Tarde demais para Bolsonaro demitir Salles; nunca houve um ministro tão atacado

Uma imagem vale mais do que mil palavras, dizia Confúcio

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro até a noite de ontem não havia demitido Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente e tal omissão, inevitavelmente, vai se refletir na reunião do Clima convocada pelo presidente Joe Biden exatamente para discutir e traçar planos para o combate ao aquecimento global que tanto preocupa os países da Europa, além de todas as nações civilizadas.

A ameaça do aquecimento e da poluição realmente deve sensibilizar a todos. Exceto a Ricardo Salles: nunca houve um ministro tão atacado no País quanto ele.

REAÇÃO – Reportagem publicada ontem no O Globo, de Leandro Prazeres e Jussara Soares , focalizou a forte reação de quatrocentos servidores do Ibama contra as medidas tomadas por Salles que se refletem em uma situação praticamente de conivência com os desmatadores e devastadores da Floresta Amazônica e do Pantanal do Mato Grosso do Sul.

O ministro Ricardo Salles não podia ter tomado atitude pior do que a de posar para uma fotografia publicada no O Globo, tendo ao fundo, inclusive em curta distância, toras de madeira cortadas ilegalmente por empresários que não respeitam os limites nem da lei, nem da civilidade. Cortando troncos gigantescos como os da foto, Salles, com sorriso na face, revelou tacitamente tanto um desafio quanto desprezo pela condição humana dos que habitam a Amazônia, maior produtora de oxigênio limpo do planeta.

OMISSÃO – Jair Bolsonaro até agora não tomou providência alguma em relação ao caso e não tem justificativa para tal omissão, sobretudo porque os 400 funcionários do Ibama suspenderam os trabalhos de fiscalização e publicaram documento no qual manifestam absoluto descrédito em matéria de compromisso do ministro para com o meio ambiente.

Pessoas como Ricardo Salles são capazes até de praticar ações irrecuperáveis. Basta dizer que o desmatamento é aceito sem obrigação de replantio. O jornalista André Trigueiro, especialista em meio ambiente, tem destacado o grau do atentado do ministro contra o verde e também contra a esperança de que o Brasil combata a política de prevenção contra o aquecimento do mundo. Ricardo Salles conseguiu reunir contra si próprio uma gigantesca onda de protesto e revolta. O presidente Bolsonaro vai ter que enfrentar hoje e amanhã o debate no fórum do Meio Ambiente.

GRANDES CRISES – Outro dia, conversando com o meu amigo Ruy Castro, um passageiro e mergulhador da História, focalizamos as grandes crises que marcaram e continuam marcando a história moderna do Brasil, inclusive o presente em que vivemos. Fiquei pensando nos episódios e comentarei com ele, Ruy Castro, os desfechos dramáticos envolvendo Jânio Quadros, João Goulart, Costa e Silva, Fernando Collor e Dilma Rousseff,  no segundo mandato. Na lista é indispensável acrescentar Jair Bolsonaro.

O período do presidente Michel Temer foi consequência do impeachment de sua antecessora e os fatos ocorridos , embora graves, não traumatizaram o país porque a sua permanência no Planalto era pequena. Ocorrências como os visitantes da noite, um deles sendo recebido pelo presidente da República em sua residência particular. O outro visitante da noite correu pelas ruas de São Paulo levando consigo uma mala com R$ 500 mil. Escapou da polícia, mas não da filmagem da TV Globo.

PRONUNCIAMENTOS –  Reportagem de Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo desta quarta-feira, focaliza bem os pronunciamentos do general Braga Netto e do general Edson Pujol na transmissão dos cargos de ministro da Defesa e comandante do Exército da pasta, no período em que Fernando Azevedo ocupou o ministério.

Enquanto Braga Netto defendia que é preciso respeitar o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para governar o país, o general Edson Pujol respondia que se enganam aqueles que acreditam “estarmos sobre um terreno fértil para iniciativas que possam colocar em risco a liberdade consagrada na nossa Nação. É preciso respeitar o rito democrático e o projeto escolhido pela maioria dos brasileiros para conduzir os destinos do país”.

