Waldir Pires: uma trajetória em defesa das liberdades democráticas

Maurílio Lopes Fontes 

No vigor de seus 85 anos, completados 21 de outubro de 2011, Waldir Pires, por sua experiência política e cultura humanística, tem ainda muito a oferecer à Bahia e ao Brasil.

Waldir Pires é exemplo de respeito à coisa pública, defensor intransigente da democracia e dos direitos fundamentais do ser humano. Um político que se ombreou aos maiores de seu tempo nos intensos debates, seja na Assembléia Legislativa, no decorrer de um mandato, ou na Câmara Federal, onde exerceu três mandatos.

Graduado em Direito pela Universidade da Bahia, em novembro de 1949, ano simbólico para o Estado, pois marcou os quatrocentos anos da fundação da capital, cem anos de nascimento de Ruy Barbosa, inauguração do fórum em homenagem a este ilustre baiano, Waldir foi orador de sua turma e o primeiro estudante a discursar nas dependências da imponente sede da Justiça do Estado, antigo sonho de governadores da Bahia, materializado por Octávio Mangabeira.

“Ruy e os novos rumos do Direito” foi o tema de seu discurso, pronunciado no dia 5 de Novembro de 1949, na sessão solene de colação de grau dos bacharéis pela Faculdade de Direito da Universidade da Bahia. E assim começa seu discurso: “A bem dizer, o orador oficial que escolhestes, dentre os moços de vossa turma, para as solenidades desta festa, que é muito do espírito e ainda mais do coração, não sabe já agora, ao certo, como falar, e muito menos, por onde iniciar”.

Ao finalizá-lo disse: “Preservai-nos, Mestre, do marasmo, do comodismo, da indiferença, que o praticismo egoísta da nossa época, tanto insiste em recomendar, indicando, e sobretudo, convencei-nos, com a pureza cristalina da vossa vida, a amar devotadamente, como vós, a profissão que escolhemos, honrando-a, na defesa dos oprimidos, dos injustiçados, dos vencidos, contra a prepotência do arbítrio, da intolerância, da tirania”.

Assume a Secretaria de Governo no início da administração de Régis Pacheco. Segundo Waldir Pires, o novo governador o convidou no dia em que o conheceu, graças à força política de Antonio Balbino, grande condutor daquela eleição. O candidato era Lauro de Freitas, engenheiro da Leste Brasileiro, que morreu alguns dias antes do pleito. Em 1953, inconformado com o possível não-apoio de Régis Pacheco (que se confirmou no ano seguinte) à candidatura de Antonio Balbino, pede exoneração da Secretaria de Governo.

Em 1954, foi eleito deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e durante seus quatro anos de mandato se coloca na posição de defensor intransigente de Antonio Balbino, que conhecera em 1949, na inauguração de uma obra do governo estadual realizada em Amargosa, quando Waldir impressiona o então deputado federal pela qualidade de seu discurso.

Seus debates com Josaphat Marinho, Cruz Rios, Antonio Carlos (mais tarde ACM), Lomanto Júnior, Wilson Lins e Clemens Sampaio, dentre outros deputados estaduais, são verdadeiras aulas de política, em um tempo de maior qualidade dos detentores de mandatos. Os constantes elogios do deputado Antonio Carlos (UDN) a Waldir Pires, líder de fato do governo Balbino na Assembléia Legislativa, são um capítulo à parte nos estudos dos discursos daquele período. Mesmo na UDN, Antonio Carlos apoiava o governo de Balbino.

Quatro anos depois, Waldir Pires se elege deputado federal, já no PSD, uma das siglas criadas em 1945, sob a inspiração de Getúlio Vargas. Na condição de vice-líder do governo JK (também filiado ao PSD) travou grandes batalhas na Câmara Federal, tendo contraditado em muitas ocasiões o jornalista e deputado federal Carlos Lacerda, considerado um dos maiores tribunos da história política brasileira.

Seu primeiro mandato de deputado federal – 1959/1962 – atravessa três governos – JK, Jânio Quadros e Jango – em fases conturbadas da vida nacional. Assiste à renúncia de Jânio, vota na emenda que instituiu o parlamentarismo (exigência dos militares para assegurar a posse) e que retira poderes de Jango, mesmo tendo relações próximas com o vice-presidente, que não lhe dera apoio na campanha a governador em 1962, quando foi derrotado por Lomanto Junior. Só volta a exercer mandato eletivo em março de 1987, após a vitoriosa eleição a governador em 1986.  �
Em 1990, após sua saída do governo estadual, se elege deputado federal com a maior votação do estado. No impeachment de Collor, Waldir Pires vota a favor do impedimento do presidente. Em seu terceiro – e último – mandato (1999/2002) na Câmara dos Deputados participa da vitória de Lula em 2002. Disputa pela última vez um cargo eletivo – Senado da República – e não obtém êxito, a exemplo do que ocorrera em 1982 e 1994 (este um escândalo que depreciou a Justiça Eleitoral da Bahia).

Já no final de sua trajetória parlamentar, em 12 de dezembro de 2002, Waldir Pires faz seu último discurso na tribuna da Câmara dos Deputados e ressalta a esperança no novo presidente e mais uma vez demonstra sua preocupação com o Brasil: “Em quarenta anos de vida pública, pude testemunhar um País que teve a possibilidade de fazer afirmações de seu talento gerencial, da sua capacidade de acumular poupanças. No entanto, revelou gigantesca a incapacidade de tocar nos problemas essenciais da sociedade, permitindo, de um lado, as estruturas do apartheid, as discriminações, o enorme mundo dos que têm fome, dos que não têm teto, dos que não têm possibilidade de vida sem privações e, de outro, concentração de renda das mais significativas do mundo”.

Dois discursos separados pelo tempo – 1949 e 2002 – mas que guardam semelhanças e registram a preocupação de Waldir Pires com as discriminações sociais e o sofrimento dos mais humildes. Esta foi uma das principais marcas de sua trajetória parlamentar.

Avançamos muito. Mas ainda há muito que fazer para que o Brasil seja uma Nação mais justa. Os discursos de Waldir Pires continuam válidos e contemporâneos. E ele, aos 85 anos, é um personagem marcante da história política da Bahia e do Brasil dos últimos sessenta anos. Que a memória política da Bahia faça justiça a Waldir Pires.

(Maurílio Lopes Fontes é licenciado em História e mestrando em Ciência Política)

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One thought on “Waldir Pires: uma trajetória em defesa das liberdades democráticas

  1. Tenho lido sobre a vida pública de Valdir Pires, sua trajetória política, a importante participação no processo democrático do nosso Pais. Todo o sofrimento, angústia, ansiedade que viveu desde o golpe militar até a sua corajosa volta ao Brasil. Todo o constrangimento porque passou sua família. Fico comovido a cada episódio que leio. Me orgulho dele, principalmente pelo seu caráter, pela sua vida despojada, simples. Mesmo quando voltou ao poder, não ousou expressar nenhum sentimento de vingança, assumindo tão somente o propósito de luta pela igualdade. Pela verdadeira DEMOCRACIA. José Reinaldo da Silva – VALENÇA – BA.

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