Operação da Polícia Federal sobre “Dark Horse” coloca Flávio Bolsonaro além do filme

O Tribunal que virou parte

Crise deixou de ser uma história sobre dois ministros

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

Existe uma ironia desconfortável no centro da crise que hoje divide o Supremo Tribunal Federal: a Corte criada para mediar conflitos entre os demais poderes tornou-se, ela própria, incapaz de resolver uma controvérsia que envolve dois de seus integrantes. Quando a instituição responsável por dar a palavra final passa a ser também parte do conflito, a questão deixa de ser apenas saber quem tem razão e passa a ser descobrir qual mecanismo institucional ainda é capaz de produzir uma resposta confiável.

Os fatos ajudam a entender como se chegou a esse ponto. Em 1º de setembro, o ministro André Mendonça, relator do inquérito sobre o Banco Master, determinou a retirada de sigilo de um relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O material trouxe à tona mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, incluindo manifestações de gratidão do banqueiro ao ministro dias antes de sua prisão.

CONTRATOS – Entre os documentos estavam ainda contratos de serviços advocatícios envolvendo o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com partes ligadas ao caso. A divulgação desses elementos, por si só, não estabelece irregularidade, mas ampliou as dúvidas que passaram a cercar a relação entre o ministro e pessoas diretamente envolvidas no caso.

Dois dias depois, Moraes reagiu divulgando trechos de outro relatório da PF e pedindo ao presidente da Corte, Edson Fachin, a abertura de investigação contra o colega, sob a alegação de abuso de autoridade. Fachin retirou o caso do inquérito das fake news, abriu procedimento apartado sob sua própria relatoria e deu cinco dias para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se manifestassem.

Nesta terça-feira, a crise subiu mais um degrau. Mendonça determinou o afastamento preventivo de Rodrigues e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada da Costa, segundo a decisão, sob a alegação de que ambos produziram e direcionaram relatórios de inteligência sobre magistrados e outras autoridades.

PEDIDO DE VISTA – A Segunda Turma do Supremo formou maioria para manter a medida, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Na véspera, treze ex-ministros e ex-presidentes da Corte haviam enviado carta a Fachin classificando o momento como uma das crises mais graves da história do Supremo, sem citar nominalmente nenhum dos dois ministros — ao contrário de Marco Aurélio Mello, que dias antes classificara a relação revelada como “impensável” e defendera publicamente a conduta de Mendonça.

A disputa processual que se seguiu devolveu simetria ao quadro. A Advocacia-Geral da União recorreu da decisão de Mendonça, sustentando que nomear e afastar o diretor-geral da PF é atribuição do presidente da República, e avalia apresentar uma suspensão de liminar diretamente a Fachin — instrumento excepcional, raramente usado contra decisão de um ministro do próprio Supremo.

Ao mesmo tempo, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a nulidade do procedimento aberto por Mendonça contra Moraes, argumentando que a investigação de um ministro dependeria de autorização do colegiado, não de decisão monocrática do relator. Tanto o ato que deflagrou a crise quanto a resposta mais recente a ela estão, portanto, sob contestação jurídica — o que já basta para afastar qualquer leitura simplista de que um dos lados age dentro da lei e o outro fora dela.

DISPUTA DE PODER – É justamente aí que o episódio se torna revelador. Instrumentos concebidos para auxiliar a Justiça — sigilo, relatório de inteligência, medida cautelar — passaram a ocupar o centro de uma disputa de poder entre ministros, quando as fronteiras institucionais se tornam pouco nítidas. Isso não torna, por si só, alguma medida ilegítima; reforça, porém, que, quanto maior o poder institucional envolvido, mais rigoroso precisa ser o controle sobre a forma como ele é exercido.

A origem política das indicações acrescenta outra camada ao problema. Moraes chegou ao Supremo por indicação de Michel Temer; Mendonça, por indicação de Jair Bolsonaro. Num ambiente menos polarizado, isso pertenceria à biografia dos ministros; no Brasil atual, tornou-se atalho para explicar decisões antes mesmo de seus fundamentos serem examinados. É significativo que o próprio Temer, ciente disso, tenha telefonado a Moraes defendendo uma composição com Mendonça — e tenha reconhecido, em seguida, que o afastamento da cúpula da PF tornou qualquer trégua mais distante.

Uma crise dessa natureza não pode depender da habilidade pessoal de seus protagonistas: quando uma Corte constitucional precisa de intermediação externa para administrar uma divergência interna, o problema já é institucional, não pessoal.

PERÍODO ELEITORAL – O calendário eleitoral torna tudo mais delicado. O país se aproxima de uma eleição presidencial em que a polarização segue sendo elemento central da disputa, e qualquer decisão envolvendo Moraes, Mendonça, a PF ou o governo será avaliada politicamente antes de ser examinada juridicamente. Uma medida contra a corporação poderá ser vista como sinal de independência por um lado e como interferência por outro; o inverso vale para uma decisão favorável a ela. O mérito jurídico corre o risco de chegar ao debate público depois da percepção política — quando deveria ser exatamente o contrário.

Não há solução que passe por fingir que a divergência não existe. Ministros de uma Corte constitucional podem e devem discordar. O problema começa quando a divergência deixa de ser processada por mecanismos capazes de preservar a confiança na instituição e passa a contaminar as próprias estruturas encarregadas de investigar e decidir.

Essa exigência vale para todos os lados: suspeitas sobre um ministro devem ser apuradas; indícios de abuso de autoridade também; uso irregular de inteligência policial exige responsabilização; interferência em competência do Executivo exige revisão. O que não pode prevalecer é a ideia de que a legalidade de uma decisão varia conforme o grupo político que dela se beneficia.

POLARIZAÇÃO – É aqui que a crise deixa de ser uma história sobre dois ministros e passa a dizer algo sobre o país. A polarização brasileira transformou quase toda divergência em disputa de identidade — o adversário deixou de ser alguém que pensa diferente para se tornar uma ameaça ao próprio campo político. Essa lógica atravessa Congresso, Executivo, partidos e redes sociais e chega inevitavelmente às instituições que deveriam oferecer contenção para os conflitos, não reproduzi-los.

Transformar Moraes e Mendonça em símbolos de campos opostos seria, por isso, a pior resposta possível. O ministro indicado por Temer não deve ser julgado pela trajetória de quem o indicou, assim como o indicado por Bolsonaro não deve receber, por isso, certificado prévio de independência ou de suspeição. Ambos precisam se submeter aos mesmos parâmetros, aplicáveis independentemente de quem esteja sentado do outro lado da disputa.

O desafio não é descobrir qual dos dois ministros prevalecerá, mas preservar uma estrutura em que nenhum deles precise se sobrepor ao outro para que as instituições funcionem. O Supremo foi concebido para arbitrar conflitos que o sistema político não resolve sozinho; quando a própria Corte enfrenta dificuldade para organizar um conflito nascido dentro dela, a pergunta deixa de ser quem tem razão em determinado processo e passa a ser se ainda existem regras reconhecidas por todos para dizer quem tem o poder de estabelecer essa razão.

CONFIANÇA – O que está em jogo não é a vitória de um ministro sobre o outro, mas algo mais elementar: a confiança de que, mesmo na mais profunda divergência, existe um caminho capaz de separar investigação de eventual desvio de finalidade e decisão de demonstração de força.

Se esse caminho for preservado, a crise poderá deixar limites mais claros para o exercício do poder. Se não for, o Supremo correrá o risco de confirmar, dentro de suas próprias paredes, aquilo que deveria ajudar o país a superar: a transformação permanente do conflito em guerra de posições.

A direita em três atos exibe um discurso que desaba diante da realidade

Oposição obstrui e fim da escala 6×1 não vai a plenário

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Há uma contradição no centro do debate político desta semana: uma parcela importante da direita brasileira que constrói seu discurso em torno da defesa do trabalhador atuou, de formas diferentes, para resistir à proposta de redução da jornada e ao fim da escala 6×1. Houve voto contrário, ausência no momento da deliberação e, por fim, uma articulação política que terminou sem a votação em plenário.

A sequência oferece um teste particularmente revelador da distância entre discurso e prática. Quando a defesa do trabalhador deixou o terreno das palavras e chegou ao voto, à presença e à deliberação, as escolhas feitas por esse campo político abriram uma contradição que merece ser examinada.

