STF e TCU procuram bloquear PF e BC na guerra do Banco Master

Galípolo se encontra com Andrei Rodrigues na sede da PF

Galípolo (BC) e Andrei (PF) unem forças contra o arbítrio

Mario Sabino
Metrópoles

Daniel Vorcaro, do Banco Master, provocou uma guerra, como ficou demonstrado nessa quarta-feira: de um lado, temos a dupla dinâmica do Supremo Tribunal Federal e um ministro do Tribunal de Contas da União ou talvez mais de um; de outro, a direção da Polícia Federal e a direção do Banco Central.

Na avacalhação jurídica de ontem, Dias Toffoli atacou abertamente a PF, acusando-a de “inércia” e de “falta de empenho” para realizar a operação que finalmente seria conduzida contra familiares do banqueiro do Master e demais figuras impolutas conectadas aos seus esquemas.

VASTO MATERIAL – Surpresa com o ataque do ministro, visto que não deu razão nenhuma para ser acusada de relapsa na montagem de uma operação que não se faz da noite para o dia, a PF foi a campo e recolheu o vasto material que poderá gerar provas contra Vorcaro e o seu entorno — e mais surpresa ficou quando Dias Toffoli determinou que tudo deveria ficar trancafiado no STF, sem que os policiais pudessem ter acesso ao que apreenderam.

Diante do clamor quase geral, o ministro acabou o dia entregando o material à PGR para que fosse periciado. Mas nada de PF no pedaço, como seria o normal, se este ainda fosse um país cujas autoridades se preocupassem com padrões de normalidade.

A corporação encarregada de investigar crimes não investigará nada, cabendo a investigação à instância acusatória, mais uma inovação saída da cachola de Dias Toffoli.

OCULTAR PROVAS – É possível concluir, assim, que o ministro usou a PF apenas para recolher possíveis provas que estavam espalhadas por aí e guardá-las bem guardadas. Pelo jeito, Dias Toffoli estava com pressa em fazer isso. Se concordou em entregar o material à PGR, foi porque ela seria mais confiável, digamos assim.

Na outra frente do STF, o ministro Alexandre de Moraes abriu de ofício um inquérito sigiloso, como é do seu hábito, para investigar o suposto vazamento de dados financeiros seus e da sua família, bem como de informações relacionadas a Dias Toffoli, da parte da Receita Federal e do Coaf.

Moraes, que não se preocupa em explicar como é que o escritório de advocacia da sua mulher conseguiu firmar um contrato multimilionário com o Banco Master, o que resultou em aumento exponencial do patrimônio pessoal dela, quer saber quem foi que soprou tudo para a imprensa.

RESORT FAMILIAR – Ao que parece, o ministro acha que foram os mesmos beneméritos que repassaram a história da venda do resort Tayayá, no interior do Paraná, que tinha como acionistas os dois irmãos e um primo de Dias Toffoli e um fundo que fazia parte da rede montada por Vorcaro.

O resort passou a ser controlado por um advogado que atua para a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Coincidentemente, Dias Toffoli foi quem suspendeu, em 2023, o pagamento de multa de R$ 10,3 bilhões prevista no acordo de leniência firmado pela J&F com o Ministério Público Federal.

Investigar o Coaf, como fará Moraes no seu novo inquérito sigiloso, é investigar o BC, ao qual o Coaf é vinculado administrativamente, e também a PF, que tem acesso aos dados do conselho encarregado de levantar a bandeira vermelha quando detecta transações suspeitas de lavagem de dinheiro.

UNINDO FORÇAS – Sob fogo cerrado, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, recebeu a visita do presidente do BC, o companheiro de trincheira Gabriel Galípolo, na sede da corporação em Brasília.

 

 

Na nota divulgada pela PF, “as autoridades reafirmaram a importância da cooperação e da integração entre as instituições, fortalecendo o diálogo e a atuação conjunta em temas estratégicos de interesse do Estado brasileiro”.

Na realidade, Galípolo foi conversar sobre o imbróglio do Banco Master e reafirmar a aliança do BC com a PF.

AUDITORIA NO BC – Por fim, chegamos ao TCU. Conversinha vai, conversinha vem, o Tribunal de Contas da União fará, sim, uso da sua falta de atribuições para fazer uma auditoria no Banco Central, com o ministro Jhonatan de Jesus empenhado em provar que o Master foi vítima do BC no processo de liquidação.

O BC, porém, não tem medo de briga. Dois dias depois de o (ainda) ministro da Fazenda, Fernando Haddad, dar o seu respaldo à autoridade monetária, dizendo que o caso Master pode ser a maior fraude bancária da história do país, o Banco Central decretou a liquidação da Reag Trust, a gestora que ajudava a inflar os ativos financeiros do banco de Vorcaro — a mesma Reag que administrava o fundo que se tornou sócio dos parentes de Dias Toffoli no resort Tayayá.

2 thoughts on “STF e TCU procuram bloquear PF e BC na guerra do Banco Master

  1. Caso Master é iceberg que ameaça confiança institucional no país

    As investigações da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master e a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC), em novembro, transformaram um caso bancário em um teste de resistência institucional do Brasil.

    Não se trata apenas de apurar (…) a “maior fraude bancária” do país, mas de medir até que ponto os pilares que sustentam a economia continuam protegidos contra pressões políticas, atalhos jurídicos e redes de influência, que rondam os tribunais superiores do país, inclusive o STF.

