Waldick Soriano, a voz das estradas

Sebastião Nery

Estava em Jaguaquara, minha pequena e querida cidade do interior da Bahia, em 1958, quando o Serviço de Alto-Falantes Nossa Senhora Auxiliadora anunciou que o cinema, fechado há uma semana por falta de filme, estaria aberto naquela noite para apresentação de um cantor de sucesso, chegado de Minas, “A Voz das Estradas”.

Oito da noite, não havia mais um lugar vazio. No palco, apenas uma cadeira e uma mesinha, com uma garrafa de uísque nacional e um copo vazio. Aparece um rapaz magro, alto, cigarro no dedo, físico de estivador, cara agressiva, de chapéu, o antiartista. Mas com um violão na mão.

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O CANTOR

– Meus senhores e minhas senhoras, lindas jovens desta cidade simpática. Vocês não me conhecem. Talvez nunca tenham ouvido falar em meu nome. Eu sou um cantor do povo. Minha vida é ir de cidade em cidade, do norte ao sul, cantando em todo lugar, por menor que seja. Hoje, me chamam “A Voz das Estradas”. Não apareço nas televisões, porque televisão é para cantor que tem máquina de propaganda montada, e eu não tenho.

– Também as rádios quase não tocam meus discos, porque não tenho dinheiro para pagar. Mas não há serviço de alto-falante que não tenha um disco meu. Por isso, eu mesmo pago para fazer meus discos e saio vendendo de cidade em cidade. Depois desse espetáculo, quem quiser ficar com um de lembrança, pode me procurar aqui no palco. Quero apenas que ouçam minha música em silêncio e guardem meu nome, porque ainda vou ser um grande cantor de sucesso, custe o que custar. Eu sou Waldick Soriano.

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WALDICK

Ganhou logo uma salva de palmas de mãos cheias, agradecidas por aquele inesperado cinema que não iam ter. E cantou. Cantou a noite inteira, sem parar. Meia-noite ainda estava de pé, violão no peito, chapéu na testa, andando de um lado para o outro e cantando pela terceira, quarta vez, sob palmas unânimes, principalmente da garotada, os números de sucesso, as músicas que eram o carro-chefe do espetáculo:

“Pobre do pobre”, história do rapaz do interior que não pôde casar com a namorada rica porque era pobre, “Eu não sou cachorro não”, lamento de uma história parecida. Anos anos depois, Waldick Soriano apareceu no Rio e São Paulo como um grande cartaz. Chapéu na cabeça, cara agressiva, invadiu as televisões, o rádio e o society, como tinha prometido dez anos antes.

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O CAMELÔ

Nascido em Caetité, no sertão da Bahia (terra de Anísio Teixeira), foi para Minas tentar a sorte. Em 1952, em Belo Horizonte, lapidava pedras semipreciosas de manhã, e à tarde era camelô. Camelô como foi Sílvio Santos. Durante muitos anos, Nelson Gonçalves foi o cantor dos cabarés e serviços de alto-falante do Brasil. O trono passou para o camelô Waldick.

Gervásio Horta, vitorioso compositor mineiro, parceiro de alguns dos maiores sucessos de Waldick, acha que o segredo dele foi o machismo:

– A vida artística brasileira é muito refrescada demais. Como Jece Valadão no cinema, Waldick fez o machão no microfone. Ficou dono do campo. A linha de suas músicas é toda essa: “Paixão de um homem” (“Amigo, por favor leve essa carta”…), “Eu também sou gente”. Compus agora para ele “Desligue o seu rádio”. Mais do que o artista sedutor, ele é o cantor do povo que veio por aí pelas estradas, de cidade em cidade.

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O REVÓLVER

Waldick era exclusivo da gravadora Chantecler. Em 65 achou que estava sendo roubado. Trancou-se com o diretor numa sala, tirou o revólver:
– Ou assina o meu cheque ou morre.

Saiu com o cheque. Dentro de um café society de cheques frios ele tinha que fazer furor. Era um cheque quente. O machão do society carioca.

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O PASQUIM

Esse texto aí em cima eu o escrevi em 1972, para a abertura de sua entrevista de capa ao “O Pasquim”, edição 155, de junho de 72:

“Waldick Soriano, de Caetité para o mundo”.

Quando ele começou, a televisão mal começava, era tudo no rádio, comandado do Rio e São Paulo. Não havia João Gilberto nem a bossa nova ao piano e ao violão, nos becos e garrafas de Copacabana. Não havia os Lucianos e Leonardos, filhos de Francisco, nem os chorosos Xitãozinho e Xororó. Eram só o violão, a estrada e a garganta. E uma cidade e um show por noite. E ele todo vestido de preto, com seu chapéu preto.

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PATRICIA PILLAR

Há algum tempo ele estava por Teresina, com a diretora do balé do Teatro do Piauí. Sempre com um uísque e um cigarro. E o vozeirão do povão. Sempre cantando, sempre fazendo shows. Ainda bem que o profissionalismo e a sensibilidade de Patricia Pillar perpetuaram em vídeo sua voz, seu charme, o sorriso zombeteiro, o jeitão de bom baiano do sertão.

Estroinamente como meu amigo viveu, 75 anos foram um bom saldo.

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BANCO SANTOS

Em 2008, a Justiça evaporou 3 bilhões. Li na Monica Bergamo, da “Folha”:
“O Tribunal de Justiça de São Paulo julgou pedido de falência de Edemar Cid Ferreira. Os desembargadores decidiram que, por não ser (sic) tecnicamente um empresário – atividade exercida por sua empresa, o Banco Santos, e não pessoalmente por ele -, Edemar não pode quebrar. E seus bens pessoais, portanto, não podem responder por dívidas da instituição”.

A Justiça é escola de crime de banqueiro? Dá o tombo e some o rombo.

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