Delação do ex-presidente do BRB emperra e fica tudo em compasso de espera

Ex-presidente do BRB escreve delação na Papudinha

Malu Gaspar
Johanns Eller
O Globo

Enquanto Daniel Vorcaro já está em sua segunda negociação para um acordo de delação premiada, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, preso preventivamente desde 16 de abril, tem escrito os anexos de sua proposta de colaboração na cadeia sem nem mesmo saber se vai ou não poder começar a falar.

Duas semanas depois de apresentar uma proposta inicial para que a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) decidissem se assinam ou não um termo de confidencialidade para começar a negociar uma delação, Costa e sua defesa ainda esperam uma resposta dos investigadores sobre se há interesse ou não em seu relato.

TRANSFERÊNCIA – O ex-presidente do BRB foi transferido no início de maio da Penitenciária da Papuda para a Papudinha, reservada para oficiais e com melhores condições para os presos, com a perspectiva de fazer uma delação.

Acusado de comprar carteiras fraudulentas do Banco Master no valor de R$ 12,2 bilhões e de ter negociado em troca imóveis no valor de R$ 146 milhões, ele correu para propor um acordo, uma vez que naquele momento a primeira proposta de colaboração de Vorcaro já estava para ser rejeitada formalmente. A ideia era oferecer aos delegados e procuradores informações que eles ainda não tivessem, antes que Vorcaro pudesse tentar novamente.

Aparentemente, contudo, a proposta não empolgou e as conversas não avançaram. Nesse meio tempo, Vorcaro voltou à mesa de negociação. E na quarta-feira passada (3), o advogado do executivo, Davi Tangerino, enviou um ofício aos investigadores da PF e da PGR cobrando uma resposta. Lembrou, no documento, que a indefinição sobre o acordo de confidencialidade contraria a lei que regulamenta as delações premiadas.

SEM RESPOSTA – Tangerino alega que, caso não haja interesse dos órgãos em fechar uma colaboração, as instituições devem formalizar a negativa de forma fundamentada. Ou, se não houver nenhum obstáculo, destravar a negociação. Até agora, não houve resposta.

Na decisão que autorizou a prisão preventiva do ex-presidente do BRB há quase dois meses, o relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, afirmou que Paulo Henrique Costa foi “peça essencial” na compra de títulos podres do Master.

A contrapartida seria o pagamento de seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília, avaliados em R$ 146 milhões. Foi Mendonça quem autorizou a transferência de Costa para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a Papudinha.

EXPECTATIVA – Além de esclarecer as circunstâncias do esquema de fraudes na tentativa de compra do Master pelo BRB, vetada pelo Banco Central (BC) em setembro de 2025, há grande expectativa sobre o teor de uma eventual colaboração premiada de Costa às vésperas do período eleitoral.

Isso porque o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha – que até segunda ordem ainda é pré-candidato ao Senado Federal pelo MDB – é dado como protagonista obrigatório de uma delação. Também há possibilidade da colaboração respingar em lideranças do PP e do União Brasil, que formaram uma federação partidária neste ano.

A transferência de Costa para a Papudinha, inclusive, foi motivada por temores de escutas ambientais ou demais interferências no processo de discussão dos anexos da delação. Ele estava preso na Penitenciária da Papuda, que fica no mesmo complexo.

PREOCUPAÇÃO – A preocupação dos advogados à época era o fato de a Papuda ser administrada pelo governo do Distrito Federal, sob influência de Ibaneis e Celina Leão (PP), atual governadora, embora isso não tenha sido admitido abertamente.

Nos autos, a defesa argumentou que a Papuda não permitia “discutir eventuais fatos delitivos de forma eficiente” e nem “manusear fontes de prova” durante a negociação do acordo. Já a Papudinha, administrada pela PM, seria mais adequada. Como Costa é oficial da reserva das Forças Armadas, a transferência acabou autorizada por Mendonça.

