Aos 7 anos do inquérito das fake news, lembro como fui parar na PF outra vez

Master: Toffoli e Moraes enfrentam isolamento no STF e silêncio de colegas após queda de credibilidade

Toffoli e Moraes fizeram em conluio para censurar Sabino

Mario Sabino
Metrópoles

Para marcar os sete longos anos da abertura do inquérito das fake news, reproduzo um artigo que escrevi em 2019, depois de ser censurado:

Faz sete anos, exatamente, que o inquérito das fake news foi aberto de ofício por Dias Toffoli, então presidente do STF, a pretexto de defender o tribunal contra ataques que ameaçariam a vida de ministros e até a própria existência da instituição.

Toffoli entregou a relatoria de bandeja a Alexandre de Moraes, que desde então, com o aval dos seus pares, vem perpetrando arbitrariedades ao arrepio das regras processuais e da Constituição Federal.

CENSURA À CRUSOÉ – Há sete anos também, a revista Crusoé, que criei e da qual era publisher, foi censurada no âmbito do inquérito das fake news por ter publicado uma reportagem verdadeira, baseada em documento no qual Dias Toffoli havia sido citado como “o amigo do meu amigo de meu pai” por Marcelo Odebrecht, investigado no âmbito da Lava Jato.

Além de ter a revista censurada, fui obrigado a prestar depoimento à PF, em episódio vergonhoso para a democracia brasileira. Ainda no calor da violência sofrida, escrevi um artigo em 19 de abril de 2019, intitulado “E lá fui parar na PF outra vez”. Eu o reproduzo abaixo para marcar o aniversário de sete longos anos desse inquérito sem data para ser encerrado, que fez mais uma vítima nesta semana: o jornalista que denunciou o uso indevido de um carro funcional do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família de Flávio Dino.

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“E LÁ FUI PARAR NA PF OUTRA VEZ”

“Na última terça-feira, dia 16 de abril, apenas 24 horas depois de ser intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, eu me apresentei ao delegado da Polícia Federal escolhido para conduzir o inquérito sigiloso e inconstitucional aberto para intimidar a imprensa (a história de que serve para apurar fake news e ameaças ao STF nas redes sociais é conversa para boi dormir). Foi a quarta vez na minha carreira profissional que me vi convocado a comparecer diante de um delegado pelo fato de ser jornalista.

Na primeira, em 2008, fui à mesma Superintendência da PF em São Paulo, como redator-chefe da Veja, para sair de lá como o único indiciado no caso do dossiê dos aloprados. Em 2016, Lula também quis me levar para uma delegacia, sob a acusação de que O Antagonista era uma associação criminosa. Nossos advogados conseguiram evitar essa ignomínia.

Em 2017, Wagner Freitas, presidente da CUT, foi outro a querer que um delegado me interrogasse. A tentativa foi novamente abortada.

UM RECORDISTA – É perturbador que um jornalista, pelo fato de exercer a sua profissão, seja intimado a ir quatro vezes à polícia na vigência de um regime democrático. Tendo a crer que sou um recordista no Brasil.

O delegado designado para conduzir o inquérito inconstitucional saído das cacholas de Dias Toffoli e de Alexandre de Moraes não soube dizer aos meus advogados em qual condição eu estava ali: se de investigado, testemunha ou, sei lá, colaborador. Ele afirmou ainda que, por ser sigiloso, desconhecia o teor exato da investigação.

Sim, você leu certo: o delegado designado para conduzir o inquérito inconstitucional saído das cacholas de Dias Toffoli e de Alexandre de Moraes disse não ter ideia sobre o que estava sendo investigado a meu respeito. Se é que eu era investigado, claro.

SEM JUSTIFICATIVA – Eu, no entanto, sei que não há objeto de investigação nenhum. Apenas quiseram calar a boca dos jornalistas que vêm fazendo reportagens sobre ministros do Supremo Tribunal Federal.

Como não conseguiram – e nem conseguirão, se o Brasil realmente for uma democracia digna de tal nome –, o inquérito teratológico ampliou a sua ousadia autoritária, com Alexandre de Moraes prestando-se ao papel vexaminoso de censor.

Dias Toffoli e Alexandre de Moraes acusam-me de estar à frente de sites que não são jornalísticos, mas destinados a produzir notícias falsas contra o Supremo Tribunal Federal, em conluio com procuradores da Lava Jato e militares golpistas — ambos os veículos financiados por gente escusa do mercado financeiro. A ideia agora, pelo que depreendo, é tentar provar que não sou jornalista, embora tenha 35 anos de carreira. 

ALEGAÇÃO DE TOFFÓLI – Em entrevista ao Valor, o ministro Dias Toffoli mostrou que seguirá o caminho de tentar nos desqualificar e criminalizar. Ele disse que orquestramos narrativas inverídicas para constranger o Supremo às vésperas de uma decisão sobre a prisão de condenados em segunda instância, o que seria obstrução de administração da Justiça.

Respondi no jornal que o único constrangimento causado ao Supremo se dá pelo comportamento abusivo de Dias Toffoli, que está abolindo o devido processo legal com o seu inquérito inconstitucional.

No dia seguinte, publicamos que Dias Toffoli simplesmente mentiu ao Valor: a reportagem sobre a eventual revisão da prisão de condenados em segunda instância foi publicada na quinta-feira, dia 11, o julgamento estava marcado para o dia 10, um dia antes de ela ser publicada, mas ele já havia sido adiado seis dias antes, no dia 4, a pedido da Ordem dos Advogados do Brasil. E nem sequer havia sido marcada uma nova data. Além disso, o documento da Odebrecht em que se baseou a reportagem foi anexado nos autos da Lava Jato no dia 9 de abril, após o julgamento ter sido adiado, portanto.

