Vietnã, 50 anos depois, uma tragédia americana

Pedro do Coutto

O título reproduz o de Teodoro Dreiser, livro de grande repercussão, no qual se baseia o filme Um Lugar ao Sol, de George Stevens, com Montgomery Clift e Elizabeth Taylor. E o texto a seguir parte da magnífica reportagem de Tatiana Gianini, Duda Teixeira e Júlia Carvalho, revista Veja que circulou sábado. Foto impressionante de militares americanos feridos e cercados num pântano da selva vietnamita acompanha a matéria.

A fotografia exibe para a história um momento dramático do confronto. A escalada no sudeste asiático começou a 14 de dezembro de 1961, governo John Kennedy. Eu pensava que o início da guerra absurda houvesse ocorrido em 1962. Mas foi no final de 61. Me enganei.Uma tragédia, sob todos os pontos de vista, Kennedy resolveu intervir porque temia que o Vietnâ do Norte, comunista, apoiado pela China e pela União Soviética, unisse, pela força, o Norte e o Sul. E então envolveu os EUA no conflito com o qual nada tinha a ver.

O resultado foi o fracasso total. Tanto assim que, 14 anos depois, a Casa Branca, então ocupada por Gerald Ford, assinou a paz, entregou o governo do Vietnã unificado ao regime do capitalismo de estado (comunismo), deixando no rastro fatídico 57 mil mortos e 6 mil americanos desaparecidos. Seus nomes estão escritos em placas colocadas na praça central de Washington, em frente ao Lincoln Memorial.

Entre os vietnamitas as mortes passaram de um milhão de seres humanos, a maioria vítimas de bombardeios. Tudo isso para quê? Para chegar à mesma solução que teria sido alcançada em 61 sem morrer ninguém. E não só morrer. Houve 300 mil feridos americanos, parte dos quais mutilados, com doenças e seqüelas físicas e mentais. Entre os vietnamitas, pode-se dizer o mesmo em relação a 5 milhões. Pois as estatísticas de guerra consideram sempre o número de feridos cinco vezes maior do que o de mortos.

Perderam todos. Mas a indústria de armas, portanto a indústria da morte, ganhou. Como sempre. Esta constitui a forte razão pela qual os conflitos, sejam nacionais ou internacionais, acabem sempre existindo.

Não só do lado americano. Mas também do lado chinês e russo, responsável pela reposição dos armamentos ao governo de Hanoi e sua distribuição aos guerrilheiros vietcongues. Que eram os do sul adeptos do norte. A ação dos Estados Unidos chegou ao paroxismo na administração Lyndon Johnson, por terra, mar e ar. Não adiantou. Os soldados não tinham motivação para lutar. Afinal de contas, porque motivo estavam ali? Seu país não fora agredido, como aconteceu em 1941 com o bombardeio de Pearl Harbour. Não estava ameaçado, nem invadido, era, isso sim invasor.

Nesse momento, como focalizaram os filmes de Oliver Stone e Francis Ford Copolla, Platoon e Apocalipse Now, começou a outra parte da tragédia. A distribuição de drogas às tropas. O consumo espalhou-se pelos EUA e, em seguida, pelo mundo. O que vemos hoje acontecer no Rio de Janeiro, por exemplo, é uma herança daquela estúpida iniciativa. A sociedade americana se revoltou e exigiu o fim da guerra. As emissoras de televisão e os jornais passaram a mostrar as atrocidades praticadas de lado a lado.

O governo de Washington, primeiro com Nixon, que foi à China em 72, e depois com Gerald Ford, ordenou a retirada e assinou a paz. Esta a tragédia em dois tempos, uma das maiores da história, que agora completa 50 anos.

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