Caso o acordo de confidencialidade não seja assinado, PH Costa ficará sujeito à versão de Vorcaro sobre o escândalo contada à Justiça. Isso, claro, se a delação do ex-banqueiro não for rejeitada novamente pela PF e pela PGR.

Nunes Marques é aliado dos Bolsonaro, mas a pesquisa está devendo explicações

Charge do Zé Dassilva: censura nas pesquisas - NSC Total

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)

Eliane Cantanhêde
Estadão

Ao suspender a última pesquisa AtlasIntel sobre a eleição presidencial, o ministro do Supremo Nunes Marques, atual presidente do STF, nos deixa entre uma tese, ou princípio, e uma questão direta, pontual. Em tese, a ingerência numa pesquisa legal e registrada é condenável. No caso em foco, há margem para dúvidas.

A família Bolsonaro ataca pesquisas e institutos desde as eleições de 2018 e 2022, quando também fez dura campanha contra as urnas eletrônicas e, por fim, negou os próprios resultados. Aliás, Jair Bolsonaro talvez seja o único vitorioso a acusar de fraude a eleição que ele próprio venceu. É inédito, incompreensível.

INDO E VINDO – De outro lado, o ministro Nunes Marques, bastante polêmico, foi indicado para o Supremo pelo então presidente Bolsonaro e é apontado como o mais bolsonarista da Corte, apesar de, nos seus votos e decisões, ir e vir de acordo com os ventos.

Se for por aí, a suspensão da atual pesquisa é preocupante, até suspeita, principalmente porque ela confirmou a queda de seis pontos, de abril para maio, de Flávio Bolsonaro para o presidente Lula num eventual segundo turno. Uma velha implicância com pesquisas amplificada por um resultado negativo? Se a pesquisa é boa para o candidato, vale; se não, não vale?

Há, porém, questionamentos não só na petição dos advogados do PL, partido de Flávio e na liminar de Nunes Marques, a ser submetida ao plenário do TSE, como também na explicação técnica e na metodologia usada pela AtlasIntel na pesquisa em foco.

DIRECIONAMENTO – Uma das perguntas da pesquisa foi se, “diante das informações divulgadas”, Flávio deveria manter a candidatura presidencial ou desistir e apoiar outro nome. À primeira vista, parece uma questão legítima, relevante, aliás, usada por outros institutos, mas o PL não acha.

O partido acusa o instituto de usar nos formulários expressões como “escândalo” e “evidências de envolvimento direto” ao se referir ao áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao dono do Master, Daniel Vorcaro, para um filme sobre o pai.

Para a defesa, isso influenciou as respostas dos entrevistados sobre intenção de voto, imagem e rejeição do senador.

DIZ O INSTITUTO – Alega o AtlasIntel que o questionário principal da pesquisa foi concluído antes de os entrevistados serem redirecionados para “uma página completamente separada do questionário”, com o áudio de Flávio com Vorcaro, para suas reações serem registradas, numa segunda etapa, sem possibilidade de alterações nas respostas já formalizadas.

Em resumo, o PL acusa a pesquisa de associar Flávio ao escândalo Master, Nunes Marques entende que há “suspeitas de indução ao eleitor” e a AtlasIntel nega “contaminação metodológica”, argumentando, por exemplo, que captou a mesma tendência de queda de Flávio que as demais pesquisas. Logo, dentro da realidade.

Difícil apoiar incisivamente uma das três posições, sem o bom e saudável debate entre os ministros do TSE e os entendidos na área, mas uma coisa é certa: essa guerra de versões e troca de acusações vai ser, ou já é, o forte da campanha. Nem as pesquisas e a mídia passam ou passarão incólumes, com as redes sociais armadas de robôs e fake news até os dentes.

