Rachas no clã Bolsonaro travam alianças, mas não prejudicam Flávio nas pesquisas

3 thoughts on “Rachas no clã Bolsonaro travam alianças, mas não prejudicam Flávio nas pesquisas

  1. A união que eles pregam é, na verdade, um pacto de impunidade.

    Pela anistia, a desfaçatez de Dudu Bananinha não tem fronteiras

    Do exterior, Bananinha pede união e apoio a Flávio Rachadinha, mas o pano de fundo é o desespero de um clã que vê na anistia sua única salvação

    Bananinha, o filho que vive um autoexílio estratégico para escapar das garras da justiça brasileira, resolveu ressurgir com um figurino novo: o de pregador da união.

    É de uma desfaçatez constrangedora.

    Logo ele, que passou anos insuflando o ódio, tratando adversários como inimigos a serem eliminados e exaltando torturadores da ditadura militar, agora pede “senso de responsabilidade” aos brasileiros para eleger o irmão, Flávio.

    No mundo de fantasia dos Bolsonaro, a união só existe se for em torno da própria sobrevivência.

    O discurso, claro, é pura manipulação. Bananinha tenta vender a ideia de que o Brasil vive uma “página sombria” de censura, enquanto omite que o pai está preso justamente por tentar rasgar a Constituição e impor um golpe de Estado.

    Para os bolsonaristas, liberdade de expressão é a liberdade de mentir, caluniar e conspirar contra a democracia sem ser incomodado. Pedir apoio para Flávio em nome de uma suposta anistia não é patriotismo; é um plano de fuga familiar disfarçado de projeto político.

    O uso da fé cristã para validar essa empreitada é o ponto mais baixo do espetáculo. É para além de surreal ver quem armou a população, flertou com milícias e atacou a ciência durante uma pandemia posar agora como defensor de valores cristãos.

    Agora, foragidos ou acuados, tentam usar a memória curta de parte do eleitorado para se passarem por vítimas. O Brasil já conhece esse roteiro e sabe onde ele termina.

    A união que eles pregam é, na verdade, um pacto de impunidade.

    Fonte: Metrópoles, Opinião, 25/02/2026 08:00 Por Ricardo Noblat

  2. 15 de agosto – registro da candidatura
    Depois de aprovados nas convenções, os nomes dos candidatos devem ser registrados. E o prazo é 15 de agosto. Ainda vai passar muita lama embaixo desse viaduto.

  3. Um balde d’Água fria, conforme:
    “A VIDA E MORTE DE DIACUÍ.”

    “A história de Diacuí Kalapalo e Ayres Câmara Cunha é dessas coisas que fazem parte da memória e do imaginário uruguaianense.

    A história dos dois também é parte do imaginário nacional, mas não ocupa espaço na memória coletiva. E, como sabemos, às vezes as histórias vivem num meio-caminho, numa espécie de dívida, sempre entre aquilo que a memória deixa para trás e as coisas que a imaginação projeta para a frente.

    Este texto está assim, plantado nesse lugar, vivendo entre a memória e a imaginação de uma cidade.

    Acho que uma das primeiras vezes em que ouvi o nome de Diacuí e Ayres foi pela boca de minha avó, tomando mate de leite com erva-doce debaixo de um cinamomo. Minha mãe também já me falou deles. Ouvi sobre eles na escola. Aqui, ainda hoje, há quem ache que Diacuí morou em Uruguaiana e que viveu até a morte num casamento feliz com Ayres Câmara Cunha: “E tem até a morada da índia Diacuí!”, afirmam os desavisados nas conversas de esquina. Diacuí revive assim, entre a memória e a imaginação de uma cidade, nas esquinas e debaixo dos cinamomos.

    Diacuí tinha uns 22 anos quando conheceu Ayres. Ela morava bem longe de Uruguaiana; sua casa ficava numa aldeia no Alto Xingu. A tribo de Diacuí pertencia aos Kalapalos, um dos 14 povos que compõem o Xingu, um dos tantos povos que tiveram sua cultura invadida pelas expedições dos homens brancos.

    Ayres Cunha era um desbravador, um gaúcho nascido no extremo do Estado, em Uruguaiana. Desde jovem, tinha paixão pelo desconhecido; assim, viajava pelo Brasil desde o fim da década de 1930. Era um sertanista, desbravando o Oeste e o Norte do Brasil, e já havia participado de expedições com os irmãos Villas-Boas.

    Esse prólogo eu nunca soube. A história que me contavam quando criança era mais simples: um uruguaianense (homem branco) se apaixona por uma mulher (indígena) e luta para casar com ela. No fim, depois de um casamento de conto de fadas, a história se bifurca: de um lado, a memória conta que uma tragédia shakespeariana acabou com tudo; de outro, a imaginação diz que foram felizes para sempre.

