“Vila Isabel veste luto, pelas esquinas escuto violões em funeral…”

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Silvio Caldas, compositor de obras imortais

Paulo Peres
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O cantor e compositor carioca Sílvio Narciso de Figueiredo Caldas (1908-1998), o famoso Sílvio Caldas, compôs em parceria com Sebastião Fonseca “Violões em Funeral”, cuja letra retrata o bairro carioca de Vila Isabel, que se fez luto com a morte do compositor Noel Rosa. O samba foi gravado por Sílvio Caldas, em 1951, pela Continental.

VIOLÕES EM FUNERAL
Sebastião Fonseca e Sílvio Caldas

Vila Isabel veste luto,
Pelas esquinas escuto,
Violões em funeral

Choram bordões, choram primas,
Soluçam todas as rimas,
Numa saudade imortal

Entre as nuvens escondida,
Como de crepe vestida,
A lua fica a chorar

E o pranto que a lua chora,
Goteja, goteja agora,
Nos oitis do boulevard

Adeus cigarra vadia,
Que mesmo em tua agonia,
Cantavas para morrer
Tu viverás na saudade
Da tua grande cidade,
Que não te há de esquecer

Adeus poeta do povo,
Que ressuscitas de novo,
Quando na morte descambas
Sinhô, de pele mais clara,
No qual o senhor encarnara,
A alma sonora dos sambas

Meu violão chora tanto,
Soluços e muito pranto,
Sobre o caixão de Noel
Estácio, Matriz, Salgueiro,
Todo o Rio de Janeiro,
Consola Vila Isabel.

Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para lá, dizia Gonçalves Dias

Resultado de imagem para gonçalves diasPaulo Peres
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O advogado, jornalista, etnógrafo, teatrólogo e poeta romântico maranhense Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) é o maior fenômeno de intertextualidade da cultura brasileira. A “Canção do Exílio” escrita em 1843, em Coimbra, onde o poeta estudava, transformou-se num ícone múltiplo. Representa, antes de tudo, a saudade (e a idealização) da terra natal, um sentimento universal e sem idade. Além disso, tornou-se a expressão do nacionalismo num país que acabara de conquistar sua independência política. 

Canto singelo de louvor à pátria, é o poema mais citado na literatura e na música popular brasileira. De quebra, trouxe para nosso imaginário a figura do sabiá, pássaro também identificado com a nação brasileira. Gonçalves Dias já o via como uma referência mítica, além do substantivo comum. Tanto que escreve o sabiá com inicial maiúscula.

CANÇÃO DO EXÍLIO
Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso Céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossas vidas mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá

A alma do vaqueiro, cavalgando na caatinga, segundo o poeta Geraldo do Norte

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Geraldo do Norte fazia muito sucesso na Rádio Nacional

Paulo Peres
S
ite Poemas & Canções

O radialista, declamador, letrista e poeta Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, “O Poeta Matuto”, em suas poesias aborda sempre temas regionais, como a vida no sertão, as festas religiosas, os problemas sociais como a fome e o preconceito contra o nordestino, homenagem aos grandes nomes da região e, é claro, a vida e o trabalho do vaqueiro, presente neste poema “Alma de Vaqueiro”.

 