PEGA NA MENTIRA – Pergunto-me se Dias Toffoli mentiria assim diante do delegado da Polícia Federal que tomou o meu depoimento.

O presidente do Supremo Tribunal Federal também disse ao Valor que a Crusoé e O Antagonista não são imprensa livre, mas ‘imprensa comprada’. Respondi no jornal que não recebemos mesada e que Dias Toffoli não está imune a processo por calúnia.

Dias Toffoli e Alexandre de Moraes imaginavam que nós nos acovardaríamos porque teríamos rabo preso. Nós não nos acovardamos porque não temos o rabo preso.

Eles imaginavam que não teríamos apoio dos grandes jornais e emissoras de rádio e TV. Nós tivemos o apoio dos grandes jornais e das emissoras de rádio e TV. Todos perceberam que a ameaça não era apenas contra nós, mas contra a liberdade de imprensa.

MAIS APOIO – Eles imaginavam que não contaríamos com o apoio de juristas e entidades de classe. Nós tivemos o apoio de juristas e entidades de classe.

A censura foi levantada, mas não sei até que ponto os demais ministros do Supremo Tribunal Federal deixarão essa alopragem correr solta. Sugiro, modestamente, que contenham Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A pretexto de salvaguardar o Supremo, a dupla só fez afundar ainda mais a imagem do tribunal como guardião da Constituição. São eles, portanto, que ameaçam a corte.

Sem o Supremo Tribunal Federal, não há democracia. Assim como não há democracia sem liberdade de imprensa, o que significa o direito de criticar e fiscalizar todas as instituições, inclusive o STF. E, não canso de repetir, a liberdade de imprensa só se enfraquece quando não a exercemos. Se tiver de voltar à PF, direi isso ao delegado.”

Um pavão muito misterioso fez sucesso no cordel e na novela de TV

Como Tocar "Pavão Misterioso" de Ednardo No Violão!

Ednardo se tornou famoso com essa música

Paulo Peres
Poemas & Canções

José Ednardo Soares da Costa Sousa, cantor e compositor cearense, foi buscar inspiração no cordel de José Camelo para compor Pavão Mysteriozo, uma das sagas de amor similares à Romeu e Julieta, que conta a história de jovem turco muito rico que resolveu roubar uma condessa e casar-se com ela, independentemente da vontade dos pais e, para isto, mandou construir uma nave em forma de pavão e cumpriu seus objetivos.

Ao contrário de Romeu e Julieta, esta saga tem um final feliz. Ednardo compôs esta canção em ritmo de novena, que no Ceará é mais lento, para acentuar um clima de lamento. O LP “Ednardo – O Romance do Pavão Mysteriozo” foi gravado em 1974, pela RCA Victor. Em 1976, a música foi tema da novela Saramandaia.

PAVÃO MYSTERIOSO
Ednardo

Pavão misterioso, pássaro formoso,
tudo é mistério nesse teu voar
Ah, se eu corresse assim, tantos céus assim
Muita história eu tinha pra contar

Pavão misterioso nessa cauda aberta em leque
Me guarda moleque de eterno brincar
Me poupa do vexame de morrer tão moço
Muita coisa ainda quero olhar

Pavão misterioso, meu pássaro formoso
No escuro desta noite me ajuda a cantar
Derrama essas faíscas, despeja esse trovão
Desmancha isso tudo que não é certo não

Pavão misterioso, pássaro formoso
Um conde raivoso não tarda a chegar
Não temas, minha donzela, nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos, mas não podem voar.

Investigado por rombo, ex-presidente do BRB deixa dívida e vira alvo de penhora

Julgamento de Castro no TSE pode implodir acordo político de Flávio no Rio

Castro desconfia que grupo do senador “largou sua mão”

Juliana Braga
Octavio Guedes
G1

O julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que analisa a situação do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), provocou tensão no acordo político anunciado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) para as eleições no estado. Aliados do governador afirmam que o cenário jurídico acendeu um alerta e alimentou a desconfiança de que o grupo do senador teria “largado a mão” de Castro — o que pode levá-lo a rever seus próximos passos.

Castro contava com o voto favorável do ministro Antônio Carlos, o que não se confirmou. O magistrado votou pela cassação. Ele é considerado próximo de Kassio Nunes Marques, que, por sua vez, mantém relação política com Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência.

PEDIDO DE VISTA – Outra expectativa frustrada foi em relação ao pedido de vista de Kassio. Castro esperava que o prazo fosse de 30 dias, mas a presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, fixou 15 dias — período aceito por Kassio. O episódio ampliou a desconfiança do governador em relação ao ministro. Outro indício de que Kassio estaria despertando em Castro a desconfiança de uma traição é a conversa, nos bastidores, de que, caso seja cassado, ele poderia ser substituído pelo secretário da Polícia Civil, Felipe Curi.

Curi agregaria à pasta a experiência que ele tem na segurança pública e avaliação positiva na população fluminense a respeito da mega operação no Complexo do Alemão. Diante desse cenário, uma das possibilidades discutidas nos bastidores é a antecipação da desincompatibilização de Castro, com eventual indicação para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). A manobra lhe garantiria um cargo caso se torne inelegível e abriria espaço na chapa majoritária para outro nome ao Senado.

No sentido oposto, há a hipótese de Castro permanecer no cargo. Nesse caso, o secretário das Cidades, Douglas Ruas, não assumiria um mandato-tampão antes da eleição — etapa considerada estratégica para dar visibilidade à sua eventual candidatura ao governo pelo PL. Interlocutores do governador afirmam que há preocupação de que Ruas priorize a própria campanha e deixe em segundo plano a defesa da atual gestão, o que poderia comprometer o projeto de Castro ao Senado.

