
Diretor do BC foi cobrado e saiu pela tangente
Malu Gaspar
O Globo
O diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino, foi confrontado por conselheiros do BRB sobre os pedidos que fez para que a instituição comprasse carteiras de crédito do Master, durante uma reunião na sede do BC no dia seguinte à liquidação do banco de Daniel Vorcaro.
De acordo com quatro pessoas envolvidas com o episódio e que falaram com a coluna com a condição de não ter seus nomes revelados, Aquino, que enviou mensagens ao presidente do BRB pedindo para comprar as carteiras de crédito que depois se descobriu serem fraudadas, justificou-se dizendo que o Master enfrentava problemas de liquidez.
REPASSE – Entre 2024 e 2025, o Master repassou ao BRB carteiras de crédito consignado avaliadas em R$ 12 bilhões de reais. No segundo semestre de 2025, ao auditar a operação de compra proposta pelo banco de Brasília, técnicos do próprio BC descobriram que os contratos que lastreiam os créditos eram falsos e comunicaram à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal (MPF).
A investigação que se deu a partir daí desencadeou a operação que prendeu Vorcaro e outros seis executivos ligados ao esquema, além de levar à liquidação do Master e ao afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, do cargo.
A reunião no Banco Central ocorreu no dia seguinte à operação da PF, 19 de novembro, e consta da agenda oficial. Além do próprio Aquino estavam Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, e o chefe do departamento de supervisão bancária, Belline Santana. Pelo BRB, o presidente do conselho, Marcelo Talarico, o conselheiro Luís Fernando Lara Resende e o diretor jurídico Jacques Veloso.
ALERTA – O objetivo dos diretores do BC era alertar os conselheiros de que eles deveriam se preparar para uma capitalização do BRB. Também se discutiram os perfis dos possíveis substitutos para o CEO Paulo Henrique Costa, afastado após à Operação Compliance Zero.
Mas a cena que gerou constrangimento não tinha a ver com esses dois temas. Foi quando Talarico, do BRB, pediu a palavra para dizer que a compra das carteiras de crédito só tinha sido feita porque, no entendimento dos conselheiros, “era essa a vontade do regulador”, ou seja, do Banco Central, uma vez que o próprio banco tinha feito diversos pedidos para que o BRB comprasse as carteiras.
Um desses pedidos foi feito por mensagens de WhatsApp enviadas por Aquino a Paulo Henrique Costa e exibidas aos conselheiros do BRB na reunião em que se discutia justamente a suspensão de compras de carteira do Master, a aprovar uma exceção para a aquisição de mais R$ 270 milhões desses papéis. O BC nega que Aquino tenha pedido ao BRB para comprar carteiras fraudadas (leia nota abaixo) e dois dos conselheiros do BRB dizem não ter sido informados das mensagens.
SUSTO – De acordo com os relatos obtidos, na reunião na sede do Banco Central, ao ouvir Talarico, do BRB, dizer que o próprio BC havia recomendado a compra das carteiras, Renato Gomes tomou um susto. Indignado, afirmou que isso nunca havia acontecido e que ninguém do Banco Central tinha enviado qualquer pedido ao BRB.
Todos os olhares então se voltaram para Ailton de Aquino, que saiu pela tangente. Sem se referir diretamente às mensagens, ele disse que o Master enfrentava problemas de liquidez e que é papel do BC garantir a saúde do sistema financeiro. A reunião terminou pouco depois, em clima de constrangimento.
De acordo com fontes a par do assunto, o episódio chegou ao conhecimento de outros integrantes do BC, mas, todas as vezes em que Aquino foi questionado a respeito, repetiu a mesma justificativa, de que tinha que agir para ajudar a mitigar os problemas de liquidez do Master.
ABALO – De acordo com dados do próprio BC, o argumento não procede. O Master era pequeno para o setor, com apenas 0,57% do ativo total e 0,55% das captações de todo o sistema financeiro. Ou seja: embora já tivesse problemas graves, uma eventual quebra do banco de Daniel Vorcaro não causaria abalo no sistema bancário, como de fato não causou.
Os investidores com aplicações de até R$ 250 mil reais, a grande maioria, estão sendo ou serão reembolsados pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O maior prejuízo deve ser o dos fundos de pensão dos governos dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá, Amazonas, de capitais como Maceió e diversos outros municípios, que não se sabe se algum dia verão a cor do dinheiro.
Procurado pela equipe da coluna, o BC e o diretor de fiscalização Ailton de Aquino não comentaram o episódio da reunião. Apenas repetiram a nota à imprensa divulgada após a publicação da primeira reportagem sobre as mensagens enviadas ao presidente do BRB.
ÍNTEGRA DA NOTA DO BANCO CENTRAL
O BC e o diretor de fiscalização Ailton de Aquino reiteram, integralmente, a nota à imprensa divulgada em 23 de janeiro, tendo por objeto as mesmas ilações infundadas. Não procede, portanto, a informação de que o diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, teria recomendado ao BRB a compra de ativos ou carteiras fraudadas de crédito do Banco Master.
Registra-se que dois ex-integrantes do Conselho de Administração do BRB divulgaram, em 23 de janeiro de 2026, comunicado no qual confirmam não ter havido, “em nenhuma reunião do Conselho, qualquer comunicação ou mensagem atribuída a representante de órgão regulador solicitando ou orientando a compra de carteiras do Banco Master”.
Banco Central abre investigação interna sobre caso Master
Em meio à sindicância, chefes do Departamento de Supervisão Bancária entregaram os cargos
O Banco Central abriu uma investigação interna para entender o que aconteceu no escândalo do Banco Master.
O objetivo é apurar eventuais falhas ocorridas no processo de fiscalização e liquidação da instituição financeira controlada por Daniel Vorcaro.
A sindicância está sendo conduzida sob sigilo pela corregedoria e foi iniciada a partir de uma decisão do presidente da autoridade monetária, Gabriel Galípolo, tomada no fim do ano passado.
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O Globo, Economia, 29/01/2026 03h30 Por Fabio Graner e Thiago Bronzatto — Brasília
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/01/29/banco-central-abre-investigacao-interna-sobre-caso-master.ghtml