Oscar de Salles mostra que, no final do filme, a democracia vence

Ainda Estou Aqui vence Oscar de melhor filme estrangeiro | Agência Brasil

Além de cineasta, Salles é um grande cultor da democracia

Vera Iaconelli
Folha

Sentei para assistir à entrega da estatueta do Oscar, tomada por uma sensação tão inédita quanto a premiação. Foi curioso estar ali, sem grande preocupação com o desfecho do evento, mais interessada na forma como nos unimos em torno desse acontecimento.

Até aí, não havia novidade. Estamos acostumados a torcer juntos nas Copas, e a comparação entre os dois eventos era inevitável – mesmo com Fernanda Torres pedindo encarecidamente que lhe tirassem o fardo das costas. Mas mal sabia ela que a natureza dos acontecimentos era outra.

TORCER JUNTOS – A torcida até era de Copa do Mundo, só que não, pois se tratava de comemorar… a própria torcida! Mais do que torcer, tratava-se de comemorar que houvesse algo em torno do qual ainda pudéssemos torcer juntos, diante da polarização que dividiu o país.

E não é de menor importância que fosse algo ligado à cultura, sustentado na figura de uma mulher, num filme que denuncia a ditadura. Tudo isso depois de uma tentativa de golpe que reedita nosso maior fantasma: o traço conservador e autoritário que nos assombra.

E, como se o universo conspirasse para que a celebração fosse à altura, tivemos nada mais, nada menos do que as bênçãos de um domingo de Carnaval para lhe servir de esquenta. Bom para lembrar que também somos adoradores de Eros.

ESTRATÉGIA VITORIOSA – Enquanto se podia assistir à propaganda dos filmes concorrentes em intervalos de famosos podcasts, outdoors e ônibus norte-americanos, a campanha de “Ainda Estou Aqui” fez outro percurso. Como informou Walter Salles em entrevista, essa não foi a estratégia do filme brasileiro, baseada no corpo a corpo entre os atores, o diretor, os formadores de opinião e o público.

Trabalho de fôlego, que exigiu da equipe jogar-se numa maratona infindável de exibições seguidas de entrevistas coletivas, na participação em talk shows, em ensaios fotográficos, nos deslocamentos de costa a costa, nas festas para “fazer amigos e influenciar pessoas”, nas premiações em festivais mundo afora que antecederam ao Oscar.

Some-se a isso o fato de que Fernanda Torres leva algumas horas a mais que seus colegas homens fazendo cabelo, maquiagem e prova de modelitos de tirar o fôlego, e teremos uma ideia do tamanho da empreitada.

CAVALO DE TROIA – De forma insidiosa, falando de família, por intermédio de uma personagem feminina maternal, deixando a violência pairar opressivamente sem nunca explicitá-la, Salles, fiel ao tom do livro de Marcelo Rubens Paiva, criou seu cavalo de Troia. Perfurou barreiras que têm impedido que o contraditório compareça nas discussões, cada vez mais empobrecidas por cancelamentos e outras formas de violência.

O filme renovou a discussão sobre os desaparecidos na ditadura militar, o destino de seus algozes e a obscena ideia de anistia que nos trouxe até aqui. Foi responsável por apresentar à nova geração algo que lhes parecia anacrônico e improvável.

Filme certo, na hora certa, que cumpriu uma função muito maior do que se podia prever e que está longe de dizer respeito só ao Brasil: a questão sobre a democracia se coloca para todos os governos mundiais. Se cabe à arte trazer reflexão, inspiração e alento diante das agruras de estar vivo, “Ainda Estou Aqui” ganhou em todas as categorias.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGFez-se justiça a Walter Salles, um dos maiores cineastas do mundo. Já era para ter ganho o Oscar antes, com “Central do Brasil”, “Diários de Motocicleta” ou “Abril Despedaçado”. O Brasil precisa se orgulhar dele, uma pessoa verdadeiramente notável. (C.N.)

8 thoughts on “Oscar de Salles mostra que, no final do filme, a democracia vence

  1. Acho estranho falar sa obscena anistia. Essa turma só pensa no que os militares fizeram e esquecem os crimes dos esquerdistas. Podiam fazer outro filme contando o outro lado da história. Ainda estou aqui versão 2, sobre o assassinato do soldado Mário Kozel Filho

    • Tome-se algo mais recente.

      Brilhante texto do economista Adolfo Sachida, alertando uma outra injustiça que poderíamos resolver a contento e já , sem esperar 40 anos.

      “ Fernanda Torres, nós abaixo assinados, pedidos que nas suas entrevistas corrija uma grave omissão do seu discurso de recipiente, o de alertar o mundo que a mesma coisa que está ocorrendo conosco nesse momento.