    Daniel Vorcaro, fundador e CEO do Master, não figurava entre os gigantes do sistema, mas se tornou protagonista nacional desse risco sistêmico pelo volume de dinheiro envolvido, pela capilaridade de sua base de investidores e pela teia de conexões que construiu no mundo político e jurídico.

    A segunda fase da Operação Compliance Zero reforçou essa dimensão: mandados de busca e apreensão em 42 endereços, bloqueio de bens e valores acima de R$ 5,7 bilhões e o avanço sobre figuras como Nelson Tanure e João Carlos Mansur indicam que a apuração não é periférica — e que não há “caso pequeno” quando o caminho do dinheiro se mistura ao poder. Na verdade, começou um efeito dominó.

    O ministro Dias Toffoli determinou inicialmente que todo o material apreendido pela PF ficasse lacrado no STF, medida fora da praxe. Após pedido da Procuradoria-Geral da República, voltou atrás e decidiu remeter o conteúdo à PGR.

    Na prática, sem embargo da tecnicalidade, é um sinal de que o caso ultrapassou o âmbito policial e já se transformou em arena de tensão entre instituições.

    O Master aparecia como o 22º maior banco do país, com cerca de R$ 63 bilhões em ativos financeiros, algo em torno de 2% do tamanho do Itaú, segundo ranking do Valor Econômico. Em condições normais, sua quebra não deveria representar risco macroeconômico clássico.

    Mas a crise bancária raramente nasce apenas do tamanho: nasce da interconexão. O banco alcançou 1,6 milhão de investidores, com aproximadamente R$ 41 bilhões em CDBs, o que aciona diretamente o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), espécie de seguro do sistema.

    O impacto desse ressarcimento é da ordem de um terço do caixa do fundo, estimado em cerca de R$ 122 bilhões em recursos líquidos. É a maior crise de um banco brasileiro em termos de pressão sobre o FGC e, por isso, o episódio não é apenas um escândalo financeiro: é um episódio capaz de contaminar expectativas, percepção de segurança e credibilidade do mercado.

    A estabilidade econômica depende de um elemento invisível: confiança. O investidor que compra CDB faz um pacto: aceita juros maiores em troca de uma promessa institucional de segurança, ancorada na supervisão do BC e no colchão do FGC. Quando esse pacto é rompido, o prejuízo não se resume a quem investiu no banco. O prejuízo vira dúvida sistêmica.

    (…)

    Fonte: Correio Braziliense, Economia, Política, Opinião, 16/01/2026 – 07:17 Por Luiz Carlos Azedo

  2. Liquidação do Master: No olho do furacão

    A liquidação do Master ocorreu após suspeitas de fraude envolvendo a venda de carteiras de crédito ao BRB, banco estatal do Distrito Federal, em operação de R$ 12,2 bilhões.

    A suspeita central é que o Master teria inflado artificialmente ativos — inclusive com créditos inexistentes — para melhorar sua condição financeira antes de uma possível venda.

    O modelo de negócio de Vorcaro, baseado em captar recursos oferecendo CDBs com taxas acima do mercado, ajudou o banco a crescer rapidamente.

    Não é crime oferecer juros altos, porém, quando o custo do dinheiro é elevado demais, surge o retorno “milagroso” de algum lugar.

    Parte das suspeitas envolve fraudes grosseiras. Outra parte envolve estruturas sofisticadas de fundos e intermediações que demandam perícia técnica e abrem espaço para uma engenharia de ocultação:

    – O dinheiro circula, passa por gestores, atravessa fundos, reaparece em ativos de baixa qualidade, dilui rastros e dificulta a responsabilização.

    A pergunta mais perigosa não é apenas “quem praticou a fraude”, mas “como isso pôde existir por tanto tempo”.

    Quando um esquema desse porte amadurece, a falha já não é apenas de um banco: é do ecossistema regulatório e do mercado. E, se essa percepção pública se consolida, o dano deixa de ser financeiro e se torna institucional.

    O Master virou um caso explosivo porque Daniel Vorcaro acumulou conexões no mundo político e empresarial.

    A tentativa de venda do banco ao BRB, aprovada pelo Cade, mas barrada pelo BC, escancarou o choque entre duas lógicas.

    A lógica política é a do acordo e da mediação. A lógica regulatória é a do risco e da prudência.

    Quando o Banco Central veta uma operação, está dizendo que, naquele caso, a autonomia técnica prevalece sobre a acomodação.

    Esse é um ponto decisivo. A independência do BC é um dos ativos mais importantes da economia brasileira, porque reduz incerteza, melhora previsibilidade e impede que o sistema financeiro vire extensão de disputas partidárias.

    Quando a crise de um banco se transforma em um cabo de guerra entre regulador e atores políticos, instala-se o pior ambiente possível: o de que regras são negociáveis conforme o poder de pressão.

    A centralização da investigação sob sigilo, a relatoria concentrada, decisões incomuns e a presença indireta de ministros no noticiário criaram um risco adicional: o de o STF ser percebido não como árbitro distante, mas como protagonista da crise.

    Fonte: Correio Braziliense, Economia, Política, Opinião, 16/01/2026 – 07:17 Por Luiz Carlos Azedo

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