DISCUSSÃO ANTIGA – O primeiro ato se passou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Ali, na quarta-feira, tramitou a Proposta de Emenda à Constituição que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, sem corte salarial, com período de transição de 14 meses. A discussão tampouco é nova. A redução da jornada de trabalho integra há décadas o debate internacional sobre direitos trabalhistas, produtividade e qualidade de vida.

A votação foi simbólica, sem contagem nominal, mas quatro senadores fizeram questão de registrar em ata seu voto contrário: Rogério Marinho, Hamilton Mourão, Tereza Cristina e Jaime Bagattoli, todos ligados a partidos que integram ou gravitam em torno do campo bolsonarista no Congresso.

Marinho, líder da oposição, não se limitou a votar contra. Apresentou uma proposta alternativa que mantém as 44 horas semanais e a escala 6×1, permitindo jornadas negociadas diretamente entre patrão e empregado, com remuneração calculada por hora trabalhada. O discurso fala em liberdade e valorização de quem trabalha; diante da necessidade de apresentar uma alternativa concreta, a proposta foi preservar a jornada mais longa.

AUSÊNCIA – O segundo ato ocorreu na mesma sessão da CCJ e teve como protagonista Flávio Bolsonaro. Pré-candidato à Presidência pelo PL e integrante suplente da comissão, o senador esteve ausente no momento em que a PEC foi aprovada. Em seguida, evitou declarar publicamente como votaria no plenário, embora Daniella Marques, coordenadora econômica de sua campanha, tenha classificado o debate como populista e defendido que o trabalhador pudesse ampliar livremente a própria jornada.

Era possível construir uma posição sobre o tema fora da sala de votação; na deliberação da comissão, porém, a cadeira permaneceu vazia. A ausência não permite atribuir uma intenção específica. Permite, no entanto, registrar um fato político: numa das primeiras decisões relevantes sobre a proposta, o pré-candidato que pretende disputar a Presidência não participou da votação.

ADIAMENTO DA VOTAÇÃO – O terceiro ato levou a disputa da comissão ao plenário e terminou com o adiamento da votação para depois do primeiro turno das eleições de outubro. Na noite de quarta-feira, o núcleo governista desistiu de submeter a PEC ao plenário diante da redução do quórum e da falta de segurança de que estariam assegurados os 49 votos favoráveis exigidos em cada um dos dois turnos.

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, atribuiu a falta de quórum a uma ação coordenada da oposição. Citou nominalmente Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, e Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, como articuladores de um movimento para desestimular a presença de parlamentares governistas. A consequência política foi objetiva: a votação não ocorreu, e a proposta ficou para depois do primeiro turno das eleições de outubro.

SEQUÊNCIA – Três atos, uma só disputa. O voto contrário na comissão, a ausência no momento da deliberação e a articulação atribuída pelo líder do governo à atuação direta de Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho não são fatos equivalentes. Mas ajudam a compor o retrato de uma resistência à proposta que assumiu formas diferentes ao longo da mesma semana.

Primeiro, houve a oposição declarada. Depois, a ausência. Por fim, uma disputa em torno das condições políticas para que a votação pudesse sequer ocorrer. Em comum, um dado difícil de ignorar: a pauta avançou na comissão, mas encontrou resistência organizada antes de chegar ao plenário.

DISCURSO E PRÁTICA – Isso não é peculiaridade de um partido nem generalização sobre toda a direita brasileira, que é plural e inclui correntes liberais, conservadoras e de centro que não se reconhecem nos episódios descritos aqui. Trata-se de um recorte sobre o campo radical que se consolidou na política nacional nos últimos anos e sobre a distância que, neste caso, se estabeleceu entre a retórica em defesa de quem vive do próprio trabalho e as posições adotadas diante de uma proposta concreta.

Discursa-se em nome do trabalhador. Na comissão, quatro senadores ligados a esse campo registraram voto contrário. Rogério Marinho, líder da oposição, apresentou uma alternativa que preserva a jornada de 44 horas e a escala 6×1. E, antes que a proposta chegasse ao plenário, a sessão terminou sem a votação, em meio a uma disputa política cuja falta de quórum foi atribuída pelo líder do governo a adversários da medida.

A pergunta que este debate deixa, portanto, não é quem falou mais alto. Discursos sempre encontram espaço. A questão é o que permanece quando a política exige voto, presença e deliberação. Do voto contrário à ausência, passando pela disputa que impediu a votação em plenário, diferentes formas de resistência marcaram uma mesma sequência.   E fica uma pergunta que nenhuma campanha responde apenas com bandeiras: quando chega o momento de transformar discurso em decisão, o que prevalece — a promessa feita ao trabalhador ou as escolhas reveladas na prática?

Lula, Trump e o desafio de negociar sem se curvar às pressões externas

Lula e Trump retomam o diálogo em meio à crise comercial

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Duas agendas se cruzaram nos últimos dias e colocaram no centro do debate político uma questão decisiva para 2026: quem define as prioridades do Brasil. De um lado, Lula reuniu Hugo Motta e Davi Alcolumbre para tratar do fim da escala 6×1, dos minerais críticos e de incentivos a datacenters — temas que envolvem a distribuição dos ganhos do desenvolvimento, o controle de recursos estratégicos e a posição do país na economia digital.

Do outro, Brasília e Washington confirmaram para a próxima segunda-feira uma reunião entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a primeira desde que as negociações foram interrompidas em julho. A retomada foi precedida por um telefonema de uma hora e vinte entre Lula e Trump, no qual o presidente brasileiro contestou as medidas adotadas pelos americanos e defendeu a reabertura do diálogo comercial.

PRIORIDADES – À primeira vista, são assuntos distintos. Mas ambos remetem à mesma disputa: a capacidade de o Brasil estabelecer suas próprias prioridades diante de pressões econômicas, políticas e externas. O embate comercial com os Estados Unidos, assim, ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa tarifária e coloca sob exame o discurso de patriotismo que a direita bolsonarista transformou em um de seus principais ativos.

A crise tarifária oferece o primeiro caso concreto. As duas sobretaxas em vigor — 25% sob a Seção 301 e mais 12,5% sob alegação de trabalho forçado — podem elevar a carga a 37,5% sobre setores como calçados, máquinas, madeira e móveis, atingindo US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras. Diante desse cenário, Lula contestou as justificativas americanas, manteve o comitê de resposta ao tarifaço e, ao mesmo tempo, retomou a negociação técnica. Não se trata de escolher entre confronto permanente e acomodação. Trata-se de negociar sem aceitar que uma pressão externa determine as escolhas do país.

Nesse contexto, a atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos adquire relevância política. Em meio à crise, ele buscou interlocução direta com autoridades americanas, incluindo a audiência pública realizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.

EFEITOS NAS ELEIÇÕES – Segundo apurações da imprensa, sua articulação considerou os efeitos que a tarifa poderia produzir na disputa eleitoral brasileira. Houve, inclusive, um pedido público para que a medida fosse suspensa por cerca de seis meses, justamente no período que antecederia a eleição.

Não há ilegalidade ou anormalidade no diálogo de um político brasileiro com autoridades estrangeiras. O ponto é outro. Quando uma medida comercial atinge setores da economia nacional, o primeiro critério deveria ser seu impacto sobre o país. Se o cálculo central passa a ser sua utilidade para uma candidatura ou um grupo político, abre-se uma distância entre o discurso de soberania e a prática.

É dessa distância que surge a discussão sobre o verde e amarelo. Nos últimos anos, a direita bolsonarista procurou associar os símbolos nacionais a um campo político específico e transformou o patriotismo em um de seus principais instrumentos de mobilização. Mas a apropriação da bandeira não comprova a defesa dos interesses nacionais. O critério está nas posições adotadas quando o Brasil entra em choque com os objetivos de uma potência estrangeira.

TESTE PARA A DIREITA – Esse será um teste para a direita em 2026. Não se trata de defender hostilidade aos Estados Unidos. O Brasil deve negociar e manter relações com Washington, assim como com outras potências e parceiros comerciais. Ter proximidade ideológica com Trump ou com a direita americana, por si só, não compromete a defesa dos interesses nacionais. A incoerência aparece quando esse alinhamento passa a orientar a reação a medidas que atingem diretamente o país.

A pauta doméstica discutida nos últimos dias reforça a dimensão concreta desse debate. O fim da escala 6×1 diz respeito à forma como o país distribui os ganhos da produtividade e organiza o tempo de trabalho. A política para minerais críticos envolve uma escolha sobre o lugar que o Brasil pretende ocupar nas cadeias globais: continuar como fornecedor de matéria-prima ou ampliar o processamento, a tecnologia e a agregação de valor dentro do território nacional. Os incentivos a datacenters dizem respeito ao controle da infraestrutura necessária para uma economia cada vez mais dependente do processamento de dados e da inteligência artificial.