ABUSO DE PODER POLÍTICO – O pano de fundo é o julgamento que apura suposto abuso de poder político e econômico. O processo envolve a contratação de funcionários temporários no Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro (Ceperj) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Segundo o Ministério Público Eleitoral, as admissões teriam sido usadas para empregar cabos eleitorais.

O julgamento foi suspenso após pedido de vista de Kassio Nunes Marques. Durante a sessão, Cármen Lúcia informou que o processo retornará à pauta nos dias 24 e 25 deste mês. Diante do placar desfavorável ao governador, aliados de Castro no PL passaram a articular para que o ministro André Mendonça também peça vista, por até 60 dias. A estratégia seria ampliar o prazo de análise e adiar a retomada da votação para o período em que Kassio assumirá a presidência do TSE, em junho.

O plano, no entanto, é apertado. Caso Mendonça utilize os 60 dias a partir de 25 de março, o processo ainda seria devolvido na última semana da gestão de Cármen Lúcia à frente da Corte.

Ataques a Flávio Bolsonaro seriam um erro estratégico na campanha de Lula

Pedro do Coutto

Nos bastidores de Brasília, cresce a pressão de setores do entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que ele altere sua estratégia política e passe a adotar uma postura mais agressiva contra o senador Flávio Bolsonaro. A sugestão de alguns assessores e aliados é que o presidente abandone a linha centrada na divulgação de pautas positivas do governo e parta para o ataque direto contra a oposição, sobretudo diante de pesquisas eleitorais recentes que indicam maior competitividade do cenário político. No entanto, essa leitura pode estar equivocada e ignorar um princípio clássico da política: quem governa não deve agir como quem está na oposição.

Um presidente da República em exercício ocupa uma posição institucional completamente diferente da de seus adversários. Enquanto candidatos oposicionistas dependem do confronto e da crítica permanente para ganhar visibilidade e mobilizar suas bases, quem está no poder precisa transmitir estabilidade, confiança e capacidade de gestão.

RISCO – Quando um governante parte para o ataque com intensidade excessiva, corre o risco de passar a impressão de fragilidade política, como se estivesse reagindo de forma ansiosa a dificuldades momentâneas ou ao impacto de pesquisas desfavoráveis. Em termos estratégicos, esse movimento pode acabar fortalecendo justamente o adversário que se pretende enfraquecer, pois o coloca no centro do debate político nacional.

No caso de Lula, essa dinâmica é ainda mais sensível. Trata-se de um líder político com décadas de experiência e com uma trajetória que sempre se apoiou na imagem de liderança forte, capacidade de articulação e diálogo com diferentes setores da sociedade. Adotar uma postura reativa ou demonstrar preocupação excessiva com oscilações de pesquisas poderia transmitir ao eleitorado a sensação de que o governo se sente pressionado ou inseguro. Na política, a percepção de controle do cenário costuma ser tão importante quanto os próprios resultados eleitorais.

Além disso, o governo possui instrumentos políticos e administrativos que nenhum candidato de oposição tem. A chamada “máquina do governo”, longe de ser apenas uma expressão retórica, representa a capacidade concreta de implementar políticas públicas, apresentar resultados e dialogar diretamente com a população por meio de programas que impactam a vida cotidiana dos cidadãos. Nesse contexto, partir para o confronto direto pode significar desperdiçar uma vantagem estratégica importante.

TEMAS CENTRAIS – Há, inclusive, temas centrais que podem fortalecer a posição do governo no debate eleitoral sem necessidade de ataques. A discussão sobre mudanças no Imposto de Renda, especialmente a ampliação da faixa de isenção para trabalhadores de renda mais baixa, tem forte apelo social e pode dialogar diretamente com milhões de brasileiros. Da mesma forma, o fortalecimento de programas sociais como o Bolsa Família continua sendo uma das marcas mais reconhecidas das administrações petistas e possui impacto direto na vida de famílias em situação de vulnerabilidade. Políticas dessa natureza criam vínculos concretos com o eleitorado, algo que discursos agressivos dificilmente conseguem produzir.

Outro ponto relevante é que o cenário político brasileiro permanece profundamente marcado pela polarização que ganhou força com a ascensão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para setores da oposição, o ambiente de confronto permanente é extremamente favorável, pois mobiliza emocionalmente suas bases e mantém o debate público em torno de disputas ideológicas intensas. Ao entrar nesse terreno de forma deliberada, o governo pode acabar reforçando a lógica de polarização que beneficia seus adversários.

Historicamente, presidentes que buscam a reeleição ou a continuidade de seu projeto político tendem a ter melhores resultados quando conseguem transformar o debate eleitoral em uma comparação entre governos e propostas concretas. Quando a campanha gira em torno de indicadores econômicos, programas sociais, investimentos e melhorias percebidas pela população, o governante geralmente parte de uma posição mais confortável. Já quando o debate se transforma em uma sequência interminável de ataques e respostas, a disputa tende a se nivelar entre governo e oposição.

REFLEXO – Por isso, a pressão para que Lula adote uma estratégia de confronto direto contra Flávio Bolsonaro pode representar mais um reflexo da ansiedade típica dos bastidores políticos do que uma leitura estratégica consistente. Em vez de reagir às pesquisas com nervosismo ou elevar o tom contra adversários, o caminho mais sólido pode ser justamente o oposto: reforçar a agenda de governo, comunicar resultados e demonstrar tranquilidade diante do cenário político.

Na política, muitas vezes vence quem consegue transmitir a sensação de que controla o tabuleiro. Um presidente que demonstra serenidade, apresenta políticas públicas com impacto real e evita cair em provocações tende a ocupar uma posição mais forte diante do eleitorado. Em última análise, o eleitor costuma confiar mais em quem governa com segurança do que em quem parece disputar cada movimento como se estivesse na oposição.

