A defesa da Amazônia é praticamente impossível para um governo terraplanista

Mourão defende microimposto sobre transações financeiras digitais ...

Presidente do Conselho da Amazônia, Mourão se esforça, mas…

Luiz Ugeda
Estadão

O mundo sempre foi representado de forma distorcida. Isso é natural pois, salvo se formos terraplanistas, representar algo esférico de forma plana sempre causa esse efeito. Como exemplo, a Amazônia legal brasileira, isoladamente, é maior do que a União Europeia e seria o sétimo maior país do mundo. Ela é duas vezes e meia maior do que a Groenlândia, aquela ilha dinamarquesa no extremo-norte do planeta e que, geralmente, aparece do tamanho de toda a América do Sul no mapa-múndi de Mercator – projeção que aumenta os extremos do planeta e comprime as zonas tropicais.

Criar um mapa do mundo é escolher um tipo de distorção que, muitas vezes, reflete uma opção política. Desde sempre e em regra geral, neste pedaço de terra pequeno no mapa – mas gigante no mundo, principalmente quando se trata de meio ambiente –, os países desenvolvidos fazem uma defesa enfática pelo patrimônio natural da superfície amazônica.

REAL INTERESSE – O Brasil, por sua vez, defende que o real interesse deles é o subsolo e o material biológico lá existente. Aponta que as queimadas são superestimadas. E que a soberania territorial é nossa.

É um debate desigual, no qual a sedutora (e justa) narrativa ambiental é usada como justificativa política para castigar nosso competente e competitivo agronegócio, enquanto as imagens das constelações de satélites, que fazem a análise em tempo real das queimadas na Amazônia, legítimas ou não, são dos gringos.

O Brasil, de forma oficial, sequer está mapeado completamente na escala de 1:100.000, mínima para planejamento, sendo suas principais lacunas exatamente na região amazônica. Se aumentarmos esta escala e quisermos obter suas imagens, ou seja, melhorarmos sua precisão, estes mapas serão encontrados no Vale do Silício, em Moscou, em Pequim ou na Europa. Pouco há no Brasil.

SEM PLANEJAMENTO – O problema é que o país que não se programa no século 21, será programado por terceiros. A floresta está no Brasil, mas os satélites não são nossos. O país está invertebrado, pois suas vértebras, ou melhor, seus mapas, estão expostos para estudo de cientistas fora do país.

E o que temos no país não ajuda. O beliche cartorário, usando uma expressão de Sérgio Jacomino para ilustrar a sobreposição de títulos imobiliários, demonstra que temos algo em torno de 650 mil km2(extensão similar ao tamanho do estado de Minas Gerais) de sobreposição de propriedades. Tem desde disputa de terras entre privados até, p. ex., proprietários rurais dizendo que terra indígena é sua.

O Cadastro Ambiental Rural (CAR), destinado à preservação ambiental, tem uma distorção ainda maior: o Boletim Informativo do Serviço Florestal Brasileiro de novembro de 2019 mostra que a diferença entre a área real e cadastrada perfaz 1.451.955,94 km2. Se fosse um país, seria o 19º. maior do mundo, quase do tamanho do estado do Amazonas.

RIO BRANCO – O Barão do Rio Branco, a personalidade mais homenageada em praças públicas no Brasil e patrono de nossa diplomacia, usava mapas para resolver conflitos que, se tivesse perdido, poderiam ter diminuído enormemente o território do Brasil.

Sua trilogia, que compõe a disputa do Brasil com a Argentina (Questão de Palmas de 1890-1895, sob arbitragem do presidente norte-americano), com a França (Questão do Amapá de 1895-1900, sob arbitragem do presidente suíço) e com a Bolívia (Tratado de Petrópolis de 1904, que culminou na integração do Acre ao Brasil e na fixação de fronteira com a Bolívia e o Peru) é uma obra que merece maior compreensão para a administração do território nacional, pois o largo uso de mapas para defesa jurídica fez toda a diferença. A ponto de, p. ex., Vidal de la Blache, o pai da Geografia moderna francesa, ter atuado como parecerista para o lado francês na Questão do Amapá e ter perdido a arbitragem.

MAPAS CONFIÁVEIS – Já fomos bons em defender a Amazônia dos interesses europeus. Principalmente porque tínhamos meios de provar nossa razão e usamos a melhor técnica: mapas e dados confiáveis.

Podemos fazer muito resgatando esta prática. O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse algo sobre pensar soluções criativas entre IBGE e Ipea. A Medida Provisória 954/2020, que se destinava a atribuir ao IBGE uma lista telefônica analógica em tempos de dados geográficos online, derrubada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), foi exemplar para mostrar que o pensamento econômico do governo precisa ter uma visão 360 graus para alcançar o objetivo no qual se propõe, inclusive aderindo à visão geopolítica típica dos militares.

Estamos atrasados para internalizar as melhores práticas de políticas públicas geográficas e criarmos uma agência reguladora de infraestrutura de dados espaciais. Isso seria especialmente importante para a Amazônia e para os produtores rurais, pois confeririam dados seguros ao país para vencermos esta guerra informativa.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O problema é que Bolsonaro e seu governo terraplanista estão completamente desmoralizados no exterior. Os erros diplomáticos foram tão graves que não temos mais respeitabilidade, Eis a questão. (C.N.)

