Waldomiro Diniz e José Dirceu nasceram um para o outro

Jorge Brennand

Os fatos ocorridos nas últimas semanas testemunham que Waldomiro Diniz e José Dirceu nasceram um para o outro. Realçam a convivência mais que fraternal dos amigos que partilharam a mesma residência, o mesmo teto em Brasília, antes de se tornarem vizinhos de sala no 4° andar do Palácio do Planalto no governo Lula.

Inseparável amigo e homem de confiança do então ministro da Casa Civil José Dirceu, para quem labutou como assessor direto na Câmara dos Deputados desde o início dos anos 90, Waldomiro Diniz foi seu fiel escudeiro por quase 12 anos (1992-2004). Uma amizade pura.

Waldomiro Diniz exerceu o cargo de ultraconfiança de subchefe de Assuntos Parlamentares da Presidência da República no início do governo Lula (2002-2004), provavelmente fase de preparação do terreno e semeadura do Mensalão – pois era o homem certo para essa tarefa -, que viria a amadurecer e ser colocado no mercado em 2005 pelo mascate Roberto Jefferson, que se julgava prejudicado em seus negócios por “concorrência desleal”.

O popularíssimo “escândalo dos bingos” é a denominação de um evento criminoso que veio à tona após denúncias de que o então assessor de Dirceu praticava o santo ofício de extorquir empresários, com a patriótica finalidade de arrecadar dinheiro para o imaculado PT.

A diligente atividade arrecadatória emergiu e assumiu notoriedade após a divulgação de uma gravação feita pelo empresário do ramo zoológico Carlinhos Cachoeira. A gravação mostra Cachoeira levando uma amável e íntima “cobrantina” de Waldomiro Diniz, a pretexto de apoio à campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores, aquela agremiação onde tem de tudo, menos trabalhador.

A gravação foi produzida em 2002, quando Waldomiro Diniz presidia a Loteria Estadual do Rio de Janeiro, durante o governo de Benedita da Silva, também do tradicionalmente moralista PT. O dinheiro resultante da “cobrantina” de Waldomiro Diniz seria investido nas campanhas eleitorais dos então candidatos a governador Geraldo Magela (PT-DF), Rosinha Garotinho (na época no PSB-RJ) e Benedita da Silva (PT-RJ). Seria um reforço da popular “Caixa 2”. Isso, antes das eleições; depois, passaria a ser “Sobras de Campanha”, segundo juristas ricos e famosos.
Waldomiro Diniz sempre bateu um bolão na sua “especialidade”, por isso foi convocado e prestigiado por Dirceu. Waldomiro também mostrou seus dotes profissionais insuperáveis na renovação de contratos entre a Caixa Econômica Federal (CEF) e a empresa que gerencia loterias federais GTech. Para, o PT a GTech é uma empresa idônea, acima de qualquer suspeita; porém, para a mídia está atolada nos escândalos envolvendo o ex-prefeito de Ribeirão Preto – também ex-deputado pelo PT, ex-ministro de Lula e  de Dilma e “consultor de negócios” – o médico sanitarista (ramo da medicina que, dentre outras atividades, mexe com excrementos) Antônio Pallocci (PT-SP).

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“PRÁTICA DO PARTIDO”

Por todo o país a mídia publicou uma cacetada de denúncias contra o PT. No Rio Grande do Sul, o ex-petista José Vicente Brizola, que presidiu a Loteria Estadual no governo de Olívio Dutra (PT), declarou que “a cobrança de propina de bicheiros é uma prática do partido”. No calor dos acontecimentos Brizola disse que era imputada ao filho da senadora Emília Fernandes (PT-RS), Carlos Fernandes, a nobre missão de coordenar a atividade (extorsão de bicheiros) no partido. Tudo pela causa.

Na ocasião, em meio a tantas notícias de corrupção, os jornais publicaram que a Polícia Federal e uma comissão de sindicância montada pelo governo investigaram o caso e concluíram que Waldomiro Diniz também estava envolvido em trapalhadas com o ex-assessor de Antonio Palocci, Rogério Buratti.

No Congresso Nacional a oposição conseguiu assinaturas para uma CPI dos Bingos, mas o imaculado governo do PT – que quando estava na oposição adorava uma CPI – barrou e liquidou a instalação da comissão com uma manobra regimental.

Márcio Thomaz Bastos, na época ministro da Justiça (?), trabalhou árdua e fortemente para evitar que o primeiro grande escândalo do Governo Lula tomasse conta dos órgãos de divulgação, pois estava muito clara a afinidade do PT com o jogo e a contravenção.

Na Internet e na mídia, naquela ocasião, correu a notícia que Márcio Thomaz Bastos escalou rapidamente o advogado (sempre de plantão para esses eventos) Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, para defender Waldomiro Diniz e cortar o desaguar (dar um cala a boca) de Cachoeira, buscando evitar que o escândalo alcançasse e derrubasse o então chefe da Casa Civil e todo poderoso do Governo Lula, o “primeiro ministro” José Dirceu.

A bosta apenas ficou coberta, pois, no ano de 2005 o prelado Roberto Jefferson denunciou o Mensalão e surgiram graves acusações do envolvimento do pároco José Dirceu no esquema, que acabou saindo “por livre vontade” da Casa Civil. E assim se foi o “primeiro-ministro”, segundo o Procurador Geral da República, o “chefe de sofisticada quadrilha”. E o caso, não investigado (abafado) em 2004, tomou conta da mídia em 2005 e se encontra no STF para julgamento.

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DE NOVO, THOMAZ BASTOS

Agora, cerca de oito anos depois, mais uma vez Márcio Thomaz Bastos é convocado, em caráter de urgência, para represar a enxurrada de denúncias que Carlinhos Cachoeira está ameaçando desaguar ladeira abaixo. Pode ser um tsunami, pois já saiu na mídia que são interlocutores das campanhas presidenciais do PT de Lula e Dilma, que receberam doações de Caixa 2 do empresário zoológico que – por hábito profissional – garante que anotou tudo: só vale o que está escrito, como registram os talões das apostas.

E tem mais: o deputado federal Amauri Teixeira (PT-BA) alertou o poder demolidor que o “Caso Cachoeira” pode ter na impoluta política brasileira, pois corre à boca pequena que são em número de 126 os seus coleguinhas de ofício (deputados federais) que estão envolvidos, de variadas formas, com os negócios obscuros do empresário zoológico Carlinhos Cachoeira.

Considerando que a Câmara Federal possui 513 deputados, 126 representam cerca de 25% desse total, que podem estar de barriga cheia por terem participado dos banquetes generosos de Cachoeira. Uma senhora bancada. O dobro de deputados da bancada evangélica.

E a CPMI vem aí. Se Carlinhos Cachoeira der os nomes de todos os que foram agraciados com seus atos filantrópicos, terá prestado um grande serviço ao Brasil e, volto a afirmar, merecerá uma estátua na Praça dos Três Poderes, em frente ao Congresso Nacional.

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