Viver sem medo

Sebastio Nery

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabea toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Terespolis mas tambm em Petrpolis: revendedor h muitos anos da Loteria Federal. A sorte s chegava a Terespolis e s vezes a Petrpolis pelas mos j mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um fregus permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extrao, ele levava um bilhete inteiro para o stio dos Cinamomos, do ex-presidente, aqui perto. Era venda segura e a comisso certa.

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GEISEL

De repente, Geisel passou a receber do Rio, toda semana, diretamente da Loteria, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mnima de um revendedor, o ex-presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comisso. Mas no se queixava: – “Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou”.

Um cliente aqui de Petrpolis lhe perguntou:

– “Seu Manuel, por que o senhor no se queixa l na Caixa?”

– “Porque tenho medo”.

– “Mas o homem j no mais presidente”.

– “Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou”.

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PAULO ANTONIO

Num fim de semana em Itaipava, na histrica Adega dos Frades, um grupo de polticos, jornalistas, empresrios, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do “Dirio de Petrpolis”, ento jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papis, encontrou umas laudas escritas mo. A letra minha.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio, em dobradinha com o vereador Carlos Portella, candidato a estadual, os dois ento bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio me pediu algumas sugestes para sua primeira apario no horrio do TRE na TV.

O SNI fazia uma presso brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rpido no gatilho e aproveitar bem aqueles rpidos instantes, com declaraes curtas e fortes.

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ILHA DO MEDO

Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu, memorizou e comeou exatamente pela primeira:
“Democracia no s ter eleio de quatro em quatro anos. Democracia viver sem medo”.

Na mesma hora, saram os trs do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, tambm eram vetadas e saram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.

Seu Manuel da Loteria sabia que, nas ditaduras, governos saem, mas o medo fica. Governantes so trocados, mas o medo continua. Cuba no uma democracia, uma ditadura, no s porque no tem eleies (h uma farsa de eleies), mas porque l todo mundo vive com medo. At o Raul.
Fidel saiu, ficou Raul, e Cuba permanece a mesma ilha do medo. No podemos aceitar a Amrica Latina como o continente do medo.

 

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