Mourão não sabe o que se discute no Planalto, mas diz que Exército acendeu ‘luz amarela’ ao não punir Pazuello

Hamilton Mourão

Bolsonaro rompeu com Mourão e não quer mais conversa

Felipe Frazão e Andreza Matais,

Estadão

Isolado no governo, o vice-presidente Hamilton Mourão afirma que não sabe o que se discute no Planalto. “É muito chato o presidente fazer uma reunião com os ministros e deixar seu vice-presidente de fora”, diz, em tom de desabafo. Em entrevista ao Estadão, ele avalia que isso não é bom para a sociedade. “Eventualmente, eu tenho que substituir o presidente e, se não sei o que está acontecendo, como vou substituir? Não há condições.”

Durante a conversa, realizada por videoconferência por medidas de isolamento social na pandemia, o vice revelou um exemplo concreto de sua exclusão no governo: ele se ofereceu para chefiar a delegação brasileira nas cúpulas do Clima e da Biodiversidade da ONU, neste ano, mas ficou sem resposta até agora.

Passados dois anos da eleição, o projeto vitorioso nas urnas, do qual o senhor participou, foi desvirtuado?
Acho que tem se tentado levar avante aquilo que foi prometido na campanha eleitoral. Agora, com as dificuldades, limitações. Às vezes de nossa própria parte, né? Não é simples, porque grande parte das maiores promessas, vamos falar assim, principalmente aquelas ligadas às reformas estruturais do País, tem obrigatoriamente de passar por dentro do Congresso. É uma negociação difícil, não é simples.

A população acabou escolhendo o presidente em um contraponto com o que o País viveu com o PT. Seria um governo que não faria o toma lá dá cá com o Congresso e enfrentaria a corrupção. Nesse sentido, como o senhor vê essa relação que foi estabelecida com o Legislativo?
Em relação ao relacionamento com o Congresso, a gente não pode ser anjo. A realidade é que se você quer ter um governo estável no Brasil, tem de fazer composição. No primeiro momento, o presidente decidiu não fazer dessa forma, usou aquelas bancadas temáticas, que cada uma tem “n” partidos e, no fim das contas, termina por não haver ação conjunta. E, num segundo momento, definiu que tinha de chamar os partidos do Centrão para operar junto com a gente. E, é óbvio, cedeu ministérios. Felizmente, não temos escândalos de corrupção nos ministérios.

Tem um ministro investigado pela Polícia Federal (Ricardo Salles, do Meio Ambiente).
Pode ser um desvio de conduta da ação dele como ministro, mas não especificamente de uso de recurso público como houve em outras ocasiões, sem querer defender ninguém.

O ‘Estadão’ tem revelado a série de reportagens do “orçamento secreto”, um esquema de cooptação do Congresso. Incomoda o senhor esse distanciamento entre o que foi prometido com o que foi feito?
O que se viu foram as emendas individuais, de bancada, e agora surgiu essa de relator, praticamente tirando recursos do governo e colocando na mão do Congresso. Ficou complicado. Teve que haver negociação, se não perderíamos o controle sobre o Orçamento. Isso é um assunto que ainda vai ter de ser devidamente reorganizado, se não os governos ficarão totalmente à mercê dessa situação que está sendo vivida.

O senhor já disse que sente falta de participar mais do governo. Esse distanciamento tem se tornado nítido com o presidente, embora o senhor sempre se diga leal. O presidente e seu entorno, seus filhos, têm sido desleais ao alijá-lo?
É muito chato o presidente fazer uma reunião com os ministros e deixar seu vice-presidente de fora. É um sinal muito ruim para a sociedade como um todo. Eu, como vice-presidente, fico sem conhecer, sem saber o que está sendo discutido. Isso não é bom, não faz bem. Eventualmente, eu tenho que substituir o presidente e, se não sei o que está acontecendo, como vou substituir? Não há condições. Eu tenho um relacionamento muito bom com o senador Flávio e não vejo problema com os demais. Também já deixei claro que eu tenho uma visão de mundo e ele (Bolsonaro) tem outra. Isso é uma realidade.

