Vilaça, singular e plural como a cultura

Pedro do Coutto

Nenhuma definição melhor do que considerá-lo singular e plural, aliás como a cultura, pode ser aplicada a Marcos Vilaça, título de obra primorosa produzida pela Casa da Palavra no momento em que retorna à presidência da Academia Brasileira de Letras. Presença luminosa e importante nesse processo mágico que se chama cultura e que está em toda parte. Edição de excepcional qualidade na forma e no conteúdo. Singular e plural, o título está inclusive num dos capítulos em que o personagem também se auto reconhece. Uma coincidência. Ao citar seu estado natal, coloca com leveza uma bela frase: Pernambuco me ensinou a transformar o eu em nós. A frase é essencial como a atitude. Sobretudo porque na vida nada mais plural e convergente do que a cultura, seja no campo da arte, seja no plano da ciência. O que significa a cultura, em síntese, senão ao mesmo tempo o singular e o plural? Ela é a passagem do próprio ser humano pelo mundo, seu rastro, seu eco, sua sombra. A obra de arte ou de ciência será eternamente um produto solitário e solidário de seus autores. Porém não depende exclusivamente deles, mas igualmente do acesso que proporciona a todos. Assim, o singular não existe sem o plural. Nada mais convergente e democrático do que o talento humano. De gênio também, Marcos Vilaça, em todos os momentos de sua vida, buscou e produziu a convergência mágica e encantada da cultura com o gênero humano. Alguém brilhante, um estilista da palavra que age para iluminar as fontes em que a cultura se produz e assim se tornam mais visíveis. Em tal atitude rara, mas que nele é permanente, o gesto de amor e afeto: o eu também somos nós.

Interpretou (e interpreta) de forma de forma soberba a convergência da cultura sem limites e fronteiras. Nasce uma peça de cultura a cada instante que se incorpora ao universo. O que faz dela, a cultura, tão eterna quanto o gênero humano. Está nos livros, na musica, no canto, nas telas, nas teclas, na escultura, no cinema, no teatro, na televisão, agora também na rapidez da internet. Uma prova da força e da liberdade da cultura? Aqui está ela: ninguém será capaz de apontar uma obra que em dado momento tenha sido interditada ou censurada, mas com o passar do tempo não tenha sido exibida ou veiculada livremente. O artista e o cientista estão sempre à frente, causando rupturas como os calendários testemunham e comprovam. As gerações, portanto, também se encontram no processo cultural que uma geração lega a outra.

Marcos Vilaça compreendeu e exprimiu este fenômeno tão bem, que identificou nele simultaneamente a singularidade e a pluralidade. Através do qual os fatos não subtraem ou substituem, mas adicionam-se. Não se tornam propriedade de determinadas gerações, mas num círculo virtuoso pertencem a todas as gerações abrangendo o hoje e o amanhã. Pertencem ao universo e sempre haverá lugar para novas etapas, novas sequências, novas formas de dizer, traduzir e tocar o sentimento. As obras fabricadas nas usinas do pensamento incorporam-se à memória da vida, resgatadas pelo tempo, através dos séculos. Ficam. Não passam. Como o próprio Marcos Vilaça, autor de Coronel, Coronéis, gosta de dizer: os produtores de cultura, artistas e cientistas, deixam suas impressões digitais nos séculos. Ele, Vilaça, entre eles.

A obra sobre Marcos Vilaça foi organizada por José Mário Pereira, texto de Luciano Trigo, fotografia Ari Kaye. Deixam também, portanto, suas impressões digitais na estrada da cultura, na estrada do amanhã.

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