Aos 94 anos, Bernardo Cabral critica a omissão do governo na crise hídrica

Bernardo Cabral, o estadista da República | Monitor Mercantil

È preciso garantir uma melhor qualidade de vida, diz Cabral

Vicente Limongi Netto

Hoje, quando a escassez de água tornou-se um tormento para governantes e população, vale recordar que há 30 anos, como senador, palestrante e escritor, Bernardo Cabral já ponderava e alertava sobre o assunto. Dizia Cabral:

“É preciso colocar-se na agenda da humanidade, como questão central, a falta de planejamento e racionalidade no uso dos recursos hídricos, uma constante que começa a ameaçar o abastecimento adequado”.

CRISE HÍDRICA – Como senador, Bernardo Cabral foi relator, em 1997, da lei que criou a política Nacional dos Recursos Hídricos. Em 2000, foi, também, relator no senado da lei que criou a Agência Nacional de Águas. Em 2004 Cabral continuava na sua pregação, no Brasil e no exterior, chamando a atenção para a crise hídrica.

O ex-ministro da Justiça, ex-presidente nacional da OAB, ex-relator geral da constituinte, o ex-senador antevia que o Brasil teria imensas dificuldades para lidar com o tema, e continua insistindo para que haja providências.

“A falta de planejamento e racionalidade no uso de recursos hídricos não é, por certo, uma característica isolada das grandes cidades, mas, sim, uma constante em todo o Brasil, que começa a ameaçar o abastecimento adequado dos vários aglomerados urbanos”, salienta o ex-senador, que no próximo dia 27 completa 94 anos de idade. 

MÃE DA VIDA – Em suas manifestações, Cabral destaca que “a mãe de toda a vida na terra é a água. Dela surgiu a vida. Dela a vida se nutre”.

Como relator-geral da Assembléia Constituinte Magna, o parlamentar perenizou a Zona  Franca de Manaus na Constituição. Ele tem diversos livros tratando de recursos hídricos, todos com edições esgotadas.

O Amazonas e os amazonenses devem eterna gratidão e respeito a Bernardo Cabral, que não está nada satisfeito com a omissão do governo federal e dos respectivos governos estaduais da Amazônia, em relação à falta de tratamento de esgotos nas cidades da região, uma situação revoltante.

STF exibe intolerável abuso de poder contra pastor, auditor e jornalista

Não há como ter um país livre sem uma imprensa livre

Fernando Schüler
Estadão

“Recebi a denúncia, apurei, confirmei a veracidade e publiquei”, diz Luís Pablo Conceição, o jornalista do Maranhão que teve a Polícia Federal na sua casa, por ordem de nossa Suprema Corte, por uma matéria sobre o uso de um carro oficial, por parte de um ministro. O carro é uma Toyota SW4, e a história é conhecida.

Havia imagens do ministro e familiares na praia, usando o veículo, e o Luís Pablo foi lá investigar. Fosse o Brasil uma democracia fundada em direitos, do tipo que desenhamos na Constituição, quem sabe o caso rendesse uma nota explicativa, por parte do Supremo. E talvez mais rigor no uso de carros oficiais. E assunto encerrado. Mas não é o caso.

BUSCA E APREENSÃO – Por estes dias, a Polícia Federal apareceu na casa do Pablo, às 6h da manhã, levou seu celular e seu computador. Seu sigilo de fonte virou poeira, se é que uma coisa dessas faça muito sentido no Brasil de hoje.

Não importa muito se Luís Pablo é um bom ou mau jornalista, ou um mero “blogueiro”, como diz um pedaço da imprensa. O fato é que atuou como jornalista, neste caso. Pela lógica de nossa Suprema Corte, ele não poderia ter investigado o uso de um carro oficial, por parte de um ministro. Simples assim.

Quem sabe Pablo pudesse publicar uma matéria sem investigar, mas neste caso seria mau jornalismo. Vamos imaginar: ele vê, por acaso, o carro passando na frente de sua casa, na praia, e publica uma foto. Seria um crime também? O ponto é que tudo isso é tremendamente bizarro.

DEMOCRACIA? – Se um jornalista identifica o uso indevido de um bem público, por parte de uma autoridade, ou qualquer outra irregularidade, diria que é sua função investigar. Ou então para que serve o jornalismo em uma democracia?

Sejamos claros: não há outra maneira de se ter um país livre se não com uma imprensa livre. Podendo errar, muitas vezes, pois isso faz parte do jogo. Vamos imaginar uma sociedade com a seguinte regra: você é livre para dizer o que quiser, mas não pode errar. Com um detalhe: é o Estado que define o que é o erro e o que é o acerto.

Pensem este princípio sendo aplicado às matérias recentes sobre os diálogos entre o ministro e Vorcaro, no dia de sua prisão. Seu conteúdo é muito mais grave do que a investigação do Pablo sobre o uso daquela SW4, no Maranhão.

TUDO FALSO? – O ministro Dino afirma que é tudo falso. Vai mandar a Polícia Federal para lá também? A pergunta sombria aqui: se os jornalistas que revelaram aqueles diálogos fossem apenas “blogueiros” sem pedigree, quem sabe no Maranhão, teriam escapado de receber a Polícia Federal na sua casa?

O que nosso Supremo está fazendo é mandar um recado: não investiguem. Se vocês acharem que há algum delito, por parte de uma autoridade, desistam. Fiquem calados. Caso contrário, isso pode ter uma enorme dor de cabeça.

Se isso tudo for um ponto fora da curva em nossa democracia seria lamentável, mas compreensível. Como escutei de um antigo ministro do Supremo, “as instituições são como grandes avenidas. São fundamentais, mas produzem lá seus acidentes”.

CRÔNICA SOMBRIA – O ponto é que nada disso é um acidente. É a crônica sombria do Estado brasileiro. Foi este o mesmíssimo caso da “investigação” sobre o Kleber Cabral, presidente da Unafisco.

