“Se voltasse a ser criança, pegaria o sol com as mãos e iluminaria as minhas noites escuras…”

Socorro Lima - Acústico Imaginar - YouTube

Socorro Lima é uma das cantoras mais conhecidas do Nordeste

Paulo Peres
Poemas & Canções

A advogada, pedagoga e poeta pernambucana Socorro Lima Dantas lembra poeticamente seus tempos de criança e diz  o que gostaria de fazer tudo de novo.outra vez.

SE EU VOLTASSE A SER CRIANÇA
Socorro Lima 

Se eu voltasse a ser criança,
viveria tudo o que vivi,
seria mais uma vez a mesma peralta menina
que o papai, às vezes repreendia,
outras, ele sorria de alegria…
e assim, eu viveria duas vezes a minha infância feliz !

Se eu voltasse a ser criança,
subiria nos manguezais, meu preferido local
para estudar e ler entre os galhos
e suas frutas deliciar!
Eu correria pelas ruas descalça,
brincaria de esconde-esconde, pega-pega,
jogaria vôlei de rua, em quadras e redes improvisadas,
e com a ponta dos dedos, dava o passe de toque.

Se eu voltasse a ser criança,
Jogaria bolinhas de gude no vera, prá valer,
bastava um pedacinho do meu chão
para tudo acontecer !
Com as pontas dos dedos,
Pegaria todas as borboletas coloridas
no jardim da mamãe ao entardecer,
e colocaria em meu caderninho,
para a minha coleção abastecer.

Se eu voltasse a ser criança,
sonharia com o arco-íris,
e ficaria horas contando as cores,
e imaginando quem o havia pintado lá no céu,
e queria entender porquê
ele não mudava as suas tonalidades.

Se eu voltasse a ser criança,
escondidinho do papai, pegaria a sua bicicleta
e pedalava livre e solta,
percorreria o caminho das rosas
para colher as mais brilhantes e cheirosas
e na volta, a mamãe ofertaria!

Se eu voltasse a ser criança,
Eu pegaria o sol com as mãos
e iluminaria as minhas noites escuras,
para adormecer sem medo do crepúsculo,
e as minhas borboletas em meu caderninho ver.
E pararia aquele tempo tão lindo
Para viver sempre a criança que fui:
sonhou, brincou, traquinou
e a felicidade da vida ganhou,
e viveria todos os dias, tudo outra vez

“Quem trabalha é que tem direito de viver, pois a terra é de ninguém…”

Paulo Sérgio e Marcos Valle, autores de grandes clássicos da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, instrumentista, arranjador e compositor carioca Marcos Kostenbader Valle e seu irmão Paulo Sérgio, na letra de “Terra de Ninguém”, retratam a submissão, a injustiça, o sofrimento, a luta, a fé e a esperança que o nordestino carrega em busca de um pedaço de terra para plantar, porque “quem trabalha é que tem / direito de viver / pois a terra é de ninguém”, condições estas que, histórica e politicamente, originaram os Sem-Terra em janeiro de 1984. Esta canção de protesto foi gravada por Elis Regina e Jair Rodrigues no LP Dois Na Bossa, em 1964, pela Philips .

TERRA DE NINGUÉM
Paulo Sérgio e  Marcos Valle

Segue nessa marcha triste
Seu caminho aflito
Leva só saudade
E a injustiça que só lhe foi feita
Desde que nasceu
Pelo mundo inteiro
Que nada lhe deu

Anda, teu caminho é longo
Cheio de incerteza
Tudo é só pobreza
Tudo é só tristeza
Tudo é terra morta
Onde a terra é boa
O senhor é dono
Não deixa passar.

Para no final da tarde
Tomba já cansado
Cai um nordestino
Reza uma oração
Prá voltar um dia
E criar coragem
Prá poder lutar
Pelo que é seu.

Mas…
O dia vai chegar
Que o mundo vai saber
Não se vive sem se dar
Quem trabalha é que tem
Direito de viver
Pois a terra é de ninguém

Nos trilhos da Vera Cruz, na criação de Márcio Borges e Milton Nascimento

Mílton Nascimento, Márcio Borges e …”Jules & Jim” de Truffaut ...

