Veja quanto está ganhando o rentista que compra títulos da dívida interna ou externa

TRIBUNA DA INTERNET | Governo remunera ilegalmente todo o dinheiro ...

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Mathias Erdtmann

Antes de mais nada, rentista é um termo amplo e, para estimar melhor, precisamos reduzir o espectro e estudar apenas algumas categorias. Aqui avaliaremos a situação de apenas duas categorias em suas tentativas de ganhar dinheiro com pouco esforço, a partir da dívida pública brasileira:

(1) Investidores Pessoas Físicas (PF) Brasileiras (os 10% mais ricos do Brasil)

(2) Investidores PF Estrangeiras (incluindo os 1% de brasileiros mais ricos que dispõe de recursos em contas estrangeiras)

Vejam que nestas categorias estamos analisando somente as Pessoas Físicas, deixando de lado as Pessoas Jurídicas, Bancos, Holding, Dealers, etc, que seriam um mundo à parte (onde os 0,1% de ultraricos se encontrariam).

ANTES DA QUEDA – Ainda assim, dentro do universo das Pessoas Físicas, há de se avaliar o que está disponível como opção em termos de títulos novos (rentistas de curto prazo), mas também a composição de estoque de quem comprou ao longo dos anos (rentistas de longo prazo, perfil mais típico).

Para a categoria (1), PF Brasileira, para descontar o efeito inflacionário, vou utilizar a abordagem mais fácil, analisando compras do título IPCA+ via Tesouro Direto (TD). Esses títulos pagam como bônus a correção monetária, acrescida dos juros.

O rentista de longo prazo (10 anos) tem recebido 3,6% ao ano de juros, já descontados a inflação, os impostos e a custódia do TD (assumido 15% de IR). Desta média, tem-se 3,76% nos primeiros 5 anos e 3,49% nos últimos 5, de onde pode ser observada uma trajetória de redução dos juros.

APÓS A QUEDA – Os títulos ofertados atualmente, após a queda da taca Selic, pagam 2,95% brutos, que após impostos e custódia, assumindo as metas inflacionárias para os próximos 10 anos, resultam em um retorno de 1,85% acima da inflação. Portanto, se for possível manter tudo como está, teremos uma redução significativa dos ganhos dos rentistas PFs Brasileiros no longo prazo.

Embora ainda tenham assegurada sua sobrevivência, com juros positivos, muito possivelmente terão que ao menos avaliar investimentos em outras áreas, como a bolsa de valores.

Já para a categoria (2), PF Estrangeira, a situação é bem distinta. Aqui utilizei para análise os títulos da dívida externa emitidos em Dólar, também com prazo aproximado de 10 anos.

Os regimes fiscais são um pouco diferentes, então apresentarei os cenários para um residente fiscal no Brasil (que seria o caso de um Brasileiro que detém uma conta no exterior) e outro na Europa.

VEJA AS DIFERENÇAS – O PF Estrangeiro residente no Brasil paga 15% de IR sobre os rendimentos, enquanto o PF Estrangeiro residente na Europa (Alemanha) paga 26,4%. Com essas premissas, temos que o PF Estrangeiro pagando IR no Brasil lucrou uma média de 2,5% de juros anuais ao longo dos últimos 10 anos, sendo tanto os juros quanto o principal cotados em dólar (já descontada a inflação e tributos, mas não considerando os eventuais lucros/prejuízos cambiais), enquanto o PF Estrangeiro pagando IR na Europa teria tido um lucro médio de 2,0% ao ano.

Agora, o ponto relevante aqui é que os primeiros cinco anos compuseram 2,2% de juros anuais, enquanto os 5 anos posteriores renderam 2,9% ao ano, em uma trajetória ascendente.

Os títulos emitidos há 2 meses atrás, em meio aos juros mundiais mais baixos da história, contam com juros reais de 2,3% anuais, em cima do dólar (cupom de 3,875%, descontada inflação e tributos). Desta forma, aqui a tendência é inversa: os últimos anos tem rendido bem, e os novos títulos rendem tanto quanto os antigos (um pouco menos apenas). Outra curiosidade é que, no longo prazo, será melhor ser Estrangeiro que Brasileiro (do ponto de vista do juros, claro).