Não são assuntos desconectados. Todos envolvem desenvolvimento e autonomia. Está em disputa quem se beneficia do crescimento, quem controla recursos estratégicos e qual parcela do valor produzido permanece no país. É a mesma lógica presente no confronto comercial com os Estados Unidos: preservar a capacidade nacional de definir prioridades em um ambiente de crescente pressão externa.

POLÍTICAS PÚBLICAS – Soberania, portanto, não é apenas uma questão de fronteiras ou de retórica nacionalista. Ela se expressa na capacidade de definir políticas públicas, estabelecer prioridades econômicas, proteger setores estratégicos e negociar com outros países sem subordinar decisões internas a objetivos externos. É nesse terreno que o discurso político precisa ser confrontado com os fatos.

A resposta apresentada pelo governo Lula combinou duas frentes: contestar as medidas adotadas por Washington e manter aberta a negociação, enquanto, internamente, leva ao centro da agenda temas como trabalho, recursos minerais e infraestrutura tecnológica. Isso não elimina divergências sobre cada uma dessas políticas nem coloca as decisões do governo acima de crítica. Mostra, porém, uma concepção de soberania associada a escolhas concretas de desenvolvimento.

A tensão aparece em outro lugar. Um campo político que transformou o patriotismo em um de seus principais ativos terá de explicar como concilia esse discurso com uma estratégia que, diante de uma pressão comercial sobre o Brasil, colocou seus possíveis efeitos eleitorais no centro do cálculo. Não basta reivindicar a defesa da pátria contra adversários e instituições internas e, diante dos interesses de um governo estrangeiro ideologicamente próximo, alterar o critério de avaliação.

INTERFERÊNCIA – A eleição brasileira deve ser decidida no Brasil. Nenhuma potência estrangeira — Washington, Pequim ou Moscou — deveria interferir no resultado de uma disputa que cabe exclusivamente aos brasileiros. Esse princípio precisa valer independentemente de qual força política possa se beneficiar de uma eventual interferência.

É aí que o patriotismo deixa de ser um símbolo e passa a ser uma posição política verificável. Não se trata de quem reivindica a bandeira, mas dos critérios adotados quando interesses concretos entram em conflito. A defesa da autonomia nacional exige coerência justamente quando ela se torna politicamente inconveniente.

DIÁLOGO COM OS EUA – Os acontecimentos dos últimos dias tornaram esse debate mais concreto. Enquanto o país discute como distribuir os ganhos do desenvolvimento, controlar recursos estratégicos e construir infraestrutura para a economia digital, também retoma o diálogo com os Estados Unidos após um período de forte pressão comercial.

Economia, eleições e geopolítica se cruzam. Quando o cálculo eleitoral e o alinhamento ideológico entram em conflito com os interesses do Brasil, fica claro até onde vai o patriotismo — e onde ele termina: em Washington.

 

“Dark Horse” é uma conta que Flávio Bolsonaro quer fechar sem prestar contas

Flávio Bolsonaro e o vazio que fica por trás do seu discurso de “confronto”

O vice de Flávio Bolsonaro não foi apenas uma escolha. Foi o que restou

A indicação de Gaspar coroou uma sucessão de recusas

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Quando o Partido Liberal confirmou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, a apresentação oficial insistiu na ideia de uma candidatura “puro-sangue”, fiel às origens do bolsonarismo e alheia à tradicional lógica de negociação do presidencialismo de coalizão brasileiro. A sequência de negociações, recusas e acomodações que antecedeu o anúncio, porém, revela uma realidade bastante distinta da narrativa apresentada pela campanha.

Horas antes do anúncio, uma sondagem BTG/Nexus registrava um cenário competitivo entre Flávio Bolsonaro e Lula. A notícia politicamente mais significativa daquele dia, porém, não estava nos números da pesquisa, e sim na forma como a chapa presidencial foi construída.

NEUTRALIDADE – Enquanto as pesquisas mantinham Flávio Bolsonaro competitivo na disputa, PP e Republicanos optavam por permanecer fora dela. Esse contraste entre desempenho eleitoral e isolamento político ajuda a explicar por que a vaga de vice terminou nas mãos de um deputado alagoano que, há poucos meses, dificilmente figurava entre os nomes mais cotados.

O centro dessa história não é Gaspar, mas quem recusou o convite antes dele. A campanha empenhou-se em atrair a senadora Tereza Cristina, do PP, a ponto de Flávio afirmar publicamente que ela já havia aceitado o convite. A federação PP-União Brasil, porém, decidiu manter neutralidade nacional na disputa, inviabilizando formalmente sua entrada na chapa.

A alternativa seguinte foi a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, apoiada pelo próprio governador Tarcísio de Freitas. Também ali, entretanto, a resposta foi negativa: após consultas internas, o Republicanos optou por permanecer neutro. Duas tentativas, dois vetos institucionais. Não faltou disposição individual de alguns dirigentes para negociar; prevaleceu a decisão das estruturas partidárias.

SEM OPÇÃO – Não houve, portanto, opção por uma chapa exclusivamente do PL — houve o esgotamento de todas as alternativas fora dele. O próprio presidente do partido, Valdemar Costa Neto, tentou se antecipar a essa leitura ao dizer que a escolha de Gaspar já estava decidida “há seis meses”, cronologia difícil de sustentar diante da sucessão pública de tentativas encerradas apenas dias antes da convenção.

Fica, contudo, uma pergunta em aberto quando se descreve apenas a recusa: por que disseram não o PP e o Republicanos? Não por hostilidade declarada. Não por ruptura. A resposta está em outro registro, mais estrutural do que pessoal.

O comportamento do Centrão raramente é guiado por afinidades ideológicas. Seus partidos costumam aproximar-se menos dos projetos com os quais possuem maior identificação do que daqueles que consideram mais capazes de produzir poder político. A neutralidade de PP e Republicanos diz menos sobre divergências programáticas do que sobre avaliação de risco.

MARGEM DE MANOBRA – Em vez de se comprometer antecipadamente com um projeto cujo potencial ainda desperta dúvidas entre dirigentes nacionais, preferiram preservar margem de manobra para a fase decisiva da campanha. Antecipar esse movimento reduz a flexibilidade para negociar diante de um cenário político em transformação. Para um Centrão acostumado a ver candidaturas competitivas em agosto perderem fôlego até outubro, esperar continua sendo a opção de menor risco.

Segundo relatos publicados pela imprensa, Arthur Lira participou da construção da solução que levou Gaspar à vice-presidência — um movimento que reorganizou também a disputa ao Senado em Alagoas, onde o próprio Lira concorre a uma vaga. Ainda que interesses locais tenham pesado, o episódio evidencia que a definição da chapa respondeu muito mais a acomodações regionais do que à construção de uma ampla coalizão nacional.

Durante boa parte da última década, aproximar-se de Jair Bolsonaro era quase um movimento automático para partidos interessados em disputar espaço dentro do campo conservador. A negociação girava em torno das condições da aliança, não da própria existência dela. Em 2026, a situação parece diferente da observada nos anos de maior expansão do bolsonarismo: a adesão deixou de ser pressuposto e voltou a ser objeto de cálculo.

ATRATIVIDADE – Os episódios que cercaram a escolha do vice sugerem que o bolsonarismo já não exerce a mesma capacidade de atração sobre parcelas relevantes das lideranças partidárias que demonstrava em eleições anteriores.

Desde a redemocratização, a escolha de um vice raramente foi apenas isso — foi ponte para partidos, regiões, setores econômicos, bancadas no Congresso. Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel, José Alencar, Michel Temer ampliaram, cada um à sua maneira, o espaço político de quem os escolheu antes mesmo da eleição.

No presidencialismo brasileiro, a escolha do vice raramente responde apenas à pergunta “quem governará em caso de ausência do presidente?”. Responde a outra, muito mais imediata: quem está disposto a dividir riscos antes mesmo da eleição? É por isso que as chapas costumam funcionar como radiografia das alianças efetivamente construídas por cada candidatura.

IMPASSE – Em vez de ampliar a base política presidencial, a escolha de Gaspar atendeu à necessidade de equacionar um impasse localizado e preservar equilíbrios regionais. É uma diferença significativa. Em campanhas competitivas, espera-se que a vice-presidência agregue novos apoios nacionais; aqui, ela funcionou sobretudo como instrumento de acomodação política. Seu alcance permaneceu regional, sem ampliar a projeção política da candidatura em âmbito nacional.