Márcio e MIlton, dois gigantes do Clube de Esquina

Paulo Peres
Poemas & Canções                                                   

O escritor, diretor do Museu do Clube da Esquina e poeta mineiro Márcio Hilton Fragoso Borges explica que a letra de “Vera Cruz”, admite três interpretações, uma vez que, pode ser vista como a mulher amada, como a mulher-pátria ou uma composição ferroviária homônima que fazia o trajeto Belo Horizonte-Rio de Janeiro. A música “Vera Cruz” foi gravada por Milton Nascimento no LP Angelus, em 1993.

VERA CRUZ

Milton Nascimento e Márcio Borges


Hoje foi que a perdi
Mas onde já nem sei
Em Vera me larguei
E deito nessa dor
Meu corpo sem lugar

Ah! Quisera esquecer
A moça que se foi
De nossa Vera Cruz
E o pranto que ficou
Da morte que sonhei
Nas coisas de um olhar

Ah! nos rios me larguei
Correndo sem parar
Buscava Vera Cruz
Nos campos e no mar
Mas ela se soltou
No longe se perdeu

Quero em outra mansidão
Um dia ancorar
E aos ventos me esquecer
Que ao vento me amarrei
E nele vou partir
Atrás de Vera Cruz

Ah! Quisera encontrar
A moça que se foi
No mar de Vera Cruz
E o pranto que ficou
Do norte que perdi
Nas coisas de um olhar

Rubem Braga, se olhando ao espelho de ressaca e vendo o tempo passar…

Sou um homem quieto, o que eu gosto é... Rubem BragaPaulo Peres   Site Poemas & Canções

Considerado o maior cronista brasileiro desde Machado de Assis, o capixaba Rubem Braga (1913–1990), sempre afirmou que a poesia é necessária, tanto que escreveu vários poemas, entre eles o soneto “Ao Espelho”, no qual retrata uma reflexão pessoal no inexorável passar do tempo. Esta página de poesia é homenagem a Braga, com quem eu e Carlos Newton trabalhamos, na Revista Nacional de Mauritônio Meira.

AO ESPELHO
Rubem Braga

Tu, que não foste belo nem perfeito,
Ora te vejo (e tu me vês) com tédio
E vã melancolia, contrafeito,
Como a um condenado sem remédio.

Evitas meu olhar inquiridor
Fugindo, aos meus dois olhos vermelhos,
Porque já te falece algum valor
Para enfrentar o tédio dos espelhos.

Ontem bebeste em demasia, certo,
Mas não foi, convenhamos, a primeira
Nem a milésima vez que hás bebido.

Volta portanto a cara, vê de perto
A cara, tua cara verdadeira,
Oh, Braga envelhecido, envilecido.

“Até um dia, até talvez, até quem sabe”, numa parceira de João Donato e Lysias Ênio

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Lysias, Donato e a cineasta Tetê Moraes

Paulo Peres00
Site Poemas & Canções

O economista, escritor, poeta e letrista carioca Lysias Enio de Oliveira, na letra de “Até Quem Sabe”, em parceria com seu irmão João Donato, que nasceu no Estado do Acre, fala sobre a esperança de um dia ele e sua amada se entenderem, sem precisarem mais fugir um do outro.  Essa canção foi gravada pelo seu irmão João Donato no LP “Quem é quem”, em 1973, pela ODeon.

ATÉ QUEM SABE
João Donato e Lysias Enio

Até um dia, até talvez, até quem sabe
Até você sem fantasia, sem mais saudade
Agora a gente tão de repente nem mais se entende
Nem mais pretende seguir fingindo, seguir seguindo
Agora vou pra onde for sem mais você
Sem me querer, sem mesmo ser,
sem entender
Vou me beber, vou me perder
pela cidade
Até um dia, até talvez, até quem sabe

A exaltação da ironia como filosofia de vida, na poesia de Raul de Leôni

Veredas da Língua: RAUL DE LEONI - POEMAS | Poemas, Poesia e ...Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta Raul de Leôni (1895-1926), nascido em Petrópolis (RJ) e membro da Academia Brasileira de Letras, faz poeticamente da ironia a sua filosofia.

IRONIA
Raul de Leôni

Ironia! Ironia!
Minha consolação! Minha filosofia!
Imponderável máscara discreta
Dessa infinita dúvida secreta,
Que é a tragédia recôndita do ser!
Muita gente não te há de compreender
E dirá que és renúncia e covardia!
Ironia! Ironia!
És a minha atitude comovida:
O amor-próprio do Espírito, sorrindo!
O pudor da Razão diante da Vida!
 

