Militares se tornaram cúmplices de Bolsonaro na falsa crise e na crise permanente

General Mourão no Comando

Charge do Aroeira (Portal O Dia)

Carlos Andreazza

Militares — ao menos os de alta patente — não respaldam o golpismo de Jair Bolsonaro. Ok. Vá lá. Respaldam, porém, o governo por meio do qual Bolsonaro exercita seu golpismo. Isso é um fato. Serei generoso a respeito. Admitamos que tenha havido, entre os generais que embarcaram na canoa do capitão, os que desconhecessem a figura. (Falei que seria generoso.) Passados dois anos, contudo: se ficam, endossam. Se ficam, ante tudo quanto há, acumpliciam-se. Se ficam e se ficaram, os que saíram anteontem, de súbito democratas: cúmplices.

O governo é militar — e já vai tarde o tempo, um Pazuello de distância, em que se poderia reverter essa associação. É orgânica, embora tenha como marca a produção de cloroquina em laboratórios do Exército.

“MEU EXÉRCITO” – São cerca de 6 mil os militares (quase a metade, da ativa) incorporados à administração federal, em ministérios, inclusive os palacianos, e estatais. E é com assento neste corpo, na projeção de força que esta estrutura musculosa insinua, que o presidente da República fala — e continua a falar —em “meu Exército”.

O governo é militar — e autocrático. O presidente não se tornou este populista-autoritário na semana passada; e foi por ser o que é que atraiu tantos generais-helenos. A dança das cadeiras se dá em torno — e em função — de Bolsonaro. Um general vai; outro vem. As Forças Armadas, o Exército acima de todas, permanecem. Estão todos felizes nesta parceria; o que não exclui reacomodações eventuais.

DEMISSÃO DO MINISTRO – Sim: houve tensão no processo que resultou na queda de Azevedo e Silva. Não ficou claro o que Bolsonaro lhe teria pedido que ainda não tivesse entregado; sendo o ex-ministro da Defesa aquele, e não posso crer que obrigado, que sobrevoara, com o presidente, em helicóptero militar, uma manifestação golpista, e que continuaria no cargo mesmo depois de o chefe haver discursado em ato antidemocrático defronte ao QG do Exército.

O que mais queria Bolsonaro? O que mais quererá, que Azevedo e Silva não topou dar, e que Braga Netto — dedução lógica —toparia? (Sempre haverá quem tope, ou general Ramos não se teria transformado neste Carlos Marun fardado.)

Houve alguma tensão. Mas não a crise que se quis difundir — e que só faz o jogo do presidente.

SEM  MUDANÇAS – O que quer que tenha sido: nada que mudasse a relação de Bolsonaro com os militares. Nada nem sequer próximo de estremecer uma sociedade que — diga-se —tende a se aprofundar no novo arranjo. Ou, com Braga Netto na Defesa, teremos menos militares no governo? Ou, sob Braga Netto, não seria mais fácil esperar que esse número aumentasse?

Que crise será esta em que os partícipes todos engordam? Ora: só uma — um falso problema — que fosse forjada; e boa para todos os envolvidos.

O general demitido saiu plantando, com eficiência, que sua débâcle derivava de não ter aceitado pressão por apoio político — por mais apoio político, né? — das Forças Armadas ao governo. E, desse modo, sem maiores questionamentos, foi para casa beatificado, um guerreiro em defesa da democracia e das Armas como instituições de Estado; como se não tivesse assinado, nos 31 de março de 2019 e 2020, ordens do dia cujas exaltações ao golpe de 1964 foram mais intensas que a de 2021.

TODOS FELIZES – Virou herói. Contou sua história, não foi chamado a detalhá-la ao Senado e virou santo, assim como Bolsonaro virara defensor da vacinação em massa. E ficaram todos felizes: o democrata (desde a véspera) e o golpista (sem dentes para dar golpe); os perigos obscuros sugeridos por Azevedo e Silva alimentando o terrorismo — banguela — do presidente.

Era tudo de que Bolsonaro precisava. Uma crise artificial— conflito forjado — para demonstrar força, que não tem, num período em que vai obviamente isolado, desprovido de recursos políticos para robustecer o governo que não os oferecidos por Arthur Lira.