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Após recuo de Pacheco, PSB mantém plano de disputar o governo de Minas

Pacheco anunciou que não disputará o governo estadual

Rafaela Gama
O Globo

O PSB sustenta que terá candidato ao governo de Minas Gerais, mesmo após o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) anunciar que não concorrerá ao comando do estado em outubro. Na fim do último mês, o parlamentar informou o encerramento de seu ciclo na política, após ser cotado ao longo dos últimos meses pelo PT como a principal aposta para um palanque em Minas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar da negativa de Pacheco, o PSB sinalizou que terá uma candidatura própria ao governo mineiro, de acordo com Otacílio Costa Neto, presidente estadual da sigla e prefeito de Conceição do Mato Dentro (MG). Há quatro nomes sendo considerados para a vaga. Entre eles, estão o ex-procurador-geral de Justiça do estado Jarbas Soares e o empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias de São Paulo Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente de Lula nos dois primeiros mandatos. Ambos já foram citados pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, como opções a serem consideradas.

PRÉVIAS – A sigla também coloca sobre a mesa os nomes do ex-presidente da AMM (Associação Mineira de Municípios) Julvan Lacerda e do ex-senador e ex-vice-governador de Minas Gerais Clésio Andrade. A partir de agora e até julho, o partido entrará em um processo de realização de prévias para a definição dos nomes que disputarão o governo estadual e o Senado.

O PT ainda considera uma composição com o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que tem resistido à possibilidade. A sigla também abriu diálogo nesta semana com Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal da capital, que se reuniu com Edinho e o deputado federal Baleia Rossi (SP), presidente nacional do MDB.

INDEFINIÇÃO – Já a direita mineira também enfrenta um momento de indefinição de um palanque para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nesta semana, o parlamentar sinalizou que planeja a construção de uma aliança com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), depois de descartar a hipótese de uma composição junto ao atual governador Matheus Simões (PSD), escolhido como sucessor do ex-governador Romeu Zema (Novo).

Em paralelo, caso a aliança com Cleitinho não avance, o PL planeja o lançamento de uma candidatura própria e analisa os nomes de Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas (Fiemg), e de Vittorio Mediolli (PL), ex-prefeito de Betim (MG).

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Uma poética homenagem a um artista inesquecível, chamado Altamiro Carrilho

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Altamiro Carrilho, o maior flautista do mundo

Paulo Peres
Poemas & Canções

A poeta carioca Marina Fairth (1951-2013) homenageou seu pai, o saudoso e genial músico, compositor e flautista Altamiro Carrilho (1924-2012), que gravou mais de cem discos, compôs cerca de duzentas canções, tendo se apresentado em mais de quarenta países difundindo o choro brasileiro. “É o flautista com maior número de gravações registradas na história do disco no Brasil”, segundo os críticos, “ além de ser um dos maiores flautistas da história do instrumento”.  Era considerado pelo famoso músico francês Jean Pierre Rampal o melhor flautista do mundo.

BRASILEIRO ALTAMIRO CARRILHO
Marina Fairth

Que bom que tenha nascido brasileiro!
E que sua missão fosse a de sempre estar
à frente de todos os passos
que fariam de nossa música
obra de arte de valor incalculável!

Embora seja simples seu modo de se apresentar,
torna tudo aquilo que concebe em realidade.
Faz da sonata um choro leve;
do samba uma festa!
Dos hinos uma euforia,
do maxixe fantasia!
E dos clássicos … uma ode à eterna esperança
vestindo-se de criança
brincando com o Carinhoso em forma de sinfonia!

Que prodígio é este menino!
60 anos brincando de fazer música:
compondo, executando com magistral beleza,
deixando que sua natureza
se manifeste em seu som
tirado da flauta e do flautim,
fazendo um grande festim
das bodas da harmonia
com o brilho do artista!

Altamiro – Brasileiro Carrilho!
Que fala a linguagem universal,
porém única em seu particular sonho criativo,
tornando-se mito em sua terra
e nas terras de além-mar!

Altamiro, com orgulho ofereço
esta página que é minha,
que reflete o meu carinho,
minha honra em ter nascido uma filha
do brasileiro Altamiro!

Deus te abençoe, meu pai,
pelo muito que tem feito,
por ter tirado proveito
do dom sagrado que Deus lhe deu.
E por estar cumprindo
honrosamente sua missão neste mundo:
Fazer brilhar a Luz de Deus
através de sua música!