Um anoitecer realmente apoteótico, na parnasiana visão poética de Raimundo Correia

Se se pudesse o espírito que chora Ver... Raimundo CorreiaPaulo Peres
Poemas & Canções

O magistrado, professor, diplomata e poeta maranhense Raimundo da Mota de Azevedo Correia (1859-1911) descreve o anoitecer, seguindo o estilo parnasiano a que pertencia, estilo  que tem como uma de suas características a descrição de algo que pode ser um objeto, um acontecimento, um fenômeno da natureza, uma paisagem etc.

ANOITECER
Raimundo Correia

Esbraseia o Ocidente na agonia
O sol… Aves em bandos destacados,
Por céus de oiro e de púrpura raiados
Fogem… Fecha-se a pálpebra do dia…

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia…

Um mundo de vapores no ar flutua…
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra à proporção que a luz recua…

A natureza apática esmaece…
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula… Anoitece.

Lula Barbosa: Tempo de fé na alegria de uma juventude que não volta nunca mais

Sertaneja" por Lula Barbosa - Sr. Brasil - 18/05/14 - YouTube

Lula Barbosa no programa de Rolando Boldrin

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor paulista Luiz Carlos Barbosa, nome artístico Lula Barbosa, relembra em “Tempo de Fé” a herança de um tempo vivido na juventude que, infelizmente, não volta mais. A música foi gravada pelo próprio Lula Barbosa no Lp Os Tempos São Outros, em 1986, pela CBS.

TEMPO DE FÉ

Lula Barbosa

 Tua herança será minha paixão
Pela liberdade
Cravada em passos lentos
E poços pregressos da alma
Pois não resta mais nada
A não se acreditar
Que minha infância termina
Onde o teu sonho ensina
Tua realidade morta
Já se iguala com o encanto
Onde a tua infância morna
Fará parte do cortejo
E do túmulo inútil da falsidade
Irá renascer à mocidade
Um vento mais brando
Soprado de todos os cantos”

Tempo em que os amigos de fé
Ao redor das fogueiras
Sentavam pra conversar
Viver era uma brincadeira
Gostosa de se brincar
Tempo em que se fazia de conta
E a alegria era tanta
Tanto que a vida
Era fácil de se levar
Tempo em que os violões
Despertavam paixões
Na voz do cantador
E os moços teciam versos
Palavras só de amor
Tempo passou tão depressa
Que os moços e os versos
Ficaram pra trás
Do outro lado do muro,
Dos sonhos
E sabem que o tempo
Não volta jamais.

“Tá doido moço, não faço isso, não, vou-me embora, vou sem medo dessa escuridão…”

Morre no Rio o cantor, compositor e radialista Luiz Vieira | Rio ...Paulo Peres
Poemas & Canções
 

O radialista, cantor e compositor pernambucano Luiz Rattes Vieira Filho (1928-2020), na letra de Menino de Braçanã”, fala sobre sua adolescência no interior, quando saia para se encontrar com os amigos e tinha de regressar. A música “Menino de Braçanã” foi o primeiro sucesso de Luiz Vieira, que a gravou, em 1954, pela Todamérica.

Vale acrescentar que Braçanã é um lugar situado no Município de Rio Bonito, no Rio de Janeiro, onde Luiz Vieira morou algum tempo. Antigamente, as terras para serem vendidas eram medidas através de braçadas, isto é, a pessoa abria os braços e, consequentemente, contava uma, duas, cem, mil braçadas etc.  Entretanto, se alguém desconfiasse que a medida não estava correta, dizia que a terra parecia ter sido medida pelos braços de uma anã, surgindo, daí, o nome Braçanã.

MENINO DE BRAÇANÃ
Luiz Vieira

É tarde, eu já vou indo
Preciso ir embora, té amanhã
Mamãe quando eu saí disse
Filhinho não demora em Braçanã
Se eu demoro mamaezinha
Tá a me esperar
Pra me castigar
Tá doido moço
Num faço isso, não
Vou-me embora, vou sem medo dessa escuridão
Quem anda com Deus
Não tem medo de assombração
e eu ando com Jesus Cristo
No meu coração

Um impressionante encontro com a poesia, na visão genial de Rachel de Queiroz

Paulo Peres
Poemas & Canções

A romancista, contista, tradutora, jornalista e poeta cearense Rachel de Queiróz (1910-2003), em “Geometria dos Ventos”, mostra a poesia livre, sem limites de idioma, espontânea.