      Eu sou a viúva de Clezao, preso injustamente e morto na Papuda. Meu marido morreu como o seu, e você simplesmente o ignorou.
      Mas eu ainda estou aqui como você.

      Eu sou Débora, cabeleireira e mãe de dois filhos, que escreveu “Perdeu, Mané” com batom em uma estátua e fui condenada a 17 anos de prisão.
      Eu também ainda estou aqui.

      Eu sou o vendedor de algodão doce, que estava na Esplanada dos Ministérios trabalhando no dia 8 de janeiro e fui preso por engano.
      Eu também ainda estou aqui.

      Eu sou o morador de rua que pedia comida e também fui preso injustamente.
      Eu também ainda estou aqui.

      Eu sou o autista que trabalha em um lixão e que, por estar presente no dia 8 de janeiro, sou obrigado a usar tornozeleira eletrônica.
      Eu ainda estou aqui.

      Eu sou Felipe Martins, preso injustamente por seis meses por uma viagem que nuncafiz (e que, mesmo se tivesse feito, não seria crime).
      Eu ainda estou aqui.

      Eu sou a mãe de seis filhos e esposa de um caminhoneiro que viajou a Brasília para entregar mercadorias. Enquanto esperava o caminhão ser carregado, meu marido foi à Esplanada e hoje está condenado a mais de 15 anos de cadeia.
      Nós ainda estamos aqui.

      Eu sou uma menina de 3 anos. Eu sou um menino de 6. Somos crianças órfãs de pais vivos. Nossos pais nunca pegaram em armas, nunca cometeram crime algum, mas hoje estão condenados a mais de 15 anos de prisão.
      Nós ainda estamos aqui.

      Eu sou um brasileiro comum, que vê a classe artística e os jornalistas serem TIGRÃOcom uma ditadura que acabou há 40 anos, mas TCHUTCHUCA diante dos desmandos que acontecem hoje no Brasil.
      Eu ainda estou aqui.

      Eu sou um advogado, chocado com o silêncio ensurdecedor da OAB diante de tantos absurdos jurídicos, condenações e penas desproporcionais.
      Eu ainda estou aqui.

      Eu sou um brasileiro comum, que hoje tem medo de escrever um texto na internet criticando uma autoridade pública, temendo ser preso por crimes que não existem.
      Todos nós ainda estamos aqui.

      Corrija essa falha solidária e do bem que você é. Não continue nos ignorando.”

      Parabéns Adolfo Sachida por lembrar essa verdade.

  2. O Brasil ganhou um Oscar pela primeira vez. Um filme brasileiro, (Ainda Estou Aqui) , Melhor Filme Internacional e incrivelmente , brasileiros que se dizem patriotas, todos do Partido Liberal ou estão criticando o recebimento da estatueta ou se mantém calados.
    Cai a máscara de patriotas, o que nunca foram, gostam mesmo é de dinheiro e Poder, que ninguém é de ferro.

    Um deputado federal do PL do Rio Grande do Sul, elogiou o filme e a vitória no Oscar. Recebeu tantas críticas dos bolsonaristas do PL, dizem que toda a família dos zeros, ligou para ele. O deputado covardemente, apagou o post nas suas redes sociais.

    As disputas políticas entre membros do governo e da oposição estão acabando com o que resta de civilidade no Brasil.

  3. Fernanda usou um modelito da Chanel no Oscar. Zelensky usou calça jeans e camiseta de manga comprida no salão oval da Casa Branca para peitar Trump.
    As narrativas vão se sucedendo de acordo com o que é preciso.
    Do outro lado da moeda, qual a ficha, a capivara do Rubens Paiva?

  4. Parece que a Comissão de Donos da Verdade, aqui representando a direitona bolsonarista, esqueceu de um detalhe importante para a verdadeira interpretação dos fatos, numa ditadura militar, repressiva, torturadora e assassina, de direita, os guerrilheiros e terroristas que lutaram contra ela, automaticamente são considerados heróis e patriotas pela nação vilipendiada.
    O pior dessa Comissão não são os erros intencionais de interpretação, jurídica, política e factual ou suas agressões chulas e grosseiras ou ofensas maldosas e gratuitas, o pior mesmo são as sandices sem nexo e a agressão à inteligência alheia.

  5. O Editor-Chefe é um gênio

    Sabe chutar tanto com a direita e a esquerda.

    Às vezes chuta com as duas juntas, nem o Pelé conseguiu esse feito extraordinário.

    Sr. Newton

    Estamos numa contradição igual a uma sinuca de bico.

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