Ainda por estes dias, lia a carta de um grupo de auditores da Receita Federal sobre o caso, dizendo que “o trabalho do auditor fiscal inclui a fiscalização de qualquer cidadão, inclusive autoridades públicas”. É curioso que uma coisa dessas precise ser dita, no Brasil de hoje.

Kleber Cabral não fez nenhuma matéria jornalística. Deu apenas uma opinião útil ao País. Disse que havia mais medo de investigar certas autoridades do que tratar do crime organizado. Ao invés de servir de alerta ao País, é ele quem termina na Polícia Federal. E desse modo, sejamos claros, confirmou seu ponto.

MALAFAIA RÉU – E por fim temos o pastor Malafaia, prestes a ser convertido em réu pelo STF, por dar um discurso chamando generais de “covardes”. Inútil dizer que não há foro de função para pastores no País e que, se alguém se sentisse ofendido, deveria mover um processo na primeira instância, contra o pastor. Mas o ponto não é este.

O Comando do Exército, com razão, considera que chamar um general de “covarde” é uma ofensa grave. Fôssemos uma grande democracia, nossos generais fariam uma nota pública contestando aquele discurso e dizendo que respeitam a lei. E que podem discordar duramente de Malafaia, mas respeitam seu direito de emitir a sua opinião.

Isto, na minha modéstia visão, seria de fato um ato de coragem. Acionar o inquérito das fake news expressa o caminho precisamente oposto: a chancela a um instrumento de exceção contra cidadãos comuns, algo que jamais poderia existir, em nossa democracia.

SEMIDEMOCRACIA – A verdade é que não andamos bem. Talvez sem notar, vamos passando do abuso para o uso mesquinho do poder. Ao lado do problema ético, que envolve nossa Suprema Corte, temos uma ferida aberta sobre direitos individuais no País.

Por agora lidamos com a agressão aos direitos de um pastor, um jornalista e o presidente de uma entidade de classe. Mas a verdade é que isto tudo diz respeito a cada um de nós.

Viver em uma sociedade livre significa que você pode dizer o que pensa, criticar e fazer jornalismo investigativo, se desejar. E à noite dormir tranquilo, porque sabe que há leis que protegem os seus direitos. E que há pessoas com a virtude e a coragem de fazer com que as leis sejam respeitadas. Se isso tudo desmorona, deveríamos nos preocupar. E, quando se percebe que vamos perdendo, dia a dia, a capacidade de indignação, deveríamos nos preocupar mais ainda.

Primeiro, Gilmar protegeu Lulinha e agora pretende blindar Toffoli e Moraes

Lulinha, o fenômeno, acha preferível morar na Espanha

Carlos Newton

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, deve anunciar nesta segunda-feira seu voto sobre o pedido de libertação do banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. Só ele sabe se será a favor ou contra, porque seu propósito é apenas marcar posição sobre anulações de inquéritos. O julgamento já tem três votos para manter o criminoso em penitenciária de segurança máxima, proferidos por André Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques. Portanto o placar final será de 3 a 1 ou 4 a 0, o voto do decano não muda nada.

Conforme já comentamos aqui na Tribuna da Internet, Gilmar Mendescestá empenhado em defender os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, embora os dois sejam juridicamente indefensáveis nas acusações respectivas de corrupção e tráfico de influência, entre outros crimes.

DEFESA DE TESE – Gilmar Mendes quer deixar bem claro que, em sua interpretação, a atual legislação permite que sejam anulados os inquéritos policiais sempre que ocorra vazamento de informações sigilosas ou íntimas.

Sua teoria é uma falácia, arquitetada habilmente para ajudar a livrar Dias Toffole e Alexandre de Moraes, deixando Daniel Vorcaro segurar sozinho a descarga. Se aplicada for aceita, não haverá mais prisão de investigados de elite, que tenham alto poder financeiro. É claro que os próprios investigados podem providenciar os vazamentos, com apoio da  corrupção existente na Justiça e na Polícia, e assim os inquéritos seriam anulados em série.

É claro que essa tese de Gilmar & Cia não pode prosperar. Embora o país esteja claramente funcionando sem respeito à harmonia dos Três Poderes, prevista pelo colossal Montesquieu, é preciso que haja limites para tudo, a esculhambação institucional não pode prevalecer.

SIGILO DE LULINHA – Gilmar Mendes não  sossega e não se intimida  ao atuar na defesa dos amigos de ocasião. Era grande admirador da Lava Jato, até seus amigos tucanos começarem a ser investigados. Depois, com o ocaso do PSDB, passou a ser amigo pessoal de Lula.

Na sexta-feira, pediu destaque no julgamento da decisão do ministro Flávio Dino que suspendeu quebras de sigilo em bloco, aprovadas pela CPMI do INSS.

Entre os beneficiados por Gilmar Mendes está o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, aquele filho fenômeno que cuidava de animais no zoológico e ficou rico de uma hora para a outra no primeiro governo do pai. É semelhante ao caso do ministro Benedito Gonçalves, do STJ, que também tem um filho desempregado que vive exibindo nas redes sociais seu enriquecimento ilícito.

EM SUSPENSO – Com a decisão de Gilmar, o assunto fica em suspenso até o presidente Edson Fachin agendar uma sessão presencial dos dez ministros. Foi um alívio para a família Lula da Silva.

Enquanto o caso não é pautado, continua valendo a decisão liminar de Dino que suspendeu as quebras de sigilo aprovadas pela CPI do INSS.

Para culminar, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que vive às turras com o presidente Lula, não está aceitando prorrogar os trabalhos da CPI do INSS. Com essa omissão, o corruptíssimo Alcolumbre conseguirá inviabilizar a incriminação de Lulinha e outros fenômenos petistas e de outros partidos. Como todos sabem, o senador ajuda os amigos, mas cobra muito caro a reciprocidade.

