Charge do Clayton (Instagram)
Pedro do Coutto
A crise que se instalou no Supremo Tribunal Federal deixou de ser apenas um conflito entre ministros e começou a produzir um efeito mais profundo: a perda de confiança de uma parcela expressiva da sociedade na própria instituição. Pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira mostra que 56% dos entrevistados dizem não confiar no STF, dez pontos acima do resultado registrado em agosto. Ao mesmo tempo, a parcela que afirma confiar muito na Corte caiu pela metade, de 18% para 9%.
O dado ganha relevância porque a pesquisa foi realizada entre 10 e 13 de setembro, justamente no período em que a crise interna do Supremo se agravou a partir das investigações relacionadas ao Banco Master, das mensagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro e do embate institucional com o ministro André Mendonça. Portanto, não se trata de estabelecer uma relação automática de causa e efeito, mas é difícil ignorar a coincidência temporal entre a exposição pública do conflito e a deterioração da percepção sobre a Corte.
INDEPENDENTES – O problema é que a desconfiança não parece estar restrita a um campo político. Entre os independentes, grupo particularmente importante para medir a temperatura institucional fora das bases mais mobilizadas, a parcela que não confia no STF saltou de 50% para 65%. Entre os eleitores que se identificam com o lulismo, a desconfiança também aumentou, de 27% para 30%, enquanto a confiança elevada despencou de 41% para 23%. Entre os bolsonaristas, por outro lado, a desconfiança recuou de 73% para 69%.
Esse movimento é politicamente mais significativo do que uma simples mudança de opinião entre grupos ideológicos. Se a rejeição ao Supremo estivesse concentrada exclusivamente entre adversários de Alexandre de Moraes, seria possível interpretá-la como parte previsível da polarização brasileira. Mas o avanço entre os independentes e a redução da confiança entre eleitores de esquerda indicam algo diferente: a crise começa a ultrapassar a fronteira da disputa entre direita e esquerda.
É nesse ponto que o STF enfrenta seu maior desafio. Uma Corte constitucional pode tomar decisões impopulares sem necessariamente perder legitimidade. Justiça constitucional não é concurso de popularidade. Ministros não devem decidir de acordo com pesquisas de opinião. Mas existe uma diferença fundamental entre enfrentar impopularidade por cumprir a Constituição e permitir que a própria imagem institucional seja contaminada por disputas internas, suspeitas, conflitos de competência e interpretações de que o Tribunal passou a funcionar como parte interessada nos conflitos que deveria arbitrar.
EROSÃO DA CONFIANÇA – A pesquisa oferece um sinal particularmente incômodo: apenas 9% dizem confiar muito no Supremo. O número não significa que 91% rejeitem a Corte, porque outros 30% afirmam confiar pouco. Mas revela uma erosão da confiança positiva, aquela que permite a uma instituição exercer autoridade mesmo quando suas decisões contrariam interesses imediatos. A legitimidade de uma Suprema Corte depende justamente dessa reserva de confiança pública.
O contraste com outras instituições também merece atenção. Segundo o levantamento, 41% dizem não confiar na Presidência da República e 46% afirmam não confiar no Congresso. No caso do STF, são 56%. Mais importante ainda: enquanto a avaliação da Presidência e do Congresso melhorou, a do Supremo piorou.
Não é um detalhe estatístico. O Supremo, tradicionalmente associado à ideia de árbitro institucional, aparece agora mais próximo do centro da crise política do que da posição de árbitro distante dela. E essa mudança de percepção pode ter consequências que ultrapassam o episódio envolvendo Moraes e Mendonça.
ATUAÇÃO DE MENDONÇA – A própria pesquisa mostra que 37% consideram que Mendonça age corretamente no conflito, contra 16% que fazem a mesma avaliação de Moraes. Isso tampouco significa que a população tenha produzido um julgamento jurídico sobre os dois ministros. Pesquisas de opinião não substituem investigação, contraditório ou decisão judicial. O número, porém, demonstra que a narrativa pública do conflito já se consolidou e que, nesse terreno, a Corte perdeu parte do controle sobre a interpretação de seus próprios atos.
Esse talvez seja o ponto mais delicado. Quando ministros passam a trocar acusações, questionar procedimentos uns dos outros e disputar publicamente a condução de investigações envolvendo integrantes do próprio Tribunal, o cidadão comum deixa de enxergar apenas uma controvérsia jurídica. Ele passa a enxergar uma instituição em conflito consigo mesma.