Nunes Marques não se envergonha de estar renovando a censura política no Brasil

Nunes Marques analisa pedido de Flávio Bolsonaro sobre nulidade de pesquisa  | Blogs | CNN Brasil

Nunes Marques aplaude a criação da censura nas pesquisas

Vicente Limongi Netto

Com vocês, na imunda passarela da censura, desfila o presidente do Tribunal Superior Eleitoral(TSE), ministro Nunes Marques, que suspendeu, em decisão liminar, a divulgação de uma pesquisa do Instituto AtlasIntel, segundo a qual o candidato Tariflávio Bolsonaro caiu 5% nas intenções de voto, depois do vazamento do áudio onde o aloprado Flávio Rachadinha pede dinheiro ao facínora Daniel Vorcaro. 

Lamentável e vergonhoso que o ministro Nunes Marques traga de volta a censura para disputar espaços com a democracia. Nunes Marques quer ser mais realista do que o rei.

DEBAIXO DO TAPETE – Com essa decisão surpreendente e ilegal, o presidente do TSE briga com os fatos. Esconde a imunda verdade debaixo do tapete. Além de desmoralizar a opinião dos brasileiros ouvidos na pesquisa.

Nunes Marques tornou-se ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) por indicação do golpista Jair Bolsonaro, pai do outro golpista, Flávio Achocolatado. 

Neste caso melancólico, trata-se de gratidão cretina e serviçal.  Como magistrado, Nunes Marques não pode nem deve misturar as estações. A toga exige que seja isento.

DIA DOS NAMORADOS – Vem aí o grande dia.   Namorar é viver encantado e feliz. São os laços da ternura com o belo. São gestos suaves anunciando o amor. É o sorriso permanente.  É a tolerância oferecendo flores para o amanhecer. É a energia sublime dividindo emoções com a pessoa amada.

Namorar é dividir anseios e dúvidas. É o abraço apertado que espanta apreensões da alma. É o cotidiano ameno, carinhoso e solidário. É o beijo amoroso de serenidade e respeito.  O namoro preserva, no caminhar da vida, a paciência e a união duradoura. 

Sob comando de indicados de Bolsonaro, TSE já desperta preocupação dentro do Supremo

PF deve rejeitar novamente delação de Vorcaro; informações foram consideradas insuficientes

Anúncio deve ser feito ainda nesta terça-feira

Mônica Bergamo
Folha

A PF (Polícia Federal) vai recusar a nova proposta de delação premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro na semana passada. O anúncio deve ser feito nesta semana, provavelmente ainda nesta terça (9), diretamente aos advogados do dono do Banco Master.

Será a segunda recusa dos termos de colaboração propostos por ele em menos de um mês. Em maio, a PF considerou que a primeira proposta apresentada pelo ex-banqueiro não trazia elementos novos para a investigação e deixava de fora fatos que os investigadores já conheciam.

SEM NOVIDADES – Os argumentos agora se repetem: nesta segunda tentativa, Vorcaro até teria detalhado situações envolvendo políticos e autoridades, sem, no entanto, apresentar novidades em relação ao que já foi descoberto, e sem apontar crimes cometidos por parceiros.

De acordo com autoridades ouvidas pela coluna, a impressão é a de que o ex-banqueiro está apenas tentando ganhar tempo na esperança de que o STF (Supremo Tribunal Federal) sinalize que pode afrouxar as medidas tomadas contra ele e seus familiares.

JULGAMENTO – Nesta semana, a Corte deve retomar o julgamento que decidirá se o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, seguirá preso. A nova rejeição à delação não significa que as portas da PF estão totalmente fechadas para o dono do Banco Master. De acordo com a lei, ele pode sempre voltar às autoridades com uma nova proposta de colaboração.