8 thoughts on “A defesa da Amazônia é praticamente impossível para um governo terraplanista

  1. Realmente, muito pior do que a Saúde e a Educação ou a Cultura, nossa diplomacia está completamente desacreditada. Até em países com os quais o atual governo considera “amigos preferenciais”, tal com os USA e Israel. É motivo de vergonha Mundial.

  2. Com a sua dimensão territorial gigantesca e, sobretudo, porque DEGRADAR a Região gerou megaempresas (no atacado) consolidadas e reconhecidas como fontes de empregos, rendas e tributos. Além de essa atividade PREDATÓRIA ter produzido uma imensa cadeia de dependência ( no varejo) – reverter uma cultura destrutiva, quando o destruidor aufere lucros mais fáceis, é muito difícil. Já faz décadas que Órgãos do Ministério da Agricultura, tais como Embrapa, bem como os seus equivalentes Estaduais, vêm brigando com a caboclada, a fim de que não ateiem fogo, no preparo de roças e soltas. O argumento das Instituições afetas à questão agropecuária, é que a queima elimina os micronutrientes do húmus, os qual são responsáveis pela adubagem orgânica dos vegetais. A queimada, ademais, gera o desequilibrio hídrico do solo e outras descompensações. Nem por isso, a caipirada mundou de mentalidade.
    Como tudo, no Brasil, a questão política é outra desgraça. Muitos empreendimentos danosos funcionam ali com o aval de políticos e/ou mesmo de agentes públicos federais, estaduais e municipais corruptos (dos três poderes). Outros negócios são propriedades diretas de políticos.
    No aspecto politico-eleitoral, a própria população é conivente, pois: é mais fácil um candidato que prega a depredação se eleger, do que aquele que com um discurso conservacionistas.

    • Paulo III
      Bom dia. Já li cerca de 130 comentários em jornais e blogs.
      Cumprimento-o pela seriedade e capacidade de raciocínio. Acabo de incluir teu comentário como um dos 10 com análise crítica e verdadeira!
      Teu último parágrafo é pura verdade. Como digo, sempre que posso, o país é ótimo mas tem uma parcela grande do povo que é muito ruim de cabeça e intenções.
      Abraço amigo.
      Fallavensa

  3. Contra a força não há resistência, se aquela for maior que esta. Meu ponto é que o governo pode se quiser, se não se corromper com o dinheiro fácil da corrupção, se tiver determinação.
    No Brasil de nowadays, nem Maria nem Inês podem fazer tal milagre. Viramos bola da vez com a insensatez do reinante Ruminante.

  4. Meus prezados concidadãos Brasileiros natos
    temos que antes de pensarmos no presente e futuro , deveriamos com afinco estudar e NÃO aplicar tudo que fizemos de errado em nossa fundação como sociedade. Este artigo é apenas uma ponta de nosso iceberg sepultado ao longo do tempo por nossa sociedade elitista, corrupta e antipatriótica . Como sociedade a nossa fundação foi fundamentada no estilo de exploração sem desenvolvimento (por regiões), vide o que ocorreu com a nação dos EUA…sua sociedade foi fundamentada no inverso da nossa deu no que deu …enquanto aqui adotamos um modelo juridico de sociedade fundamentado no direito romano ..(corrupto e depravado ) deu no que deu (vide os nossos modelos de leis e nossas constituições puras porcarias). Vide o modelo juridico da nação dos EUA … totalmente inverso da nossa (modelo anglo-saxão).. só podia dar no que deu.

    Creio que somos predestinados para sempre dar errado, apesar de toda nossa riqueza ..há um mistério que paira sobre nós que nos leva a nunca dar certo em nada que intentarmos fazer ou realizar. Posso com isso escandalizar meus pares cidadãos , mas creio que é nossa durissima realidade..e para isso peço que antes de tudo ..analisem nossa história como nação e fundação social ao longo do tempo , e compare ao longo do tempo com as demais nações mundiais com os quais sempre mantivemos contatos sejam estes comerciais, sociais e politicos . e combinem com o aparato de informações que hoje estamos aptos a acessar. Não tem como fugir da lógica racional que estamos findados sempre ao fracasso em todos os sentidos .

    Respeito quem endossa a opinião do Sr. Osvaldo Aranha, que em certo tempo disse que somos uma nação ‘com um deserto de homens e idéias” e há quem o considere um estadista , na verdade um verdadeiro falastrão, pois sabemos que sempre tivemos grandes nomes que nos enobreceram com seus atos e idéias, sem contudo serem culpados de nossa predestinação .

    Creio na Predestinação como uma base certa na organização Criacionista para os rumos das nações como um todo.
    e com relação ao estudo da terra ser plana e estacionária isso já é um outro assunto que envolve diversos estudos e este espaço não condiz com um assunto tão importante para a humanidade. Não existe “produto” pronto para ser enfiado na mente como verdade única .

    YAH SEJA LOUVADO SEMPRE …

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