Competitividade eleitoral e capacidade de articulação política nem sempre caminham juntas. Um candidato pode reunir milhões de eleitores e, ainda assim, encontrar dificuldade para convencer partidos e lideranças de que vale a pena dividir os riscos de uma eventual vitória. Foi isso que a formação desta chapa tornou visível. PP e Republicanos não romperam com Flávio Bolsonaro. Apenas decidiram não aderir à sua candidatura.

Nenhum presidente eleito desde a Constituição de 1988 governou sustentado apenas pelo partido que o levou ao Planalto. Todos dependeram de maiorias parlamentares construídas por acordos amplos e, muitas vezes, heterogêneos. A capacidade de viabilizá-los antes da eleição não determina, por si só, o sucesso de um mandato. Mas costuma revelar quanto capital político uma candidatura consegue mobilizar antes mesmo de chegar ao poder.

ALIANÇAS – É por isso que a escolha do vice extrapola a composição de uma chapa. Ela funciona como um teste da capacidade de atração política de cada candidatura. Uma campanha pode vencer eleições com votos. No presidencialismo de coalizão brasileiro, porém, só governa com alianças.

O episódio talvez diga menos sobre Alfredo Gaspar do que sobre a própria reorganização da direita. Durante anos, o sobrenome Bolsonaro funcionou como ativo político suficiente para ordenar partidos, atrair aliados e disciplinar lideranças. A forma como a candidatura foi construída sugere que esse mecanismo já não opera com a mesma intensidade.

ARTICULAÇÃO LIMITADA – Mais do que definir um vice, esse processo revelou os limites da articulação política de Flávio Bolsonaro. O problema não está em Alfredo Gaspar. Está no significado político de sua indicação. Durante semanas, a campanha procurou ampliar sua base e terminou apenas administrando a ausência de novos aliados.

A vaga foi preenchida. O problema permaneceu.  Afinal, quando a escolha do vice só ocorre depois de esgotadas todas as alternativas, a notícia deixa de ser quem entrou na chapa. Passa a ser quem decidiu ficar de fora.

Espetáculo do vazio: como a direita trocou o projeto de país pela guerra política

Flávio opta pela espetacularização em pré-campanha

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A pré-campanha presidencial de 2026 já expôs seu método antes mesmo de apresentar seu programa. Em vez de colocar no centro da discussão propostas sobre crescimento, produtividade, envelhecimento populacional, transição energética ou reforma do Estado, a direita brasileira voltou a organizar sua comunicação em torno da lógica do confronto permanente. O lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, realizado em São Paulo, tornou esse movimento evidente.

Na convenção que oficializou o nome do senador pelo PL para a corrida presidencial, sem vice definido e ainda sem uma coligação nacional consolidada, o momento de maior repercussão não foi um discurso sobre economia ou políticas públicas. Foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, utilizado pelo próprio filho para pedir apoio ao seu nome, mesmo com o ex-presidente submetido a restrições judiciais que o impedem de participar de atos públicos.

REAÇÃO – O episódio provocou reação imediata. A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial, distribuída ao ministro Kassio Nunes Marques. No Supremo, a defesa de Bolsonaro argumentou que o ex-presidente sequer teria condições de autorizar o uso de sua imagem diante das limitações impostas pela Justiça. A justificativa, porém, acabou ampliando uma questão central: se o próprio Bolsonaro não poderia validar publicamente a utilização de sua imagem, quem decidiu colocá-lo para “falar” na convenção?

A controvérsia dividiu espaço nas manchetes com outro episódio de forte impacto: a presença do presidente argentino Javier Milei, que utilizou seu discurso para atacar Lula e o ministro Alexandre de Moraes em termos que dificilmente seriam empregados por um político brasileiro em território nacional, protegido pela condição de chefe de Estado estrangeiro. A consequência foi uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires, com a convocação do embaixador brasileiro para consultas e uma reação institucional do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que classificou as declarações como desrespeitosas às instituições brasileiras.

Somaram-se ainda mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, utilizadas para associar a chapa à imagem de uma articulação conservadora internacional. O resultado foi simbólico: o evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto acabou dominado por controvérsias externas à formulação de um programa de governo — inteligência artificial, tensão diplomática e conflitos institucionais — e não pela apresentação de prioridades para o país.

MÉTODO POLÍTICO – Essa dinâmica não surgiu agora. Ela representa a continuidade de um método político consolidado desde 2018: transformar a política em uma disputa permanente de identidades, ameaças e inimigos, na qual conflitos com instituições, pautas de costumes e ataques simbólicos ocupam o espaço que deveria ser destinado à construção de um projeto nacional.

É preciso reconhecer que esse modelo teve eficácia política. A direita bolsonarista construiu uma identidade forte, mobilizou sua base de maneira consistente e alterou o funcionamento do debate público brasileiro como poucas forças políticas conseguiram fazer nas últimas décadas. Sua capacidade de criar engajamento e influenciar a agenda nacional é um fato político relevante.

O problema está em outro ponto: a mobilização passou a funcionar como substituta de uma formulação programática mais ampla. A extrema direita brasileira demonstrou força para organizar conflitos, mas ainda enfrenta dificuldades para apresentar uma visão de país que vá além da reafirmação de identidades políticas e da permanente busca por adversários.

SIMBOLISMO – A lógica do confronto permanente cumpre, nesse modelo político, uma função específica: manter a base mobilizada a partir de ameaças contínuas e disputas simbólicas que exigem posicionamento constante. Enquanto um programa de governo precisa lidar com escolhas, limites e resultados mensuráveis, a política baseada no conflito depende da produção permanente de novos antagonismos. O adversário deixa de ser apenas um concorrente eleitoral e passa a ocupar o centro da própria identidade do movimento.

No caso de Flávio Bolsonaro, essa limitação aparece de forma mais evidente. O senador foi lançado ao cenário presidencial pelo próprio pai, sem ter construído, até aqui, uma identidade política plenamente independente, e enfrenta dificuldades para consolidar liderança dentro do próprio campo. Pesquisas indicam que Michelle Bolsonaro apresenta maior competitividade entre segmentos como evangélicos e mulheres, enquanto o campo conservador continua marcado por diferentes grupos e interesses.

Ao mesmo tempo, setores do centro político e aliados da direita buscam nomes com maior capacidade de articulação e ampliação eleitoral, enquanto pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa ainda marcada pela vantagem de Lula em cenários de segundo turno. Flávio também carrega o peso de episódios que acompanham sua trajetória política, como as investigações envolvendo crime de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio e questionamentos relacionados à aquisição de imóveis. São temas explorados por adversários e que não desaparecem apenas porque o debate público é ocupado por controvérsias momentâneas.

PRIORIDADES – Uma eleição presidencial deveria ser o momento de confronto entre diferentes visões sobre o futuro do país. Os desafios que estarão diante da próxima administração não pertencem a um único governo nem serão solucionados por uma única gestão. A qualidade da disputa democrática depende da capacidade de apresentar prioridades, escolhas e caminhos para enfrentar problemas estruturais. Quando a maior parte da atenção pública é absorvida por conflitos institucionais, embates simbólicos e disputas de identidade, reduz-se o espaço para discutir como cada candidatura pretende governar.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em diferentes democracias, forças políticas perceberam que a mobilização de ressentimentos, identidades e adversários simbólicos pode produzir resultados eleitorais relevantes. A diferença está no que acontece depois: transformar engajamento político em capacidade de formular políticas públicas diante de sociedades cada vez mais complexas continua sendo o principal teste para qualquer força que pretende governar.

ESPETACULARIZAÇÃO – A questão central para a direita brasileira, especialmente para sua vertente mais radicalizada, não é mais sua capacidade de mobilizar. O problema é que essa mobilização passou a ocupar o lugar que deveria ser destinado à construção de um projeto de país. Ao transformar espetacularização, desinformação, confrontos institucionais e conexões internacionais utilizadas como instrumentos de polarização em eixo da comunicação política, a extrema direita deixa em segundo plano a apresentação de respostas para os problemas concretos do Brasil.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou apenas uma estratégia de comunicação; expôs um método político. O centro da cena foi ocupado pela reconstrução artificial da presença de Jair Bolsonaro, pela internacionalização da disputa e pelo confronto com instituições.   O que permaneceu ausente foi justamente o elemento que deveria organizar uma candidatura presidencial: uma visão de futuro para o país, com prioridades definidas e respostas para os desafios que estarão diante da próxima administração. 