ALMA DE VAQUEIRO
Geraldo do Norte
Eu ofereço orações
Para as almas dos vaqueiros
Que assim como zelações
Percorrem sertões inteiros.
Por isso em noites escuras
Olhando bem pras alturas
Se vê Luz, o Fogaréu…
Não temem, mantenham a calma
Que com certeza são almas
Nos cavalgados do Céu.
Então, se ouvir um tropel
Feito estouro de boiada
É só tirar o chapéu
Se benzer, sem temer nada
Pois são almas com saudade
E, soltas da gravidade,
São livres na Cobertura
E sobre corcéis alados
Vêm ver como tem passado
Os bichos dessa planura.
Aqui, sofreram agruras
Correndo atrás de animais
Se embrenhando nas lonjuras
Como quem busca ideais.
Desse jeito faz sentido
Pra quem tem bicho perdido
Se armar de muita fé
E rogar para os vaqueiros
Que eles chegarão ligeiros
Pra fazer o que puder.
E nem precisam sequer
Prometer às santas almas,
Uma oferenda qualquer;
Milho, feno, fruta ou palma
Pois o melhor pagamento
Pra um vaqueiro é o alimento
De um animal de estimação
E eles amaram todos
Tratavam e mantinham gordos
Sem nenhuma distinção.
Doutores na profissão
Foram obstetras de vacas
Puxando crias à mão
Quando as mães estavam fracas
E assim salvaram magotes
Toda sorte de filhotes.
Vaqueiro tem a mão santa
Onde põe um dedo cura
E na fé forte e segura
Faz crescer tudo o que planta.
No trabalho se agiganta
Vivendo o fim de aventuras
Conselhos , não adianta,
Faz parte da conjuntura.
Brincadeiras perigosas
Estripulias amorosas…
Eles tiveram demais
Com sua fé e seus cantos
Seus olhos só viram o pranto
Quando morreram animais
Pros bichos, foram babás
Por feiras, campos e baias
Das caatingas, generais
Nunca fugiram dos raios
Com chapéus de abas curtas
Sua figura se avulta
Na cultura brasileira
Forrós, repentes, cantigas,
“Causos”, histórias antigas
E as receitas caseiras.
Quando um bicho de primeira
Que ele mesmo amansou
Foi pro abate na feira
Sentiu-se tomado de dor.
E como contra-veneno
Pra um outro animal pequeno
Transferiu o seu carinho
Do animal que se foi
E assim amansa outro boi
Pr’aquele patrão mesquinho.
Vai fazer seu caminho
Sobre a cela do alazão
Tapando pedra e espinho
Jamais perde a atenção
Seu despertador é o galo
Seu companheiro o cavalo
Melhor amigo, seu cão
Se sofre de amor, não diz
É um São Francisco de Assis
De bota, chapéu e gibão.
Vaqueiro de convicção
Se uma cobra morde o bicho
Ele parte pra ação
Suga o sangue no capricho
Mas se morre um animal
Reza, faz “pelo sinal”
Guardando um dia de luto
Os bichos todos agradecem
Mugidos são como prece
Pr’aquele Cristo Matuto.
Pra um vaqueiro é insulto
Se o chamam de boiadeiro
Porque faz lembra o vulto
De um machante, de um toureiro
O vaqueiro é protetor
Seu papel é defensor
Honra o nome e a arte
Não mancha as mãos de sangue
Desse povo, dessa gangue
O vaqueiro não faz parte.
Vê nuvens em estandartes
As flores dos trapiás
Que a natureza reparte
Com o canto dos sabiás
E oferece as estrelas
As moças depois de tê-las
Na quentura da paixão
E sempre assumem a vera
Os filhos da primavera
Que nascerão no verão.
Difícil definição,
Meio sonho, meio mágoa
Feito fruto do sertão
Que tem mel em vez de água
O vaqueiro desse jeito
Juntando dentro do peito
Pedaços de integridade
Meio animal, meio santo
A roupa de couro é um manto
Ele inteiro, Humanidade.
Quando Deus cheio de bondade
Lança a terra a escada
O velho sela a saudade
E sobe a última morada
Mas lá em cima ele não para
Tropeia em noites claras
Abóia na imensidão
De repente, a luz um rastro….
É ele montando um astro
Dando aos bichos a benção.
Foi vida com coração
Doação o tempo inteiro
Cumpriram a obrigação
E deixaram pros herdeiros
Não dinheiro, mas um nome
E os valores que não somem
E nem se perde no tempo.
Em cada velha fazenda
Um vaqueiro virou lenda
Deixaram lição no exemplo.
Neste poema contemplo
Quem cumpriu com seu dever
E hoje se acha no templo
Magnânimo do poder.
Porque cumpriu a missão
Na luta sem omissão
Ou um minuto de pausa
Por Deus, tem que ser benquisto
Porque com Jesus Cristo
Deu a vida numa causa.

Em homenagem ao Dia dos Pais, dois poemas de Mário Quintana e Paulo Peres

Dia dos paisCarlos Newton

Para comemorar o Dia dos Pais, uma data que precisa ser alegre, embora em muitos casos possa ser triste, selecionamos hoje dois poemas relativos ao tema. Um deles, do gaúcho Mário Quintana, e o outro, do carioca Paulo Peres, que, ao trabalhar com  o jornalista, cronista e poeta Rubem Braga, com ele aprendeu que “a poesia é necessária”, uma frase que ficou na História.

AS MÃOS DO MEU PAI
Mario Quintana

As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos —
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
na nobre cólera dos justos…

Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,
essa beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…

Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir,
com o milagre das tuas mãos.