GEOMETRIA DOS VENTOS
Rachel de Queiróz

Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada –
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

“O Chopin derretido tá maxixe, meloso, gostoso”, na poesia de Pedro Nava

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Pedro Nava tinha uma inspiração chapliniana

Paulo Peres
Poemas & Canções

 O médico, escritor e poeta mineiro Pedro da Silva Nava (1903-1984), no poema “Noturno de Chopin”, esconde  seu grande amor.

NOTURNO DE CHOPIN
Pedro Nava

Eu fico todo bestificado olhando a lua
enquanto as mãos brasileiras de você
fazem fandango no Chopin

Tem uma voz gritando lá na rua:
Amendoim torrado
tá cabano tá no fim…
Coitado do Chopin! Tá acabando tá no fim…

Amor: a lua tá doce lá fora
o vento tá doce bulindo nas bananeiras
tá doce esse aroma das noites mineiras:
cheiro de gigilim manga-rosa jasmim.

Os olhos de você, amor…
O Chopin derretido tá maxixe
meloso
gostoso
(os olhos de você, amor…)
correndo que nem caldo
na calma da noite belo horizonte.

“Nada a temer senão o correr da luta, nada a fazer senão esquecer o medo…”

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Luiz Carlos Sá, um compositor verdadeiramente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, cantor e compositor carioca Luiz Carlos Pereira de Sá (o Sá do trio Sá, Rodrix e Guarabira), com seu parceiro Sergio Magrão (14 Bis e O Terço), fala na letra de “Caçador de Mim” sobre os pólos da vida: momentos de doçura, bondade, ferocidade e agressividade. Portanto, a vida tornou o eu lírico do compositor um “buscador” de si mesmo, a procura daquilo que, realmente,  faz-lhe sentir-se em paz e harmonia consigo mesmo. A música “Caçador de Mim” transformou-se em um grande sucesso, gravada por Milton Nascimento, em 1981, no LP Caçador de Mim, pela Ariola.

CAÇADOR DE MIM
Sérgio Magrão e Luiz Carlos Sá

Por tanto amor, por tanta emoção
A vida me fez assim
Doce ou atroz, manso ou feroz
Eu caçador de mim

Preso a canções, entregue a paixões
Que nunca tiveram fim
Vou me encontrar longe do meu lugar
Eu caçador de mim

Nada a temer senão o correr da luta
Nada a fazer senão esquecer o medo
Abrir o peito à força numa procura
Fugir às armadilhas da mata escura

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu caçador de mim.

Um muro magro, que sofre e sente dor, na visão poética de Pedro Kilkerry

Resultado de imagem para pedro kilkerry poetaPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Pedro Militão Kilkerry (1885-1917), através do soneto “O Muro”, descreve uma visão da realidade, embora não no sentido visual, mas o que seria invisível aos olhos ou diferentes formas de olhar sobre o mesmo mundo, de forma a mostrar aquilo que não se vê.

O MURO
Pedro Kilkerry

Movendo os pés doirados, lentamente,
Horas brancas lá vão, de amor e rosas
As impalpáveis formas, no ar, cheirosas.. . .
Sombras, sombras que são da alma doente!

E eu, magro, espio… e um muro, magro, em frente
Abrindo à tarde as órbitas musgosas
— Vazias? Menos do que misteriosas —
Pestaneja, estremece. . . O muro sente!

E que cheiro que sai dos nervos dele,
Embora o caio roído, cor de brasa,
E lhe doa talvez aquela pele!

Mas um prazer ao sofrimento casa. . .
Pois o ramo em que o vento à dor lhe impele
É onde a volúpia está de uma asa e outra asa. . .

Um retrato impactante do Brasil, na visão do poeta e ambientalista Paulo Reis

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Paulo Reis, um professor e poeta que ama o seu país

Paulo Peres
Poemas & Canções

O professor e poeta Paulo Reis, nascido em Bom Jardim (RJ), sempre dedicado à defesa do meio ambiente, há anos já traçava um retrato do “Brasil” atual, sem sofismas e sem falácias.

