Após recusa de 14 estados, o governo Bolsonaro concentrou envio de cloroquina a aliados

Propaganda. O presidente Jair Bolsonaro segura uma caixa de cloroquina no Palácio da Alvorada: método repetido Foto: Adriano Machado/Reuters/23-07/2020

Bolsonaro virou garoto-propaganda da cloroquina

Bernardo Mello, João Paulo Saconi e Rayanderson Guerra
O Globo

 Mesmo depois que estados começaram a devolver a cloroquina enviada pelo Ministério da Saúde no ano passado, diante de evidências de ineficácia da substância contra a Covid-19, o governo federal insistiu no envio de um volume similar de comprimidos para todo o país, priorizando gestões estaduais e municipais alinhadas ao discurso do presidente Jair Bolsonaro.

Levantamento do GLOBO com dados do Localiza SUS aponta que, de setembro a dezembro, 1,5 milhão de comprimidos foram devolvidos pelos estados. A partir do mesmo período, o governo Bolsonaro enviou mais 1,3 milhão de comprimidos, sendo 80% para aliados. Na primeira leva, de março a agosto, menos de 40% haviam chegado a gestões bolsonaristas.

INSISTÊNCIA MORTAL – Desde o fim do primeiro semestre de 2020, entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e órgãos de referência como o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos já desaconselhavam o uso da cloroquina em pacientes infectados pelo coronavírus.

A gestão do ministro Eduardo Pazuello seguiu enviando medicamentos ineficazes — e associados a aumento nas mortes de pacientes com Covid — impulsionada por uma doação de hidroxicloroquina do governo Donald Trump, que não utilizava mais o remédio — 609 mil comprimidos deste lote foram distribuídos até o mês passado, já na gestão de Marcelo Queiroga. Em paralelo a isso, o governo levou sete meses para assinar o contrato de compra de vacinas da Pfizer, prazo que foi alvo de questionamentos na CPI da Covid no Senado.

SEM DEVOLUÇÃO – Entre os estados com gestões alinhadas a Bolsonaro, Minas Gerais, Santa Catarina, Amazonas e Roraima respondem por metade (646 mil) dos comprimidos distribuídos pelo Ministério da Saúde desde setembro. Nenhum desses estados informou ter devolvido cloroquina ao governo, mesmo diante da falta de eficácia.

O estado do Amazonas recebeu 120 mil comprimidos em janeiro, em meio ao colapso na Saúde que é investigado pela CPI. O GLOBO revelou em março que uma equipe do Ministério da Saúde fez um tour por hospitais de Manaus à época recomendando o uso do medicamento, em meio à falta de insumos básicos, como oxigênio.

Outros 170 mil comprimidos foram entregues neste ano a municípios como Limeira (SP), Presidente Prudente (SP) e Porto Alegre, cujos prefeitos se alinharam publicamente ao discurso de Bolsonaro a favor do suposto “tratamento precoce”.

A OMS AVISOU… – Em outubro do ano passado, a OMS reiterou a ineficácia de medicamentos incluídos nos chamados “kit Covid”. “No fim de 2020, já existiam dados consolidados sobre malefícios da cloroquina e da hidroxicloroquina e explicações de por que não deveriam ser utilizados. A própria aceitação entre médicos diminuiu. É por isso que estados começaram a devolver” — avaliou o infectologista Julio Croda, da Fiocruz, que esteve no Ministério da Saúde na gestão de Luiz Henrique Mandetta.

Em Pirassununga (SP), que recebeu 13,5 mil comprimidos, o prefeito Dimas Urban (PSD) abandonou a defesa do medicamento. Urban, que é médico, alegou que via a hidroxicloroquina como “única arma disponível” no início da pandemia, mas disse ter se tornado cético à medida que saíam estudos.

— Confesso que eu duvidava do lockdown, mas tivemos resultados positivos ao adotar medidas restritivas. Acho inadmissível a postura que o presidente teve com as vacinas. Transformou em política besta, picuinha — afirmou.