E é, ainda, a vida
que transfigura das tuas mãos nodosas…
essa chama de vida — que transcende a própria vida…
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma…

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DIA DOS PAIS
Paulo Peres

Festejai, pai material,
Este dia especial.
Receba o carinho celestial
– Família, luz e amor –
Através à bênção do Pai Maior,
O Nosso Deus-Pai Espiritual

Uma modinha inesquecível, criada por Sérgio Bittencourt e que ficará para sempre

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Sérgio Bittencourt, um compositor de raro talento

Paulo Peres
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O jornalista e compositor carioca Sérgio Freitas Bittencourt (1941-1979) revela, na letra de “Modinha”, o seu lírico e belíssimo sonho. Esta música foi vencedora do festival O Brasil Canta no Rio, em 1968, interpretada e, posteriormente, gravada por Taiguara.

MODINHA
Sérgio Bittencourt

Olho a rosa na janela,
sonho um sonho pequenino…
Se eu pudesse ser menino
eu roubava essa rosa
e ofertava, todo prosa,
à primeira namorada,
e nesse pouco ou quase nada
eu dizia o meu amor,
o meu amor…

Olho o sol findando lento,
sonho um sonho de adulto…
Minha voz, na voz do vento,
indo em busca do teu vulto,
e o meu verso em pedaços,
só querendo o teu perdão…
Eu me perco nos teus passos
e me encontro na canção…

Ai, amor, eu vou morrer
buscando o teu amor…
Ai, amor, eu vou morrer
buscando o teu amor…
(Eu vou morrer de muito amor)

“Não sei que intensa magia teu corpo irradia, que me deixa louco assim, mulher…”

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Sadi Cabral, grande ator e também um compositor inspirado

Paulo Peres
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O ator e compositor alagoano Sadi Sousa Leite Cabral (1906-1986) e seu parceiro Custódio Mesquita (1910-1945) imploram o amor de uma “Mulher”, tendo em vista a beleza mágica que o corpo dela irradia. Este clássico fox-canção foi gravado por Silvio Caldas, em 1940, pela RCA Victor.

MULHER
Custódio Mesquita e Sadi Cabral

Não sei que intensa magia 
Teu corpo irradia
Que me deixa louco assim, mulher
Não sei, teus olhos castanhos,
Profundos, estranhos
Que mistério ocultarão, mulher

Não sei dizer,
Mulher, só sei que sem alma
Roubaste-me a calma
E aos teus pés eu fico a implorar

O teu amor tem um gosto amargo
E eu fico sempre a chorar nesta dor
Por teu amor, por teu amor, mulher

“O Sal da Terra” – uma canção/hino que realmente merece ser ouvida todos os dias

Resultado de imagem para ronaldo bastos e beto m[guedesPaulo Peres
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O jornalista, produtor musical e compositor Ronaldo Bastos Ribeiro, nascido em Niterói (RJ), mostra no título da música “Sal da terra” uma passagem bíblica, quando Jesus diz aos homens “vós sois o sal da terra”, ou seja, aquilo que dá sentido, sabor ao mundo. Logo, a letra retrata um mundo que pede socorro, pois está sendo maltratado pela má administração do homem.
É um chamado para melhorar a Terra, “vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois”. O que precisamos fazer para mudar a situação, é conscientizar a população de que a natureza é a nossa casa, nossa mãe, se ela morrer, morreremos com ela.

“O Sal da Terra” é uma obra tão genial que poderia ser inserida na nossa Constituição, além de ser tocada e cantada pelo país inteiro em todas as épocas que virão a nossa frente, porque representa um “louvor ao nosso chão e teto naturais, a percorrer o espaço vazio”. A música “Sal da Terra” foi gravada por Beto Guedes no LP Contos da Lua Vaga, em 1981, pela EMI-Odeon.