INTERESSES NACIONAIS – Pujol acrescentou: “A sociedade atenta a essas ações pode ter a certeza de que as suas Forças Armadas estão prontas a servir aos interesses nacionais. Neste período de intensa comoção e incertezas que colocam à prova a maturidade e independência das instituições democráticas brasileiras, o Exército , a Marinha e a Força Aérea mantém o foco em suas missões constitucionais, permanecendo sempre atentas à conjuntura nacional”.

Como se constata, os pronunciamentos podem ser interpretados como um claro enigma, poema de Carlos Drummond de Andrade. Não há necessidade de qualquer outra análise.

VALE TUDO – Na edição de ontem da Folha de São Paulo, como sempre ocorre às quartas-feiras, o ex-ministro Delfim Netto publicou o seu artigo. Nele sustentou que os Poderes além de se comportarem publicamente como comentaristas oficiais da realidade brasileira, como se não houvesse nenhuma responsabilidade sobre ela, partem para um verdadeiro vale tudo de consequências econômicas e sanitárias da pandemia. A palavra pandemia a meu ver foi usada apenas para não deixar tão claro a força da frase que a antecede.

Delfim Netto, um conservador,  mas também um homem de grande cultura econômica, há muito assumiu uma parceria com a Fiesp. O empresariado preocupa-se com os rumos políticos atuais.

PLÁGIO – A professora Cláudia Mansani de Toledo, autora de tese acadêmica para assumir a direção da Capes,rebateu matéria de Paulo Saldanha, Folha de São Paulo, de que o seu trabalho reúne opiniões de diversos autores vinculados à educação, mas negou que os tenha plagiado.

Em relação ao tema, digo que citações são válidas, mas desde que identifiquem as fontes e os autores. Por essas e outras é que nos artigos que publico na Tribuna da Internet me refiro sempre às fontes e nominalmente aos autores dos textos em que me baseio para as minhas análises e versões.

RESPONSABILIDADE FISCAL – A matéria é de Fábio Pupo, também na Folha de São Paulo, na qual revela afirmações do ministro Paulo Guedes, no dia 20, dizendo que as emendas dos parlamentares aprovadas pelo Congresso não atingem e nem abalam os pontos básicos da responsabilidade fiscal relativa ao Orçamento de 2021, tampouco furam o teto programado por nós.

Paulo Guedes é mais um integrante do governo a desdizer o que disse anteriormente. Ele pediu publicamente que Jair Bolsonaro vetasse os dispositivos que agora aceita. Empenha-se assim em permanecer no cargo, representando sua corrente partidária e sua ideologia mutante.

VALE COMPRAS – Reportagem de Diogo Maia, Folha de São Paulo, assinala que os supermercados no país, especialmente os de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, resolveram criar um vale-compra para que os mais necessitados possam com ele combater a fome.

A fome realmente é um fator horrível na vida brasileira e alcança um percentual muito elevado no país, tanto assim que os dirigentes atacadistas e proprietários de supermercados decidiram criar um vale compra no valor de R$ 100. Tenho a impressão que esse vale será renovável uma vez que o valor assinalado nele é muito reduzido, embora represente uma ação diante de uma emergência efetivamente dramática.

Portanto, eu estava com a razão quando em artigo recente disse ter ficado surpreso com a afirmação do professor Marcelo Neri, diretor da Fundação Getúlio Vargas, de que o auxílio de emergência adotado pelo governo Bolsonaro  tinha livrado 10% das pessoas que se encontram em situação de miserabilidade. Deixo a questão para o próprio Marcelo Neri, se puder ou quiser, esclarecer.

23 thoughts on “Tarde demais para Bolsonaro demitir Salles; nunca houve um ministro tão atacado

    • Não, mas quem se interessa pela verdade? No Brasil, o que importa é derrubar o governo, ainda que se utilizando de uma mentira. Esperar o que da imprensa, esquerda e artistas? Esse é o DNA deles.

      • Eliel, deixa de ser bobo!
        A mídia brasileira é norteamericanizada. A nossa impressa trabalha para os interesses do Titio Sam.
        A nossa “esquerda” nada mais é que a Mãe Left dos Estados Unidos. Esquerda essa criada pelas universidades norteamericanos em conluio com o governo do Titio Sam para matar uma esquerda nacionalista na América Ibérica.
        Repare com o a esquerda identitaria brasileira tem o mesmo comportamento liberal dos apoiadores do tal “livre mercado”.

          • Não. A mídia norte-americana não é de esquerda.

