Vida, paixão e ida de um jornal

Sebastião Nery

O Panteon (salão nobre) do velho, venerando e trisecular Seminário Central de Santa Tereza da Bahia, entre a Ladeira de Santa Tereza e a Rua do Sodré (hoje o Museu de Arte Sacra da Bahia), estava cheio de padres e bispos naquela tarde de dezembro de 1949.

Na frente, à mesa, o padre reitor, Monsenhor Monteiro, o diretor do Seminário Menor, monsenhor Veiga, dois bispos e um homem magro, narigudo, olhos fortes atrás dos óculos bem pretos: Carlos Lacerda, jornalista do Rio de Janeiro. Nós, seminaristas do Seminário Maior (Filosofia e Teologia), tínhamos sido chamados para também ouvi-lo.

Não sei se ele estava ali por conseqüência do Congresso Eucarístico Nacional, que acabava de realizar-se em Salvador, em comemoração dos 400 anos de fundação da cidade. Mas ele era o dono da reunião.

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CARLOS LACERDA

Em um silêncio de claustro, começou a falar, com seu galopante vozeirão de barítono. Citou amigos e companheiros da “intelectualidade católica” do Rio: Padre Helder Câmara, Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), Gustavo Corção, Octavio Faria, Gladistone Chaves de Melo, etc.

Seu recado era claro e direto: a imprensa brasileira era comandada por homens sem nenhum compromisso com os princípios cristãos e a Igreja Católica: Assis Chateaubriand, o superpoderoso, Paulo Bittencourt e Roberto Marinho no Rio, Julio de Mesquita Filho e outros em São Paulo. E mais, e pior: os norte-americanos estavam entrando no Brasil, a partir das crianças, da juventude, das famílias, com seu enxame de revistas em quadrinhos, traduzidas e distribuídas pelo Grupo Disney. E a ideologia deles nada tinha a ver com a Igreja Católica. Pelo contrário: eram agnósticos.

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TRIBUNA DA IMPRENSA

Carlos Lacerda queria e pedia o apoio da Igreja Católica para um jornal que iria lançar em breve, “muito em breve, logo, logo”: a “Tribuna da Imprensa”, que seria a voz anunciadora de um novo tempo na imprensa brasileira. Atrás dela, viriam revistas para pregarem “uma visão cristã e católica da vida” e “um caminho cristão e católico para o Brasil”.

Foi aplaudido e calorosamente apoiado. Saiu dali com um pequeno exército de alguns bispos, padres e seminaristas encantados com seu projeto, suas propostas e inteiramente conquistados pelo fervor de sua oratória ardorosa, convincente, irresistível. Um soldado de Cristo.

Foi embora e cumpriu a promessa: antes que aquele mês de dezembro de 1949 se acabasse, estava circulando no Rio de Janeiro a “Tribuna da Imprensa”, um jornal diferente, nascido para “o bom combate”.

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UDN

Em 1950, alguns exemplares circularam pelo Seminário, como jóia rara, já que nós seminaristas não tínhamos acesso à imprensa “do Sul”. Mas a partir do ano seguinte, estudante, professor e jornalista em Minas, passei a ler a “Tribuna” todos os dias, já que chegava invariavelmente a Belo Horizonte, até pela força da UDN, da qual Lacerda era estandarte.

Lia diariamente aqueles seus artigos em letras gordas, do alto a baixo da página, como se tivessem sido escritos em cima de um cavalo a galope. E Duarte Filho, Stefan Baciu, Gladstone Chaves de Mello, tantos. De repente, passei a discordar completamente . Eu apoiava Juscelino para Presidente e a UDN de Lacerda era cada dia mais um terremoto golpista.

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HELIO FERNANDES

Veio o golpe de 64, Lacerda no comando, todos nós na cadeia. Impossibilitado de manter-se ao mesmo tempo na direção do jornal e no governo da Guanabara, Lacerda já havia passado a direção do jornal para Nascimento Brito, dono do Jornal do Brasil. E depois Helio Fernandes assumia o jornal com todas as responsabilidades de uma voz sempre poderosa na política do Rio.

Helio pagou o preço desde o primeiro instante. A política econômica de Roberto Campos era um crime contra a Nação e Helio denunciava. Havia torturas nos quartéis e Helio denunciava. Começava a censura à imprensa e Helio denunciava. Em 1966, todos os institutos de pesquisa apontavam Helio como o deputado que seria o mais votado da Guanabara. A mesquinharia e covardia política de Castelo Branco e seu ministro da “Justiça” Juracy Magalhães cassaram Helio Fernandes na véspera da eleição. E logo veio o tropel das violências: confinado em Fernando de Noronha, Corumbá, Pirassununga, dezenas de vezes preso. E a censura permanente no jornal, o mais censurado da imprensa brasileira.

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43 ANOS

Em agosto de 68, entrei no escritório da Editora Saga, no Edifício Avenida Central, no Rio, de José Aparecido, Fernando Gasparian e Helio Ramos, os três cassados pela ditadura. Também lá Enio Silveira e Helio Fernandes, que naquele dia havia escrito uma nota elogiando meu livro “Sepulcro Caiado, o verdadeiro Juracy”. Agradeci e logo ele me perguntou por que não escrevia na “Tribuna”. No dia seguinte, comecei minha coluna.

E já são 43 anos, com cinco anos de intervalo na “Ultima Hora”. Como o jornal não se dobrava, não negociava, apelaram para a violência. Uma bomba brutal explodiu o jornal inteiro, oficinas, redação, tudo. Veio a anistia, todos os atingidos recebendo reparações e indenizações. Juízes e Tribunais mandaram indenizar a violência à “Tribuna”. O governo Lula (logo ele!) recorreu e um ministro do Supremo por 3 anos segurou o processo.

Um crime contra a imprensa brasileira. O jornal, exangue, suspendeu a circulação. Mas os governos passam e a “Tribuna” voltará, reviverá.

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