O SAL DA TERRA
Beto Guedes e Ronaldo Bastos

Anda!
Quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão, da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar…

Tempo!
Quero viver mais duzentos anos
Quero não ferir meu semelhante
Nem por isso quero me ferir

Vamos precisar de todo mundo
Prá banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
Vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado
E quem não é tolo pode ver…

A paz na Terra, amor
O pé na terra
A paz na Terra, amor
O sal da…

Terra!
És o mais bonito dos planetas
Tão te maltratando por dinheiro
Tu que és a nave nossa irmã

Canta!
Leva tua vida em harmonia
E nos alimenta com seus frutos
Tu que és do homem, a maçã…

Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Prá melhor juntar as nossas forças
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois…

Deixa nascer, o amor
Deixa fluir, o amor
Deixa crescer, o amor
Deixa viver, o amor
O sal da terra

O coração do violeiro, na brasileiríssima visão criativa do genial Rolando Boldrin

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Boldrin simboliza a beleza da cultura genuinamente brasileira

Paulo Peres
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O ator, cantor, poeta, contador de causos, radialista, apresentador de televisão e compositor paulista Rolando Boldrin explica na letra de “Coração de Violeiro” que “no braço de uma viola fez o seu cativeiro” e em suas cordas coloca todos os seus sentimentos. A música “Coração de Violeiro” foi gravada por Rolando Boldrin no Lp Caipira, em 1981, pela Som Brasil.


AMOR DE VIOLEIRO

Rolando Boldrin

No braço de uma viola
Eu faço meu cativeiro
Eu choro, a dor me consola
E doa a quem doa, parceiro

Eu vim de um mundo levado
Misturado por inteiro
Fez o amor mais procurado
Que moeda, que dinheiro

Vejo a vela que se apaga
Vejo a luz, vejo o cruzeiro
Vejo a dor, vejo a vontade
Do amor de um violeiro

No braço de uma viola
Verdade seja bem-vinda
Que acabe o choro, que seja
O amor a coisa mais linda

Eu sou de agora e de sempre
Cantador de mundo afora
Padeço se estou contente
Me dói a dor de quem chora

Por isso eu sou violeiro
E num braço de uma viola
Quem quiser me abrace forte
Ou eu abraço primeiro

Sinto a vida, sinto a morte
Do amor de um violeiro
Salve a vida, salve a morte
Salve a hora de eu cantar

Deus me deu tamanha sorte
Não sair do meu lugar
No braço de uma viola
Eu faço meu cativeiro

Uma insistente mensagem de amor, em meio à podridão do mundo moderno

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Eda Carneiro e uma eterna busca

Paulo Peres
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A professora e poeta carioca Eda Carneiro da Rocha, no poema “Cântico de Amor ao Vento”, lança uma mensagem de amor em meio à podridão do mundo moderno.

CÂNTICO DE AMOR AO VENTO!
Eda Carneiro

Vento, passa depressa,
leva todas as maldades
das almas comezinhas,
das terras áridas
que não podem ser adubadas,
nem com o melhor adubo do mundo!

A putrefação é tanta
que não se vêem mais as ribeirinhas
cantando, na lavagem de suas roupas!

O mundo recrudesceu de tal maneira
que espero um alento,
uma brisa suave
que me pegue inteira!..

Que me fale de amor, do mar,
dos barcos visionários
que esperam a primeira Estrela,
para falar de amor!..

Não me deixes sofrer nessa escuridão!..
Quero me impregnar com o sol de tua alma,
que, a procura da minha, chora!

E, como inundações de poentes,
traze-me palavras lindas,
para encantar minh’alma,
encontrarmos juntos
tudo o que ansiamos
pelo muito que amamos!..

“Eu não sou quem escreve, mas sim o que escrevo”, definia-se o poeta Décio Pignatary:

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O publicitário, ator, professor, tradutor, ensaísta e poeta paulista Décio Pignatari (1927-2012), genial e revolucionário produtor cultural, autodefine-se no “Eupoema”.

EUPOEMA
Décio Pignatary

O lugar onde eu nasci nasceu-me
num interstício de marfim,
entre a clareza do início
e a celeuma do fim.

Eu jamais soube ler: meu olhar
de errata a penas deslinda as feias
fauces dos grifos e se refrata:
onde se lê leia-se.

Eu não sou quem escreve,
mas sim o que escrevo:
Algures Alguém
são ecos do enlevo.

Coração de quem nasceu no interior sente paixão igual, seja peão, seja doutor

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Paulo Simões, um carioca que é violeiro no Pantanal

Paulo Peres
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O cantor e compositor carioca Paulo Simões mora em Campo Grande, MS, onde passou parte da adolescência descobrindo amigos e futuros parceiros, como os irmãos Geraldo e Celito Espíndola, Geraldo Roca e Almir Sater. Devido a isso, Paulo Simões consegue ter sentimentos iguais a quem nasce no “Interior”.

