Violência estúpida: uma Síria no cotidiano do Brasil

João Batista Libânio

Quando Hobbes escreveu “homo homini lupus” – o ser humano é um lobo para o outro – nas pegadas do poeta latino Plauto, que já tinha usado tal expressão, esbarrava na dimensão de violência inerente aos humanos. Plauto continuara a frase dizendo que “por isso somos advertidos para que nos acautelemos do ser humano como de um lobo”, símbolo do animal violento e ardiloso.

Aterrissando nos dias de hoje, depois das terríveis experiências das duas grandes guerras, com um saldo de morte perto de 100 milhões de pessoas, esperávamos que tínhamos aprendido a lição da loucura da violência. Continuamos matando e ameaçando matar outros milhões. Não precisamos ir à Síria para lastimar tamanha violência, cujo saldo de vítimas mortais, desde o levante contra Assad, em 2011, somam mais de 100 mil pessoas, sem falar dos 2 milhões dos que partiram para o exílio. Dói-nos mais o coração saber que 52% deles são menores de 18 anos.
Temos uma Síria no cotidiano do Brasil. O estereótipo do brasileiro como acolhedor, afetivo, não violento é desmentido a cada dia. Basta lançarmos breve olhar para o noticiário e colocarmo-nos de plantão nos necrotérios da violência para ter triste ideia do que estar a ocorrer na sociedade.
Impressionam-nos alguns casos de extrema perversidade feitos com consciente frieza por adolescentes e jovens. Nas areias de Ipanema, três jovens entre 15 e 18 anos tentam enterrar vivo um morador de rua, depois de espancá-lo e sufocá-lo com saco plástico. Não o matam porque a polícia intervém a tempo.

AS NOTÍCIAS

A notícia daquela criança, que assassinou os país, avó e tia e depois suicidou-se, rodou o país. Ainda nos recordamos daqueles jovens de classe média de Brasília que assassinaram o índio pataxó e já andam soltos por aí. Necessitam ser muito perversos se não carregam no fundo do coração a dor horrível do crime.

A solução psicológica de reduzir esses e outros inúmeros fatos a íctus psicótico não dá conta real do problema. Está em questão a cultura que estamos a criar e a educação com que formamos a nova geração. Já há anos bombardeiam-nos filmes de violência, novelas, DVDs e noticiários alheios a qualquer ética e que insuflam e povoam o imaginário das novas gerações de cenas monstruosas. Depois nos espantamos se algum deles deixa irromper de dentro, com a maior facilidade, gesto assassino. Pior, nem nos perguntamos pela fonte nutridora de tanta maldade.

O lobo animal, que dorme em cada um, vê-se açulado quando a pessoa não conheceu nos inícios da vida o cuidado e o carinho dos pais. Na infância e na adolescência, encheu-se a fantasia de cenas violentas dos inúmeros jogos eletrônicos, além do terror que ronda as cidades diariamente. Certamente não se vencerá tanta facilidade para o crime com leis severas, policiamento vigoroso. Servem de simples anestésico passageiro. A dor logo voltará. A luta se trava no campo da cultura e da educação. Sana a violência no coração juvenil a experiência de ser cuidado e amado por pais e adultos que o cercam. Alimentam-na o descaso, a carência de família e escola no decorrer da infância e adolescência.

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