A dura sensação de ter perdido a mocidade, no romantismo poético de Abgar Renault

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), no poema “Fim”, nos dá sua visão do que significou o término de sua mocidade.

FIM
Abgar Renault

O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como  quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói – não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
– flor de momento numa bela aurora –
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta
noturnos olham cegamente vagam.

6 thoughts on “A dura sensação de ter perdido a mocidade, no romantismo poético de Abgar Renault

  1. O poema fala da efemeridade da JUVENTUDE e seus contrastes com a idade da razão.
    A Raposa e as Uvas. Como nós, humanos, ainda vivemos em estado de massa, no fundo, gostaríamos de permanecermos congelados nela, na juventude! Mas o empurrão para a decreptude se impõe de modo irreversível e irrefreável. Sem podermos retroagir, resta-nos uma vingança: olhar para trás e nos desfazermos dos “anos dourados”: “Ah, na fase da mocidade, agente é muito irresponsavel e precipitado. As doenças que me acometem, atualmente, são todas consequências daquilo que eu aprontei, naquela fase louca. Rapá, quando eu me lembro que deixei de casar com a filha de um senador, a qual era doida por mim. Dá-me vontade de quebrar minha cabeça!”
    Só existe uma saída: esquecermos! A propósito, há um provérbio italiano, mais ou menos assim: “Nada pior do que recordar os momentos de glórias, na desgraça”
    PS, em um vilarejo, perto donde nasci, cujo topônimo é Pacas. Ali havia um Sr. de nome Roberto; eu não presenciei o episódio, mas a comunidade local afirma que ele assassinou uma pessoa, por tê-lo chamado velho!

    • Botando em versos:

      Num vilarejo perto de onde nasci
      Havia um homem de nome Roberto
      Que nunca conheci nem vi de perto

      Um dia matou um homem, sem nome
      Infringindo o que manda o evangelho
      Só por ter sido chamado de velho!

      Se juntar aos versos uma viola, dá uma boa cantiga!

  2. E pensar que há gente com fome,
    Que não sabe escrever o nome,
    Que nunca brincou como criança,
    Que nem alimenta a esperança
    De um dia envelhecer.

    No entanto, o poeta lamenta
    Ter ter perdido o seu sonho
    De um dia ter sido moço
    Forte, feliz, rico e risonho.

    É a vida com suas gangorras:
    Uns abastados e entediados
    Outros penando em masmorras.

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