Vozes da memória

Jacques Gruman

O Millôr Fernandes costumava dizer que quem não tem memória sabe tudo de olvido. O Rio de Janeiro leva a sério o Millôr. Aqui, destrói-se o passado a rodo, sem qualquer remorso, colocando em seu lugar monumentos à bizarrice e a certa modernidade pasteurizada. Prédios históricos esperando a marreta ou os cupins, casarões antigos demolidos para empanturrar a farra da especulação imobiliária, espaços públicos desvirtuados. É a pedagogia do grande Ivan Lessa: a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. Palácio Monroe, prédio da UNE, cinemas da praça Saens Peña, últimas casas de Copacabana, todos os colégios onde o Menino estudou e, por que não ?, o Teatro Recreio.

O velho teatro da região central da cidade, construído no século XIX, foi peça chave da época de ouro do “teatro rebolado”, erotismo num país chegado ao puritano. Ao menos, o país oficial. Comédias com Oscarito não foram privilégio da Atlântida. Ele frequentava o Recreio regularmente e suas imitações de Getúlio Vargas ficaram famosas (uma delas, no clássico das chanchadas Nem Sansão, nem Dalila, é obra-prima). No início dos anos 60, o Menino, deslumbrado, pisou naquele palco improvável. Foi toureiro destemido e tenor galináceo (oh, voz pré-adolescente…) nas toscas produções de encerramento de ano letivo da escola. Aplausos condescendentes das famílias. Para o Menino, o encantamento de pisar nas mesmas tábuas onde dançavam coxas gloriosas e derramavam seu gênio artistas inesquecíveis.

Demolido em 1968, o Recreio virou estacionamento. É a grande arte brasileira da metamorfose: transformar fruição e prazer em curral de aço. A voz do Menino, entretanto, cruzou o saguão do teatro e desembarcou em outros palcos. Lembrou deles nesta época em que os judeus comemoram o Pessach, erradamente chamado de Páscoa judaica. A celebração é marcada por um jantar em família com determinadas regras, no qual se canta muito e, claro, come-se mais ainda. O leitmotiv é o mito da saída dos hebreus da escravidão no Egito, muitos séculos atrás.

O Menino demonstrava facilidade para decorar textos e, sem muito constrangimento, foi “convidado” a memorizar umas quantas passagens cantadas do texto tradicional. Copo de vinho (suco de uva ?) na mão, punha a boca no trombone. Que maravilha ! Viram só que talento ? Talento para confundir decibéis com musicalidade. Para aquela arcada dentuça, porém, a mensagem era outra. Solidão. Talvez, parafraseando Wim Wenders, a mesma solidão do goleiro diante da cobrança de um penalty. Trocaria todos os guefilte fish e as matzot por um abraço sincero, cheiro de loção pós-barba, por um acolhimento desinteressado. Trocaria seus saberes por sabores que desconhecia. Os jantares continuavam, o gueto dos adultos era hermético, a tia continuava a batizar Coca Cola com água, a voz interna tremia.

Hoje, visita aquela voz com outras partituras. Os aromas da chamada Festa da Liberdade continuam espetaculares, incomparáveis. A história do Pessach, porém, ganhou pontos de interrogação. Como é que não se vê a monstruosidade de várias passagens da narrativa oficial, comemoradas com alegria ? A voz adulta não pode admitir punições coletivas, hoje reconhecidas como crime contra a Humanidade, e é exatamente isso que o livro do Êxodo descreve. Olhem de perto, por exemplo, as pragas com que Deus teria punido o faraó pela teimosia em não libertar os escravos hebreus. O assassinato indiscriminado de primogênitos, aí incluídos os filhos de servos não-hebreus e os filhotes de animais, é um primor de perversidade. Como é que alguém pode se regozijar com tamanha crueldade ?

Como é que não se pode duvidar do senso de justiça de uma entidade que, considerada onipotente, prefere apelar para a carnificina ? Era este o preço necessário da liberdade ? Sam Harris, num livrinho primoroso (Carta a uma nação cristã), faz perguntas perturbadoras aos religiosos em geral. Indaga, por exemplo, “o que Deus estava fazendo enquanto o furacão Katrina devastava New Orleans ?”. Onde estava, acrescento, enquanto exércitos se exterminavam, e com eles muitos milhões de civis, durante as guerras de todos os tempos ?

Por que há tanto sentimento de vingança e retaliação nas páginas de um livro que muitos acreditam ter sido ditado diretamente por Deus ? Onde a misericórdia ? Onde a moral ? Onde a ética ? Onde o diálogo e o cultivo da esperança ? Talvez o pastor/deputado Marco Feliciano tenha respostas. Não foi ele que apresentou o projeto Papai do Céu na Escola, de ensino religioso obrigatório na rede pública escolar ? Disse que gostaria que as crianças deveriam saber que “há um papai do céu que cuida de nós”. Não, infelizmente essa não é uma piada do Oscarito.

A voz do Menino embarga. Não precisa mais obedecer ordens. Os imperadores estão mortos. Pode arriscar tons menos convencionais, escolher o programa. Está livre. Está ? Termino me socorrendo novamente com mestre Millôr: a liberdade começa quando a gente aprende que ela não existe.

PS: Tadinhos: A revista Forbes, bíblia dos ricaços, informa que, apesar da crise que corrói as entranhas do capitalismo, 210 pessoas entraram na mais recente lista de bilionários. A Espanha está com um desemprego maior do que 55% entre os jovens, um recorde histórico, compartilhado com a Grécia. Enquanto isso, o espanhol Amancio Ortega, dono da marca de roupas Zara, ganhou US$ 19,5 bilhões nos últimos 12 meses. Já acumula uma fortuna próxima a US$ 60 bilhões. Não há melhor aula prática sobre a “ética do capital”.

 

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