A crise, portanto, não deveria ser tratada como uma batalha para saber quem venceu: Moraes ou Mendonça. Essa leitura é insuficiente e perigosamente partidária. O problema institucional é maior. Se o Supremo precisa investigar um de seus integrantes, discutir a validade dos procedimentos adotados por outro e administrar suspeitas relacionadas a informações provenientes de uma investigação policial, a primeira preocupação deveria ser reconstruir as condições de imparcialidade, transparência e previsibilidade capazes de sustentar a autoridade da decisão final.
REAÇÃO DE FACHIN – É justamente por isso que a reação do presidente da Corte, Edson Fachin, adquiriu importância institucional. Ao determinar procedimentos para centralizar e organizar casos que possam envolver integrantes do próprio Supremo, a Presidência da Corte tenta evitar que investigações potencialmente sensíveis continuem sendo conduzidas de maneira fragmentada.
Mas a questão não será resolvida apenas pela organização processual. O problema agora é também político e comunicacional. O Supremo pode estar juridicamente convencido de que suas decisões são corretas e, ainda assim, perder capacidade de convencimento perante a sociedade. Instituições democráticas não sobrevivem apenas da autoridade formal de seus cargos. Dependem também da percepção de que suas regras são aplicadas de maneira coerente, inclusive quando o alvo das decisões pertence à própria instituição.
A pesquisa Quaest traz outro dado que aponta nessa direção: 53% dos entrevistados defendem a adoção de um código de ética e de mandatos fixos para ministros do Supremo, enquanto 30% são contrários. O resultado não deve ser transformado automaticamente em programa de reforma do Judiciário, mas revela que uma parcela relevante da sociedade já questiona os mecanismos de controle e permanência no topo da Justiça brasileira.
LIMITES MAIS CLAROS – Isso coloca o STF diante de uma escolha que não é apenas jurídica. A Corte pode responder à crise fechando-se em torno da própria autoridade, tratando toda crítica como tentativa de enfraquecimento institucional, ou pode aproveitar o momento para estabelecer limites mais claros, procedimentos mais transparentes e mecanismos capazes de reduzir a percepção de que o Supremo julga conflitos políticos dos quais, de alguma maneira, também participa.
A segunda alternativa é mais difícil porque exige autocontenção. E autocontenção, no Judiciário, não significa omissão. Significa compreender que poder constitucional também precisa ser exercido com prudência.
Há uma ironia nessa crise. O STF ganhou protagonismo justamente porque passou a ocupar espaços deixados pela fragilidade de outras instituições. Ao longo dos últimos anos, decisões da Corte foram decisivas em momentos de forte instabilidade política e institucional. Esse protagonismo ajudou a preservar a democracia em determinadas circunstâncias, mas também aproximou o Supremo de um ambiente que é naturalmente marcado pela disputa política. Agora chega a conta desse protagonismo.
CAMINHO PERIGOSO – A pesquisa não prova que a Corte perdeu legitimidade. Também não prova que a população esteja rejeitando suas decisões ou defendendo a saída de qualquer ministro. O que ela mostra é algo mais simples e, por isso mesmo, mais preocupante: a confiança está caindo rapidamente. E confiança institucional, uma vez perdida, não se recupera com uma decisão judicial, uma entrevista ou uma nota oficial.
O Supremo ainda possui autoridade constitucional. O que está em disputa é a autoridade moral e institucional que permite que essa autoridade constitucional seja reconhecida pela sociedade sem que cada decisão seja imediatamente interpretada como ato de um lado contra o outro.
TRANSPARÊNCIA – A crise de setembro de 2026, portanto, não deveria ser reduzida a Moraes contra Mendonça, esquerda contra direita ou STF contra seus críticos. O verdadeiro teste é outro: saber se a Corte conseguirá demonstrar que suas regras valem igualmente para seus próprios integrantes e que o Tribunal é capaz de arbitrar conflitos sem se transformar, ele próprio, em parte permanente da disputa política.
O salto de dez pontos na desconfiança é um alerta. Ignorá-lo seria um erro. Transformá-lo em argumento contra o Supremo seria outro. O desafio democrático está justamente entre esses dois extremos: preservar a independência da Corte sem confundi-la com ausência de limites, e defender sua autoridade sem exigir da sociedade uma confiança automática. O Supremo não precisa ser popular. Precisa ser confiável. E são coisas muito diferentes.





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