BRASIL
Paulo Reis

Brasil
Rico com os pés descalços
Rosto marcado sem maquiagem
Sorriso desdentado
Agrícola de barriga vazia
Sujo com grandes mananciais
Berço da corrupção
Hábitat da impunidade
De famílias sem teto
Da habilidade
Que faz emergir da escuridão grandes estrelas
Da liberdade sem asas
Gigante dominado
De gente grande com pequenos ideais
De braços abertos
Mas não acolhe com dignidade os seus filhos
Miserável com conta na Suíça
Miscigenado com preconceito
Do povo que canta, mas não tem voz
Dos analfabetos de tantas culturas
Dos poderosos sem lei
Que comemora com festas o sofrimento
Que deixa morrer o seu futuro
Que é surpreendido enquanto dorme
Que sonha acordado
Um dia vê-lo orgulhar

O tempo que o samba viver, o sonho não vai acabar e ninguém irá esquecer Candeia…

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Luiz Carlos da Vila fez uma inesquecível homenagem a Candeia

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Luiz Carlos Baptista (1949-2008) que adotou o nome artístico de Luiz Carlos da Vila ou das “Vilas”, como ele mesmo afirmava, porque residia na Vila da Penha e era compositor da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel, é considerado um dos formatadores do samba carioca contemporâneo.

A letra de “O Sonho Não Acabou” homenageia o saudoso cantor e compositor Candeia, falecido em 1978, nela está presente o rico e belo manancial poético de Luiz Carlos da Vila. Este samba faz parte do CD ”Um Cantar à Vontade”, gravado por Luiz Carlos da Vila, em 2004, pela Musart Music.

O SONHO NÃO ACABOU
Luiz Carlos da Vila

A chama não se apagou
Nem se apagará
És luz de eterno fulgor
Candeia

O tempo que o samba viver
O sonho não vai acabar
E ninguém irá esquecer
Candeia

Todo tempo que o céu
Abrigar o encanto de uma lua cheia
E o pescador afirmar
Que ouviu o cantar da sereia
E as fortes ondas do mar
Sorrindo brincar com a areia
A chama não vai se apagar
Candeia

Onde houver uma crença
Uma gota de fé
Uma roda, uma aldeia
Um sorriso, um olhar
Que é um poema de fé
Sangue a correr nas veias
Um cantar à vontade
Outras coisas que a liberdade semeia
O sonho não vai acabar
Candeia

A história do pedreiro que construiu o prédio, mas lá ele não consegue entrar

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Lúcio Barbosa se inspira na vida do nosso povo

Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta e campositor baiano Lúcio Barbosa tornou-se conhecido, em 1979, quando sua música “Cidadão” foi gravada pelo cantor Zé Geraldo no LP “Terceiro mundo”, da CBS. Segundo Lúcio Barbosa, a música “Cidadão” foi composta em homenagem ao seu tio Ulisses, cuja letra narra a saga de um  pedreiro, que, em razão da sua condição humilde, não pode frequentar nenhuma das obras por ele construídas.

A inspiração veio do fato do tio também ser pedreiro, ter construído inúmeras obras na cidade grande, mas não possuir casa própria.

A música aborda o preconceito e a discriminação que os nordestinos sofrem nas grandes cidades e faz referência a alguns problemas sociais, tais como moradia, educação e trabalho. E o título “Cidadão” é proposital para demonstrar distanciamento entre os indivíduos privilegiados, em pleno gozo dos direitos civis e políticos, ou no desempenho de seus deveres para com o Estado e demonstra que a sociedade burguesa pode ser muito cruel, quando não considera as pessoas pobres como “cidadãs”.

