Rio+20: se não nos deixam sonhar, não os deixaremos dormir, como diziam os manifestantes anticapitalistas catalães.

Jacques Gruman

Matinho e matão, capim navalha. Bola ou bulica? No fundo, majestosa, uma pedreira que, diziam, tinha sido usada no tiro de guerra. Um grande buraco, que servia de esconderijo para nós, cowboys toscos, era testemunha silenciosa de uma granada. Camaleões, abelhas, formigas de bunda grande, grilos caçados sem piedade, um pé de manga. Esse era o ecossistema na Vila. Provinciano, tranquilo e, sobretudo, despreocupado.

Na televisão, Mané Garrincha recebia, deslumbrado como uma criança, um Mainá falador. Na gaiola, igual aos meus passarinhos sem nome, nem pedigree. E não éramos caçados por ambientalistas vigilantes. Que, de resto, nem existiam.

Mudou o mundo e eu com ele. A exploração predatória do planeta tornou minhas ingênuas maldades infantis (pobres grilos e canários!) uma referência anêmica. Destruir o ambiente, de forma sistemática e insensata, virou assunto dos profissionais do lucro. Esse comportamento suicida, no entanto, está no DNA da humanidade? O que realmente está por trás desta festa ecolorida que tomou de assalto minha cidade semana passada?

Acho interessante e divertida a mobilização de jovens em defesa de animais que correm risco de extinção, índios, águas, bicicletas e outros nichos. Na pior das hipóteses, saem da frente da televisão e dão um tempo nos celulares. Não acredito, entretanto, na eficiência das ONGs para solucionar a sério o problema da degradação ambiental. Para começo de conversa, vamos ver de que degradação se trata.

Comecemos com o ar empesteado dos grandes centros urbanos no Brasil. Hoje, 8 em cada 10 brasileiros vivem em cidades. Nas grandes metrópoles, despejam-se veículos de todos os tipos, que emporcalham o ar, produzem barulho patológico e deixam resíduos sólidos por onde passam. Em 2011, venderam-se 2,65 milhões de carros no mercado nacional, ou seja, foram para as ruas cerca de 5 carros a cada minuto.

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VEÍCULOS PER CAPITA

Só na cidade de São Paulo, já circulam mais de 7 milhões de carros, neurotizando e envenenando motoristas e pedestres. Para se ter uma ideia da dimensão deste abacaxi, isso significa mais veículos per capita do que Japão, Estados Unidos e Itália. Os pibólatras comemoram, os publicitários celebram os anúncios milionários que vendem máquinas cada vez mais futuristas e sedutoras, os ufanistas adoram a diversidade da produção nacional. A que custo?

A poluição provocada pelos veículos mata indiretamente, em média, quase 20 pessoas por dia na região metropolitana de São Paulo. A chance de uma pessoa morrer de doença cardiorrespiratória é 4 vezes maior do que sem as emissões veiculares. Em Belo Horizonte, pelo menos uma pessoa morre, diariamente, devido à poluição provocada pelos carros da cidade. Mais de 900 são internadas com doenças respiratórias e cardiovasculares agravadas pela fumaça dos automóveis.

Já não falo da buzinaria de gente nervosa paradas em engarrafamentos que chegam, na capital paulista, a centenas de quilômetros diários. Nos Estados Unidos, que consomem cerca de metade de toda a gasolina do mundo, 30 mil pessoas morrem anualmente por causa das emissões veiculares. Um funil macabro travestido de prosperidade. Que ninguém se atreva a falar que esse modelo de transporte individual, com uso intensivo de combustível fóssil, é irracional e assassino. A turma de cima contestará: os que chegam agora à classe média (uma ilusão de ótica) merecem sonhar com seu carrinho na garagem. Cassandras, resmungarão.

É essa indústria tentacular, inimiga da vida, vinculada aos grandes centros do poder mundial, que precisa ser enfrentada. É bonitinho salvar baleias e repor nas florestas aves ameaçadas de extinção. Isso, no entanto, tem apenas um efeito pedagógico, sem arranhar a estrutura das grandes corporações que ditam as regras do jogo (anti)ambiental e tornam letra morta declarações como a da Rio+20. Mais do que as indústrias automobilística, de mineração e de exploração descontrolada dos recursos naturais (dos quais a água é um dos mais importantes), é o modo de produção capitalista o inimigo principal. Por quê?

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CAPITALISMO SUSTENTÁVEL?

Segundo o sociólogo Michael Löwy, um “capitalismo sustentável” é tão provável quanto um crocodilo vegetariano. É um sistema fincado na expansão sem limites, na busca obsessiva pelo lucro (e não da satisfação das necessidades das pessoas) a qualquer custo e que não dá a mínima para o planejamento de longo prazo. Estes parâmetros inspiraram crimes hediondos ao longo da História e, no caso do futuro ambiental do planeta, está nos levando a um passo do abismo, empurrados por uma devastação sem precedentes. Não há, em suma, compatibilidade possível entre a lógica do capital e a “sustentabilidade”.

Há alguns anos, um informe interno do Banco Mundial fazia um registro impressionante: é lógico, do ponto de vista da economia racional, concentrar a manufatura de produtos tóxicos em países pobres, porque ali a vida humana é barata. Na verdade, estamos precisando de um Marx verde, da incorporação orgânica das grandes bandeiras ambientais às estratégias da luta anticapitalista. Da vinculação entre a eliminação da pobreza e a preservação dos grandes ecossistemas planetários.

As milhares de pessoas que circularam pelo Rio, muitas, suponho, com a melhor boa vontade, ouviram promessas de que o lobo vai adotar os carneiros. Ao estilo Al Gore, que, no filme “Uma verdade inconveniente”, mostrou as entranhas deste sistema predatório e sugeriu, candidamente, que é possível corrigir os “excessos” com ações mínimas, pessoais. Pena. Do sovaco do Cristo Redentor sai apenas uma inevitável frustração.

(Artigo enviado pelo comentarista Mário Assis)

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