Na prática, porém, “ficar nesse vai e vem”, de acordo com um integrante da PF, em nada deve melhorar a situação em que o ex-banqueiro se encontra. A PGR (Procuradoria-Geral da República) também estaria insatisfeita com os novos termos de colaboração apresentados por Vorcaro, mas tem adotado uma postura diferente, de não recusar oficialmente a delação e seguir negociando na tentativa de que ela melhore. Procurada, a defesa de Vorcaro não respondeu à coluna.

Cármen Lúcia prepara código de ética para o Judiciário e defende mais transparência no STF

A política das conveniências e o enfraquecimento da identidade partidária

Casa atingiu o recorde de trocas de partido

Pedro do Coutto

A política brasileira vive um momento que ajuda a explicar muitas das dificuldades enfrentadas pela democracia representativa no país. A poucos meses das eleições de 2026, o Senado Federal se transformou em um verdadeiro tabuleiro de reposicionamentos estratégicos, onde a busca por espaço político, estrutura eleitoral e proximidade com o poder parece falar mais alto do que compromissos ideológicos ou fidelidade partidária.

Levantamento destacado por reportagem de Luísa Marzullo, de O Globo, revela que ocorreram 86 trocas de legenda entre senadores nos últimos oito anos — um número superior ao total de integrantes da Casa, que possui 81 cadeiras. Trata-se de um recorde histórico e de um retrato bastante eloquente da dinâmica política brasileira contemporânea. O fenômeno não é episódico nem casual. Pelo contrário, ele se intensifica justamente em um ano eleitoral marcado pela renovação de dois terços do Senado, quando 54 das 81 vagas estarão em disputa.

MIGRAÇÃO – A explicação imediata parece simples. Diferentemente dos deputados federais e estaduais, os senadores não estão submetidos às mesmas regras rígidas de fidelidade partidária. Como exercem mandatos de oito anos e são eleitos pelo sistema majoritário, possuem ampla liberdade para migrar entre legendas sem risco de perda do mandato. Essa característica institucional transformou o Senado em um espaço particularmente flexível para rearranjos políticos e eleitorais.

Mas o fenômeno vai muito além de uma simples questão jurídica. O que está em curso é uma disputa nacional pelo controle das futuras maiorias parlamentares. O Senado tornou-se peça estratégica para qualquer projeto de poder, seja do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, seja das forças oposicionistas que tentam ampliar sua influência institucional.

Nesse contexto, a movimentação dos senadores segue uma lógica pragmática. A filiação partidária passa a ser vista menos como expressão de identidade política e mais como instrumento para maximizar chances eleitorais. Estrutura financeira, tempo de propaganda, alianças estaduais, acesso a lideranças nacionais e potencial de vitória tornaram-se fatores decisivos na escolha das legendas. Especialistas apontam que as migrações recentes refletem justamente essa busca por melhores condições de competição eleitoral.

RESISTÊNCIA –  O caso de Rodrigo Pacheco ilustra bem essa realidade. Após perder espaço dentro do PSD, legenda pela qual se elegeu para o Senado, o ex-presidente da Casa migrou para o PSB, partido aliado ao governo federal. A mudança foi interpretada por muitos analistas como parte da estratégia de Lula para fortalecer sua presença em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. Entretanto, a resistência de Pacheco em disputar o governo mineiro demonstrou que nem sempre os planos nacionais conseguem prevalecer sobre os cálculos políticos individuais.

A situação de Minas Gerais revela um dos maiores desafios enfrentados pelo Palácio do Planalto. Embora Lula disponha da força institucional da Presidência da República e dos instrumentos inerentes ao cargo, a construção de palanques estaduais competitivos continua sendo uma tarefa complexa. Em São Paulo, o governo aposta na articulação de nomes capazes de enfrentar o grupo liderado pelo governador Tarcísio de Freitas. No Rio de Janeiro, por sua vez, a candidatura de Eduardo Paes é vista como um dos pilares da estratégia governista para 2026.

