O sábio rebelde

Sebastião Nery

O senador Mem de Sá, do PL e Arena do Rio Grande do Sul, foi à recepção do Itamaraty quando o presidente de Portugal, Americo Tomás, já bem velhinho e com arteriosclerose, veio ao Brasil, em 72, acompanhando os restos mortais de Dom Pedro I, nos 150 anos da Independência.

Mem de Sá foi apresentado ao presidente português, a quem já conhecia dos tempos em que foi ministro da Justiça de Castelo Branco. Américo Tomás não o reconheceu. Cumprimentou e foi em frente. Minutos depois, voltou: – O senhor é filho do grande Mem de Sá, governador geral do Brasil?

– Sobrinho, presidente. Ele era irmão de minha mãe.

– Ah, eu estava lhe reconhecendo. Seu nome não me era estranho.

Esse era um português que já não sabia mais nada de nada.

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ACADEMIA

Em 2006, Portugal e Brasil estão comemorando o centenário de nascimento (13.2.1906) de um português que sabia tudo do Brasil, de Portugal e do mundo. E teve participação fundamental na abertura da cultura e da universidade brasileira.

George Agostinho Baptista da Silva, o sábio Agostinho da Silva, que se livrou de duas ditaduras, viveu, trabalhou, ensinou e iluminou seis Estados brasileiros, durante 22 anos, de 1947 a 1969: Rio, Paraíba, Pernambuco, Santa Catarina, Bahia e Brasília. Uma vida generosa, criadora e fulgurante.

A Academia Brasileira de Letras, cumprindo o oportuno programa do então presidente Marcos Vilaça, de abrir cada vez mais suas portas e seu prestígio à juventude, à universidade, à população, para o debate nacional da cultura, instalou uma bela exposição fotobiográfica, passou um filme primoroso de João Rodrigo Mattos e realizou uma mesa-redonda, presidida por Vilaça e coordenada pelo jornalista e acadêmico Cícero Sandroni, com seis depoimentos de pessoas que trabalharam ou conviveram com Agostinho da Silva. O embaixador e acadêmico Alberto da Costa e Silva, o ex-conselheiro cultural da embaixada de Portugal Amandio Silva, o presidente da Casa de Rui Barbosa José Almino de Alencar, o escritor Salim Miguel e eu.

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AGOSTINHO DA SILVA

Ele foi um furacão cultural. Mario Soares, seu aluno, o retratou bem:

– Foi uma das figuras máximas da vida cultural portuguesa da século 20. Escritor, intelectual, universitário, pedagogo, visionário, deixou uma obra imensa dispersa por inúmeras publicações, livros, revistas, cartas. Produziu, ao longo de sua longa vida, imenso labor intelectual que o País oficial quase sempre ignorou. Iconoclasta, na acepção mais nobre da palavra um marginal.

Desde Sócrates e Jesus Cristo, esses marginais é que constroem a história.

Estudou Filologia Clássica na Universidade do Porto, fez bolsa de pós-graduação na Sorbonne e no College de France, entrou para o ensino público em 1931. Em 32, a ditadura de Salazar exigiu de cada servidor público que assinasse a Lei Cabral: dizer se pertencia a alguma organização secreta ou subversiva. Três se negaram a assinar: Fernando Pessoa, Norton de Matos e ele.

– Não pertenço, mas não sei se um dia vou querer pertencer. A força que me anima e mais desejaria transmitir é a de não se conformarem.

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PRESO E EXCOMUNGADO

Demitido, passou a escrever na histórica revista de resistência Seara Nova, de Antônio Sérgio e Jayme Cortesão, dar aulas particulares de Filosofia, Cultura, Direito, Línguas (chegou a falar 15 idiomas e dois dialetos africanos) e fazer conferências pelo País todo. Salazar não agüentou. Prendeu.

A Igreja também não. Era um cristão, mas rebelde, como Teilhard de Chardin, Frei Beto, Leonardo Boff.

Seus livros e Cadernos Culturais, hoje clássicos (Sentido Histórico das Civilizações, A Religião Grega, Moisés e Outras Páginas Bíblicas, Sete Cartas a um Jovem Filósofo, Biografia de Miguel Ângelo, São Francisco de Assis, O Cristianismo, Doutrina Cristã), perturbaram a conservadora Igreja de Portugal. Foi excomungado.

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NO BRASIL

E se livrou da ditadura de Salazar. Veio para o Rio, em 47. Criou um centro cultural e de ensino em Itaipava, trabalhou no Instituto Oswaldo Cruz, Manguinhos (com entolomogia, insetos), ensinou na Faculdade de Filosofia.

Em 52, José Américo, governador, levou-o para ajudar a fundar a Universidade da Paraíba. Ficou lá dois anos, deixou um trabalho modelo.

Em 54, ensinou na Universidade de Pernambuco.

Em 55, fundador da Universidade de Santa Catarina e primeiro secretário de Cultura do Estado.

Em 57, chega à Bahia e revoluciona a Filosofia, o Teatro, as Artes da Universidade comandada por Edgar Santos.

Por aqui, Agostinho da Silva só deixou saudades.

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