INTERNA OU EXTERNA – O resumo da história é que se mostra mais lucrativo para Pessoas Físicas comprar a dívida externa Brasileira (2,3% ao ano) ao invés de comprar a dívida interna (1,9% ao ano). De fato, há um fluxo enorme de dinheiro saindo do país com esses rumos, e o próprio governo deu este sinal aos investidores, pois é ele que define os bônus dos títulos e o volume emitido. Claro que não estou entrando no mérito das necessidades deste financiamento público nas diferentes moedas, nem da variação cambial e se é mais ou menos arriscado ter o dinheiro guardado em dólar ou real, e avaliando somente o bônus (juros) do ponto de vista do investidor.

Imagino que os consultores de gestão de fortuna devam estar sugerindo para seus clientes realizar esta transição para brasileiros dispostos a enviar seu dinheiro para longe, para investir como estrangeiros no Brasil – que é um arranjo um tanto quanto curioso.

OPÇÕES DO RENTISTA – Por fim, a vida do rentista está sim dificultada, mas não inviabilizada, sendo necessário um grau de sofisticação maior para manter um rendimento maior que 2% ao ano, obrigando o rentista que quiser ganhar acima dos 3% a migrar para áreas de maior risco.

Pode optar por como sociedade de ações; ou para áreas de maior esforço, como trabalhar (“oh, céus!”), abrir uma empresa (“oh, vida!”), comprar um imóvel para construir ou alugar (“oh, azar!”), ou reduzir o padrão de vida para poder manter o fluxo contínuo de renda.

5 thoughts on “Veja quanto está ganhando o rentista que compra títulos da dívida interna ou externa

  1. Nessa onda de rentabilidade (não confundir com lucratividade) elevada, bancos sociais se traduzem apenas em rótulo. O banco do Brasil, por exemplo, invade todos os canais que possa levar sua proposta ao cliente, para oferecê-lhe Antecipação de Décimo Terceiro. Quem entrar nessa, vai-se ferrar; estou alertando!
    Na esfera privada há um vampiro alcunhado de Crefisa, que também pode ser chamada de mata-velhinhos. Esta é uma emprestadora cujo juro é de raspar sacolinha de pastor. Vixe!

  2. Agora imagina quem comprou títulos da Dívida Pública com remuneração pré fixada quando a SELIC estava na casa dos 14%.

    Por óbvio a preferência por compra ao longo dos próximos anos será pelo regime de taxa pós fixada, ou seja, a taxa SELIC na data do resgate e não na data da compra.
    Eles nunca erram.

  3. O excelente Artigo do Sr. MATHIAS ERDTMANN lança luzes sobre a situação dos Rentistas/Poupadores nessa conjuntura de Juros Básicos SELIC Negativos de 2%aa, para uma Meta de Inflação de 3,25%aa com Banda de 1,5%aa.

    O Orçamento Federal/2021 é de R$ 3.600 Bi, sendo a Arrecadação Federal +- R$ 1,250 Bi. Resta ver se o Dpto do Tesouro tem condições de girar R$ 2.350 Bi/Ano, num PIB de R$ 7.000 Bi, com esta Taxa de Juros Básicos SELIC Negativa. O Mercado dirá.

    De qualquer forma não é uma notícia boa, os Juros Básicos muito baixos e principalmente NEGATIVOS, porque sinaliza que a Economia está próxima de Deflação quando necessitamos urgentemente de criar EMPREGOS.

    O bom seria o Governo criar condições de aumentar a LUCRATIVIDADE das Empresas, e não reduzir Juros Básicos até o Negativo para “forçar” Rentistas/Poupadores a investir em Empresas com LUCRATIVIDADE cada vez mais baixas.

    Em Economia Política, tudo o sai fora do “Equilíbrio”, tanto para cima como para baixo, é nocivo. Não gera EMPREGO na quantia que necessitamos.

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