Com que condições o Brasil poderá pleitear dinheiro aos americanos e europeus nas cúpulas climáticas na Escócia e na China, sob a liderança do ministro Ricardo Salles, investigado duplamente, suspeito de envolvimento com madeira ilegal? É possível que a participação do Brasil não seja um vexame?
Na nossa delegação, temos a turma das Relações Exteriores e a turma técnica do Meio Ambiente. Teria de ter uma terceira pessoa que coordenasse isso e fosse o árbitro de nossos interlocutores. Procurei me apresentar para isso. Por enquanto, ainda não recebi essa tarefa. Vamos aguardar. Defendo que nossa delegação chegue com posição firme, com medidas reais tomadas no intuito de mostrar nossa contribuição para redução da mudança climática. Nossas medidas estão intimamente ligadas à contenção do desmatamento ilegal, então temos de apresentar resultados nisso. Não posso ter na Amazônia só 40 agentes do Ibama. Tenho de ter 500. Tem de abrir concurso e botar os agentes para trabalhar, estabelecidos em bases com barco, com helicóptero, com capacidade de cumprir sua tarefa. Se não fizermos isso, não iremos avante.

Já convenceu o presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, dessa necessidade?
Eu sempre falo que a gente tem de estar baseado em um tripé: clareza, determinação e paciência. Estou exercendo a determinação e paciência agora.

Pelo que a CPI tem revelado, até que ponto o Brasil foi de fato prejudicado na obtenção de vacinas, e insumos em geral, por figuras do governo terem torpedeado a China?
Não vejo que tenha havido prejuízo ao Brasil. A China tem de distribuir insumo para muita gente, já vacinou em torno de 900 milhões de pessoas, em torno de 60% da população chinesa, e tem distribuído insumos a seu entorno estratégico. Não é simples.

O Brasil vai considerar, como a OTAN, que a China ameaça a segurança do Ocidente?
No nosso caso, não vemos isso. Essa disputa por espaço é não só pela economia mundial, mas na questão militar.

O que o senhor pensa sobre a PEC que limita a participação de militares da ativa em cargos comissionados no governo?
Já existe essa limitação. Eu não vejo que seja necessário um outro tipo de legislação.

Iniciativas como essa acabam externando uma preocupação dos civis com a entrada de militares na política?
Quando você coloca um general, um almirante ou um brigadeiro como ministro, ele já atingiu o topo da carreira. Não é mais o caso de pensar em voltar para sua Força, caso ele tenha de abandonar o ministério ou o presidente resolva trocá-lo no meio do caminho. Você, ao ocupar um cargo de ministro, sempre estará participando de atos políticos.

Até onde o senhor acha que as Forças Armadas vão ceder para não incomodar o presidente?
Eu não vejo uma questão de ceder para não incomodar. No caso específico do Pazuello (ex-ministro da Saúde) houve uma transgressão, mas sem gravidade. O comandante do Exército optou por lhe dar apenas uma bronca em privado.

O senhor enxerga um divisor de águas nesse caso?
Acendeu uma luz amarela nas Forças. Os próprios comandantes entendem que eles têm de abrir os braços, estabelecer uma barreira e dizer: “Olha, é daqui para trás. Daqui para a frente ninguém pode ultrapassar”.

4 thoughts on “Mourão não sabe o que se discute no Planalto, mas diz que Exército acendeu ‘luz amarela’ ao não punir Pazuello

  1. Mourão é um vice já descartado. Sem nenhum voto tentou impor opiniões divergentes com o JMB, seu chefe e detentor massivo da votação popular.
    Na próxima, nem será cogitado.

  2. Imagino o rebu que seria se o Brasil entrasse em guerra até mesmo com a Venezula. Os milicos parecem não saber o que fazer em face de problemas críticos. A opinião do sr Mourão, p ex, não difere muito do que se ouve em porta de padaria: sem contéudo e recheada de fantasias; o desempenho do Pazuello chegou a nos dar medo, mesmo sendo um logístico militar. Não dá para confiar e aposto que passarão muitas décadas para os militares recuperarem a fama que conseguiram no governo do Imbecil.

    • Quanto aos militares, simplesmente, o blefe ficou a descoberto. Quando eles foram detentores do poder, e controlavam o governo, integralmente, tudo que falavam e faziam só recebiam amém, não havia opositor nem mídia para desconstruí-los. Desta feita, estamos vivendo uma “semiditadura”, logo, 50% da administração está à mostra.
      Em um outro contexto, as fimilias chegaram a crer, deveras, que nos quartéis estavam os gênios do conhecimento e da idoneidade. Por causa disso, meu genitor que era militar, queria forçar eu e meus irmãos a usarmos o mesmo cabresto dele. Pois era orgulho ter um familiar, nas FFAA.
      Há cerca de sete anos, o programa Fantástico da rede Globo, mostrou uma netinha de cinco aninhos, ensinando o avô, um brigadeiro, a manusear o computador.
      Nos últimos tempos, os escândalos policialescos tornaram-se uma mazela, nas casernas.
      Quem leva uma vida coonestada, escondida numa máscara especiosa, um dia dá a cara ao tapa!

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