– “Vem nimim que eu tô vendido”. – “Num posso, eu também tô”

Carlos Chagas

No cipoal de contradições que paralisa a visão na Praça dos Três Poderes, destaca-se comentário feito pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha: “não há a menor chance de o impeachment ser deflagrado agora”. Nem agora nem nunca, porque tramitou nos bastidores e já chega a constituir-se em compromisso o conluio entre o governo e a Câmara para preservar os mandatos da presidente da República e do dirigente parlamentar.

O sempre respeitado ex-vice-presidente Marco Maciel costuma contar episódio do folclore pernambucano. Dois times do interior disputavam acirrada partida de final de campeonato, valendo tudo para a conquista da vitória, inclusive suborno de jogadores. Aos 45 minutos do segundo tempo havia empate, quando num golpe de sorte o centro-avante de uma das equipes vê-se sozinho com a bola, próximo da área do adversário. Bastaria avançar no rumo da meta e marcar. Quando começa a correr, grita para o goleiro do outro time: “Vem nimim, vem nimim que eu tô vendido!” Resposta: “Num posso! Eu também tô!”

Ignora-se se houve gol ou não, pois as duas torcidas indignaram-se e invadiram o campo, massacrando os jogadores.

Assim o conflito entre Dilma Rousseff e Eduardo Cunha. Ambos estão vendidos, quer dizer, a presidente recusa-se a chutar e fazer o gol, com o deputado comprometido em deixar a bola passar. Para evitar a perda das funções e do próprio mandato, a partir do Conselho de Ética, Cunha promete não dar andamento ao pedido de impeachment contra Dilma, por crime de responsabilidade fiscal. Desde que, é claro, ela mobilize seus deputados para   não condenarem o adversário pela abertura, num banco suíço, de contas secretas com dinheiro podre da Petrobras.

GRANDE MARMELADA

Uma marmelada digna dos jogos de várzea, podendo as arquibancadas estar dispostas a invadir o gramado e ministrar inesquecível lição nos contendores. Porque acordo tão baixo assim nos leva à suposição de que, na disputa lembrada por Marco Maciel, estavam o “Al Capone Futebol Clube” contra o “Clube de Regatas do Ali Babá”…

Enquanto isso, o presidente da Federação, dono do campo e da bola, o Lula, procura evitar o vexame e pede aos dois times um bom futebol, com agenda positiva. O diabo é que ele também incorre na ira dos torcedores, acusado junto com o filho de receber propina. Melhor suspender o certame e iniciar nova competição.

PONTO PARA O SUPREMO

Nem tudo parece perdido. Enquanto Executivo e Legislativo oferecem lamentável espetáculo, o Judiciário marcou mais um ponto, esta semana, ao proibir o Congresso de incluir jabotis nas medidas provisórias. Desde o governo José Sarney que se permitia a deputados e senadores, ao examinar esses singulares decretos do governo, incluírem toda sorte de adendos a ser aprovados, em especial os que nenhuma relação tinham com o objeto principal. A partir da decisão de agora, os jabotis terão que descer da árvore. O problema é que o Congresso poderá arguir intromissão do Supremo Tribunal Federal nas atribuições legislativas, votando lei específica de permissão às inclusões. Para complicar ainda mais: quem decidirá o impasse? O Supremo…

One thought on “– “Vem nimim que eu tô vendido”. – “Num posso, eu também tô”

  1. AS CÚPULAS DIRIGENTES DE UM LADO E DILMA DE OUTRO

    As cúpulas dirigentes sinalizam cenário sombrio para Dilma Rousseff, que precisará se mesmo valente para superar mais essa: O ministro Marco Aurélio Mello, quem sabe prevendo o desfecho, reforça com sua visão utópica de melhorar as coisas pela renúncia de três mandatários, além de da presidente Dilma Rousseff e de seu vice Michel Temer a do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ele não cita nomes dos tribunais em que todos parecem fazer jus às funções (vitalícias ou não todas são ancoradas na Legalidade). Há problemas que precisam ser equacionados nos três poderes, interna e naturalmente, sem magias drásticas ainda que ‘voluntárias’ como sugere a manchete. Mas faria melhor sinalizando cartão vermelho para o ‘superávit primário’, inserido de forma vergonhosa na Constituição e que só este ano leva em torno de 50% do Produto Interno Bruto.

    Aceleram no Tribunal Superior Eleitoral processo recolocado na pauta cuja análise pode concluir pela cassação dos mandatos de Dilma e Temer, abrindo caminho para a posse do senador Aécio Neves (segundo colocado na eleição). O despacho de Dias Toffoli inspira cuidados a este respeito: “A ministra Maria Thereza de Assis Moura suscitou questão de ordem no sentido de que o ministro Gilmar Mendes deveria prosseguir na regular instrução na AIME – Ação de Impugnação de Mandato Eletivo – e que a alteração da relatoria atrairia, também, a prevenção decorrente de conexão ou continência entre esta ação e outros processos que tramitam perante esta Corte”. http://jornalggn.com.br/noticia/toffoli-pede-opiniao-de-pt-e-psdb-sobre-gilmar-ser-relator-de-acao-contra-dilma

    HABITAÇÃO POPULAR – Estive em Guarapuava acompanhando o então ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias (PDT), há poucas semanas, no ato de entrega de um conjunto habitacional semelhante de 400 apartamentos. A solenidade foi exemplar com caráter republicano, além do prefeito Cesar Silvestri Filho (PPS) contou também com representantes da Caixa Econômica Federal e da COHAPAR, órgão do governo estadual liderado pelo PSDB. O programa habitacional não deve parar e só a democracia assegura ações semelhantes. Os reflexos disso são grandiosos como todas as autoridades enfatizaram na ocasião, em especial o prefeito.

    Há uma marca brizolista na entrega dessas unidades habitacionais, destacada pelo ministro pedetista na ocasião. O governo Dilma Rousseff entrega as escrituras às donas de casa, assim como inovou o governador Leonel Brizola no Rio de Janeiro na década de 1980, quando ainda quase não se falava em direitos iguais entre homens e mulheres. Outras ações e a postura mais autônoma e destemida da atual presidente, comparada com antecessores mais recentes, carregam o DNA brizolista a exemplo do ‘Mais Médicos’, como registro no link a seguir. http://www.facebook.com/photo.php?fbid=1547522085464057&set=t.100006188403089&type=3&theater

    DEPRESSÃO COLETIVA – O depoimento de Ricardo Boechat sobre a aguda depressão que enfrentou, embora discorde de suas ideias eu o considero um dos repórteres mais afirmativos do país, serve como ponto de reflexão acerca das causas e consequências desse quadro de crises (econômica, moral e política de pedaladas pra todos os gostos) que assola o Brasil.

    Não é difícil constatar como em geral as pessoas andam estonteadas em meio a tantas notícias ruins, disseminadas sobretudo por manchetes venenosas e multiplicadas aos milhões pelas redes sociais como lenha na fogueira das vaidades de seus autores ou da boa fé dos chamados analfabetos funcionais: ‘midiáticos’ (má fé) e ‘militontos’ (ignorantes).

    Uns sabem perfeitamente e outros não têm consciência que assim procedendo incendeiam de vez a política ou o país que tratam como circo, sendo eles os verdadeiros palhaços de um cenário antipolítico que pode encerrar numa depressão social de difícil reparação. http://www.facebook.com/ricardoboechatoficial/photos/a.1581137828841680.1073741828.1561842560771207/1620132634942199/?type=3&theater

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