Entre o capricho e a responsabilidade, a ausência que não se justifica

Motta e Alcolumbre faltam ao evento de sanção do IR no Planalto

Pedro do Coutto

Há gestos na política que ultrapassam o campo do protocolo e se instalam no terreno simbólico, onde verdadeiramente se mede a maturidade institucional de um país. A decisão de Hugo Motta e Davi Alcolumbre de não comparecerem ao ato em que o presidente Lula da Silva oficializou o reajuste da faixa de isenção do Imposto de Renda para rendas de até R$ 5 mil por mês pertence exatamente a esse campo: é um gesto pequeno, mas que produz sombras longas.

A medida anunciada por Lula — tecnicamente relevante, socialmente sensível e politicamente expressiva — deveria ter sido o tipo de ato público capaz de unir as principais lideranças do país em torno de um objetivo comum: aliviar a carga tributária de milhões de brasileiros, reorganizar critérios de justiça fiscal e sinalizar responsabilidade econômica.

COMPROMISSOS DE ESTADO – Em democracias consolidadas, movimentos desse porte são tratados como compromissos de Estado, não como eventos facultativos submetidos ao humor de parlamentares. Mas, ao faltar deliberadamente, Motta e Alcolumbre transformaram um ato de governo em palco para ressentimentos pessoais.

Um comportamento juvenil que fere a liturgia dos cargos que ambos ocupam. Não se trata aqui de alinhamento com o Executivo, mas de respeito à institucionalidade, ao cargo que representam e à maturidade política que se espera de dirigentes do Legislativo.

A justificativa implícita — o inconformismo com a não indicação de Rodrigo Pacheco ao Supremo Tribunal Federal — expõe algo ainda mais grave: uma leitura patrimonialista das instituições. O STF não é extensão dos desejos do Congresso, do Planalto ou de qualquer grupo específico. É uma Corte de Estado, e suas cadeiras não podem ser tratadas como moeda de troca, prêmio de consolação ou compensação por acordos não atendidos.

BOICOTE – Não existe, em nenhum manual republicano, base moral para um boicote dessa natureza. A escolha de ministros do Supremo é prerrogativa constitucional do presidente da República, que deve exercê-la de acordo com critérios técnicos, políticos e institucionais — e não como pagamento de promessas informais a chefes de Poder. Se Lula julgou que Pacheco não era o nome adequado, cabe aos demais atores respeitar essa decisão. Divergir, sim. Retaliar com ausência calculada, não.

Esse tipo de comportamento corrói algo profundo: o pacto tácito de responsabilidade entre os Poderes. Quando figuras centrais do Legislativo se permitem atitudes performáticas para sinalizar descontentamentos internos, enviam ao país a mensagem de que as prioridades nacionais podem ser atropeladas por disputas de bastidores. É a política convertida em teatro de vaidades.

SOLAVANCOS – Mais do que um episódio isolado, esse gesto ajuda a explicar por que o Brasil tantas vezes avança aos solavancos: porque ainda convivemos com lideranças que se esquecem de que cargos públicos exigem grandeza — não apenas habilidade de articulação. O país não pode ser refém da frustração de parlamentares que tratam a institucionalidade como extensão de seus desejos individuais.

Num momento em que o Brasil precisa de estabilidade, cooperação e foco nas agendas estruturais, atitudes assim não apenas surpreendem: envergonham. É preciso lembrar, todos os dias, que a política não é sobre quem foi lembrado ou preterido para um cargo; é sobre como as lideranças servem ao país — e não a si mesmas.

7 thoughts on “Entre o capricho e a responsabilidade, a ausência que não se justifica

  1. Perfeito, Pedro. O boicote é um exemplo da infeliz confusão de público e pessoal dos nossos políticos, que desconhecem (ou fingem desconhecer) a natureza e o alcance dos Três Poderes da República. E, no caso presente, demonstra a imaturidade dos dois presidentes do Congresso para comandar as casas legislativas.

  2. O Congresso derrubou 56 vetos do governo da Lei do Licenciamento Ambiental aprovado pelos parlamentares, um verdadeiro estouro da boiada no Meio Ambiente.

    Os parlamentares sabem que a devastação das florestas será gigantesca. Não se importam com nada. A Mata Atlântica, o Cerrado e a Floresta Amazônica correm perigo. O Congresso extinguiu o Licenciamento Ambiental. O Congresso se tornou inimigo do Meio Ambiente e por consequência do povo. O que já estava ruim, ficará pior e os desastres ambientais, como enchentes, tornados e um calor de torrar os miolos, tende a tornar a vida do brasileiro, insuportável .Eles estão retaliando o governo por diversas razões:

    Na Câmara porque o governo trabalhou contra a PEC da Blindagem e vem segurando as Emendas Parlamentares, um cipoal de roubalheira e ilicitudes com o dinheiro público, que o Ministro Flávio Dino tem combatido.

    No Senado, porque Lula indicou O AGU, José Messias para o Supremo na vaga aberta por Luiz Roberto Barroso. O candidato de Davi Alcolumbre, o presidente do Senador, era o senador Rodrigo Pacheco, muito querido pelos senadores.

    Tem ainda o escândalo do INSS e a liquidação do Banco Master, que tem envolvimento de deputados, senadores e governadores.

    Ibanéis Rocha governador de Brasília colocou 16 bilhões do Banco de Brasília do DF no banco Master e Cláudio Castro do Rio, enfiou 1 bilhão do Rio Previdência, fundo dos servidores estaduais na arapuca do Master.

    Enfim, a tempestade perfeita tomou conta do Brasil, assim como o diabo gosta, culminando com a prisão de Bolsonaro e três generais: Heleno, Braga Neto e Paiva, além do almirante Garnier.

    E o Brasil no meio do fogo cruzado.

  3. E ninguém esta preso. Se for amigo do LADRÃO tá de boa, pode roubar o quanto quiser que não vai dar em nada. Que maravilha viver se for aliado a coligação partidária petê, e$$eteefe e impren$a pix.

    Rombo nas estatais atinge R$ 6,35 bilhões e chega próximo ao recorde; Correios lideram déficit
    https://www.gazetadopovo.com.br/economia/rombo-estatais-atinge-6-35-bilhoes-proximo-recorde/

    E pensar que com Bolsonaro, estas estatais davam lucros de bilhões de reais…

  4. O mundo político é de uma maldade ímpar, o mundo em si , a natureza, o cosmos são de uma divindade fora do comum. Até a escuridão acalma o espírito.

    Platão disse que a Real Política visava o bem da cidade. No Brasil acontece o contrário , porque em primeiro lugar figura o interesse particular de deputados e senadores.

    Como Ulisses Guimarães trataria essa crise terrível provocada pelo Congresso?

    José Messias, só tem 30 votos hoje. Precisa de mais 11.
    Alcolumbre tem atuado para não aprovar o nome do AGU.

    Se for vetado pela ação do presidente do Senado, estará declarada a guerra entre Executivo e Legislativo.

    Nesse caso, acho que Lula errou ao não indicar o senador Rodrigo Pacheco.

    Esses conflitos, entre os Três Poderes, podem gerar uma crise sistêmica, tudo que os Golpistas mais querem.
    O grupo golpista, civis e militares não desapareceram como num passe de mágica. Continuam aí prontos para tomar o Poder, com as falhas da DEMOCRACIA, Verdadeiramente em perigo.

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