            Só se for na sua cabeça de paranoico conspiracionista que a mídia norte-americana é de esquerda!

            Isso que dá quando fica perdendo tempo com propaganda conspiratória criada pelo Titio Sam, induzindo que aquele país está cercado por “comunistas”!

        • Publicado nos EUA em 1911 e, portanto, de domínio público.
          “Dee-Lighted!”

          Caricatura de Robert Minor em St. Louis Post-Dispatch (1911). Karl Marx cercado por um público agradecido de financistas de Wall Street: John D. Rockefeller, JP Morgan, John D. Ryan do National City Bank e o sócio do Morgan, George W. Perkins. Imediatamente atrás de Karl Marx está Teddy Roosevelt, líder do Partido Progressista.
          Data 1911
          Fonte St. Louis Post Dispatch

          • Pois é. Capitalistas financiando Marx!

            E você vem me dizer que a mídia norte-americana é comunista!!!!!!!!!

            Não. A mídia norte-americana não é de esquerda.

            Só se for na sua cabeça de paranoico conspiracionista que a mídia norte-americana é de esquerda!

            Isso que dá quando fica perdendo tempo com propaganda conspiratória criada pelo Titio Sam, induzindo que aquele país está cercado por “comunistas”!

          • Assim como todo o sistema capitalista que alimenta o sistema comunista para lucrarem em cima de modelos nacionalista como o que tivemos no Brasil como na época de Getúlio Vargas!!!!

  1. desprezo pela condição humana dos que habitam a Amazônia, maior produtora de oxigênio limpo do planeta.

    tem-se aí um erro factual. a Amazônia precisa das árvores pra ser floresta, mas a fronteira agrícola nesse tempo de pandemia é o que evita o despovoamento das regiões do planeta. O resto é cassino da bolsa de Chicago. Só três presidentes conseguiram terminar o seu mandato na história do Brasil, então é importante que o ministro Salles esteja firme no cargo que ocupa. Os Estados Unidos estão retomando a velha agenda verde, em que o Obama foi um dos que escreveu esses compromissos, mas alguém duvidaria do conhecimento climático do sr Obama, face as observações do cientista Ricardo Felício e do professor Molion das Alagoas? Seria o mesmo que blasfemar.

  2. É incrível a “capacidade” dos que defendem a eugenia e o desmatamento insano em defesa da expansão da “fronteira agrícola”!

    Mirai os desertos da Bahia fruto dessa insensatez.

    Onde a menos de trinta anos havia nascentes, rios e Cerrado – hoje é só areia!

    Não têm interesse em recuperar o que degradam e, tão logo deixam uma grande extensão de terra devastada e estéril, correm a destruir mais e mais.

    Isso não é conversa fiada de ecologistas. Só não vê isso quem é… é o que mesmo?!

    • Falta espírito público nas ações do ministro do Meio Ambiente, Salles. A boiada está passando sem nenhum constrangimento. Os Fiscais do Ibama e do ICBMio estão proibidos de multar os infratores/ desmatadores. Desastre ambiental de proporções gigantescas se continuarem a destruir e derrubar as árvores. O solo amazônico é pobre, então, o desmatamento indiscriminado transformará a região em um deserto. A repercussão sobre as regiões Sul e Sudeste será catastrófica, em termos de recursos hídricos.Os rios voadores gerados pela floresta não existirão mais. Quem se importa com o futuro não é ?
      A política vigente, dessa gente é o Mercantilismo selvagem. Destruidores da nação. Isso é tiro no pé, pois a riqueza amealhada será gasta sobre?
      Sobre Paulo Guedes, o maior camaleão da história econômica deste país, vemos que ele veste o figurino que lhe convém. Está aferrado ao cargo como uma rocha. Não está preocupado com sua biografia. Triste fim desse Policarpo Quaresma, criticado por gregos e troianos, que promete, promete e não entrega nada. Desse posto Ipiranga, não sai gasolina, do desesperança e melancolia nas costas do povo.

    • bom dia. o sr. está falando em eugenia, e está colocando esse nome sobre os que defendem expandir a fronteira agrícola durante a pandemia. O sr. pode estabelecer um paralelo entre o discurso do atual governo e as teses eugenistas, em voga no início do século? Não estará confundindo realidade e literatura?

