O custo social de uma política monetária restritiva no Brasil

Charge do Cazio (Blog do AFR)

Pedro do Coutto

O mais recente levantamento do Banco Central, divulgado em reportagem de Bruna Alessa, Vinícius Néder e Letícia Rafaela, em O Globo, expõe um retrato preocupante da economia doméstica brasileira. O endividamento das famílias voltou a crescer, enquanto a concessão de novos empréstimos recuou de forma significativa. No centro desse desequilíbrio está uma variável bem conhecida, mas ainda subestimada em seus efeitos sociais e políticos: a taxa de juros.

Com a taxa básica da economia mantida em 15% ao ano, em um contexto de inflação estimada em 4,1%, o Brasil opera hoje com juros reais em torno de 11%. Trata-se de um patamar extremamente elevado quando comparado a padrões internacionais, inclusive entre países emergentes. Essa escolha de política monetária, embora justificada pelo discurso do controle inflacionário e da credibilidade fiscal, cobra um preço alto da sociedade — especialmente das famílias de renda média e baixa.

ENDIVIDAMENTO – Os dados são eloquentes. Em outubro, o endividamento das famílias alcançou 49,3% da renda anual, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de dívidas chegou a 29,4%. Em outras palavras, quase um terço do rendimento médio das famílias brasileiras está sendo consumido pelo serviço da dívida. Não se trata apenas de números frios: é menos comida na mesa, menos investimento em educação, menos capacidade de planejamento e mais insegurança cotidiana.

O quadro se agrava quando se observa a dinâmica do crédito. A concessão de novos empréstimos caiu cerca de 6,6%, sinalizando retração da atividade econômica e maior cautela — tanto de bancos quanto de tomadores. O crédito às empresas, fundamental para sustentar investimentos, emprego e crescimento, sofreu quedas ainda mais expressivas, superiores a 30% em termos proporcionais à renda anual média. Esse estrangulamento do crédito produtivo compromete a recuperação econômica e reforça um ciclo de baixo crescimento.

CUSTO DO CRÉDITO – Mas talvez o aspecto mais chocante — e politicamente sensível — seja o custo do crédito ao consumidor. Os juros do cartão de crédito rotativo, quando financiados, chegam a absurdos 440% ao ano. Não há racionalidade econômica, tampouco justificativa moral ou social, para taxas dessa magnitude. Elas estão fora de qualquer padrão aceitável de normalidade e revelam falhas estruturais graves no sistema financeiro, na regulação do crédito e na proteção ao consumidor.

É importante destacar que os salários não têm acompanhado a inflação de forma consistente. Mesmo com índices inflacionários relativamente controlados, a renda real das famílias permanece pressionada. O resultado é previsível: para manter o padrão mínimo de consumo, muitas famílias recorrem ao crédito caro, aprofundando um processo de endividamento que se retroalimenta.

DILEMAS – Do ponto de vista político, esse cenário impõe dilemas claros. Uma política monetária excessivamente restritiva pode até conter pressões inflacionárias no curto prazo, mas produz efeitos colaterais relevantes: desaceleração econômica, aumento da inadimplência, concentração de renda no sistema financeiro e desgaste social. O debate sobre juros, portanto, não é apenas técnico — é profundamente político.

Fontes de alta credibilidade como o Banco Central do Brasil, o IBGE e o próprio O Globo ajudam a iluminar esse diagnóstico, mas a decisão sobre os rumos da política econômica exige algo além dos modelos: sensibilidade social e visão estratégica de desenvolvimento. Persistir em juros reais tão elevados significa aceitar, como custo colateral, o empobrecimento relativo das famílias e a asfixia do setor produtivo.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: a quem serve uma economia que remunera tão bem o capital financeiro, mas empurra milhões de famílias para o limite do endividamento permanente? Enquanto essa questão não for enfrentada com coragem e equilíbrio, os números continuarão piorando — e a fatura social, inevitavelmente, chegará às urnas.

7 thoughts on “O custo social de uma política monetária restritiva no Brasil

  1. Visam o futuro e o Khazariano Banco do Soberano, arquitetado e levado a fraternal efeito, pelos para tanto alçados e mercenáriamente locupletos!

    • “O mundo precisa de #Assange
      O mundo não precisa de mais cimeiras inúteis, nem de mais discursos ocos sobre democracia, nem de mais prémios distribuídos entre elites que se felicitam. O mundo precisa de Assange. Precisa disso precisamente porque incomoda, porque desarma histórias oficiais e porque demonstra, com documentos e datas, que o poder mente quando ninguém o vigia.

      Julian Assange não é um símbolo abstrato. É uma pessoa específica que paga o preço de fazer jornalismo de verdade há mais de 15 anos. Desde 2010, quando o WikiLeaks publicou o Iraque War Logs e os Diários de Guerra Afghan, a mensagem foi clara: quem expor os crimes do poder será punido, mesmo que não tenha cometido nenhum. Mais de 250.000 cabos diplomáticos revelaram execuções extrajudiciais, torturas sistemáticas e mentiras de Estado. A resposta não foi investigar os fatos, mas destruir o mensageiro.

      Assange passou 7 anos preso na embaixada do Equador em Londres e mais 5 anos na prisão de segurança máxima de Belmarsh. Sem condenação firme. Sem julgamento justo. Com uma deterioração física e psicológica documentada por relatores da ONU, que falaram de tortura psicológica prolongada. Não é uma metáfora. É um diagnóstico oficial.