INTERIOR
Celito Espíndola e Paulo Simões

Coração de quem nasceu no interior
Sente paixão igual, seja peão, seja doutor
Solidão ninguém viveu superior
E nem foi tão real, quanto esse chão
Quanto essa dor

A fazer nossa pior ferida
Penas da própria vida
Alvo de um caçador

Pra render a violência vã
Foi minha mente sã
Que me fez um cantor

Coração de quem nasceu no interior
Sente paixão igual, seja peão, seja doutor
Solidão ninguém viveu superior
E nem foi tão real, quanto esse chão
Quando essa dor

De saber que o futuro vem
Trocar o que se tem
Por um outro valor

De temer que o progresso quer
Deixar em todo verde
Seu sinal detrator

Sob a ponte, os mendigos não são formas humanas, mais parecem sacos no chão

Resultado de imagem para dante milanoPaulo Peres
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Em seu lirismo sombrio, o poeta Dante Milano (1899-1991), nascido em Petrópolis (RJ), expõe que “A Ponte” possui um cotidiano triste, embora poético na sua arquitetura.

A PONTE
Dante Milano

O desenho da ponte é justo e firme, calmo e exato.
Nada poderá perturbar as suas linhas definitivas.
A sua arquitetura equilibra-se no ar
Como um navio na água, uma nuvem no espaço.
Embaixo da ponte há ondas e sombras.
Os mendigos dormem enrodilhados nos cantos.
Não têm forma humana. São sacos no chão.
Por momentos parece ouvir-se o choro de uma criança.
A água embaixo é suja,
O óleo coagula, em nódoas luminosas, reflexos lacrimejantes.
Um vulto debruçado sobre as águas
Contempla o mundo náufrago.
A tristeza cai da ponte
Como a poesia cai do céu.
O homem está embaixo aparando as migalhas do infinito.

A ponte é sombria como as prisões.
Os que andam sobre a ponte
Sentem os pés puxados para o abismo.
Ali tudo é iminente e irreparável,
Dali se vê a ameaça que paira.
A ponte é um navio ancorado.
Ali repousam os fatigados,
Ouvindo o som das águas, a queixa infindável,
Infindável, infindável…
Um apito dá gritos
A princípio crescendo em uivos, depois mantendo bem alto o apelo desesperado.
Passam navios. Tiros. Trovões.
Quando virá o fim do mundo ?
Por cima da ponte se cruzam
Reflexos de fogo, relâmpagos súbitos, misteriosos sinais.
Que combinam entre si os astros, inimigos da Terra ?
Quando virá o fim dos homens ?
A ponte pensa…

A poesia de Cruz e Sousa, se esgueirando entre “as Estrelas de cristais gelados”

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O poeta João da Cruz e Sousa (1861-1898) nasceu em Desterro, atual Florianópolis, e tornou-se conhecido como o “Cisne Negro” de nosso Simbolismo, seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”. Procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social.

No poema “Siderações” encontramos a presença do Misticismo, característica da nova fase (Simbolismo) em que se opõem matéria e espírito, corpo e alma. Há um clima onde predomina o vago, o abstrato, porém voltado para uma esfera superior, aqui evidenciado através das palavras: “Para as estrelas/ …as ânsias e desejos vão subindo/ galgando azuis siderais noivados…”

Mais do que nunca, há uma linguagem simbólica intensamente subjetiva que busca o Eu no universo, a essência do ser humano, através de incursões a regiões etéreas, espaciais, ilimitadas.

SIDERAÇÕES
Cruz e Sousa

Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo…
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo…

Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta…

E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta

A imaginação de Paulo Vanzolini, voando no tempo e no espaço, sem começo, meio e fim

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O zoólogo e compositor paulista Paulo Emílio Vanzolini (1924-2013), na letra de “Tempo e Espaço”, viaja dentro de si próprio até encontrar sua amada. Esse samba faz parte do LP Paulo Vanzolini, por ele mesmo lançado, em 1981, pela Eldorado.

