EUA querem se engajar com Brasil e acordo sobre clima é possível, diz analista norte-americano

Bolsonaro é ineficaz”, diz Ian Bremmer, especialista em prever crises | VEJA

Ian Bremmer, da Eurasia, diz que o acordo será monitorado

Caio Quero
BBC News Brasil

Os Estados Unidos querem um engajamento mais próximo com o governo brasileiro e é possível que a Cúpula de Líderes sobre o Clima, que o governo de Joe Biden organiza nesta semana, termine com um acordo pelo qual o Brasil receba dinheiro para auxiliar na preservação da Amazônia. A avaliação é do cientista político americano Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco Eurasia e um dos analistas mais ouvidos por investidores internacionais e empresários em todo o mundo.

No entanto, reconhecendo os recordes de desmatamento registrados no Brasil, Bremmer afirma que qualquer liberação de recursos por parte dos EUA seria condicionada a progressos na preservação das florestas, que seriam cuidadosamente monitorados.

Como o mundo vê o Brasil hoje e como esta imagem é diferente da que o Brasil tinha antes? Qual imagem que o Brasil vende hoje para investidores e políticos ao redor do mundo?
Primeiramente, estamos no meio da pior crise que experimentamos em nossas vidas e o governo brasileiro está sendo visto como tendo administrado mal esta crise, como outros países do G20. Isto foi claramente uma ‘mancha’ importante para o Brasil.

Nesta semana, Bolsonaro vai participar da Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pelo governo Biden. O governo brasileiro espera receber recursos e investimentos da ordem de US$ 1 bilhão para preservar a Amazônia, enquanto os EUA estão sendo pressionados por ativistas a não fazer um acordo com o governo Bolsonaro. O senhor acha é possível um acordo pelo qual o Brasil receba recursos para proteger a Amazônia?
Eu acho. Eu penso realmente que está havendo progresso na relação Estados Unidos-Brasil agora. Os Estados Unidos não foram o melhor líder em termos de políticas relacionadas ao clima, com idas e vindas. Então, John Kerry (enviado especial do governo americano para o clima) e Biden podem dizer que os Estados Unidos estão de volta, mas muitos países do mundo não estão tão convencidos. Enquanto isso, o Brasil lidera o mundo em termos de desmatamento, o que é algo horrível. Mas, historicamente, a maior parte das emissões de carbono e a maior parte do desmatamento foi feita pelos países ricos. Então, se você for um país de renda média, como o Brasil, e os países ricos vêm e dizem que você tem que cuidar do clima, é compreensível que você diga, “vocês é que são responsáveis por destruir o clima e vocês têm muito mais dinheiro, o que vão fazer para nos ajudar?”. Eu não acho que isso seja hipócrita.

A Índia está na mesma situação, por exemplo. Eles estão preparados para um acordo agressivo de emissão zero de carbono, mas somente se os países ricos estiverem preparados para dar subsídios significativos.

John Kerry escreveu no Twitter que queria ver ações práticas por parte do Brasil antes de qualquer tipo de ajuda. O senhor acha que os Estados Unidos irão acreditar nas promessas do governo Bolsonaro? Porque, ao mesmo tempo em que Bolsonaro prometeu acabar com o desmatamento ilegal até 2030, seu ministro do Meio Ambiente está sendo acusado de apoiar madeireiros ilegais. Os Estados Unidos e a comunidade internacional vão acreditar nas promessas de Bolsonaro?
Há muita corrupção no Brasil, houve e ainda há. E não há tanta transparência quanto gostaríamos. E nós entendemos que o nível extraordinário de desmatamento é algo que tem um componente econômico atrelado. E os criadores de gado e fazendeiros estão muito envolvidos e os militares não foram tão construtivos em mudar isso como gostaríamos. Eu acho que se vier dinheiro significativo por parte dos Estados Unidos, e se este dinheiro for condicionado, isto vai requerer um nível de confirmação (de não desmatamento) em campo e com satélites antes que este dinheiro seja liberado. Eu não acho que será apenas uma questão de confiança cega, eu acho que haverá verificações e acho que os dois lados vão entrar nisso com os olhos abertos.

Esta cúpula é de longe o mais importante esforço multilateral e diplomático até agora do governo Biden, e o Brasil é um componente significativo dele. Se você estava me perguntando se haverá progresso, a resposta é sim, eu acho que haverá progresso. Mas colocar em prática este progresso ainda será uma tarefa complicada.

Voltando à pandemia, o senhor disse que o modo como o governo Bolsonaro está lidando com ela é, no mínimo, problemático. O senhor acha que pode haver consequências internacionais políticas e econômicas por isso? Sanções, proibições de viagens, boicotes?
Não, eu não vejo boicotes. O fato é que o Brasil é uma destinação turística de nível mundial, qualquer um que tenha ido ao Rio sabe que é um lugar único. E o povo brasileiro é extraordinário, hospitaleiro e cosmopolita. Então, este é um lugar para onde você quer ir. Quando nós abrimos nosso primeiro escritório no Brasil, em São Paulo, não posso lhe dizer como me deixou feliz, por que me dava uma desculpa para viajar.

Mas eu não vou ao Brasil agora. Vocês têm milhares de pessoas morrendo todos os dias. E isto não deve melhorar tão cedo, já que vocês não têm um nível de vacinação como há nos EUA ou em outros países, como o Chile.

7 thoughts on “EUA querem se engajar com Brasil e acordo sobre clima é possível, diz analista norte-americano

  1. Sim, é possível que o próximo encontro sobre o clima termine com um acordo pelo qual o Brasil receba dinheiro para auxiliar na preservação da Amazônia.
    Isso é quase óbvio – regra sabida que em qualquer acordo não deve haver um só ganhador. Tem que haver concessão das duas partes. Mas há um porém nesse caso: os USA tem todos os ases, os valetes e os reis! E o Brasil, o pires!
    Guess who is going to win.

  2. Carlos Newton, em 20 de agosto de 2019, escreveu, com todas as letras:

    “A floresta limpa a sujeira do ar? Quem suja? São as nações que já derrubaram suas florestas? Se é assim, por qual razão essas nações não pagam pela faxina?

    Hoje, o cientista político americano Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco Eurasia e um dos analistas mais ouvidos por investidores internacionais e empresários em todo o mundo, declarou na entrevista acima escrita:

    “Mas, historicamente, a maior parte das emissões de carbono e a maior parte do desmatamento foi feita pelos países ricos. Então, se você for um país de renda média, como o Brasil, e os países ricos vêm e dizem que você tem que cuidar do clima, é compreensível que você diga, “vocês é que são responsáveis por destruir o clima e vocês têm muito mais dinheiro, o que vão fazer para nos ajudar?”. Eu não acho que isso seja hipócrita.

    As afirmativas são de mesmo quilate. Apenas os diversos governos que passaram pelo Brasil foram surdos e omissos com relação ao que interessava para o país.

  3. Eles não vão tomar; nós vamos entregar e depois eles criarão empregos/trabalho para os locais monitorarem o seu “deles” território.
    Tanto fizeram que conseguiram.
    Não é a toa que se diz que os EUA planejam para cinquenta anos na frente.

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