Volume das dívidas é quase o da massa de salários

Pedro do Coutto

Se, como o Jornal do Comércio publicou na edição de 19 de janeiro, a dívida média dos brasileiros é de 2732 reais per capita, o endividamento total, multiplicando-se o per capita pelo número de habitantes, passa de 500 bilhões para uma massa de salários em torno de 700 bilhões de reais. Para calcular a massa salarial, pode-se multiplicar a receita do FGTS no ano passado, de 47 bilhões, por 12,5 vezes, já que os empregadores recolhem ao Fundo de Garantia 8 por cento de suas folhas de vencimentos. Mas existem os funcionários públicos estatutários que não têm FGTS. Mas recebem salários, é claro. Calculemos algo em torno de 100 bilhões por ano. Chegamos assim a um cálculo razoável que conduz aproximadamente a 700 bilhões. Assim, as dívidas representam 70 por cento (mais de dois terços) da massa de salários. O problema é saber como os que fazem dívidas conseguem arcar com o peso dos juros cobrados pelos bancos e pelo comércio. Tem que haver uma explicação lógica. Só pode estar no giro dos créditos, produzindo uma moeda escritural paralelamente ao papel moeda circulante. Inclusive porque o consumo encontra-se aquecido no país. No caso do crédito bancário pessoal os juros médios são de 5,1 por cento ao mês. A taxa de inflação levantada pelo IBGE para o ano passado foi de 4,3 por cento. Logo os juros mensais cobrados pela rede bancária são praticamente 12 vezes maiores que o índice inflacionário. É só fazer as contas. A Selic, através da qual o governo remunera os bancos pelo giro da dívida interna que atinge 1 trilhão e 400 bilhões, é de 8,75 por cento ao ano. Pelo saldo devedor nos cheques especiais o mercado paga 8,79 por cento, ao mês.

Um mistério o fato de a população suportar o peso das taxas de juros. A explicação pode ser difícil. Mas tem que se encontrar em algum plano concreto. Inclusive os reajustes salariais nem de longe acompanham os juros cobrados. Os do comércio, na verdade, acompanham os dos bancos. A tradução só pode estar na elasticidade do crédito, embora diminuída em sua flexibilidade pelo crédito consignado através do desconto em folha. Neste caso, os juros podem ser de 2 por cento ao mês. Mas, mesmo assim, passam de 24 por cento ao ano, em face dos montantes, superando em várias vezes os reajustes de vencimentos. O salário mínimo, no governo Lula, vem superando a inflação oficial. Só ele, os demais salários empatam. Mesmo assim, suas revisões anuais ficam muito distantes da cobrança dos juros. Tudo isso faz do Brasil, nosso país, algo singular. Os dados a respeito do endividamento publicados pelo Jornal do Comércio são insuspeitos. São do Banco Central. O consumo, inclusive, vem avançando na mesma proporção do crescimento das dívidas. A inadimplência mantém-se baixa. Os brasileiros são bons pagadores.

A roda da economia continua em circulação e o prestígio do governo Lula é crescente. Logo, o endividamento não é uma preocupação marcante para a população. Sempre surge uma perspectiva. Talvez esta perspectiva seja a capacidade de o endividamento ser absorvida não por uma pessoa, média per capita teórica do Banco Central, mas sim por unidade familiar. Seja como for é notável o seu volume que, inclusive, se ajusta ao índice de bem estar da população. A grande maioria está satisfeita com os padrões obtidos e com a vida que leva. Apesar de tudo. Inclusive da violência urbana que coloca sob ameaça todos os que se deslocam para o trabalho e para o lazer nas grandes cidades. Há trinta anos atrás, o então ministro Delfim Neto anunciou o milagre brasileiro. Aqui está ele visível e sensível nos dias de hoje. Eis aí um tema interessante.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *