O triste e absurdo fim do IASERJ: uma vergonha para o RJ

Pedro do Coutto

O hospital do IASERJ, durante tantos anos, uma referência de qualidade no atendimento médico aos servidores do Estado do Rio de Janeiro, foi despejado (a expressão é esta mesmo) na madrugada de sábado para domingo com apoio da PM e a transferência compulsória dos pacientes internados. Um desrespeito para com a condição humana. Um ato de força. Mais uma demolição no projeto do governador Sérgio Cabral. Vai se unir à demolição do quartel da própria Polícia Militar na Evaristo da Veiga e também à demolição do quartel da Bartolomeu Mitre. Em seu lugar um empreendimento imobiliário para – diz o governador – revitalizar uma área nobre da zona sul do Rio.

Despropósitos em série. No caso do IASERJ, uma insensatez. A excelente reportagem de Diego Barreto, Luiz Ernesto Magalhães e Natasha Mazacero, O Globo de segunda-feira, transmitiu nitidamente a atmosfera dramática do episódio. A foto, em meio à neblina e a pouca iluminação, foi de Fernando Quevedo. Reproduziu bem o clima de perda e frio.

Com a demolição do IASERJ é demolida igualmente uma parte importante da história do Rio de Janeiro. Funcionou exemplarmente ao longo dos governos Carlos Lacerda, Negrão de Lima, Chagas Freitas.

Inclusive no primeiro mandato de Chagas, ele mesmo esteve internado e se submeteu a uma intervenção cirúrgica. O mesmo aconteceria meses depois, com o vice-governador Erasmo Martins Pedro. Não se notava a presença de sinais de luxo, mas sim da eficiência. Destinava-se ao atendimento dos funcionários. Por isso, dos 11% que os servidores descontam mensalmente de seus vencimentos a parcela de 2% direcionava-se ao IASERJ. Com sua extinção para onde irá essa receita. Antes, o desconto vinha nos contracheques. Depois a contribuição foi unificada.

A partir do governo Leonel Brizola, em seu primeiro mandato. Cesar Maia, então Secretário da Fazenda, instituiu o caixa único, arrecadação centralizada. Foi um desastre. Aconteceu no período em que o médico Cesar Ronald foi nomeado presidente do Instituto. Com o desconto, mas sem o repasse, o IASERJ começou a enfraquecer. Mesmo assim, revelaram os repórteres de O Globo, ele atendia mil e duzentos funcionários por mês, uma parcela desse total na área de emergência.

Para onde irá tal atendimento a partir de hoje? Eis aqui uma pergunta de caráter permanente, já que os descontos na folha dos servidores continua permanente. Os internos foram transferidos para o Hospital Getúlio Vargas. Mas qual o destino dos que se encontravam no CTI? Poderá o Secretário de Saúde, Sérgio Cortes, argumentar que serão levados à rede pública do Sistema Único de Saúde, o SUS.

Não funciona, não é a mesma coisa. Sobretudo porque os funcionários estaduais são contribuintes do IASERJ e não vão – é claro – deixar de ser, com o desaparecimento do hospital da Henrique Valadares. Quer dizer que pagam por um atendimento específico e passam a ser atendidos como os não contribuintes? Tem cabimento isso?

Prevalecendo tal hipótese, para que contribuição? Não faz sentido. Pois se o acesso ao SUS é universal, não cabe existir pagamento setorial. Uma separação de direitos dentro da universalidade alegada. Mais infelizmente as coisas neste país se passam assim. O interesse coletivo que inclusive inspira a Constituição de 88 só existe no papel e na tela dos computadores. Na prática não se realiza. Trata-se de uma figura de ficção. Choca-se com a verdade do dia a dia.

Os corredores dos hospitais públicos estão repletos de macas. A cena aparece diariamente na Globo, Record, Band, SBT e CNT. Administrador algum poderá desmentir a evidência. Um desastre. Uma sequência de injustiças. Acrescente-se a ela o despejo e a derrubada do IASERJ.

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One thought on “O triste e absurdo fim do IASERJ: uma vergonha para o RJ

  1. Ontem, 17/07/2013
    Um ano depois.

    Helinho, muito obrigada pelo escrito.

    Os corredores dos hospitais públicos estão repletos de macas. A cena aparece diariamente na Globo, Record, Band, SBT e CNT. Administrador algum poderá desmentir a evidência. Um desastre. Uma sequência de injustiças. Acrescente-se a ela o despejo e a derrubada do IASERJ.

    Nada mudou.
    Ao contrário…

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