai assumir.

***
LACERDA

Doutor Sidney assumiu. Quando começaram os assaltos a bancos no Rio, no início da luta armada contra a ditadura, os seis primeiros presos foram mandados para a Lemos Brito. Dr. Sidney chamou o chefe da guarda:

– Chegaram aí seis jovens assaltantes de bancos. São das melhores famílias da cidade, envolvidos no terrorismo político, por extremadas convicções ideológicas. São presos políticos. Quero que eles fiquem separados dos presos comuns, isolados e recebendo tratamento especial.

– Pois não, senhor diretor. Vou dar tratamento especial a eles.

Ao meio-dia, o chefe da guarda, um negão gordo e sisudo, abriu a cela dos jovens guerrilheiros, curvou-se cerimoniosamente:

– Senhores terroristas, boa tarde. Vamos ao almoço.

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