    Da vida de Ayres e Diacuí fui saber tempos depois, bem depois dos mates com erva-doce da minha infância. Foi numa tarde quente de verão, em Santa Maria, garimpando as prateleiras do “Sebo do Bin Laden”, como era carinhosamente chamado o sebo de livros que havia na General Neto, pouco antes da Pinheiro Machado , num tempo em que eu ainda estava no início da graduação em História pela UFSM.

    E foi lá no “Sebo do Bin Laden” que me vi com um livro nas mãos, escrito por ele, Ayres Câmara Cunha: “A história da índia Diacuí: seu casamento e sua morte”.

    O livro tinha a capa em péssimas condições, mas as páginas estavam boas. Os cinco reais que paguei por ele não diminuíram os anos de apagamento histórico de Diacuí, mas apagaram as falsas imagens que, em Uruguaiana, construímos sobre ela e sobre Ayres.

    O livro eu não tenho mais; emprestei-o a um conhecido. E livros a “conhecidos” jamais devem ser emprestados. O livro de Ayres Câmara Cunha nunca mais voltou, mas a história de Diacuí ficou para sempre.

    Lembro-me das impressões que tive durante a leitura. Lembro da necessidade de Ayres de contar suas memórias como forma de construir a sua versão da história, uma narrativa para além do imaginário.

    Aos 22 anos, Diacuí (Flor do Campo, na sua língua nativa) era uma mulher bonita. Tinha traços fortes, marca dos indígenas do Xingu, e a baixa estatura realçava os longos cabelos pretos. Com esse conjunto, não deve ter tido dificuldades em chamar a atenção de Ayres Câmara Cunha.

    A região onde ficava a aldeia de Diacuí era atendida pela Fundação Brasil Central (FBC), órgão público criado em 1943 e onde Ayres trabalhava. A FBC tinha como objetivo planejar e implantar políticas de ocupação e expansão territorial. Suas atividades se mantiveram até 1979, quando foi extinta, dando lugar à Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro-Oeste. No entanto, seguiram-se políticas voltadas para a desconstitucionalização dos direitos indígenas, assim como uma desterritorialização constante das aldeias e a busca pela assimilação dos indígenas aos valores culturais e capitalistas da sociedade brasileira.

    Hoje, os traços dessa política devastadora para os povos indígenas ainda podem ser vistos em órgãos do governo federal, nas porteiras abertas à expansão das atividades madeireiras, no desmatamento de áreas de reserva para criação de gado, nas atividades de extração de minérios, nas grilagens e na concepção de que o indígena não quer ser indígena, mas uma espécie de homem branco às avessas.

    Mas, voltando ao casal, o primeiro contato de Ayres Câmara Cunha com os índios Kalapalos ocorreu em outubro de 1946, ainda no início das atividades da FBC. Embora a aura criada em torno de Diacuí e Ayres trouxesse a ideia de que a vida de ambos fosse um conto de fadas, essa aura nunca existiu.

    A versão de Ayres dá conta de que ele e Diacuí não tiveram um “amor à primeira vista”. Diacuí tinha muito medo de Ayres e de qualquer homem branco que se aproximasse. Ayres relatou que eles tinham a vida normal de qualquer casal; tanto que, na aldeia, já moravam juntos muito antes do casamento no Rio de Janeiro. Tinham sua própria cabana e suas rotinas.

    Quando Ayres resolveu se casar com Diacuí, a FBC e seus gestores não acharam uma boa ideia, pois um homem branco e uma mulher indígena não seriam bem vistos pela sociedade brasileira da época. Com isso, ameaçaram Ayres com a demissão se ele continuasse com a indígena. Na versão oficial, quando soube que seria demitido em função de sua relação com Diacuí, Ayres inventou o casamento como forma de minimizar a punição. Para não ser demitido, apelou para a imprensa. Qual dessas versões é a verdadeira? Sinceramente, não me interessa. Gosto de acreditar apenas no amor que havia entre os dois.

    Em 1952, a notícia de que um homem branco queria se casar com uma mulher indígena foi um prato cheio para a imprensa nacional. A imagem de uma mulher indígena nua, ao lado de um homem branco sorridente, chamou a atenção e alimentou o fetiche colonial dos homens brancos do Oiapoque ao Chuí, do Rio de Janeiro a Uruguaiana.