Onde termina a diplomacia e começa a ingerência

Trump tentar cruzar fronteira da democracia brasileira

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

A diplomacia sempre conviveu com uma zona de ambiguidade. Todo Estado observa, comenta e reage aos rumos políticos de outros países — é o que se espera de qualquer ator relevante no sistema internacional. O problema surge quando essa observação deixa de ser análise e passa a ser tentativa de direção. A linha entre as duas coisas nunca foi traçada por lei, mas por um critério decisivo: quem fala, para quem fala e com que propósito.

Um chefe de governo pode, sem qualquer prejuízo às normas internacionais, expressar preocupação com a instabilidade institucional de outro país, criticar uma política econômica ou defender publicamente uma posição sobre direitos humanos. Isso é diplomacia — às vezes desconfortável, quase sempre interessada, mas ainda assim compatível com a soberania alheia.  

INFLUÊNCIA SOBRE ELEITORADO – Um dos sinais mais claros de que a diplomacia se transforma em ingerência aparece quando a manifestação deixa de se dirigir a governos ou instituições e passa a buscar, deliberadamente, influenciar a escolha política do eleitorado de outro país. Nesse momento, muda o interlocutor. E é essa mudança — mais do que o conteúdo da declaração — que transforma um comentário diplomático em pressão política.

A história oferece inúmeros exemplos dessa distinção, ainda que ela raramente tenha sido formulada de maneira explícita. Potências coloniais pressionavam governos recém-independentes por meio de embaixadas, acordos comerciais condicionados e apoio velado a facções internas — mecanismos que, justamente por serem indiretos, preservavam alguma plausibilidade de negação.  

O que mudou no século XXI não foi a existência da prática, mas sua escala, sua velocidade e seu alcance. Hoje, uma declaração de um líder estrangeiro chega ao eleitor comum antes mesmo de alcançar o Ministério das Relações Exteriores do país a que se refere. Ela é replicada por redes sociais, retransmitida pela imprensa e amplificada por influenciadores políticos, sem qualquer mediação diplomática. A ingerência já não precisa de embaixadores. Basta uma conta verificada e um fuso horário favorável.

PROTOCOLOS – Essa mudança de escala altera a natureza do próprio fenômeno. Quando a pressão externa dependia de canais diplomáticos, permanecia, ao menos formalmente, no âmbito das relações entre Estados — sujeita a protocolos, respostas oficiais e a uma linguagem que preservava alguma distância entre quem pressionava e quem era pressionado.  

Quando a mensagem passa a se dirigir diretamente ao eleitor, essa distância desaparece. O que antes era comunicação entre governos transforma-se em comunicação entre um líder estrangeiro e os cidadãos de outro país — e nenhuma instituição diplomática foi concebida para mediar esse tipo de intervenção.

É por isso que reduzir o debate sobre interferência a uma disputa entre simpatizantes e opositores de um governo específico é um erro de análise, não apenas de tom. O critério não pode variar conforme o destinatário da pressão. Um país que aceita a interferência quando ela favorece o governo que apoia e a condena quando prejudica esse mesmo governo não está defendendo a soberania; está usando o conceito como argumento circunstancial. A consequência é previsível: o princípio perde consistência, e as instituições deixam de dispor de um parâmetro confiável para reagir quando o fenômeno voltar a ocorrer, qualquer que seja sua direção política.

EXPOSIÇÃO – O Brasil reúne características que o tornam particularmente exposto a esse tipo de pressão. Sua relevância econômica, sua posição nas discussões ambientais globais, seu protagonismo em fóruns como o BRICS e sua influência regional fazem com que declarações de líderes estrangeiros sobre a política brasileira raramente sejam neutras ou desinteressadas. Isso, por si só, não representa um problema. É a condição normal de qualquer país com peso geopolítico. O problema não está no interesse internacional, mas na tentativa de convertê-lo em influência sobre escolhas que pertencem exclusivamente aos brasileiros.

Reconhecer essa fronteira exige instrumentos institucionais que ainda estão em construção em quase todas as democracias, não apenas na brasileira. Não se trata de blindar o debate público contra qualquer opinião estrangeira — isso seria não apenas impossível, mas incompatível com a abertura que se pretende preservar.  

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida nesse debate. Plataformas digitais, sistemas de recomendação algorítmica e mercados financeiros internacionais operam, cada um por mecanismos próprios, como canais adicionais de influência que não respondem a protocolos diplomáticos nem pertencem a um Estado específico.

INGERÊNCIA – Uma empresa de tecnologia que decide amplificar determinado conteúdo político, ou um fundo de investimento que condiciona decisões de alocação a expectativas eleitorais, pode influenciar o ambiente democrático de um país sem jamais emitir uma nota oficial. Limitar a discussão sobre ingerência aos governos estrangeiros significa ignorar uma parte essencial do problema contemporâneo.

No fim, a distinção entre diplomacia e ingerência depende de um princípio simples: opiniões sobre outro país fazem parte do jogo internacional; tentativas de dirigir a escolha de seus cidadãos, não. Sempre que essa fronteira for cruzada — por um governo, por uma plataforma ou por um mercado —, a resposta não deve depender de quem é favorecido ou prejudicado. Deve começar pela mesma pergunta, em qualquer circunstância: a quem essa mensagem realmente se dirige?

Porque nenhuma democracia permanece plenamente soberana quando a vontade de seus cidadãos deixa de ser formada livremente e passa a ser disputada por atores que jamais responderão às consequências dessa decisão.

Flávio Bolsonaro enfrenta o isolamento político de sua candidatura

O paradoxo da transparência no Brasil, que aumenta, mas não evita impunidade

Sucessão de crises está desmontando a estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro

A disputa pela confiabilidade das informações é o novo desafio do jornalismo

IA ampliou a produção de conteúdos convincentes

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

O maior desafio do jornalismo contemporâneo não é a inteligência artificial. É a crescente dificuldade de preservar os referenciais comuns que permitem a uma sociedade reconhecer os fatos antes de interpretá-los. A facilidade com que sistemas generativos produzem textos, imagens, áudios e vídeos capazes de simular evidências ampliou o problema da desinformação, mas revelou uma transformação mais profunda: o enfraquecimento dos critérios públicos que permitem distinguir registros autênticos de conteúdos sintéticos.

É sobre as consequências mais visíveis dessa transformação que costuma se concentrar o debate sobre o futuro do jornalismo. Discute-se o impacto da inteligência artificial sobre o trabalho das redações, a sustentabilidade econômica dos veículos e a expansão da desinformação nos ambientes digitais. Todos esses desafios são reais. Nenhum deles, porém, alcança o núcleo da questão. O problema central já não é quem produz mais informação, mas como preservar os critérios que permitem verificar evidências e reconhecer informações confiáveis.

TRANSPARÊNCIA – A contestação dos fatos jamais representou uma novidade para o jornalismo. A vida política sempre conviveu com propaganda, boatos, versões interessadas, omissões deliberadas e tentativas de distorcer acontecimentos. Ainda assim, a imprensa consolidou sua relevância porque desenvolveu procedimentos capazes de submeter alegações à verificação, confrontar versões incompatíveis, examinar documentos, contextualizar informações e tornar públicos os fundamentos de suas conclusões. Sua legitimidade nunca decorreu da promessa de eliminar o erro, mas da adoção de um método transparente e permanentemente aberto ao escrutínio público.

As plataformas digitais e os sistemas de inteligência artificial não tornaram esse método obsoleto. Alteraram, contudo, o ambiente em que ele opera. A produção de conteúdo deixou de depender de estruturas profissionais e passou a ocorrer em escala inédita, impulsionada por tecnologias capazes de fabricar materiais altamente persuasivos em poucos segundos.

A consequência mais relevante não é apenas o aumento da circulação de conteúdos enganosos. É a fragmentação dos critérios pelos quais diferentes grupos reconhecem evidências, documentos e fontes como legítimos, chegando a interpretações incompatíveis sobre um mesmo acontecimento.

DESACORDO LEGÍTIMO – Essa mudança produz efeitos que ultrapassam o campo da comunicação. Democracias não dependem da uniformidade de opiniões. Divergências políticas, ideológicas e morais constituem parte de seu funcionamento. O que elas exigem é um conjunto mínimo de fatos reconhecidos publicamente, capaz de sustentar o desacordo legítimo.

