Falta de vacinas e ausência de estratégia acentuam a desorientação do governo federal

Charge do Nando Motta (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O governo Bolsonaro, na área crítica da Saúde e da pandemia, esqueceu que a vacinação exige dose dupla do imunizante, o que faz com que as encomendas tivessem que incluir no cálculo o dobro de cada unidade, uma vez que tanto a Coronavac, quanto a Pfizer e a AstraZeneca exigem dose dupla da vacina, sem a qual a imunização não está completa. Portanto, não resolve o desafio da pandemia.

Este ponto é fundamental, sobretudo para acentuar o erro do governo, rejeitando a primeira oferta de vacinas feitas pela Pfizer e hostilizando a Coronavac chinesa e a própria China, o que está causando um atraso muito grande para a aplicação da segunda dose.

SUCESSÃO DE ERROS – Reportagem de Leandro Prazeres, O Globo desta segunda-feira, revela mais um capítulo na sucessão de erros que marcaram a administração do general Eduardo Pazuello, cuja equipe encomendou um manual para tratamento precoce contra a Covid-19, e cujo conteúdo colide com pareceres científicos. Acrescenta a matéria que foi objeto de análise o uso de medicamentos sem eficácia comprovada. Mas a encomenda custou recursos financeiros.

Sobre a questão da aquisição de vacinas, causou surpresa a entrevista do ministro Gilmar Mendes, do STF, a Bela Megale, Aguirre Talento e Thiago Bronzatto, O Globo de domingo, na qual informou ter sido procurado pelo menos duas vezes por Fabio Wajngarten , ex-chefe da Secom, para falar sobre compra e  entrega de vacinas contra a pandemia.

Francamente não vejo qualquer lógica  na iniciativa de Wajngarten ao procurar o ministro do Supremo Tribunal Federal. Antes do ex-chefe da Secom, também estiveram no gabinete de Gilmar Mendes o então ministro Eduardo Pazuello e o ex-ministro José Levi, que estava à frente da Advocacia Geral da União.

EXIGÊNCIAS – Pazuello tinha falado, destaca Gilmar Mendes, que havia no contrato proposto pela Pfizer exigências de arbitragem e exigência de que não fossem responsabilizados no Brasil na hipótese de reações contrárias. Fabio Wajngarten queixou-se da burocracia e, em uma das vezes que procurou Gilmar Mendes, passou a defender também a vacina russa Sputnik V.

Gilmar Mendes, no início da entrevista, disse que a gestão da Saúde no caso da pandemia foi péssima para o Brasil. Deixou claro que o general Pazuello não tinha conhecimento suficiente para levar a plano concreto o programa da vacinação.

A entrevista foi publicada com grande destaque e deixou claro que Pazuello estava com problema relativo à legalidade de contrato da Pfizer. Em uma conversa informal, o ministro do STF afirmou que vários países estavam fechando contrato com a farmacêutica e que não via grandes obstáculos para a negociação.

DESORIENTAÇÃO – Para mim, parece mais um episódio que acentua a desorientação do governo Jair Bolsonaro. A falta de vacinas comprova o que digo e destaca a ausência de uma estratégia a respeito dos acordos de cooperação e fornecimento.

A estratégia do Planalto falhou, pois não previu o que era simples: se você vai vacinar 100 milhões de brasileiros, pelo menos necessita de 200 milhões de doses. O cálculo é simples. Quanto maior o número de pessoas vacinadas, melhor. Não há problema algum, mas o governo não levou em consideração.

CPI DA PANDEMIA –  Hoje, terça-feira, prosseguem os trabalhos da CPI da Pandemia, ouvindo o ex-chanceler Ernesto Araújo, cujo comportamento preocupa o Palácio do Planalto, sobretudo pela falta de rumo lógico que demonstrou não possuir quando ocupou o Ministério das Relações Exteriores. Foi um desastre.

Ernesto Araújo foi o primeiro a sustentar que a China havia criado o coronavírus em laboratório como uma das bases de sua política de estender sua influência em todo o mundo. O que Araújo foi capaz de formular, infelizmente, para o Brasil e para os brasileiros, foi também observado pelo presidente Jair Bolsonaro. Mais de uma vez. Agora o país espera remessa de insumos para que o Butantan possa processar as vacinas. Como se vê, o governo Bolsonaro não consegue acertar.

Chega a surpreender a sua vocação para o que foge à lógica e aos limites naturais da compreensão humana. O Brasil paga um preço muito alto em decorrência de tal ausência praticamente absoluta de normas de governo.

MEIO AMBIENTE –  O Globo de ontem publicou uma reportagem de página inteira de Renato Ranielli focalizando o desmatamento, as queimadas de florestas verdes e, acima de tudo, o registro irregular de posse de terras em áreas protegidas pela lei.

Uma tabela comparativa acompanha o tema, deixando claro que a Amazônia sofre fortemente as consequências de ter Ricardo Salles à frente da pasta e que se choca com a preocupação internacional com a questão, uma vez que não sendo levada a sério contribui para o aquecimento global do planeta.

NA CONTRAMÃO – O governo Bolsonaro, ao manter Salles, está assumindo uma posição absolutamente oposta defendida pelos ambientalistas e pelos técnicos no assunto. Há duas semanas circula na imprensa a notícia, inclusive observada no Fantástico de domingo, da TV Globo, sobre a presença de garimpo ilegal em rios do Pará.

Os garimpeiros estão infringindo a lei sob os olhos do ministério que deveria ser do Meio Ambiente, comprovando mais um desastre da atual administração do país com reflexos tanto na imagem interna, quanto na imagem externa do Brasil para si mesmo e do Brasil para constelação de nações fortemente interessadas no problema e no futuro. Mas o presidente Bolsonaro não se preocupa nem com o futuro e nem com o presente.

3 thoughts on “Falta de vacinas e ausência de estratégia acentuam a desorientação do governo federal

  1. Para Bolsonaro o único problema que interessa é o voto Impresso.
    Se for preciso ele facilmente arruma empresários (obviamente nacionalistas) para “financiarem” as mudanças…

  2. Passaram 15 anos fazendo estádios porque não fizeram uma fábrica de IFA ?????
    (ingrediente farmacêutico ativo).
    Não existem vacinas sobrando no mundo para vender. Quem falou foi um burocrata de luxo da famigerada OMC.

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