“REMANEJADOS” – No total, o Ministério da Saúde distribuiu 7,5 milhões de comprimidos desde março do ano passado, dos quais 20% foram “remanejados”, na terminologia do governo — ou seja, deixaram os estoques estaduais sem ser usados em pacientes de Covid-19.

Para o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, a distribuição de cloroquina foi prejudicial à condução da pandemia.

— Isso estimulou a automedicação e um comportamento de risco, dada a falsa sensação de segurança — afirma Temporão.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
O que Bolsonaro fez, na verdade, foi um crime.  Análise de 28 pesquisas concluiu que hidroxicloroquina está associada a uma maior mortalidade de pacientes com Covid-19. (C.N.)

5 thoughts on “Após recusa de 14 estados, o governo Bolsonaro concentrou envio de cloroquina a aliados

  1. Numa briga, quem lhe segura para o seu inimigo espancar, sem chances de defesa, como poderia ser chamado? Dizer que o governo Bolsonaro inocula Coronavírus nas pessoas, aí já seria uma alucinação leviana da parte de quem fizesse tal acusação. E o mandátario que concorre, diretamente, para o morticínio dos seus concidãos; esse sim, pode ser rotulado de PATRIOCIDA ou PLURI-HOMICIDA CULPOSO.
    Todos aqui devem lembrar: no início desse desgoverno de desgraças, Jair Bolsonaro falou que “a única coisa que poderia derrubá-lo era o fracasso na economia”. Isso pode explicar a aversão dele ao Lockdown. Entende que, se as pessoas pararem por um período, para não pararem duma vez (mortas), a política econômica pode cair por terra e, com ela, o sonho da reeleição.
    Vejam que lixo mais imundo: por causa de sua fome egoísta de poder, ele é capaz de empurrar milhares de concidadãos ao sofrimento e ao óbito!
    Desde o começo da Pandemia, Bolsonaro sempre se esforçou para aparecer como um sabotador de quaisquer contramedidas, que visassem a barrar a Covid-19 e, ao mesmo tempo, retaliando os autores dessas iniciativas: governadores, prefeitos, cientistas, artistas, ONGs etc.
    Mas o Capetão não está sozinho, na sua ação patriocida: tal crueldade deve ser compartilhada também com os brasileiros clones de Caim, os quais hipotecam apoio cega e irresponsavelmente a esse mefistófeles infernal.

  2. Felipe Quintas (via Facebook)

    O “supercomputador” comprado no ano passado pelo TSE para a contagem dos votos é da Oracle [1], empresa notoriamente ligada à CIA e ao NSA [2].

    A questão principal não é urna auditável ou não-auditável, voto impresso ou não-impresso, mas o controle das agências de inteligência e vigilância dos EUA sobre as eleições daqui, o que torna impossível qualquer “auditoria”.

    Entendem o motivo de tanta bajulação de Lula e Ciro ao Biden? E como a tramóia TSE-CIA certamente não começou em 2020, também dá para entender muito bem a subserviência de Bolsonaro a Trump.

    https://www.facebook.com/felipe.quintas.1/posts/1585731271624121

  3. “Análise de 28 pesquisas concluiu que hidroxicloroquina está associada a uma maior mortalidade de pacientes com Covid-19. (C.N.)”
    Análise de 28 pesquisas?
    Qualquer dia a cloroquina estará matando mais que o vírus “cobra mandada”(Brasão da família Falci=uma cobra Coroada engolindo um ser humano).

  4. Da premissa não decorre a conclusão.

    1. Após recusa de 14 estados, o governo Bolsonaro concentrou envio de cloroquina a aliados

    2. Nenhum desses estados informou ter devolvido cloroquina ao governo, mesmo diante da falta de eficácia.

    parei por aqui. isso é jornalismo de ensino fundamental

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