Ainda há tempo para tentar uma terceira via, com uma coalizão ampliada de centro

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Pedro Malan
Estadão

A cada início de inverno deste período de governo Bolsonaro venho publicando neste espaço textos voltados para o eventual leitor que preferiria não experimentar, em outubro de 2022, a polarização irrefletida que marcou a eleição de 2018 e julga ainda possível, desejável e salutar contribuir para tornar viável uma eventual coalizão ampliada de centro.

Como escreveu em texto recente Margareth Dalcomo, “aos cansados desses longos meses e que pretendem não se imiscuir nas querelas e desavenças políticas resta a lógica aristotélica, que lembra, aos que não gostam da política e permanecem neutros por convicção: somos e seremos sempre governados pelos que gostam e instados a arcar com as consequências dessa nada impune neutralidade”.

AÇÕES E OMISSÕES – Há que levar em conta as sofridas memórias vividas por todos os brasileiros nos últimos dois anos e meio. Refiro-me não apenas à pandemia e à desastrosa postura do chefe do Executivo em relação a ela. É preciso que o País não perca sua memória – a memória do que alguns historiadores chamam do “passado recente”: aquele que continua influenciando o escopo das escolhas possíveis no presente.

Foram ações e omissões, erros e acertos, paixões e interesses, conflitos e compromissos que nos trouxeram, como país, ao que somos hoje. Entender como um país se tornou o que é, e o que poderia vir a ser, exige consciência do peso ou do empuxo do passado, como condição para viver criativamente no presente e, principalmente, para ter visão sobre o futuro, seu e de seu país no mundo.

O processo que nos trouxe até aqui está em curso há décadas. Estamos há mais de 130 anos em busca de uma República democrática digna desse nome. Por vezes, e particularmente agora, é preciso defender conquistas que julgávamos, realisticamente, em processo de consolidação.

MANIA DE SER MITO – O risco de retrocesso existe e vem se tornando menos obscuro ao longo dos últimos dois anos e meio. Acentuado pela propensão ao autoritarismo que vem marcando, a cada inverno que passa, a postura e a conduta daquele que deveria servir de exemplo a seus concidadãos – e não apenas àqueles que o têm como mito, como oráculo inquestionável.

Dizia o texto publicado aqui em junho de 2019 (início do primeiro inverno): “É difícil imaginar que possamos seguir com o grau de surpresas e incertezas que marcou os primeiros meses deste governo”.

Por mais espantoso que pareça, elas se acentuaram nos 12 meses que se seguiram, com crescente atividade e influência do núcleo familiar e do núcleo ideológico do Palácio do Planalto nas redes sociais.

USO DE REDES SOCIAIS – No início do segundo inverno tentávamos ainda interpretar a escalada da estratégia bolsonarista, cada vez mais inspirada no sucesso de Trump nos EUA quanto ao uso, “como nunca antes no Brasil”, das redes sociais, crescentemente mobilizadas.

E desde então as incertezas, ansiedades e contradições só se acentuaram. A polarização acerba vem sendo a marca dos primeiros 18 meses do governo. Em 19 de abril de 2020 Bolsonaro discursou na manifestação de seus fiéis seguidores em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília, em meio a faixas pela restauração do AI-5 e contra o Congresso e o STF. Em fins de maio o País assistiu à íntegra do vídeo de uma surrealista reunião ministerial – a pandemia de covid-19 já fora declarada oficialmente pela OMS havia cerca de um mês e meio. Quem tinha dúvidas sobre o que era o presidencialismo de confrontação, à la Trump, deve tê-las perdido então.

INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – A partir daí, o instinto de sobrevivência política levou o presidente a fazer o que havia desprezado até então: tentar construir uma base de apoio no Congresso apta a permitir-lhe ganhar a reeleição em outubro de 2022.

Trump, o modelo de Bolsonaro, obteve em 2020 10 milhões de votos a mais do que havia obtido em 2016. Em belo artigo publicado neste jornal (23/11/20), Moisés Naim escreveu: “São 74 milhões que não se importaram em votar em um presidente que mente de forma compulsiva, constante e facilmente verificável. Que não acreditam que Trump seja mentiroso, ou não se importam com isso, ou têm necessidades e esperanças mais importantes”.

Mas o fato é que os eleitores norte-americanos decidiram, por uma diferença de 6 milhões de votos, não dar um segundo mandato a Trump. Que então se recusou a aceitar o resultado das urnas. Na verdade já declarava desde 2016, quando disputou pela primeira vez, que só reconheceria o resultado das urnas “if I win”.

