Rio+Colonialismo

Sebastião Nery

Do outro lado da piscina, como se saísse de dentro do belo jardim que a cercava, rolando ele mesmo uma cadeira de rodas, apareceu o dono da casa. O embaixador do Brasil no Panamá, amigo dele, em cuja embaixada ele havia estado asilado algum tempo, levou nossa delegação, que voltava do Congresso Internacional de Municipios em San Diego, na California, em 1960, para um jantar à beira da piscina. Era uma historia rocambolesca que eu acompanhava desde 1950, mas só sabia pelo que os jornais, revistas e livros internacionais contavam. E ele vinha vindo ali, o rosto moreno, cara forte, puxada a índio, e sorridente como se aquela cadeira de rodas fosse um alazão.

Roberto Arias era um exemplo perfeito do que significava o chamado “imperialismo americano” numa “república bananeira”. Nascido em 1918, ainda muito jovem, quando estudante, fundou o “Partido Nacional Revolucionário” que a partir de 1963 veio a chamar-se “Partido Panamista”.

Formou-se em Medicina na Universidade de Harvard, foi embaixador do Panamá na Inglaterra, e em 1940 elegeu-se presidente do Panamá com as bandeiras da independência e do nacionalismo. Em 1941 já estava derrubado por um golpe militar, articulado pela embaixada dos Estados Unidos. E foi exilado em Londres até 1945. Em 1949, novamente candidato a presidente, elegeu-se outra vez. Em 1951, outro golpe militar, sempre sob o comando da embaixada norte americana. Foi expulso do país, banido, sem direitos políticos, e mandado para Londres.

Quando voltou ao Panamá, no fim da década de 50, anunciou nova candidatura. Sofreu brutal atentado que lhe deixou nas mãos aquela cadeira de rodas e nos olhos uma fúria que lhe dava aquele ar de invencibilidade.

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ROBERTO ARIAS

Entre uma champanhe e outra perguntei-lhe se ia continuar tentando dar a seu país um governo de “independência e nacionalismo”. Sorriu: – “Eles estão enganados. Pensam que nesta cadeira me derrotaram para sempre. Essa ditadura, sustentada pela embaixada dos Estados Unidos e pelo dinheiro do Pentágono que corrompe as Forças Armadas, está caindo de podre, como as outras caíram. E quando conquistarmos novas eleições, mais uma vez serei candidato e mais uma vez vencerei, nesta cadeira”.

Estávamos ali em 1960. Em 1968, como ele previu, a ditadura militar caiu de podre. Ele e sua cadeira de rodas foram candidatos e tiveram uma vitória arrasadora. Não adiantou. Dias depois da posse, foi deposto pelo comandante da Guarda Nacional, sempre saído da embaixada dos Estados Unidos, o coronel depois general Torrijos, de imunda memória.

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MARGOT FONTEYN

A noite estava azul e uma brisa doce soprava a água da piscina e nossas embaçadas taças de champanhe. De repente, uma miragem. De dentro da casa, surge uma mulher muito alva, em um vaporoso vestido todo azul, caminhando na ponta dos pés, como se estivesse chegando do céu. E cometi a gafe indesculpável. Disse baixinho ao deputado Ruy Ramos, sentado, como eu, em frente ao “presidente Arias” e sua cadeira de rodas:

– Ruy, olha que coisa mais linda! Uma deusa. Leve como uma pluma. Parece a Margot Fonteyn.

O anfitrião sorriu feliz. Mas o gaúcho Ruy ficou encabulado:

– Nery, você não sabe que ela é a Madame Margot Fonteyn, a maior bailarina do mundo e mulher do presidente Arias? Tive vontade de afundar na piscina. Mas ela chegava como um cisne, abraçou-o, beijou-o e nos cumprimentou a todos. Ainda bem que Ruy e dona Neite não contaram a ninguém. Foi o melhor jantar de quase dois meses de viagem. Regado a champanhe e gafe.

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A RIO+20

O pequeno Panamá, por ser o menor e mais pobre das Américas, é o melhor exemplo do que disse o francês Anatole France : – ”As colônias são o flagelo dos povos”. E o inglês Disraeli também : – “As colônias não deixam de ser colônias por serem independentes”.

Quatro países sobretudo sabotaram e não mandaram presidente ou primeiro-ministro à Rio+20, por sinal todos colonialistas: Estados Unidos (atacam o Afeganistão), Inglaterra (ocupa as Malvinas), Alemanha (quer escravizar os países mais frágeis da Europa) e Israel (invade a Palestina).

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