Por trás dessas articulações existe uma preocupação ainda maior. O governo compreende que a disputa presidencial não será suficiente para garantir governabilidade. A composição do Senado tornou-se central porque a Casa exerce funções decisivas no equilíbrio institucional brasileiro, desde a aprovação de autoridades até a condução de processos de impeachment e sabatinas de indicados para tribunais superiores. Não por acaso, Lula tem enfatizado repetidamente a necessidade de ampliar sua base parlamentar nas eleições de 2026.

SEGUNDO PLANO –  Entretanto, o aspecto mais preocupante desse cenário talvez não seja a movimentação em si, mas aquilo que ela revela sobre os partidos políticos brasileiros. Quando parlamentares transitam com relativa facilidade entre legendas de orientações distintas, a mensagem transmitida ao eleitor é a de que os programas partidários possuem importância secundária. A identidade ideológica acaba substituída por alianças circunstanciais, negociações regionais e cálculos de sobrevivência eleitoral.

Esse processo contribui para aprofundar uma crise de representação que já afeta grande parte das democracias contemporâneas. O eleitor vota em um candidato associado a determinado partido e a um conjunto de propostas, mas frequentemente vê esse mesmo político migrar para outra legenda ao longo do mandato. Embora legalmente legítima, essa prática alimenta a percepção de distanciamento entre representantes e representados.

O debate que começa a surgir no Supremo Tribunal Federal sobre a eventual ampliação das regras de fidelidade partidária para cargos majoritários pode ganhar relevância nos próximos anos. Caso a interpretação avance, senadores, governadores e até presidentes poderiam enfrentar restrições semelhantes às já existentes para parlamentares eleitos pelo sistema proporcional. A discussão envolve princípios constitucionais complexos, mas reflete uma preocupação crescente com a estabilidade partidária e a coerência dos mandatos eletivos.

TROCA-TROCA – Enquanto isso, o Senado segue em intensa transformação. As trocas de legenda provavelmente continuarão até o prazo final das filiações partidárias, redesenhando forças políticas e alterando estratégias eleitorais em praticamente todos os estados brasileiros.

No fundo, o cenário retratado pela movimentação dos senadores expõe uma característica histórica da política nacional: a predominância do pragmatismo sobre a ideologia. Em um sistema onde a sobrevivência eleitoral frequentemente depende de alianças flexíveis e adaptações constantes, os partidos acabam funcionando mais como veículos para projetos de poder do que como organizações programáticas de longo prazo. O resultado é um Congresso permanentemente em movimento, mas nem sempre conectado às expectativas de coerência e representação que grande parte da sociedade espera de seus líderes políticos.

Um grande país se faz com uma Justiça de regras confiáveis e iguais para todos

Justiça nem sempre é cega charge política. Uma mão oferece dinheiro à Justiça e ela remove a venda para parecer gananciosa charge política

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Fernando Schüler
Estadão

“Vai chegar o dia em que a mera defesa da liberdade de expressão será um crime no Brasil”. Me lembro de ouvir isso em um debate, anos atrás. À época, achei exagerado. Mas a verdade é que o dia chegou. Já tratei aqui do caso Monark. Ele fez exatamente isso, em um programa perdido no tempo, defendendo a liberdade de expressão até para um partido nazista.

Semanas atrás, saudei o promotor Marcelo Ramos e o Ministério Público pela manifestação em favor da improcedência da ação”. O argumento de Ramos era cristalino, mostrando que o youtuber havia feito uma defesa — equivocada, na sua visão — da liberdade de expressão. E que isto não poderia ser um crime.

TRISTE ENGANO – “Ótimo”, pensei. Sinal de que estaríamos recuperando algum apreço a direitos individuais. Ou, quem sabe, apenas o bom senso. Triste engano. Dias depois, tudo retrocedeu.

Não apenas o promotor Marcelo foi afastado do caso, como sua decisão foi “substituída” pela de um colega, sob a curiosa justificativa de que Ramos havia se “equivocado”. Para completar, o próprio promotor acabou sofrendo um processo disciplinar, sob a vaga acusação de colocar em risco o “prestígio” da Justiça e a “dignidade” do Ministério Público.