      A mensagem política é clara. Se você publicar a verdade, nós te esmagamos. Se revelares como se mata em teu nome, nós te chamaremos criminoso. Se você expor a máquina de guerra e vigilância do capitalismo global, nós faremos de você um exemplo. Não para fazer justiça, mas para gerar medo.

      JORNALISMO SOB PUNIÇÃO

      O caso Assange não é só de uma pessoa. É sobre o direito coletivo de saber. Da própria possibilidade de um jornalismo que não dependa de comunicados de imprensa, fugas interessadas ou favores comerciais. WikiLeaks não tinha opinião. Publicava documentos originais. Datas, assinaturas, ordens militares. Dados verificáveis.

      Em 2010, o vídeo Collateral Murder mostrou como um helicóptero americano assassinou civis em Bagdad, incluindo dois jornalistas da Reuters. A gravação era real. O crime estava documentado. Ninguém foi julgado pelos tiros. Quem acabou perseguido foi quem deixou o mundo ver.

      Desde então, governos que enchem a boca com a palavra liberdade trabalharam coordenadamente para criar um precedente perigoso. Os EUA solicitaram a extradição de Assange ao abrigo da Lei de Espionagem de 1917, uma norma pensada para tempos de guerra e nunca antes aplicada a um editor. Se esse precedente se consolidar, qualquer jornalista, em qualquer país, poderá ser processado por publicar informações verdadeiras incómodas para uma potência militar.

      Não é uma hipótese. É um aviso. Organizações como a Amnistia Internacional, Repórteres Sem Fronteiras e a Federação Internacional de Jornalistas apontam para isso há anos. A criminalização do jornalismo investigativo é uma estratégia, não um erro.

      Entretanto, aqueles que defendem Assange são caricaturados como radicais, ingênuos ou conspiranóicos. É a tática clássica: deslegitimar o defensor para não debater o fundo. Mas o fundo é estranho. Demais. Porque obriga a olhar de frente para a ligação entre democracia formal e violência estrutural.

      A VERDADE NÃO COTA EM SACO

      Em um mundo governado por fundos de investimento, lobbies de armamento e grandes plataformas tecnológicas, a verdade é um mau negócio. Não gera dividendos, gera responsabilidades. E o capitalismo contemporâneo foge de qualquer coisa que envolva responsabilidade.

      Assange não se encaixa porque não pede permissão. Porque não negoceia manchetes. Porque não suaviza a linguagem para torná-la digerível. Publique o que existe. E isso despe a arquitetura real do poder. Guerras ilegais, espionagem em massa, chantagem diplomática, corrupção estrutural.

      Não é por acaso que enquanto quem revela crimes de guerra é preso, quem os ordenou é branqueado. Os responsáveis por invasões ilegais, programas de tortura e assassinatos selectivos cobram conferências milionárias e escrevem memórias de sucesso. O problema nunca foi a violência. O problema foi mostrá-la.

      A perseguição contra Assange contou com silêncios cúmplices. De governos progressistas e conservadores. De grandes mídia que postou os cabos e depois olhou para o outro lado. De instituições que se gabam de direitos humanos enquanto aceitam que um editor apodreça numa cela por fazer o seu trabalho.

      O mundo precisa de Assange porque precisa saber como o poder realmente funciona. Porque sem fugas, sem fontes protegidas, sem jornalistas dispostos a correr riscos, a democracia torna-se um cenário. Bonito por fora. Vazio por dentro.

      Não se trata de idolatrar uma pessoa. Trata-se de defender um princípio. Dizer a verdade não é crime. Que denunciar não seja equiparado a espiar. Que o jornalismo não seja punido como terrorismo.”

      Participe do nosso projeto informativo: donorbox.org/aliadas

  2. Enquanto essa questão não for enfrentada com coragem e equilíbrio, os números continuarão piorando — e a fatura social, inevitavelmente, chegará às urnas

    Não chegará. Os miseráveis só precisam de uma pinga, da carne de sol e da bolsa família para se satisfazerem. E eles votam.

  3. Tudo ao longo dessas três décadas de desgoverno Lula é engodo e curtíssimo prazo.

    Como baixar os juros com uma farra tão grande de dinheiro público do agigantado Estado que nos impõe tão violenta extorsão?

    Os miseráveis dos 5 ou 7 mil seguem hipertributados pela repercussão econômica de toda a tributação sobre o consumo.

    Tenta adiar com demagogia barata.

    Todos os comerciais de tv são de jogos e apostas.

    Não se produz nada nesse cassino sem graça disfarçado de país?

    A receita não tem futuro.

    É endividamento pesado mesmo.

  4. Sr.Pedro

    O Brasil tem a maior carga tributário do mundo, para pagar a Maior Corrupção do Mundo…

    O combo é perfeito

    Inflação + juros altos + corrupção + Master + Xã da Pérsia & Conglomerado do Narco Nove Dedos….

    Pronto está feito a destruição do Páis…..

    aquele abraço

    PS.

    Até hoje as carnes não “baixaram de preço” como prometeu o Narcola…

    Segundo minha assessoria , (a melhor de todas)., a picanha no açougue do Seu Manuel das Tamanquinhas continua a 89,90….

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *