Vem aí nova campanha contra o diploma

Carlos Chagas

Malandragens e vigarices chegam em ondas, como o mar. Depois de o Congresso haver restabelecido a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, prerrogativa suspensa durante três anos pelo Supremo Tribunal Federal, reorganizam-se as reacionárias forças patronais para reverter outra vez esse direito a nós surripiado e agora devolvido. Organizações que reúnem a maior parte dos proprietários dos meios de comunicação começam esta semana a acionar grupos parlamentares para levantar a exigência.

A cantilena surge a mesma de sempre: “o dom de escrever nasce com o indivíduo, não se aprende na escola”.

Começa que é mentira. O dom de escrever é adquirido pela experiência, desde o ensino fundamental, aprimorando-se no ensino médio e no ensino superior. Acresce que o dom de escrever não faz o jornalista, mas o escritor, que jamais será impedido de colaborar nos jornais, nos blogs, no rádio e na televisão. Obviamente como colaborador, até melhor remunerado.

Ser jornalista não é melhor nem pior do que ser escritor. É apenas diferente, porque antes pela experiência e agora pela universidade, deve munir-se de amplo somatório de conhecimentos imprescindíveis à atividade jornalística. Melhor que sejam conhecimentos ordenados e sistematizados.

Primeiro, discernir o que é notícia, ou melhor, que tipo de notícia interessa ao público ao qual se dirige. Depois, selecionar a informação. Como apresentá-la, editá-la, aprimorá-la. Saber o que é e como praticar a Ética. Conhecer a História, tanto nacional quanto mundial. Geografia, economia, política, psicologia são imprescindíveis. Acoplar-se aos novos tempos cibernéticos, também. Dominar línguas, semiótica, semiologia e toda essa parafernália moderna que velhos como este que vos escreve aprenderam com a vida e a prática, quando muito mais oportuno teria sido aprender na universidade, nos tempos em que o diploma não era necessário.

Mas tem mais. Durante séculos o diploma não existia para a medicina. Aprendia-se, entre mestres e charlatões. Quantos curandeiros mataram milhões, antes que o diploma se tornasse necessário e obrigatório para os médicos? Quantas pirâmides caíram ou não foram erigidas por falta de conhecimento matemático por parte de seus artífices, engenheiros?

O DOM DE ESCREVER

O dom de escrever não faz o jornalista, como o dom de cortar carne não faz o médico. O “seu” Manoel, açougueiro ali da esquina, é um craque na arte de tirar filés e costelas. Por isso estará autorizado a trocar o avental pelo jaleco, o facão pelo bisturi, entrar no hospital e operar alguém de apendicite? O camelô da praça vizinha tem excepcional dom da palavra.Vende tudo o que apresenta em sua bancada, mas terá condições de vestir a beca, entrar num tribunal e sustentar um habeas-corpus?

Durante muito tempo a profissão de jornalista era tida como de segunda classe, exceção dos aristocratas que fundavam um panfleto para lançar-se na política. O repórter não tinha salários dignos, vivia de “vales” e carecia de quaisquer direitos. O fundador da Associação Brasileira de Imprensa morreu na miséria, na Santa Casa do Rio de Janeiro. Com o diploma, a profissão adquiriu dignidade. Reunidos nos bancos universitários por quatro ou cinco anos, os futuros jornalistas aprenderam a pensar juntos, apesar da diversidade de concepções políticas, a programar seu futuro e a reivindicar melhores condições de trabalho e salariais.

As grandes famílias já não selecionam mais jornalistas que são amiguinhos de seus pimpolhos, caso desprovidos de diplomas. O repórter não é mais obrigado a pensar e alardear sua identidade com as concepções do patrão. É isso que exaspera os adversários do desenvolvimento de nossa profissão. Deixamos de ser a senzala posta a serviço da casa grande.

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