Quando esse referencial se fragiliza, a controvérsia deixa de incidir sobre a interpretação dos acontecimentos e passa a alcançar os próprios critérios utilizados para reconhecê-los. O debate público perde um de seus pressupostos fundamentais: a existência de uma base comum para a avaliação dos acontecimentos.

É nesse contexto que a verificação dos fatos revela seus limites sem perder sua importância. O fact-checking permanece indispensável para corrigir erros, desmontar falsificações e responsabilizar quem difunde conteúdos enganosos.

CHECAGEM – Entretanto, sua atuação é predominantemente reativa. Em geral, a checagem ocorre quando conteúdos já alcançaram ampla difusão e, muitas vezes, foram incorporados às convicções de parcela significativa do público. A rapidez com que se propagam reduz a eficácia de iniciativas exclusivamente corretivas para restabelecer, por si sós, um ambiente informacional confiável.

O desafio contemporâneo, portanto, não se limita à identificação de conteúdos enganosos. Consiste em fortalecer a confiança nos procedimentos que permitem verificar documentos, identificar a origem de imagens e vídeos, rastrear evidências, reconhecer manipulações e tornar transparentes as etapas da apuração. Nesse contexto, o diferencial do jornalismo desloca-se progressivamente do conteúdo publicado para a robustez do processo que o sustenta.

Também muda, nesse cenário, a forma como a credibilidade é construída. Durante décadas, a capacidade de informar antes dos concorrentes representou uma vantagem decisiva. Hoje, a velocidade deixou de ser atributo exclusivo das redações. Ferramentas de inteligência artificial produzem textos, sintetizam documentos, traduzem conteúdos, geram imagens e simulam vozes em questão de segundos.

RESPONSABILIDADE EDITORIAL – O que permanece essencialmente humano não é a publicação em si, mas a responsabilidade editorial sobre aquilo que se publica. A confiança passa a depender menos da rapidez da divulgação do que da qualidade da apuração, da consistência das evidências apresentadas, da transparência metodológica e da disposição de corrigir equívocos sempre que necessário.

Incorporar novas tecnologias às rotinas profissionais é necessário, mas insuficiente. O que distingue o jornalismo de outras formas de circulação de informação é sua capacidade de produzir conhecimento público com base em procedimentos verificáveis. Quanto mais sofisticadas se tornam as tecnologias capazes de produzir conteúdos convincentes, maior é a necessidade de instituições comprometidas com critérios claros de validação, rastreabilidade das informações, transparência editorial e prestação permanente de contas ao público.

A inteligência artificial não reduz a importância do jornalismo. Ao contrário, evidencia sua função mais essencial. Se qualquer sistema pode produzir conteúdos plausíveis, torna-se ainda mais valiosa a existência de profissionais e organizações capazes de explicar a origem das informações, contextualizar evidências, reconhecer incertezas e submeter suas conclusões ao exame público. O valor do jornalismo deixa de residir apenas na capacidade de informar, mas na capacidade de tornar verificável aquilo que publica.

CRITÉRIOS PÚBLICOS – É nesse ponto que se concentra o maior desafio da imprensa contemporânea. Não se trata apenas de enfrentar conteúdos enganosos, tarefa que sempre integrou a atividade jornalística. Trata-se de preservar os critérios públicos que permitem reconhecer fatos verificáveis e sustentar a confiança coletiva nos procedimentos que lhes conferem legitimidade.

Sem esses parâmetros, a divergência deixa de apoiar-se em evidências passíveis de verificação e passa a depender exclusivamente da adesão a versões concorrentes. Nesse cenário, a crise ultrapassa os limites do jornalismo: compromete uma condição indispensável ao funcionamento da democracia, a possibilidade de sustentar o desacordo a partir de uma base comum de evidências verificáveis.

A desesperada luta para adiar o tarifaço expôs as fissuras do bolsonarismo

Charge do Weber (Correio Braziliense)

Marcelo Copelli
Revista Fórum  

O tarifaço anunciado por Donald Trump revelou uma contradição que o bolsonarismo já não conseguia administrar. O que durante anos funcionou como demonstração de lealdade política ao presidente norte-americano passou a produzir custos econômicos e eleitorais difíceis de ignorar.

A mobilização de Flávio Bolsonaro em Washington para tentar adiar a entrada em vigor das tarifas simboliza essa inflexão: o mesmo grupo político que fez do republicano uma de suas principais referências agora procura conter os efeitos econômicos e eleitorais de uma decisão tomada pela própria Casa Branca.

CONCILIAÇÃO DE INTERESSES – Esse movimento vai além da atuação de um integrante da família Bolsonaro. Ele revela que a principal dificuldade da direita brasileira já não se resume ao enfrentamento do governo Lula, mas à conciliação de interesses, prioridades e estratégias que deixaram de convergir automaticamente. Seria um equívoco reduzir esse cenário às reações provocadas pelo tarifaço entre lideranças do bolsonarismo ou às trocas de ataques entre influenciadores conservadores. Esses episódios representam menos a causa da crise do que sua manifestação mais visível.  

Nos últimos anos, o bolsonarismo deixou de gravitar em torno de uma estratégia única e passou a reunir grupos que compartilham objetivos semelhantes, mas seguem caminhos diferentes para alcançá-los. O tarifaço não criou essa tensão. Apenas a trouxe à superfície.

Durante a ascensão do ex-presidente, divergências internas eram absorvidas pela centralidade de sua liderança. Questões econômicas e diplomáticas acabavam subordinadas à lógica da lealdade política, e o alinhamento com Trump tornou-se uma de suas principais marcas identitárias. Mais do que uma aproximação entre governos, consolidou-se uma afinidade baseada em narrativas semelhantes, valores compartilhados e uma visão comum sobre instituições, política internacional e conflitos culturais.

LIMITES – A realidade econômica, porém, impõe limites que a retórica não elimina. Quando decisões adotadas por um aliado internacional passam a produzir custos para exportadores, produtores rurais e setores industriais brasileiros, a fidelidade ideológica deixa de ser apenas um princípio político para gerar consequências concretas. Esse choque tornou-se evidente com a nova rodada de tarifas anunciada pelos Estados Unidos.  

Flávio Bolsonaro argumentou que a medida poderia fortalecer politicamente o presidente Lula da Silva e ampliar prejuízos para segmentos relevantes da economia. Seu significado político, contudo, é claro: o mesmo grupo que transformou Trump em referência política viu-se obrigado a pedir a revisão — ou, ao menos, o adiamento — de uma decisão tomada por seu principal aliado internacional.

A mudança torna-se ainda mais significativa quando comparada a episódios anteriores. Em diferentes momentos, integrantes da família Bolsonaro minimizaram os efeitos de medidas adotadas por Washington em nome da convergência ideológica. Agora, a preocupação deslocou-se para os custos eleitorais e econômicos desse alinhamento. Não houve uma revisão doutrinária, mas o reconhecimento de que a proximidade automática com Trump passou a impor dilemas cada vez mais evidentes à medida que se aproxima a eleição de 2026.

DIVERGÊNCIAS –  As diferenças entre Flávio e Eduardo Bolsonaro ajudam a compreender esse momento sem que seja necessário tratá-las como uma ruptura familiar. Elas refletem a convivência de prioridades distintas dentro do mesmo universo político. Enquanto um procura ampliar o diálogo com setores moderados, empresariais e produtivos, o outro permanece identificado com a internacionalização do conflito político brasileiro e com a manutenção de vínculos estreitos com o núcleo trumpista. A divergência não rompe o bolsonarismo, mas revela que suas principais lideranças já não respondem aos mesmos incentivos nem compartilham a mesma lógica de atuação.

Esse movimento não se limita à família Bolsonaro. Governadores, parlamentares, empresários, lideranças religiosas e influenciadores digitais passaram a responder a incentivos políticos distintos. Para alguns, o objetivo é ampliar a base eleitoral; para outros, preservar a identidade ideológica que impulsionou o bolsonarismo; há ainda aqueles cuja influência depende da radicalização permanente nas redes sociais. O resultado é uma direita menos homogênea, na qual plataformas antes utilizadas para mobilizar apoiadores contra adversários externos passaram a expor disputas por protagonismo e influência.

As críticas públicas entre antigos aliados, portanto, não podem ser reduzidas a episódios de vaidade ou competição pessoal. Elas expressam uma dificuldade crescente em definir quem conduzirá a oposição e qual estratégia prevalecerá nos próximos anos. A lógica do confronto permanente, que durante muito tempo funcionou como elemento de coesão, passou a conviver com a necessidade de dialogar com setores preocupados com estabilidade econômica, previsibilidade institucional e capacidade de governar. O debate deixa de girar apenas em torno de convicções e incorpora, de forma cada vez mais evidente, cálculos de viabilidade eleitoral.