    No Rio de Janeiro, a história de Diacuí e Ayres foi contada aos quatro cantos por Assis Chateaubriand. Uma de suas revistas, O Cruzeiro, fez inúmeras matérias vendendo a história do casal; cada nova reportagem sobre Diacuí vendia muitas revistas. Diante da negativa do pedido de casamento pelo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), Assis Chateaubriand usou de sua influência e conseguiu que o Ministério da Agricultura, ao qual o SPI era subordinado, autorizasse o matrimônio. E fez o mesmo para conseguir uma igreja para o casamento. A história vendia, e o empresário lucrava bastante com isso.

    As fotos do casal tinham como foco a erotização da mulher indígena. Essa era (e é ) uma estratégia histórica de desumanização da mulher indígena, uma via machista de etnocídio. Afinal, nos mesmos jornais em que a história de Diacuí, quase sempre nua, era vendida, os homens da tribo dela nunca apareciam igualmente nus. Nas páginas da revista O Cruzeiro surgiam sempre as mulheres, despidas e erotizadas. Para boa parte da sociedade brasileira que acompanhava a história do casal, a imagem de Diacuí e seus seios contrastava com a de Ayres, o conquistador.

    O casamento foi um dos maiores acontecimentos do Rio. A Igreja da Candelária ficou cheia: ricos, famosos e curiosos. Assis Chateaubriand entrou com Diacuí pelo braço e a levou até o altar. Fotos, flashes, jornalistas, um casamento digno de desenho da Disney.

    Depois de casada, Diacuí nunca veio a Uruguaiana, ao menos que eu saiba. Nunca morou em nenhum pedaço de terra no Rio Grande do Sul. A única coisa que retornaria seria um homem enlutado, com uma filha nos braços.

    Um ano depois, em 1953, já grávida, Diacuí estava sozinha na aldeia enquanto Ayres havia viajado a trabalho, deixando-a às vésperas do parto. Na aldeia não havia médicos, parteiras ou remédios; não havia nada. Durante o parto, Diacuí morreria, sangrando. Mas deixaria uma filha, batizada com o mesmo nome da mãe.

    Ayres, antes tratado como herói, transformou-se em vilão nas páginas dos mesmos jornais e revistas que tanto venderam sua vida e a de Diacuí. Agora era tido como responsável por sua morte. Sua versão nunca foi publicada; sua voz nunca foi ouvida. Para Chateaubriand, a lógica seguia a mesma: assim como as imagens das indígenas nuas, os vilões também vendiam muitos jornais e revistas. E ele lucrou novamente.

    Há uns cinco ou seis anos, lembro de assistir a uma matéria no Jornal do Almoço, aqui de Uruguaiana, na qual aparecia a filha de Diacuí, já uma senhora, moradora da cidade, imbuída de uma expedição ao Xingu, tal qual o pai.

    Na matéria, ela relatou que veio para Uruguaiana com poucos dias de vida e que aqui viveu, ao lado de Ayres Câmara Cunha, até a morte dele. No Jornal do Almoço, contou que estava retornando à aldeia da mãe; queria conhecer essa parte de sua vida, a vida de uma mãe sobre quem tanto ouviu falar, mas que nunca conheceu.

    No governo FHC, Ayres foi homenageado e recebeu a “pomposa” quantia de R$ 600,00 como forma de recompensa por seus serviços de sertanista. Em Uruguaiana, a filha deve ser confundida com a mãe até hoje, pois tanto ela quanto a mãe vivem nesse espaço entre a memória e a imaginação.

    A história da “índia Diacuí” não foi uma história de amor com final feliz, como ainda hoje algumas pessoas contam em Uruguaiana. Diacuí foi personagem e vítima de uma história já conhecida: sobre como, no Brasil, os brancos trataram e tratam os indígenas; sobre como vendem suas vidas, destroem suas culturas e invadem suas terras.
    Diacuí deve ser uma memória viva em nossas comunidades, tema de aula, lembrança como puxão de orelha e sentida como um soco no estômago.

    Depois de conhecer as histórias sobre Diacuí, de ler a versão das memórias de Ayres. Depois de estudar a história das Reduções Jesuítas, de ler sobre os bandeirantes. Depois de saber dos oito mil indígenas mortos pelos governos militares e de suas políticas de etnocídio, das centenas de aldeias destruídas pela faraônica Transamazônica, somente depois é que pude escrever sobre ela.

    Não é possível deixar que a história de Diacuí viva na imaginação de Uruguaiana como se fosse um conto de fadas. Ela é tudo, menos um conto de fadas.

    Diacuí deve ter uma cadeira cativa na história brasileira, pois lembrar dela é pensar na forma como tratamos nossos povos originários. E é o que nos fará ter memória enquanto país.”
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