No Paraguai, Lugo não foi cassado e será candidato a senador em 2013

Vanessa Silva (Portal Vermelho)

A cúpula que orbita em torno do ex-presidente Fernando Lugo considera quase impossível que ele volte ao poder após o golpe de Estado parlamentar que o destituiu há uma semana. “Agora, do ponto de vista pragmático, é necessário pensar na disputa de 2013”, assinala Mario Ferreiro, que apoiava Lugo e é um dos principais nomes para concorrer às eleições pela Frente Ampla.

São seis os pré-candidatos à presidência pela Frente Ampla. Pesquisas iniciais de opinião pública indicam que Ferreiro está em empate técnico com outros dois candidatos, lugar na intenção de voto dos paraguaios. Levantamento feito pelo cientista político Marchelo Lachi revela que ele tem 15,7% das intenções, atrás de Horacio Cartes, do Partido Colorado, com 16,8%, e Efrain Alegre, do Partido Liberal, com 18,3%.

Mario, você é um comunicador, como e quando ingressou na política?

Eu trabalhei na TV por 32 anos em dois canais, também em oito rádios e três diários. Deixei a TV há três meses. Agora, sempre um comunicador está muito próximo dos acontecimentos, a vida toda muito próximo de situações de pobreza, das desigualdades sociais. (…) Por outro lado, tenho uma tradição familiar que sempre teve a ver com a política. Meus pais foram exilados na Revolução de 1947 e dois dos meus irmãos militaram na política. (…) Então conversando com amigos da Frente Ampla eu ofereci minha popularidade e aceitação como uma possibilidade real de poder ganhar as eleições [de 2013].

Você ainda terá que passar pelas internas, ou isso já é uma espécie de consenso na Frente Ampla? Lugo vai realmente encabeçar a lista de senadores?

Até antes de junho, o processo que estávamos fazendo na Frente Ampla, que é composta por 20 partidos e movimentos, era fazer plenárias e finalmente, se não chegássemos a um acordo, realizar a interna. Com o golpe, no dia 22, o cenário mudou. Lugo pode aparecer como candidato, coisa que não era possível antes. (…) Agora, mais do que nunca, é preciso ter uma unidade entre todos os setores progressistas. (…) A partir desse novo acontecimento, [a primeira coisa que fizemos foi montar] uma equipe política que está trabalhando em duas coisas: uma lista única de senadores, cujo número 1 é Fernando Lugo e uma chapa presidencial com candidato a presidente e vice de comum acordo entre eles.

E como considera que serão essas eleições? A Frente Ampla tem chances?

Com a lista sábana [espécie de votação com lista fechada] o número 1 entra com certeza. Então Lugo será senador. Estará sentado por cinco anos, com as mesmas pessoas que o derrubaram. Por outro lado, acreditamos que pela quantidade de gente indignada, podemos ganhar a presidência da República. (…) O panorama para 2013 é bastante confuso. Porque tem de um lado o Partido Colorado [com um candidato], do outro os Liberais, em possível aliança com UNAC, Pátria Querida, que teriam outro candidato, e Frente Ampla. Pode ser que nos números prévios esses três candidatos tenham quase um empate técnico.

Frente a este cenário em que poderíamos ter três candidatos virtualmente empatados, qual é a possibilidade de essas eleições serem fraudadas para favorecer um ou outro?

Na realidade, o maior déficit da Frente Ampla é a falta de fiscalizadores. Os partidos tradicionais têm sempre um fiscal em cada mesa. O Paraguai tem 214 distritos. Alguns deles muito distantes das cidades. É muito custoso ter uma pessoa que controle voto por voto.

O que a esquerda aprendeu neste processo que vem desde 2008?

Se as forças progressistas vierem a ganhar o governo, terão aprendido que é necessário mudar a Constituição. Esse foi o grande problema que tivemos. Com esta Constituição era pouco menos que inviável o governo de Lugo. Teve mais de 20 pedidos de julgamento político. É um milagre que tenha chegado quase quatro anos. Em todo caso é necessário pensar bem no que temos porque repetir o mesmo cenário seria terrível. O grande erro de 2008 foi que todos os partidos de esquerda concorreram com seus candidatos, distribuímos energias, desperdiçamos votos. Por isso termina essa história com quatro votos no Senado e um só deputado. Na verdade sempre teve uma maioria para tirá-lo, mas durante quatro nos foram extorquindo o presidente. (…) Eu creio que Lugo se esgotou desse exercício. (…) Lugo governou com uma guilhotina no pescoço, sempre com a ameaça de ser deposto. Recentemente um documento do Wikileaks revelou que em 2009 a Embaixada norte-americana avisou a Washington que Federico Franco iria derrubar Lugo por julgamento político…

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