CIDADÃO
Lúcio Barbosa

Tá vendo aquele edifício moço
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição, era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar
Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
“Tu tá aí admirado ou tá querendo roubar”
Meu domingo tá perdido, vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio que eu ajudei a fazer
Tá vendo aquele colégio moço
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento, ajudei a rebocar
Minha filha inocente vem pra mim toda contente
“Pai vou me matricular”
Mas me vem um cidadão:
“Criança de pé no chão aqui não pode estudar”
Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava, mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer
Tá vendo quela igreja moço, onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo, enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também
Lá foi que valeu a pena, tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse:
“Rapaz deixe de tolice, não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra, não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas e na maioria das casas
Eu também não posso entrar”

Paulo Leminsky desafia o leitor a esquecer sua poesia direta e revolucionária

Resultado de imagem para paulo leminski frasesPaulo Peres
Poemas & Canções

O crítico literário, tradutor, professor, jornalista, escritor e poeta paranaense Paulo Leminski Filho (1944-1989), no poema “No Instante do Entanto”, lança um desafio a alguém que possa esquecer sua poesia.

NO INSTANTE DO ENTANTO
Paulo Leminski

No instante do entanto
Diga minha poesia
E esqueça-me se for capaz
Siga e depois me diga
Quem ganhou aquela briga
Entre o quanto e o tanto faz                                              

Na genialidade de Lamartine, uma brincadeira que virou uma bela canção de amor

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e compositor carioca Lamartine de Azeredo Babo (1904-1963) compôs “Serra da Boa Esperança” inspirado numa situação inusitada, conforme consta na “História da MPB, Grandes Compositores”, coleção da Abril Cultural.
 
Segundo o fascículo da  coleção, “ em 1935, Lamartine recebeu da cidade de Boa Esperança (MG) uma poética a apaixonada carta assinada por Nair Pimenta de Oliveira. Iniciou-se entre ambos uma correspondência que se prolongou por cerca de um ano. Depois, o adeus na última carta de Nair.
 
Meses mais tarde, outra correspondência da mesma cidade convidava o compositor para a festa de estreia de um conjunto musical. O remetente era o dentista Carlos Alves Neto. Sonhando encontrar sua antiga missivista, Lamartine rumou para Minas. E não foi difícil encontrar Nair: uma menina, sobrinha do dentista, que era também autor das cartas. Ele colecionava fotos de artistas e se valera daquele expediente para aumentar sua coleção. Desse episódio, nasceu o famoso e bucólico samba-canção Serra da Boa Esperança”, gravado por Francisco Alves, em 1937, pela RCA Victor.
 
SERRA DA BOA ESPERANÇA
Lamartine Babo
 
Serra da Boa Esperança,
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai,
No coração de que vem,
Serra da Boa Esperança,
Meu último bem

Parto levando saudades,
Saudades deixando,
Murchas, caídas na serra,
Bem perto de Deus
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu luar
Adeus!

Levo na minha cantiga
A imagem da serra
Sei que Jesus não castiga
Um poeta que erra
Nós, os poetas, erramos
Porque rimamos, também
Os nossos olhos nos olhos
De alguém que não vem

Serra da Boa Esperança,
Não tenhas receio,
Hei de guardar tua imagem
Com a graça de Deus!
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus,
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu olhar
Adeus!    

Em versos, Papativa de Assaré disse o que pensava sobre a Poesia Moderna

Resultado de imagem para patativa do assaréPaulo Peres
Poemas & Canções

Patativa do Assaré, nome artístico de Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assaré, no Ceará, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porém poética, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme se constata no seu recado “Aos Poetas Clássicos”.

AOS POETAS CLÁSSICOS
Patativa do Assaré

Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidad
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá – O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
– Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.

A rebeldia de Oswald de Andrade num poema cheio de coquetéis Molotov

Resultado de imagem para oswald de andrade frasesPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado, escritor, ensaísta, dramaturgo e poeta paulista José Oswald de Souza Andrade (1890-1954) foi um dos principais articuladores do movimento modernista literário e da célebre Semana de Arte Moderna, marco divisório na história das artes brasileiras, realizada em São Paulo, em 1922. A rebeldia de Oswald o levava a querer muito mais do que simplesmente revolucionar forma e conteúdo da criação artística. O que ele queria mesmo era uma revolução que transformasse a vida social dos brasileiros, suas instituições e costumes.

ALERTA
Oswald de Andrade

Lá vem o lança-chamas
Pega a garrafa de gasolina
Atira
Eles querem matar todo amor
Corromper o pólo
Estancar a sede que eu tenho doutro ser
Vem do flanco, de lado
Por cima, por trás
Atira
Atira
Resiste
Defende
De pé
De pé
De pé
O futuro será de toda a humanidade.