      • Fernando, eu acho que você se referiu só meu comentário.
        Vamos lá: a referência ao personagem do clássico de Lima Barreto Policarpo Quaresma, nada tem a ver com a Eugenia, movimento daqueles que acreditavam na eliminação de grupos indesejáveis, para purificar a sociedade. Isso era e é uma maldade
        Mas, as vezes a realidade e a ficção se confundem de tal maneira, que a realidade ultrapassa a fronteira do absurdo inimaginável.
        Exemplo da tortura e morte do menino Henry.
        Talvez tenha me confundido mesmo. Tens carradas de razão.

        • No fundo, o paralelo é identificado com a profecia de Barreto, enfatizada em Triste Fim de Policarpo Quaresma, tais como, a injustiça social, o clientelismo, a burocracia, e os interesses sociais e políticos.

      • Quando falo eugenia é EUGENIA mesmo!

        Utilizo a PALAVRA para dizer, para mostrar o que realmente penso – e não como forma de trapaça -, tão em voga pela politicalha e os 0,01% que efetivamente manda e desmanda nos destinos de mais de 7 bilhões de almas (como diria Gogol).

        Quem tenha dois neurônios funcionais e se atenha às declarações dessa quadrilha de milicianos acoitada por órfãos do esgoto da ditadura milico-servil que têm como referenciais morais a dupla frota/ustra, só não entenderá se compactuar com tais referenciais.

        Vamos lá

        mourão, ao lado do neto num shopping qualquer da vida, sobre seu neto “ter uma pele mais branquinha e bonita que ele – e que só tenderia a melhorar”, – e depois, fruto da repercussão negativa ter de explicar o óbvio;

        a forma como bolsonalha quase goza quando pegou na mão de Stephen Fry e disse “como é bom pegar na mão de um homem totalmente branco sem a impureza aqui do Brasil” – isso pouco antes de ser entrevistado pelo documentarista e ator inglês.

        Todo o processo de favelização e chacinas de pessoas de “pele escura” será desígnio divino?… inclusive “mirar na cabecinha pra não estragar o couro”?

        A forma ignominiosa como bolsonalha se referiu a quilombolas que “cujo peso em arrobas atestaria não servir nem como reprodutores”

        A política criminosa e deliberada da política de Estado da ditadura milico-servil para chacinar tribos inteiras

        … e tal política se repete quando o atual governo GENOCIDA retira dinheiro da saúde que deveria ser encaminhado às comunidades indígenas para enfrentamento da Covid-19

        … etc, etc, etc.

        Qualquer pessoa com dois neurônios funcionais que não perceba a EUGENIA como política desse desse “governim” GENOCIDA, é pura perda de tempo da minha parte querer argumentar.

    • Adendo:

      Alguém lembra d’uma fala do GENOCIDA afirmando que “certa estava a cavalaria dos eua quando exterminou quase todos os povos índios de lá” – lembram?
      .

      Sugestão de leitura:
      ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO (a dramática história dos índios norte-americanos), de Dee Brown.

  3. Afora a diversificação dos temas postados diariamente pelo Editor, alguns comentaristas aproveitam para abordar temas muito importantes, e que se relacionam com os assuntos apresentados.

    Entendo Batista Filho, quando fala em eugenismo, tomando por base declarações de Mourão, Bolsonaro e o célebre episódio de Little Bighorn, 1776, onde morreu o general conhecido como Cabelos Longos, assim definidos pelos siox, o general Custer, comandante da Sétima Cavalaria.

    Vaidoso, assassino, arrogante, entendeu que seus 600 homens fariam frente a mais de 3 mil guerreiros indígenas.
    Morreu junto com quase 300 soldados, uma tragédia sem precedentes para os americanos, em se tratando de povos selvagens aniquilando brancos “civilizados”.

    Mas, eu usaria o termo preconceito, e não eugenia.
    Explico, pois a minha intenção não é debater porque o assunto é importante, mas ampliarmos a ideia sobre eugenia e o extermínio de povos indígenas não só nos Estados Unidos, mas em todo o continente americano:

    Eugenia é um termo criado em 1883 por Francis Galton (1822-1911), significando “bem nascido”.

    Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”.
    O tema é bastante controverso, particularmente após o surgimento da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia de “pureza racial”, a qual culminou no Holocausto.

