Violência não me representa


João Gualberto Jr.

O que querem os black blocs? Aliás, antes, quem são os black blocs? Eles estão maciçamente estampados na imprensa (que chamam de mídia fascista), e está difícil compreender a novidade. Na página do grupo no Facebook, estampam-se símbolos do anarquismo e, pelo estilo, seriam os anarcopunks da geração, herdeiros conectados dos originais da década de 70. Contudo, para quem diz se posicionar, neste século, à esquerda no borrado campo espectral ideológico, fascistas são esses militantes que o Brasil descobre aos bandos de camisas pretas.

Quais são as bandeiras black blocs? A considerar a herança anarquista e os métodos de ação, em vez de “neo” ou “pró” qualquer coisa, o prefixo “anti” é o que melhor se aplica. E o tal capitalismo, com seus sistemas de opressão e reprodução da desigualdade, completa o termo-alvo. Por conta disso, desde os protestos de junho, foram agências bancárias, concessionárias de automóveis e lojas de eletrodomésticos as vítimas preferenciais dos ataques a paulada e coquetel molotov.

Sobre suas estratégias de atuação, o que antes era chamado pela confusa imprensa (ainda a condição deste colunista) simplesmente de vandalismo e baderna, ganhou nome. Pelo que foi possível captar, black bloc é nome da ação coletiva e violenta que o grupo põe em prática na rua, feito bloco. Então, é feito um facho? Um tipo de “blitzkrieg” do asfalto?

ENQUADRAMENTO

Não é casual que a Justiça e a polícia – meros servos do sistema, segundo os militantes – comecem a tratar os black blocs como quadrilha e milícia e assim enquadrá-los segundo crimes tipificados.

Parêntese fundamental aqui: no sábado, 7 de Setembro, policiais cometeram, sim, abusos contra inocentes, bateram e ameaçaram gente que não fazia nada demais e jogaram spray de pimenta por sadismo. Exemplo é o vídeo que está pipocando na internet de um certo capitão Bruno, aparentemente do Choque do Distrito Federal, admitindo que usou a arma no rosto de cidadãos “porque eu quis. (…) Pode ir lá denunciar, tá bom?”

A polícia está pronta e preparada para bater (o termo oficial é conter a ordem) e, sinceramente e todo mundo sabe, doida para encontrar motivos para agir. Em BH, bastou um militante mostrar a bunda para desencadear mais de 50 prisões. Pode estar certo, leitor: depois de panelaço, apitaço e beijaço, virá o “bundalelezaço”.

Novos protestos virão até a Copa do ano que vem. De um lado, um grupo disposto a quebrar tudo e, do outro, policiais caçando faísca para tocar gasolina. Assumo a pretensão de representar, aqui, a posição de boa parte dos brasileiros: quem usa de violência para subverter ou manter a ordem social não me representa. Se o acirramento e o ódio crescerem de ambas as partes, muita gente pacífica vai evitar voltar às ruas e com bom motivo. Serão casos estritos e violentos de polícia contra bandido, segundo o status quo. (transcrito de O Tempo)

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2 thoughts on “Violência não me representa

  1. Isso por que, como observou o Gabeira, “não há vínculo real entre esse pessoal que está nas ruas [agora] e as multidões que, dois meses atrás, saíram às ruas…”.

  2. Quase todos legados, estratégias e metodologias produzidas por centros universitários brasileiros de pesquisas , atualizações e debates (Licenciatura e Doutorado), mofam entre traças e baratas nos escaninhos… assim facilitando o predomínio das produções dos poderosos camelódromos opiniáticos e entretenimentos de massas, espaços historicamente reféns de postulados (blá blá blá) de perfil de “casa grande e senzala” adentrando o século XXI.

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