Rede de investigações atinge o núcleo político de Flávio
Marcelo Copelli
Revista Fórum
O problema de Flávio Bolsonaro deixou de caber dentro de um filme. A operação deflagrada nesta quinta-feira pela Polícia Federal, somada à homologação da delação de um operador de Daniel Vorcaro, tirou o caso Dark Horse do terreno estreito do financiamento de uma cinebiografia e o colocou no centro de uma investigação sobre recursos privados, emendas parlamentares, contratos públicos e uma cadeia de intermediários ainda em apuração. O que era uma pergunta sobre dinheiro de um empresário virou uma pergunta sobre uma estrutura.
A negociação original é conhecida: Flávio tratou diretamente com Vorcaro o financiamento da produção sobre a vida de Jair Bolsonaro, orçado em R$ 134 milhões, dos quais ao menos R$ 63,7 milhões já teriam sido pagos, parte por meio do Havengate Development Fund, nos Estados Unidos.
REPASSE ADICIONAL – Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou, nos últimos dias, um repasse adicional de cerca de R$ 8,5 milhões ao fundo — valor que não constava nas movimentações conhecidas até então. Questionado, Flávio disse não ter como saber os detalhes e remeteu as perguntas à produtora.
Essa explicação passou a enfrentar um problema maior na quarta-feira, quando foi homologada a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, apontado como operador financeiro de Vorcaro. Freixo relatou transferências ligadas ao Havengate e movimentações em espécie — informações que a Justiça ainda precisa confrontar com documentos, mas que já deslocam o centro de gravidade do caso: não se trata mais de um pagamento isolado, e sim de um fluxo com vários pontos de passagem.
Logo em seguida, a Operação Make Up cumpriu 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal, tendo como alvos o deputado Mario Frias — produtor-executivo e roteirista de Dark Horse — e Karina Ferreira da Gama, à frente da produtora Go Up Entertainment. A apuração investiga desvio de emendas parlamentares e contratos municipais, entre eles R$ 1 milhão destinado por Frias ao Instituto Conhecer Brasil para um projeto de empreendedorismo que, segundo a investigação, não chegou a ser executado, além de contratos do instituto com a Prefeitura de São Paulo.
TAMANHO DO TABULEIRO – Nada disso prova, até aqui, que dinheiro público tenha financiado o filme; essa ligação cabe à apuração demonstrar, e Flávio não foi alvo da operação desta quinta-feira. O que já mudou é o tamanho do tabuleiro: onde antes havia uma relação entre dois nomes, agora há uma rede de empresas, agentes públicos e movimentações que orbitam a mesma produção — e que atingem diretamente o entorno político do senador.
É essa mudança de escala, e não a existência da investigação em si, que fragiliza politicamente Flávio Bolsonaro. Contestar decisões judiciais e denunciar motivação política são prerrogativas legítimas. Mas cada novo operador e cada novo repasse tornam mais custosa a tentativa de desvincular-se da execução financeira de um projeto cujo financiamento ele mesmo negociou com Vorcaro — uma distância que deixou de ser apenas uma questão de comunicação e passou a ser uma questão de credibilidade.
Há, além disso, um problema de coerência: Flávio cobrou publicamente esclarecimentos rigorosos de outros nomes ligados a Vorcaro. Aplicar padrão diferente quando a mesma rede alcança um projeto da própria família esvazia o discurso que ele mesmo construiu.
RESPOSTA AUTOMÁTICA – É nesse contexto — não como capítulo à parte — que a pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta semana, ganha peso: Lula e Flávio aparecem empatados em 41% num eventual segundo turno, em levantamento feito entre 3 e 6 de setembro, antes da operação policial. O empate não decorre do caso Dark Horse, mas explica por que o caso importa: Flávio deixou de ser apenas um filho de Bolsonaro disputando espaço na direita e passou a ser candidato que precisa de eleitores fora do núcleo bolsonarista mais fiel — um público para o qual a resposta automática de “perseguição” pode não ser suficiente.
É justamente esse eleitorado, mais sensível a temas de gestão e transparência do que à disputa entre bolsonarismo e antibolsonarismo, que cobra de Flávio algo além de reafirmar lealdade à família: uma explicação que resista ao escrutínio fora da bolha que hoje sustenta sua candidatura.
CONVERGÊNCIA – A investigação segue aberta. A delação de Freixo terá de ser confrontada com provas; as suspeitas sobre emendas e contratos públicos precisam de comprovação; as conexões entre as diferentes frentes ainda serão estabelecidas. Mas Dark Horse já não é apenas um filme com financiamento controverso: tornou-se um ponto de convergência de investigações que envolvem dinheiro privado, recursos públicos e uma cadeia de operadores hoje sob exame da Polícia Federal.
Flávio Bolsonaro pode continuar contestando a investigação. O que mudou nesta semana é que Dark Horse deixou de ser apenas um problema de financiamento. Para um candidato à Presidência, passou a ser também um problema de credibilidade política.





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