Puro truque: fabricar um confronto para exibir quem manda, quem tem poder, enquanto, no mundo real, o Centrão derruba o ministro das Relações Exteriores, sequestra o Orçamento e chega ao Planalto tomando a articulação política.

FRACO E SOZINHO – Bolsonaro neste momento: um fraco, um sozinho, que tem os filhos como recursos humanos, e que estica a corda a cada vez que tem essa miséria exposta. Arma-se um perigoso ciclo de instabilidade, que aguça — aí, sim — a crise real. Uma crise permanente. Porque o fraco, naturalmente, mostra fraqueza —e essa fraqueza evidente faz com que o fraco, sendo ele Bolsonaro, precise mostrar força. Assim giramos…

Azevedo e Silva serviu de escada para que o presidente desfilasse seu poder imaginário: aquele que demite os comandantes militares, que faz e acontece, sendo o mesmo que entrega latifúndios de seu governo em busca de sustentação e blindagem.

A questão é lógica: ou Bolsonaro é mito ou precisa receber Valdemar da Costa Neto no Planalto. Isso implica uma pane em sua base de apoio fundamental, em resposta a que, para agradá-la, tem de radicalizar. E então radicaliza, com nova rodada de ataques aos tiranos governadores e mais referências ao “meu Exército” (fantasia que Azevedo e Silva fez parecer real) — ataques, entretanto, que não serão chancelados pelo sócio (de capital crescente) Centrão. Eis o ciclo da desgraça, da progressiva corrosão republicana. A crise constante. O nosso buraco. Contratado um país que, estando paralisado, não terá como andar tão cedo.

11 thoughts on “Militares se tornaram cúmplices de Bolsonaro na falsa crise e na crise permanente

  1. O comentário acima saiu truncado. Refaço-o:

    Agora sim: uma análise irretocável do fato em questão.

    Agora sim: uma análise que dispensa a auto-indulgência dos bolsonaristas de primeiras(?) águas que – por razões que a Razão refuta com veemência -, insistem em dizer que se sentem decepcionados, traídos pelo GENOCIDA que ajudaram a eleger.

    Diferentemente dessa postura, o presente artigo mostra, verdadeiramente, o que é uma matéria jornalística de excelente qualidade.

  2. Com a mudança da capital para Brasília a corrupção aumentou para tamanho descomunal e se transformou em instituição.

    Hoje, sem dúvida, é a instituição mais poderosa do Brasil. Infelizmente.

  3. Atualíssimo o artigo do Andreazza, com críticas necessária e construtivas, procedentes, que, aliás, devem ser repetidas todos os dias, à exaustão, até porque o meio político sofre de alzheimer, ao que parece, ou se finge de avestruz, não tem olhos, ouvidos e nem memória para outra coisa que não seja dinheiro fácil e rápido que lhe permita comprar mansões, etc., etc. e tal. GOVERNOS MILITARES, de repúblicas tipo 171, que avocam para si todos os poderes das ditas-cujas, não têm condições de ser outra coisa senão assalto a mão armada ao erário, salvo exceções. Que tal intervenção militar na PQP, até porque o Brasil, na verdade, há muito tempo, está necessitando de solução política e não de mais intervenções militares na política ? Será que, politicamente falando, não existe outro jeito mais eficiente de fazer o Brasil funcionar a contento, além dessas porras-loucas de militarismo e partidarismo, politiqueiro$, e seus tentáculos, velhaco$, que vivem em permanente estado de guerra tribal, primitiva e insana por dinheiro, poder, vantagens e privilégios, sem limite$, à moda todos os bônus para ele$ e o resto que se dane como os ônus, que nos roubam, nos fazem seus reféns, nos escravizam e infernizam as nossas vidas há 131 anos ? É desanimador ver loucos e loucas pedindo mais intervenção militar com um governo cheio de militares saindo até pelos ladrões da república curva de rio, que há mais de 60 anos transpira decadência terminal por todos os seus poros. Peraí, peraí, peraí…, mais intervenção militar do que isso que aí está, só se o Bolsonaro começar a enfiar milicos e milicianos dentro das nossas casas para estuprar as nossas mulheres, filhas, netas… Vão arrumar mais o que fazer, seus desocupados, sem noção. A intervenção que o Brasil está necessitando há muito tempo é um intervenção social direta, uma Revolução Redentora, da política, do país e da população, como propõe a RPL-PNBC-DD-ME, o Projeto Novo e Alternativo de Política e de Nação, o novo caminho para o novo Brasil de verdade, com Democracia Direta e Meritocracia, para fazer um limpa geral inclusive na seara militar, onde tb tem muito marajá ganhando muito sem fazer nada, produtividade zero, máxime porque não dá mais para continuar adiando a solução da roubalheira insaciável concentrada em Brasília, a Ilha da Fantasia do sistema apodrecido, um brutal desperdício de dinheiro publico. Ademais, o Brasil e o povo brasileiro não tem mais condições de continuarem à mercê de um modelo de república tipo eterno fim de feira, com o seu ciclo de poder e de cobertura do território e do conjunto da população completamente exaurido, muito aquém das demandas, dos compromissos e dos desafios nacionais e internacionais, com o seu prazo de validade vencido há muito tempo. https://www.esmaelmorais.com.br/2021/04/bolsonaristas-e-negacionistas-em-nome-de-messias-se-unem-em-marcha-da-morte-contra-o-stf/?fbclid=IwAR3LH9XDv2pR0xE6IU9OWYYqQRzH5HFhj9y8N8yu13cRQ2zSRGSiTcQ9f5U