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P.S. –
Em meio a essas calhordices de sempre, em pleno ano eleitoral, permanece a sinistra e patética polarização entre lulistas e bolsonaristas, deixando o eleitor naquela obrigação de escolher o menos pior. E assim la nave va, cada vez mais fellinianamente. (C.N.)

Em pânico, Brasília aguarda o anúncio da delação premiada de Vorcaro

Brasília entra em pânico com possível delação de Vorcaro Troca de advogado do dono do Banco Master após decisão do STF que manteve sua prisão aumenta expectativa de colaboração premiada

Charge reproduzida do site Brasil 247

Roberto Nascimento

A confirmação da prisão de Daniel Vorcaro, por decisão por maioria da Segunda Turma do Supremo, com os votos de Luiz Fux e Nunes Marques acompanhando o relator, ministro André Mendonça, repercutiu no meio político e causou uma apreensão a mais no intrigado tabuleiro político e judicial, deixando à beira de um ataque de nervos muitas autoridades dos três Poderes.

O causador dessa insuportável tensão é o banqueiro Daniel Vorcaro, do grupo Master, um operador financeiro especializado em fraudes bancárias, pirâmides e até no comando de milícias digitais e físicas, disposto a mandar moer e matar adversários.

VORCARO BALANÇA – O fato concreto é que Vorcaro não está aguentando o isolamento na prisão. Trocou de advogados e assim mandou recados ao Congresso e ao Judiciário sobre a possibilidade de delação premiada. Mas, o líder de uma organização premiada, no topo do crime, pode fazer delação?

A legislação em vigor – Lei de Organização Criminosa – diz que sim. A diferença é que, se a delação for de um subalterno contra o líder da quadrilha, o delator pode ficar isento de crime e sequer ser denunciado pelo Ministério Público na abertura do processo penal.

No caso de Vorcaro, não há essa moleza. Como ele é o chefe da organização criminosa, seus benefícios serão no máximo uma redução da pena. De toda maneira, será julgado e condenado, porém com menos rigor.

IBANEIS EM PÂNICO – O governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, governador de Brasília, levou o Banco Regional de Brasília (BRB) a torrar R$ 12 bilhões dos cofres públicos na peneira do Banco Master de Vorcaro.

Às vésperas de deixar o governo para se candidatar ao Senado, Ibaneis não vem conseguindo dormir, toma Rivotril direto e teme ser rejeitado pelo eleitor da capital, onde há fortes candidatos, como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

O governador Cláudio Castro, que perdeu quase R$ 1 bilhão do RioPrevidência no Banco Master, já não tem certeza da viabilidade de sua eleição ao Senado e pode ser cassado pelo TSE no julgamento marcado para o dia 25 deste mês.

MAIS PREJUÍZOS – O senador Davi Alcolumbre está metido no rombo de 400 milhões da AmPrev (Previdência do Amapá), cujo presidente, indicado por ele, torrou investindo no Banco Master. O presidente do Senado está uma fera com a Polícia Federal, que teima em investigar corretamente essa fraude bilionária.

Hugo Motta, Jaques Wagner, Ciro Nogueira, e muitos outros políticos, assim como magistrados de tribunais superiores e membros do governo, são muitas “autoridades” com algum negócio fora das quatro linhas republicanas, alguns até legais, mas todos imorais, e temem a delação de Daniel Vorcaro.

A cada dia, surge uma novidade extraída dos oito celulares de Vorcaro e de seu cunhado, o pastor Zettel, expulso da Igreja Lagoinha de Belo Horizonte. Quem podia, levou dinheiro do Banco Master em troca de algum pedido desse verdadeiro encantador de serpentes. Mas quem vai pagar esse rombo, que já passa de R$ 50 bilhões? Ora, somos todos nós, os contribuintes, é claro.

Pluralidade do STM torna imprevisível julgamento de oficiais da trama golpista

Gastos com ex-presidentes aumentam e as prisões não interrompem os benefícios

Planalto corre para abrir palanques em SP e MG após crescimento de Flávio Bolsonaro

Mimos de Vorcaro a Moraes e Toffoli não salvaram o Master da liquidação

CPI do Senado para investigar Moraes e Toffoli reúne assinaturas  necessárias #charge #cartum #caricatura #editorialcartoon #politicalcartoon

Charge do Clayton (O Povo/CE)

Elio Gaspari
O Globo

O banqueiro Daniel Vorcaro tinha um gosto pelo espetáculo e um agudo sentido de oportunidade. Em setembro de 2023, quando ele começou a brilhar no mercado, torrou R$ 363 milhões com uma festa em Taormina, na Itália.

Em dezembro de 2023 Vorcaro lançou o nome do ministro Alexandre de Moraes em sua agenda. Meses depois o Master contratou a banca Barci de Moraes, da mulher e dos filhos do ministro. A essa época o Banco Central começava a prestar atenção nos números do Master.

FAROFA EM LONDRES – Em abril de 2024, Vorcaro copatrocinou uma farofa em Londres enfeitada, entre outros, por Moraes e Dias Toffoli. Num ágape lateral, bancou um “serviço de degustação Macallan no George Club” que lhe custou R$ 3,3 milhões.

Em setembro de 2024, a Polícia Federal passou a investigar o Master. Em novembro de 2024 Banco Central deu seis meses para que o Master acertasse suas contas.

Em dezembro, Vorcaro conseguiu que o ex-ministro Guido Mantega lhe abrisse a porta do gabinete de Lula. Não adiantou, em novembro de 2025, depois de vários ultimatos, o Banco Central liquidou o Master.

FONTE DA FORTUNA – Enquanto a revista Forbes colocava o brasileiro Eduardo Saverin no topo da lista de bilionários brasileiros, com US$ 35,9 bilhões, soube-se que Mark Zuckerberg está de olho numa casa de US$ 170 milhões.

