Veja tenta fazer da saída de Fátima do JN um conto de fadas

Pedro do Coutto

A revista Veja, que circulou sábado e se encontra nas bancas, através de reportagem muito bem escrita por João Batista Júnior, com foto de Lailson Santos, tenta transformar o impacto da saída de Fátima Bernardes do Jornal Nacional da Globo em conto de fadas. Uma história da Disney com final feliz, cheia de otimismo. Não censuro a elaboração da matéria, nem a forma, como me referi, tampouco no conteúdo e seu objetivo de harmonizar o panorama e das a ideia de que, na Rede Globo, todas as vontades levam a Roma. Faço apenas, o que, a meu ver, com a ressalva de não possuir informação dos bastidores, acredito ser um pouco da verdade.

As contradições do texto da Veja e também da carta de Otávio Florisbal, diretor geral da Globo, publicada também sábado, mas na Folha de São Paulo, surgem à luz da lógica. Sem lógica não se consegue nem explicar nem entender nada na vida. Batista Junior revela que a saída de Fátima Bernardes do Jornal Nacional estava acertada pela emissora desde 2009, após uma proposta inicial, de Fátima, colocada em 2007.

Essa não. Se a elaboração do novo programa da apresentadora estava decidida há mais de dois nãos, por qual motivo ele somente começará em abril de 2012? Estamos falando da Rede Globo, uma das maiores empresas de comunicação do mundo e seguramente a melhor de todas em qualidade, sobretudo visual. Qual a razão de tanto tempo entre a ideia e sua execução? Isso de um lado.

De outro, o JN, de acordo com a pesquisa do IBOPE que a FSP publica sempre aos domingos (para aproveitar o título de Jules Dassin) alcança 35 pontos de audiência. Sessenta milhões de pessoas do outro lado da tela, exposição total, só batido pela novela Fina Estampa que registra de 39 a 40%. O horário matutino da Vênus Platinada está registrando 7,6 pontos. Fátima reforçaria o horário matutino?

É possível, qualidade não lhe falta. Mas também não faltava a mesma classe ao sofisticado Renato Machado. Entretanto, com ele, agora correspondente em Londres, a audiência do Bom Dia Brasil declinou. Tanto assim que foi substituído. Mas me referi há pouco à carta de Otávio Florisbal. Propõe-se a contestar Nelson de Sá e Kaila Jumenez na FSP e não contesta nada. Pelo contrário, confirma. O que disseram Nelson e Keila? Apenas que o horário matinal da Globo não ia bem. Números do IBOPE. A Globo, claro, lidera, porém com 7,6 pontos. Menos que a soma da Record (5,7) e do SBT (5,1) sem contar com a Band e as demais emissoras. Uma exceção no confronto diário.

O espaço matutino passou a ser o único em que a TV Globo não vence por maioria absoluta. Nos demais, a Globo alcança metade mais um do que todas as outras juntas. Menos no alvorecer do dia. Algo, portanto, não está funcionando ou deixando a desejar. Com base na minha experiência de jornalismo, acho que as causas são fáceis de localizar. Mas dentro de um sistema, não por intermédio de medida salvacionista isolada.

Não se trata de recorrer à mágica. É mais claro trilhar o caminho da lógica. O Bom Dia Rio e Bom Dia Brasil repetem notícias ocorridas na véspera e publicadas nos jornais que chegam às bancas a partir das 3 horas da manhã. Os telespectadores, quando ligam o aparelho, se deparam com informações das quais já tinha conhecimento. A Record, por exemplo, é verdade que com ênfase no plano policial, apresenta novidades. E isso causa impacto, revelação, além da confirmação. Este me parece o êxito da Record e também do SBT. É importante que, às madrugadas, logo que os jornais circulam, sejam elaboradas pautas bem feitas para dar sequência (suítes) às matérias já divulgadas. E não apenas sua repetição. Pode haver repetição, prém interpretativa. Caso contrário os fatos esfriam. Mantido o padrão atual, nem Fátima Bernardes poderá sustentá-los. De qualquer maneira, boa sorte para ela.

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