ALINHAMENTO – Isso não significa que a polarização entre direita e esquerda tenha perdido centralidade. O governo Lula continua sendo o principal adversário do campo conservador, e o antipetismo permanece como importante fator de unidade. O que perdeu força foi sua capacidade de acomodar divergências que hoje envolvem liderança, método de oposição, alianças internacionais e prioridades econômicas. A existência de um adversário comum já não basta para manter alinhados atores submetidos a pressões cada vez mais distintas.

A aproximação das eleições torna esse quadro ainda mais evidente. Até pouco tempo, bastava concentrar as críticas no governo federal para preservar uma relativa unidade. Agora surgem dilemas que não admitem respostas simples: como ampliar o eleitorado sem afastar a militância mais fiel? Como conciliar a herança política de Jair Bolsonaro com as exigências de uma campanha voltada também ao eleitor moderado? Essas questões deslocam o debate da identidade para a estratégia e tornam inevitáveis divergências que antes permaneciam subordinadas à liderança do ex-presidente.

Esse episódio evidenciou uma transição que já estava em curso. Ao tentar conter os efeitos de uma decisão tomada por Washington, Flávio Bolsonaro expôs um dilema que ultrapassa sua atuação individual: conciliar fidelidade política e pragmatismo eleitoral.

REORGANIZAÇÃO – Os acontecimentos recentes revelam, assim, um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira. À medida que a sucessão presidencial se aproxima, cresce a pressão para definir prioridades, construir alianças e formular uma estratégia capaz de reunir grupos que já não compartilham automaticamente os mesmos objetivos políticos. O desafio deixou de ser apenas preservar sua unidade simbólica; passou a ser reconstruir uma capacidade efetiva de coordenação política.

Coalizões raramente entram em crise porque deixam de reconhecer seus adversários. Elas se desgastam quando deixam de concordar sobre os custos necessários para alcançar um objetivo comum.  

A direita brasileira continua compartilhando referências e objetivos comuns, mas perdeu a capacidade de transformá-los em ação política convergente. O que as últimas semanas evidenciaram foi o enfraquecimento do principal fator de coesão do bolsonarismo: a liderança capaz de acomodar interesses diversos sem permitir que as divergências se convertessem em disputas abertas.

O patriotismo seletivo da direita brasileira foi destruído pelos atos de Trump

Charge do Marcelo Martinez (Canal Meio)

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Durante anos, setores expressivos da direita brasileira reivindicaram para si o monopólio do patriotismo. Fizeram da bandeira nacional um símbolo de identidade política, transformaram a defesa da soberania em sua principal credencial moral e acusaram adversários de subordinar os interesses nacionais a agendas estrangeiras. Essa narrativa lhes conferiu força política, mas também criou uma exigência inevitável: a de demonstrar a mesma coerência quando interesses nacionais entrassem em tensão com afinidades ideológicas.

Os acontecimentos recentes envolvendo as medidas anunciadas pelo governo Donald Trump, com potencial de afetar a economia brasileira, não criaram esse dilema. Apenas o tornaram mais visível. Afinal, a defesa da autonomia nacional mantém o mesmo peso quando interesses brasileiros são atingidos por um governo politicamente admirado por parte significativa da direita? Ou esse princípio muda de intensidade conforme a identidade de quem o desafia?

IDENTIDADE VISUAL – Para compreender por que essa pergunta é relevante, basta observar como o patriotismo foi reconstruído na política brasileira ao longo da última década. A bandeira nacional deixou de funcionar apenas como um símbolo da República para tornar-se a identidade visual de um projeto político. O verde e amarelo passaram a dominar manifestações, campanhas eleitorais e redes sociais. O hino nacional ganhou protagonismo em atos públicos. A defesa da autonomia nacional transformou-se em um dos pilares do discurso conservador, acompanhada da ideia de que nenhuma potência estrangeira deveria ditar os rumos do país.

Não se tratou apenas de uma estratégia de comunicação. Foi uma operação política que redefiniu o significado público dos símbolos nacionais. Aos poucos, consolidou-se a percepção de que o patriotismo possuía representantes mais legítimos do que outros, como se o compromisso com o Brasil pudesse ser medido pela intensidade com que alguém empunha uma bandeira ou denuncia interferências estrangeiras. Esse princípio deixou de ser apenas um valor constitucional para transformar-se também em um marcador de identidade política.

Foi essa construção simbólica que os acontecimentos recentes colocaram sob escrutínio. Naturalmente, seria um erro tratar a direita brasileira como um bloco homogêneo. Existem diferenças importantes entre suas correntes, lideranças e interpretações sobre política externa. Ainda assim, parte significativa das manifestações públicas revelou um contraste difícil de ignorar. Em muitos casos, o foco principal das críticas voltou-se para o governo Lula, enquanto as medidas adotadas por Washington foram relativizadas, justificadas ou deslocadas para um plano secundário.

CRITÉRIO – Criticar o governo brasileiro é não apenas legítimo, mas indispensável em qualquer democracia. O problema não está na crítica. Está no critério utilizado para formulá-la. Se a defesa da autonomia nacional perde intensidade justamente quando interesses brasileiros são afetados por um governo ideologicamente próximo, ela deixa de funcionar como um princípio permanente e passa a depender da identidade de quem pratica a ação.

Essa distinção é decisiva. Em política, a coerência não se mede pela intensidade das convicções, mas pela disposição de aplicá-las inclusive quando elas contrariam nossos próprios aliados.

Existe o patriotismo dos símbolos e existe o patriotismo dos princípios. O primeiro manifesta-se em bandeiras, slogans, discursos e demonstrações públicas de pertencimento. O segundo revela-se na capacidade de aplicar os mesmos critérios aos aliados e aos adversários, aos governos que admiramos e àqueles que criticamos. Um fortalece identidades políticas. O outro fortalece instituições.

ORDEM DAS LEALDADES – Esse talvez seja um dos efeitos mais profundos da polarização contemporânea. Ela não elimina princípios; altera a ordem das lealdades. A autonomia do país continua sendo defendida, mas apenas diante de determinados atores. A independência nacional permanece como discurso, desde que não imponha custos às afinidades ideológicas. Os princípios não desaparecem. Tornam-se condicionais.

A seletividade moral não escolhe ideologias. Ela prospera sempre que a identidade política passa a valer mais do que os critérios que cada grupo afirma defender. O episódio recente, contudo, possui uma particularidade. Não porque tenha inaugurado essa contradição, mas porque a tornou impossível de ignorar.

Quem hoje enfrenta esse teste é justamente o campo político que mais reivindicou para si a condição de guardião da autonomia nacional. Quanto mais central é um princípio no discurso de um movimento político, maior tende a ser a expectativa de coerência quando esse princípio é colocado à prova.

PATRIMÔNIO SIMBÓLICO – Talvez o maior erro da política brasileira tenha sido permitir que a bandeira deixasse de representar um espaço comum para transformar-se em patrimônio simbólico de uma facção. Símbolos nacionais cumprem sua função precisamente porque pertencem a todos. Quando passam a distinguir grupos políticos, continuam sendo símbolos. Mas deixam de cumprir sua principal missão republicana: lembrar que a nação é maior do que qualquer governo, partido ou liderança.

O patriotismo nunca é realmente testado quando o interesse nacional coincide com o de aliados políticos. Seu momento de verdade começa quando essas duas escolhas deixam de ser a mesma. É nesse instante que slogans perdem força, discursos deixam de bastar e resta apenas um critério: aplicar aos aliados as mesmas exigências dirigidas aos adversários.

É ali que se mede a consistência de qualquer projeto político. Valores só demonstram sua força quando resistem às conveniências do momento. Se mudam conforme a identidade de quem os desafia, deixam de orientar a ação pública e passam a servir apenas como argumento de ocasião. No fim, nenhuma bandeira é capaz de substituir a coerência. Quando um ideal vale apenas contra os adversários, ele já não orienta escolhas; apenas justifica preferências.