MARCHA AO CONGRESSO – Em episódio inesquecível, insuflou seus seguidores a marchar contra o Congresso norte-americano. Era 6 de janeiro. A democracia norte-americana reagiu à invasão de seu Parlamento em plena sessão, e Biden tomou posse duas semanas depois.

A democracia venezuelana não resistiu a Chávez e Maduro. Há o risco de Bolsonaro ter em 2023 um quinto inverno. Seria o inverno de nossa desesperança, porque o Brasil teria dado em 2022 outro salto no escuro, como fez em 2018.

Aqueles que desejam evitá-lo deveriam pensar na importância crucial dos próximos 12 a 15 meses. Para tanto muito ajudaria o uso da memória, que é, ou deveria ser, um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente.

3 thoughts on “Ainda há tempo para tentar uma terceira via, com uma coalizão ampliada de centro

  1. “EM VERDADE EU VOS DIGO: A TERCEIRA VIA DE VERDADE É O LEÃO, o resto é variante de situação ou de oposição, é marmelada, é mais dos me$mo$, é contrafação. O bolsonarismo tem que sair, mas o lulismo e o demotucanismo não podem voltar senão, na verdade, nada de novo e alvissareiro acontecerá. Nesse contexto, Ciro Gomes, na esteira do mais dos me$mo$, enquanto candidato a presidente é uma candidatura natimorta, por razões óbvias e ululantes, MAS pode chegar lá não condição de VICE do originalíssimo HoMeM do Mapa da Mina do bem comum do povo brasileiro, o HoMeM do Borogodó, o HoMeM da Nova Política de Verdade, da Terceira Via de Verdade, antissistema, do Projeto Novo e Alternativo de Política e de Nação, do Novo Caminho para o Novo Brasil de Verdade, porque evoluir é preciso, cujo marketing natural está pronto há mais de 20 anos, o verdadeiro contraponto ideal a tudo isso que ai está há 131 anos, clara e visceralmente contra o continuísmo da mesmice dos me$mo$, mesmo tendo pago caro para se manter nessa posição há mais de 20 anos, do qual o sistema podre inteiro está morrendo de medo, tremendo na base e fugindo deles igual o diabo foge da cruz, arrebentaria a boca do balão. Mas, infelizmente, a impressão final que está sendo passada pelo Ciro, na política, é a do egoísmo, da vaidade, da ambição e dos interesses pessoais, dando conta de que ele de fato não tem nada de herói e, na verdade, não passa de apenas mais um oportunista, cabeça de bagre, preso à sua velha zona de conforto, da mesma e velha turma do mais dos me$mo$. Ás vezes tenho a impressão de que Ciro não passa de um invejoso, amigo da onça, pobre de espírito, posto que é visível o seu encanto pelo discurso do HoMeM do Mapa da Mina, ao ponto de até copiá-lo em suas tiradas, passando a impressão de que ele quer ser o HoMeM do Mapa da Mina, quer assumir a personalidade do HoMeM, mas isso é impossível Ciro, porque o HoMeM é o ungido e escolhido por Deus para fazer o que de fato está para ser feito no Brasil há trocentos anos. Abrace o HoMeM que é idealista e honesto toda vida e que lhe quer bem Ciro. Vc sabe que ele é desprendido, humilde e reconhece as qualidades de quem as têm mesmo quando se comportam como seus adversários. Além de tudo, o HoMeM já foi até vereador pelo PDT, candidato a Deputado pela Chapa Lula-Brizola, é progressista raiz, e só não avançou máximo na velha política porque é avesso à dita-cuja e sempre se recusou a ser bandido, não tem como ser negado pela esquerda, e vai ser abraçado pelas bandas honestas da direita, esquerda e centro, com certeza, ao ponto de surrar Lula, Bolsonaro e o resto do continuísmo da mesmice no primeiro turno, porque é o HoMeM que o povo brasileiro tem pedido a Deus há muito tempo. Pronto falei. Simples assim. E tenho dito.”

  2. Fabricar um salvador da pátria?
    Tem tudo para dar errado.
    A única qualidade que vejo no Bolsonaro é sua autenticidade. Ele sempre foi o que é. Não pode ser acusado de ter enganado ninguém. Não compareceu aos debates exatamente para não prometer nada. Prometeu o Posto Ypiranga. De resto foram apoiadores que insinuaram as promessas.
    Agora avaliem um Dória, um Ciro, um Aécio que sabem mentir olhando nos olhos!

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