  4. Os militares, pelo menos os que tem mais de um neurônio não vão apoiar golpe de estado nenhum. Porque garantir o emprego de um maluco, temos aí o exemplo disto, o Maduro, pior do que ele existe? Não. Com uma ditadura com o mito no comando seria a repetição do caos venezuelano, e duvido que qualquer um em sã consciência não queria isto para nós. Pior do que está fica? Com certeza, é só reeleger o mito em 2022. A coisa agora é achar a tal terceira via.

  5. Sr° Carlos Andreazza, com a devida Vênia, só ampliou num texto meio poético,o que nós estamos afirmando algum tempo.

    Ainda ontem,no texto do ROBERTO NASCIMENTO,fiz a interpretação do q. representa para nós o símbolo Idi Amim Dadá…

    No momento, Sr° Bolsonaro,com esses afagos aos milicos,tipo “SALVO CONDUTO”,agem exatamente igual Idi Amim,Hugo Chaves.

    A meu ver, Bolsonaro, aínda não tem as FFAA,na mão.
    Vai ter,qd. houver as próximas promoções que são por antiguidade, merecimento, conhecimento,pelo QI,Qindica.
    Aí é o “probrema”.

    O STF, é o próximo da mira dos Bolsonaristas, terá a escolha pelo QI -Qi,salvo melhor juízo do congresso.

    Mais o centrão da periculosidade,os Milicianos fortemente armados,como foi comprovado ontem no fantástico, não tenho dúvida em 22
    Uganda, é aqui.

    Pense nisso.
    Abrem os olhos da mente.

  6. UMA ANÁLISE IRRETOCÁVEL

    Agora sim: uma análise que dispensa a auto-indulgência dos bolsonaristas de primeiras(?) águas que – por razões que a Razão refuta com veemência -, insistem em dizer que se sentem decepcionados, traídos pelo GENOCIDA que ajudaram a eleger.

    Diferentemente dessa postura, o presente artigo mostra, verdadeiramente, o que é uma matéria jornalística de excelente qualidade.

  7. Irretocável.

    Parabéns ao Celso.

    Tentei dizer próximo disso , chamando de farsa a ” preocupação com a democracia ” dada por todos os militares.
    CN gentilmente postou matéria de brasilianista francesa dizendo o obvio: os militares querem, trabalharam para isso estão e são o poder.

    Mas como não tenho a competência do Celso, ficou meio perdido.

    O resultado é um presente de sobressaltos e um futuro incerto e temido.

    Mas o pior é de que nada que se diga, prove, mostre e argumente, sequer arranha a sólida e fanática convicção dos bolsonaristas.

    Como dizia JK, “Deus me poupou o sentimento do medo”, mas o dissabor da volta dos milicos e o terror de um nazismo tropical começam a ficar no meu horizonte.

    Parabéns e abraço a todos

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