Pelo que entendi, prestigiar a Justiça exigiria que o promotor tivesse confirmado a multa de R$ 4 milhões para o Monark. Mesmo se isso atentasse contra sua convicção sobre o caso. Como decidiu na direção inversa, pode agora ser sancionado, sabe-se lá de que jeito.

DUPLA CENSURA – O que temos agora é uma dupla censura: o MP querendo censurar o Monark. E querendo, de quebra, censurar o promotor que defendeu a liberdade de expressão de Monark. Difícil achar uma imagem mais adequada do país estranhíssimo em que nos transformamos.

Muitas coisas impressionam neste caso. A primeira delas é a curiosa dificuldade com a objetividade da lei e do texto. É perfeitamente inequívoco que Monark não fez apologia nenhuma do nazismo. Sua defesa é de um princípio idêntico ao da Primeira Emenda americana. Pode estar errado nisso. Mas, se isto fosse um crime, há muito não seríamos mais uma democracia.

Impressiona, neste caso, a inversão de valores. O promotor que repõe a realidade dos fatos passa a ser ele mesmo o “culpado”. Para quem gosta de história, foi exatamente o que ocorreu no caso Dreyfus. Quando Georges Picquart assumiu a inteligência francesa e percebeu que o capitão Dreyfus era inocente, foi removido de sua função e logo indiciado. O pecado, à época, não era ser um youtuber anarquista e politicamente incorreto. Era o antissemitismo. Cada época tem lá sua loucura.

TRISTE EXEMPLO – O caso entrou para a história como exemplo de intimidação e corporativismo judicial. O instante triste em que as razões de Estado, que por vezes não passam de mesquinharia, se sobrepõem ao dever de justiça. Coisas que nunca deveriam acontecer em uma democracia baseada em direitos.

O curioso disso tudo é que Monark, com sua fala confusa, pode estar dando uma enorme contribuição à nossa democracia. Seu caso expõe uma fratura entre a objetividade da lei, de um lado, e a politização da Justiça, de outro.

Meu argumento sobre isto é bastante simples: em um mundo fraturado, como o nosso, marcado por um radicalismo difuso que se produz no ambiente tóxico dos meios digitais, precisamos tomar cuidado. Que a sociedade esteja tomada pelas guerras culturais é apenas um fato. Sem lá muito remédio. O que é inadmissível é que isto ocorra com as instituições.

REGRAS IGUAIS – Um grande país se faz com o que o Nobel Daron Acemoglu chamou de “instituições inclusivas”. Instituições que resistem à captura. Seja por parte de identitários ou conservadores. Um sistema de justiça feito de regras iguais para todos, e no qual cada cidadão pode confiar. E, a partir daí, acreditar que vale apostar.

Vale dizer o que pensa, mesmo quando isto signifique criticar as leis, as autoridades e defender uma ideia muito ampla sobre a liberdade de expressão.

E isto sem medo de acordar no dia seguinte arrebentado pelas idiossincrasias de algum agente do poder. Viver em um país com estas virtudes é um direito do qual, por nada, deveríamos abrir mão.

Imoralidades tributárias do Congresso criam um país que não pode dar certo

Apesar de limitada, Comissão da Verdade é um passo histórico para consolidar a democracia no Brasil | FUP - Federação Única dos Petroleiros

Charge do Latuff (Arquivo Google)

Hélio Schwartsman
Folha

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas.

ISENÇÃO MÚLTIPLA – Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos.

O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

GRAVES DISTORÇÕES – Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular.

Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Artigo impecável. Mostra as distorções que o próprio Congresso cria. Realmente, não pode prosperar um país que não se preocupa com critérios que poupem os recursos públicos, para serem empregados no que é absolutamente necessário. É lamentável. (C.N.)