O futuro incerto do bolsonarismo, sem haver alinhamento entre Flávio e Michelle

Michelle e Flávio entram em guerra pela herança política de Jair Bolsonaro

Confronto surpreendeu aliados do ex-presidente

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Desde sua ascensão nacional, o bolsonarismo acumulou divergências internas, rompimentos políticos e disputas por influência que, em diferentes momentos, ganharam projeção pública. Várias dessas crises deixaram marcas profundas e provocaram o afastamento de figuras que participaram da construção do movimento. Ainda assim, prevaleceu a capacidade de recompor alianças, estabelecer convergências pontuais e preservar uma narrativa de unidade capaz de manter mobilizada sua base social.

É justamente por isso que o embate entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro merece atenção. Mais do que uma divergência circunstancial, o episódio sugere que instrumentos que durante anos ajudaram a administrar tensões internas já não operam com a mesma eficácia. O conflito expõe um ambiente em que disputas antes absorvidas pelo próprio movimento passaram a refletir uma questão mais ampla: a dificuldade crescente da direita bolsonarista em acomodar interesses, lideranças e projetos para um futuro que deixou de ser uma discussão abstrata e passou a influenciar o presente.

SIMBOLOGIA – A controvérsia ganhou relevância não pelo conteúdo específico do desentendimento, mas pelo que ela simboliza. Ao longo de sua trajetória, o bolsonarismo construiu uma imagem de unidade que se mostrou decisiva para sua consolidação como principal força da direita brasileira. Mesmo diante de crises políticas, derrotas eleitorais, investigações e rompimentos com antigos aliados, a preservação dessa coesão foi tratada como um ativo estratégico. A exposição pública de um conflito envolvendo dois dos nomes mais importantes do universo bolsonarista rompe parcialmente essa lógica e lança luz sobre tensões que vinham se acumulando desde a derrota eleitoral de 2022.

Seria um erro interpretar o episódio apenas como uma disputa familiar. Também seria precipitado enxergá-lo como prova de uma ruptura iminente. O aspecto politicamente relevante está no fato de que a divergência se tornou pública. Na política, especialmente em movimentos fortemente centralizados, conflitos internos costumam ser administrados longe dos holofotes. Quando deixam os bastidores, revelam não apenas diferenças de posição, mas mudanças na forma como lideranças percebem seu papel, seu espaço e sua capacidade de influência.

Essa observação é particularmente importante no caso de Michelle Bolsonaro. Nos últimos anos, ela deixou de ocupar apenas uma função associada à trajetória política do marido para construir uma posição própria dentro do campo conservador. Sua interlocução com lideranças religiosas e sua capacidade de comunicação com mulheres transformaram-na em um dos ativos políticos mais valiosos da direita brasileira. Trata-se de um patrimônio político construído gradualmente e que passou a ter relevância própria, independentemente da função institucional que ela ocupou no passado.

DIFICULDADE DE EXPANSÃO – A importância desse movimento torna-se ainda mais evidente quando observada sob a perspectiva eleitoral. As mulheres representam um dos segmentos nos quais o bolsonarismo historicamente encontrou maiores dificuldades de expansão. Diversos levantamentos realizados nos últimos anos mostraram uma diferença persistente entre a receptividade masculina e feminina ao projeto político liderado por Jair Bolsonaro. Michelle tornou-se uma das principais apostas para reduzir essa distância. Sua imagem pública foi construída justamente sobre características capazes de dialogar com parcelas do eleitorado menos identificadas com o estilo de confronto que marcou a trajetória do ex-presidente.

Ao mesmo tempo, sua influência junto ao eleitorado evangélico adquiriu importância crescente. O segmento consolidou-se como uma das bases mais organizadas e mobilizadas da direita brasileira. Nesse ambiente, Michelle conquistou legitimidade própria, estabeleceu relações políticas relevantes e ampliou sua capacidade de interlocução. Isso ajuda a compreender por que sua atuação passou a produzir efeitos que já não podem ser interpretados apenas como reflexos automáticos da liderança de Jair Bolsonaro.

É nesse contexto que a figura de Flávio Bolsonaro assume papel central na análise do episódio. Entre os integrantes da família, ele é o nome que há mais tempo busca construir uma trajetória política nacional capaz de transcender a condição de herdeiro do capital eleitoral do pai. Sua atuação nos últimos anos revela um esforço permanente para ampliar influência, consolidar protagonismo e ocupar espaço relevante nas discussões sobre o futuro da direita. A inelegibilidade de Jair Bolsonaro tornou esse processo ainda mais importante, pois introduziu um elemento novo na dinâmica interna do bolsonarismo: a necessidade de discutir alternativas sem que exista uma definição clara sobre quem deverá conduzir o movimento no próximo ciclo político.

LIDERANÇAS AUTÔNOMAS – A controvérsia entre Michelle e Flávio torna-se relevante justamente porque ocorre nesse ambiente. Não se trata de uma disputa formal por candidatura nem de uma competição aberta pela liderança do campo conservador. Os fatos não autorizam conclusões dessa natureza. O que eles permitem observar é algo diferente: a coexistência de lideranças que passaram a acumular influência suficiente para atuar com graus crescentes de autonomia.

Michelle ampliou sua influência junto a segmentos estratégicos do eleitorado. Flávio trabalha para consolidar protagonismo nacional. Lideranças religiosas aumentaram seu peso nas decisões do campo conservador. Governadores de direita buscam ampliar sua projeção política. Ao mesmo tempo, dirigentes partidários passaram a defender agendas nem sempre convergentes. Nenhum desses movimentos é extraordinário quando analisado isoladamente. Em conjunto, porém, eles revelam uma transformação importante.

Durante boa parte de sua trajetória, o bolsonarismo manteve relativa coesão apesar das diferenças existentes entre suas correntes políticas, religiosas e partidárias. A liderança de Jair Bolsonaro funcionou como mecanismo de coordenação, referência eleitoral e fonte de legitimidade para os diferentes segmentos que orbitavam o movimento. A derrota presidencial de 2022 e a posterior inelegibilidade do ex-presidente não eliminaram essa centralidade, mas modificaram o ambiente em que ela opera. Pela primeira vez desde a ascensão do bolsonarismo ao centro da política nacional, a discussão sobre o futuro deixou de ser uma questão abstrata e passou a influenciar diretamente o comportamento de suas lideranças.

VISIBILIDADE – Esse é o aspecto mais importante do episódio. A divergência pública entre Michelle e Flávio sugere que determinadas tensões já não podem ser administradas exclusivamente pelos mecanismos que garantiram a coesão do movimento nos últimos anos. O problema não é a existência de conflitos. Toda força política relevante convive com disputas internas. O que chama atenção é sua crescente visibilidade. Quando divergências passam a ocupar o espaço público, elas revelam mudanças na distribuição de influência e na percepção de poder dentro de uma organização política.

Por essa razão, a controvérsia repercutiu muito além do conteúdo imediato do desentendimento. A questão central não é quem saiu fortalecido, quem estava correto ou quem obteve vantagem momentânea. O episódio importa porque oferece uma rara oportunidade de observar a dinâmica interna de um movimento que, durante anos, construiu sua identidade política em torno da unidade proporcionada por uma liderança central. Hoje, diferentes atores começam a ampliar seu espaço próprio de atuação e a disputar legitimidade junto a segmentos específicos do eleitorado conservador.

A controvérsia entre Michelle e Flávio não comprova qualquer cenário inevitável de fragmentação. Seu significado é mais sutil e talvez mais importante. O episódio revela que a disputa pela herança política de Bolsonaro deixou de ser uma questão reservada ao futuro e passou a influenciar o presente.

DISPUTAS – Pela primeira vez, tensões que durante anos permaneceram subordinadas à autoridade do ex-presidente começam a se manifestar de forma visível dentro do próprio núcleo que simboliza o movimento. Trata-se do início de uma disputa por representação política, influência e legitimidade dentro do campo conservador.

O episódio revela as dificuldades de uma força política que agora se vê diante da tarefa mais delicada de sua trajetória: administrar a disputa por seu próprio legado. A questão já não é apenas quem enfrentará a esquerda, o Supremo ou o governo. A questão é quem falará em nome do bolsonarismo quando diferentes setores do movimento começarem a reivindicar essa condição para si.

A história política mostra que projetos personalistas raramente entram em declínio por causa de seus adversários. Com frequência, começam a perder força quando as disputas internas passam a ser maiores do que os consensos que os mantinham unidos. O conflito entre Michelle e Flávio não autoriza previsões definitivas sobre o destino do bolsonarismo. Mas revela que a disputa por seu legado deixou de ser uma questão do amanhã. Ela já influencia o presente — e começa a redesenhar as relações de poder dentro do próprio movimento.

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