    Mesmo com a cada vez maior utilização de técnicas de melhoramento genético usadas atualmente em plantas e animais, ainda existem questionamentos éticos quanto a seu uso com seres humanos, chegando até o ponto de alguns cientistas declararem que é de fato impossível mudar a natureza humana.

    Preconceito é sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância.

    Com bases em usos e costumes, tradições e folclore, história e legados, religião e política, é próprio do ser humano se afastar daqueles que não se enquadram no seu meio de vida, de sobreviver, de entender o que é existir.

    “O Maior Genocídio da História da Humanidade — mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas – Resistência e Sobrevivência”.
    Tudo isso é o título da capa do livro de Marcelo Grondin e Moema Viezzer, editado por Princeps, em Toledo, Estado do Paraná, em 2018.

    Viezzer e Grondin, na apresentação do livro, citam documento que assegura que a invasão européia nas Américas, desde 1492, provocou um extermínio entre 90 e 95% da população total. Assustados com esses dados foram pesquisar, e chegaram à conclusão de que a conquista e ocupação territorial pelos europeus provocou ao longo dos séculos, cerca de 70 milhões de mortos.
    Sem dúvida, o maior genocídio da história da humanidade.

    No México, foram assassinados 20 milhões;
    nos Estados Unidos, 18 milhões;
    nos países andinos foram mais de dez milhões; no território brasileiros mais de quatro milhões.
    Todas essas mortes foram por massacres provocados por tropas militares, enfermidades, fome, trabalho forçado, castigos corporais em regime de escravidão, deslocamentos para lugares inóspitos.

    Na América do Norte, excluindo o México já citado, a conquista começou um pouco mais tarde por súditos da corte da Inglaterra que migraram por razões religiosas depois da Reforma ou por razões econômicas.

    Quando desembarcaram, o território era habitado por 18 milhões de pessoas, pelo menos.
    Hoje, se tanto, mal chega a 2,5 milhões porque houve uma recuperação.
    Em 1790, a população branca de pouco menos de quatro milhões era igual a dos indígenas, exterminados por guerras, fome e doenças de brancos.

    A ânsia por terra e riqueza se somava a questão religiosa e a ideia da supremacia branca dos teutões, raça destinada a dominar o mundo selvagem.
    Quem não era branco não era gente. O destino manifesto, como doutrina de Estado, orientou a expansão e ocupação do território do Atlântico ao Pacífico.

    A Lei de Remoção de 1830 autorizava os conquistadores a sacar os indígenas das terras férteis para entregá-las aos colonos.
    Isso se vê nos filmes de cowboys.
    Os nativos expulsos tinham que ir para as montanhas inóspitas e, mais tarde, às reduções, verdadeiros campos de concentração de extermínio cultural.

    O terrível desse genocídio se vê nos números: Em 1620, a população nativa era de 18 milhões, e foi reduzida a 600 mil em 1800, e chegou a 250 mil em 1900.

    Em 2008, o censo demográfico dos Estados Unidos mostrou uma população de aproximadamente 325 milhões de habitantes. Entre esses, 75,1% brancos, oriundos de imigrações europeias, enquanto os nativos representavam 0,13% da população, algo como 2,5 milhões, quando no início do século 17 eram 18 milhões.
    Os dados revelam tudo, diz o livro sobre o maior genocídio.

    No Brasil de 1500, com a chegada dos conquistadores portugueses, havia uma população nativa de 4 a 5 milhões de habitantes. A coroa portuguesa distribuía terras sem limites à nobreza e membros da corte, criando desde os primeiros assentamentos, o latifúndio e a cultura de terra arrasada.

    Os bandeirantes organizavam expedições armadas para capturar indígenas para o trabalho escravo e, no avanço da ocupação, os confinavam em reduções e aldeias sob controle do poder colonial.

    Esse genocídio sem controle, iniciado em 1500, se estendeu até os anos 1900, quando começam a surgir políticas com intenção de impedir ou diminuiu a mortandade.
    A partir da República surgem novas ameaças com as extensões das ferrovias e rodovias e a expansão predatória da fronteira agrícola, seguida dos processos de ruralização e urbanização, com adensamento da população branca resultado da promoção da imigração de europeus.

    População branca adversa, que raramente aceitava conviver com a população indígena e negra.
    Em muitos centros urbanos a população de negros escravos ou libertos era maior do que a dos colonos brancos.
    Houve guerra, diz a história, mas na verdade foi resistência e massacre pela incomparável disparidade de força e do armamento utilizado pelos invasores das terras.