Bolsonaro errou feio ao indicar Flávio, que não tem condição de vencer Lula

Tarcísio é a aposta do mercado financeiro para substituir Bolsonaro após  inelegibilidade – CartaCapital

Se tivesse sido indicado, Tarcísio estaria liderando as pesquisas

Carlos Newton

Durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, acompanhei numa visita ao Congresso o então presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho. Além de ser jornalista, ele conseguia ser advogado, procurador, escritor, professor universitário e historiador. Era uma figura realmente notável, sempre de bom humor, e adorava política, tinha sido governador e deputado federal por Pernambuco.

Ele se encontrou com Ulysses Guimarães, que então presidia a Câmara e a Assembleia Constituinte, e com Humberto Lucena, que presidia o Senado. Sua visita foi acompanhada por muitos jornalistas, entre os quais se destacava a premiada fotógrafa Ana Carolina, da revista IstoÉ, que usava uma estonteante minissaia.

UM GALANTEIO – O presidente da ABI não sabia que Ana Carolina era filha de um de seus maiores amigos, o jornalista Helio Fernandes. Quando ela se aproximou  para fotografá-lo, Barbosa Lima, que estava com 90 anos, não conteve o galanteio e arrancou gargalhadas. “Está tudo errado, minha filha. Me passe a máquina, porque eu é devia fotografá-la…”.  

Antes de sairmos, pediu que eu o levasse ao gabinete de Jarbas Passarinho, ao lado do plenário.  Eu não sabia que eram amigos, porque Barbosa Lima se opunha firmemente contra os militares e até foi candidato a vice-presidente na chapa de protesto encabeçada por Ulysses.

“Gosto muito do Passarinho. Entre os militares, é um dos mais preparados e mais dignos, foi o único ministro que assinou a contragosto o AI-5, lembra?”, explicou  

MAL DE FAMÍLIA – A conversa rolou solta sobre a importância da Constituinte e as negociações políticas, e a horas tantas Jarbas Passarinho fez uma revelação que nos surpreendeu. “Para os políticos, o maior problema é a família. Dos amigos, a gente ainda consegue se livrar, mas é impossível se livrar da família…”, disse o senador.

“Os membros da família acham que o político pode lhes dar tudo. Querem emprego de alto salário, vaga na universidade sem fazer vestibular, passagem grátis em avião da FAB, uma chatice, não há quem aguente!”.

Quando saímos, Barbosa Lima comentou: “Também sofri muito esse problema, especialmente quando fui governador de Pernambuco. É um lado podre da política.

ESCOLHA INFELIZ – Lembrei esse episódio ao refletir sobre os rumos da sucessão presidencial. Jair Bolsonaro é um dos maiores influenciadores políticos. Não pode ser candidato, mas tem força para influenciar diretamente o voto de milhões de brasileiros.

Ele poderia ter indicado o governador paulista Tarcísio de Freitas, que é e sua inteira confiança, para formar uma chapa fortíssima com seu filho Flávio, como vice. Se tivesse feito essa escolha, a eleição corria o risco de ser vencida por Tarcísio no primeiro turno.

No entanto, Bolsonaro preferiu um membro da família, embora seja claramente despreparado e com um passado nebuloso, temperado por rachadinhas, negócios imobiliários com dinheiro vivo e lavagem de dinheiro achocolatado. Com isso, facilitou muito a vida de seu arqui-inimigo Lula da Silva, que seria facilmente derrotado por Tarcísio.

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P.S.
A política tem dessas coisas. Qualquer vacilo pode ser fatal, e a família atrapalha muito mais do que ajuda. Agora, tudo piorou. Depois que entronizaram a corrupção e a impunidade, as próprias famílias se encarregam de corromper os jovens. E vida que segue, diria João Saldanha, que faz uma falta danada em época de Copa do Mundo. Com certeza, vai assistir ao lado de nosso amigo Nelson Rodrigues. Um de esquerda, outro de direita, mas ambos democratas. (C.N.) 

PF quer acionar Interpol contra Vorcaro e rastrear recursos ligados ao Master

Rotular facções como terroristas não elimina estrutura do crime organizado

Limite imposto pelo STF não impede explosão de penduricalhos na Justiça paulista