Ela fica em Miami, tem nove suítes, 11 banheiros e quatro lavabos em cerca de 8.000 metros quadrados de terreno. A casa ainda está em obras. Em novembro passado, o dono da casa pedia US$ 200 milhões.

Em 2004 Saverin era um colega de turma de Zuckerberg em Harvard e acreditou na ideia de criar o Facebook. De lá para cá, os dois administraram seus patrimônios com rara competência. Desde 2009 ele vive em Singapura.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Resumo da ópera: Moraes e Toffoli venderam

Sob risco de cassação, Cláudio Castro recua e reavalia plano tentar o Senado

“Entre-Textos” tornou-se uma forma criativa de reunir poetas contemporâneos

RICARDO MANIERI – Brasil – Poesia dos Brasis – Rio Grande do Sul -  www.antoniomiranda.com.br

Livro reúne poetas de todo o país

Paulo Peres
Poemas & Canções

Bacharel em Letras e Direito, o poeta carioca Luiz Otávio Oliani teve a ideia de reunir diálogos com outros poetas brasileiros contemporâneos, divulgando-os nas redes sociais. Esses poemas foram inicialmente publicados no seu mural do Facebook e depois migraram para o livro impresso “Entre-textos”, lançado pela Editora Vidráguas, de Porto Alegre, em 2013, numa publicação de 41 diálogos, ou seja, para cada poesia Luiz Otávio responde com outro poema, num desafio chamado: o avesso do verso (reverso). De lá para pa, já foram lançados muitas outras versões do “Entre-textos”.

Veja abaixo como Luiz Otávio Oliani, através do poema “Busca”, responde à poesia “Desarticulação”, da ativista cultural e poeta carioca Neudemar Sant’Anna.

DESARTICULAÇÃO
Neudemar Sant’Anna

Deixei a porta aberta
Aberta demais
Apenas vi passar
a convivência

Nem percebi
o rancor
a maldade
o falso rastro

Ao tentar fechá-la
com lágrimas, lubrifico
as dobradiças
enferrujadas

Disfarço o ranger
da própria dor

BUSCA
Luiz Otávio Oliani

Nas frestas do mundo
fogos de artifício,
serpentinas,
palmas…

O que houve?
Felicidade à porta
e minha porta,
trancada

Operação da PF amplia ruído político entre Alcolumbre e governo Lula

Criticar e investigar autoridades virou grande risco nesta democracia à brasileira

PF intima presidente da associação de auditores da Receita a depor após críticas a medidas de Moraes - Estadão

Cabral, líder dos fiscais, não pode mais dar entrevistas

Fernando Schüler
Estadão

“São medidas para amedrontar”, disse Kleber Cabral, presidente da Unafisco (sindicato dos fiscais da Receita), e lascou: “É mais seguro investigar o PCC do que altas autoridades”. A crítica doeu em algum lugar de Brasília. Seu ponto era dizer que não era razoável sair colocando tornozeleira eletrônica em funcionários da Receita, naquela fase da investigação. Teria razão?

Quando li aquilo, me lembrei das denúncias de Eduardo Tagliaferro sobre irregularidades do ministro Alexandre de Moraes. Elas eram graves, nada foi investigado e o sujeito ainda virou réu. Rapidamente, um filme me passou pela cabeça. O comediante Bismark Fugazza, preso por meses, vida quebrada no meio, por um punhado de críticas e piadas a “autoridades”; o famoso tuíte do Prof. Marcos Cintra sobre algumas urnas. E logo a censura, a humilhação. E mais toda a bizarrice brasileira dos últimos anos.

DEPOIMENTO – O curioso é que Cabral terminou provando seu ponto. Foi ele mesmo parar na Polícia Federal, intimado pelo Supremo a dar “explicações” sobre sua crítica. Acabou por descobrir, como tantos brasileiros, que não é só investigar autoridades que se tornou perigoso. Mas que também uma crítica ao próprio abuso de poder pode ser, ela mesma, um risco danado.

No final, ele declarou que não iria mais dar entrevistas. Achei perfeito. O líder de uma entidade de classe de bico calado, por críticas ao Estado. Nossa democracia devidamente salva mais uma vez.

A verdade é que tudo isso é inadmissível. Se o presidente de uma entidade de classe como a Unafisco considera que exista um abuso de poder, ele não tem apenas o direito de expressar esta crítica. Ele tem o dever. E a sociedade tem o direito a esta informação. É assim que funciona uma grande democracia.

ABUSO DE PODER – Se uma atitude como esta fosse um ponto isolado, já seria grave. Mas não é. Ela é a repetição de um padrão de abuso de poder que o País vem assistindo desde 2019. Naquele ano, o STF criou o inquérito sobre fake news a partir de um artigo de seu regimento interno que simplesmente não lhe dava este direito.

De uma licença para investigar infrações cometidas na sede da Corte, produziu-se um tipo de alien jurídico. Uma expansão interpretativa que deu poderes ao relator Moraes para investigar e punir qualquer delito, discurso, crítica, “ataque” contra a instituição ou seus membros, em qualquer lugar do planeta, internet inteira incluída.

Por muitos anos, bastava usar a expressão “blogueiro bolsonarista”, ou alguma variação, para justificar qualquer coisa. A tudo assistimos passivamente, salivando no transe dos rancores políticos.

RADICALIZAÇÃO – O que se observa agora é uma migração. Do uso sistemático dos inquéritos contra o “bolsonarismo”, transita-se para o enquadramento de qualquer um que desafie sua própria engrenagem de poder.

Muita gente achava bacana quando nosso alien tropical funcionava contra um “lado” do jogo político. O ponto é que agora Moraes envelheceu. E aprendeu a agir, em primeiríssimo lugar, em defesa de si mesmo.