    Em 1910, o governo, por iniciativa do marechal Cândido da Silva Rondon, descendente de índios, em tarefa de demarcação das fronteiras, criou o Serviço de Proteção do Índio (SPI), e reservas florestais protegidas para sobrevivência das aldeias.
    Em 1967, em plena ditadura militar, o SPI foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai). A trajetória dessas duas organizações oscilava entre proteger os indígenas e favorecer os proprietários fundiários na expansão dos latifúndios.

    Nos primeiros anos dos 1900, na pequena e provinciana capital de São Paulo ainda se falava nhenhen catu, a língua geral tupi-guarani.
    Nesse início do século 20, os livros de geografia indicavam que a partir de Bauru, no centro-oeste paulista, eram terras desconhecidas habitadas pelos indígenas.
    De fato, eram botocudos, tupi-guarani majoritariamente. Esse território ia até as barrancas do Rio Paraná e, do outro lado do rio, ao Sul, tribos da etnia guarani e, ao Norte, xavantes.

    Foi Vargas quem abriu as terras de Mato Grosso, colindante com São Paulo, para colonização por latifundiários paulistas ou seus descendentes. Eram terras habitadas pelos guarani ao Sul e xavante ao Norte.
    Os indígenas foram obrigados a se deslocar para terras virgens e florestas inóspitas do Centro-Oeste e do Norte.

    Nos anos 1950 essa fronteira agrícola se estendeu pelo Norte e Oeste do Paraná, Oeste de Santa Catarina.
    Na década seguinte, continuou a expansão da fronteira agrícola em direção Oeste e começou a ocupação da Amazônia, projeto da ditadura militar, com abertura de estradas (transamazônica), assentamentos e matança dos povos originários.

    Em outra década mais, e a fronteira se estendeu pelo Sul do Pará e do Maranhão, Oeste e Norte de Goiás, Norte de Mato Grosso.
    Tudo isso se realizou ao custo da vida dos povos originários e ribeirinhos, dos quilombolas, posseiros, e também ao custo do desmatamento, contaminação de rios, perda de mananciais.

    Há um dramático documentário feito pela Televisão italiana, Rai, que mostra brancos metralhando aldeias e jogando roupas contaminadas para envenenar os índios.

    Essa é a história da invasão europeia (chamada civilização ocidental e cristã), que continua perpetuada pelos descendentes dos primeiros colonizadores e pelos imigrantes que lhes seguiram os passos no transcorrer desses cinco séculos.
    Massacre contínuo das populações e destruição predatória da natureza, praticada também até mesmo pela população não tão branca por força da mestiçagem.

    Essa é a história da expansão das fronteiras agrícolas no século 21, sem que se tenha visto vontade de mudar. Entra governo sai governo, e continua tudo na mesma desorganização comandada pelo preconceito.

    • Bendl, grato pelo posicionamento e novos elementos que trouxeste à discussão.
      De todo modo, reafirmo o termo EUGENIA ao invés de PRECONCEITO.
      O que foi feito aqui nas Américas assim como na Austrália, para não encompridar, são exemplos clássicos e trágicos de Eugenia: a política de Estado para eliminação dos Povos originários para se apoderar do território e riquezas.

      Nesse governo GENOCIDA (de milicianos acoitados por militares órfãos de frota/ustra), o que se percebe indiscutivelmente é uma série de medidas para “passar a boiada” – no que tange a áreas de proteção ambiental e terras indígenas.
      Tais procedimentos, aliados a desestruturação de órgãos de fiscalização de terras e de assistência à saúde dos indígenas leva a um resultado imediato e a médio prazo: a extinção de vários Povos indígenas. Com mais esse GENOCÍDIO, tais áreas serão revertidas – pra quem? Adivinha?
      .
      Com relação à questão Touro Sentado… Cavalo Doido e Custer – te adianto que “o buraco é mais embaixo”. Por isso fiz a sugestão de leitura do livro de DEE BROWN, “ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO”, que tem por subtítulo “A dramática história dos índios norte-americanos”.
      Como a literatura e a Memória nacionais são frágeis, o livro em questão se torna essencial para o entendimento de nossa própria História.
      Saúde e Paz pra ti.

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