O poder é sedutor. O poder excepcionalíssimo, quase irresistível. Saber como lidar com esta engrenagem sem freios, não duvidem, é nosso grande desafio.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Excelente artigo. Aos poucos, Alexandre de Moraes tenta restabelecer a censura no país, mas não vai conseguir. Nesta quinta-feira determinou busca e apreensão contra o jornalista Luiz Pablo Almeida, que denunciou a família do ministro Flávio Dino, que utiliza ilegalmente o carro blindado que o Tribunal do Maranhense colocou à disposição dele, e não de seus desembargadores. (C.N.)

A prisão de Vorcaro e a sombra de uma delação que leva pânico a Brasília

Bastidores de Brasília temem delação de Vorcaro

Pedro do Coutto

A decisão do Supremo Tribunal Federal de manter a prisão preventiva do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, abriu um novo capítulo em um dos casos mais sensíveis do sistema financeiro brasileiro nos últimos anos. A determinação, tomada no âmbito da Corte após análise dos elementos reunidos pelas investigações, reforça o cerco judicial sobre o empresário e amplia, nos bastidores de Brasília, a expectativa de que ele possa recorrer ao instrumento da delação premiada.

Mais do que um movimento jurídico comum em investigações complexas, uma eventual colaboração de Vorcaro é vista por analistas e interlocutores do meio político como um fator capaz de produzir impactos relevantes, especialmente diante das suspeitas que envolvem a liquidação extrajudicial do banco e as conexões institucionais que gravitam em torno do caso.

EXPANSÃO ACELERADA – O Banco Master vinha, há alguns anos, apresentando uma expansão acelerada no mercado financeiro, com estratégias agressivas de captação e oferta de títulos com rentabilidades elevadas. O crescimento, porém, passou a ser questionado por órgãos de controle e autoridades regulatórias, que identificaram inconsistências contábeis e estruturas financeiras consideradas atípicas.

À medida que as investigações avançaram, surgiram suspeitas de operações que teriam sido utilizadas para mascarar passivos, ocultar prejuízos e sustentar artificialmente a imagem de solidez da instituição. O desdobramento desse processo levou à intervenção e posterior liquidação extrajudicial do banco, uma medida extrema aplicada quando há risco sistêmico ou impossibilidade de continuidade da instituição financeira.

Foi nesse contexto que as investigações passaram a apontar para um conjunto mais amplo de práticas que, segundo os investigadores, não se limitariam à gestão financeira do banco. Relatórios preliminares indicaram a existência de estruturas destinadas a influenciar decisões administrativas e regulatórias, além de tentativas de interferência no andamento das apurações.

Esses elementos pesaram na decisão judicial de manter Vorcaro preso preventivamente, sob o argumento de que a liberdade do empresário poderia representar risco para a coleta de provas e para o próprio andamento das investigações.

NOVOS CONTORNOS – O cenário ganhou novos contornos após uma mudança significativa na estratégia jurídica do banqueiro. Vorcaro decidiu trocar sua equipe de defesa, substituindo o escritório que o representava anteriormente. Nos meios jurídicos e políticos, a alteração foi interpretada como um possível indicativo de reavaliação das alternativas processuais disponíveis. Em casos de grande repercussão, mudanças desse tipo frequentemente antecedem a adoção de estratégias mais amplas de negociação com as autoridades investigativas, incluindo acordos de colaboração premiada.

A delação premiada, instrumento jurídico consolidado no Brasil especialmente após grandes operações anticorrupção da última década, permite que investigados forneçam informações relevantes em troca de benefícios penais. Em situações envolvendo estruturas financeiras complexas ou redes de influência institucional, esse tipo de colaboração costuma ter impacto significativo, pois pode revelar conexões e dinâmicas que dificilmente emergiriam apenas a partir de documentos ou provas materiais. É justamente esse potencial que explica a crescente inquietação nos bastidores do caso Master.

Fontes próximas às investigações avaliam que, caso Vorcaro opte por colaborar, as informações fornecidas poderiam esclarecer não apenas os mecanismos internos que levaram à crise da instituição, mas também eventuais relações políticas ou institucionais que teriam orbitado o processo de regulação, fiscalização e intervenção no banco. Em um ambiente como o sistema financeiro brasileiro — profundamente interligado com decisões regulatórias e políticas públicas — revelações desse tipo tendem a produzir efeitos que extrapolam o âmbito estritamente judicial.

DINÂMICAS DE INFLUÊNCIA – Por isso, o caso deixou de ser visto apenas como um episódio de crise bancária. Aos poucos, ele passou a ser interpretado por observadores do cenário político e econômico como um possível ponto de interseção entre finanças, poder institucional e disputas políticas. A eventual delação de Vorcaro, nesse contexto, poderia lançar luz sobre áreas ainda pouco esclarecidas do processo que culminou na liquidação extrajudicial do banco, além de expor dinâmicas de influência que frequentemente permanecem invisíveis ao debate público.

Enquanto isso, o processo segue avançando nos tribunais e nas instâncias investigativas. A manutenção da prisão pelo Supremo sinaliza que o caso continua sendo tratado com alto grau de gravidade pelas autoridades judiciais. Ao mesmo tempo, o ambiente de incerteza permanece elevado, sobretudo porque decisões estratégicas da defesa — como a possibilidade de um acordo de colaboração — podem redefinir rapidamente o rumo das investigações.

Se isso ocorrer, o episódio que começou como uma crise bancária poderá ganhar contornos ainda mais amplos, projetando suas repercussões para além do mercado financeiro e alcançando o coração da política nacional. Em um país onde escândalos financeiros frequentemente se entrelaçam com disputas de poder, a história de Daniel Vorcaro e do Banco Master ainda parece longe de seu capítulo final.

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