 

TEMPO E ESPAÇO
Paulo Vanzolini

O tempo e o espaço eu confundo
A linha do mundo é uma reta fechada
Périplo, ciclo
Jornada de luz consumida e reencontrada
Não sei de quem visse o começo
Sequer reconheço
O que é meio, o que é fim
Pra viver no seu tempo
É que eu faço viagens no espaço
De dentro de mim
As conjunções improváveis
De órbitas estáveis
É que eu me mantenho
E venho arrimado nuns versos
Tropeçando universos
Pra achar-te no fim
Nesse tempo cansado de dentro de mim

Na criatividade da vida no interior, até um pé de milho inspirava Cora Coralina

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Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica em motivos do cotidiano do interior brasileiro, como este “Poema do Milho”.

POEMA DO MILHO
Cora Coralina

Milho…
Punhado plantado nos quintais.
Talhões fechados pelas roças.
Entremeado nas lavouras,
Baliza marcante nas divisas.
Milho verde. Milho seco.
Bem granado, cor de ouro.
Alvo. Às vezes, vareia,
– espiga roxa, vermelha, salpintada.

Milho virado, maduro, onde o feijão enrama
Milho quebrado, debulhado
na festa das colheitas anuais.

Bandeira de milho levada para os montes,
largada pelas roças:
Bandeiras esquecidas na fartura.
Respiga descuidada
dos pássaros e dos bichos.

Milho empaiolado,
abastança tranquila
do rato,
do caruncho,
do cupim.

Palha de milho para o colchão.
Jogada pelos pastos.
Mascada pelo gado.
Trançada em fundos de cadeiras.

Queimada nas coivaras.
Leve mortalha de cigarros.
Balaio de milho trocado com o vizinho
no tempo da planta.
” – Não se planta, nos sítios, semente da mesma terra”.

Ventos rondando, redemoinhando.
Ventos de outubro.

Tempo mudado. Revôo de saúva.
Trovão surdo, tropeiro.
Na vazante do brejo, no lameiro,
o sapo-fole, o sapo-ferreiro, o sapo-cachorro.
Acauã de madrugada
marcando o tempo, chamando chuva.
Roça nova encoivarada,,
começo de brotação.
Roça velha destocada.
Palhada batida, riscada de arado.
Barrufo de chuva.
Cheiro de terra: cheiro de mato,
Terra molhada, Terra saroia.
Noite chuvada, relampeada.
Dia sombrio. Tempo mudado, dando sinais,
Observatório: lua virada. Lua pendida…
Circo amarelo, distanciado,
marcando chuva.
Calendário, Astronomia do lavrador.

Planta de milho na lua-nova.
Sistema velho colonial.
Planta de enxada.
Seis grãos na cova,
quatro na regra, dois de quebra.
Terra arrastada com o pé,
pisada, incalcada, mode os bichos.

Lanceado certo-cabo-da-enxada…
Vai, vem, …sobe, desce…
terra molhada, terra saroia…
– Seis grãos na cova; quatro na regra, dois de quebra.
Sobe. Desce…
Camisa de riscado, calça de mescla
Vai, vem…
golpeando a terra, o plantador.

Na sombra da moita,
na volta do toco – o ancorote d’água:
Cavador de milho, que está fazendo?
Há que milênios vem você plantando.
Capanga de grãos dourados a tiracolo.
Crente da Terra, Sacerdote da terra.
Pai da terra.
Filho da terra.
Ascendente da terra.
Descendente da terra.
Ele; mesmo; terra.

Planta com fé religiosa.
Planta sozinho, silencioso.
Cava e planta.
Gestos pretéritos, imemoriais…
Oferta remota; patriarcal.
Liturgia milenária.
Ritual de paz.

Em qualquer parte da Terra
um homem estará sempre plantando,
recriando a Vida.
Recomeçando o mundo.

Milho plantado, dormindo no chão, aconchegados
seis grãos na cova.
Quatro na regra, dois de quebra.
Vida inerte que a terra vai multiplicar.

E vem a perseguição:
o bichinho anônimo que espia, pressente.
A formiga-cortadeira – quenquém.
A ratinha do chão, exploradeira.
A rosca vigilante na rodilha,
O passo-preto vagabundo, galhofeiro,
vaiando, sorrindo…
aos gritos arrancando, mal aponta.
O cupim clandestino
roendo, minando,
só de ruindade.

E o milho realiza o milagre genético de nascer:
Germina. Vence os inimigos,
Aponta aos milhares.
– Seis grãos na cova.
– Quatro na regra, dois de quebra,
Um canudinho enrolado.
Amarelo-pálido,
frágil, dourado, se levanta.
Cria substância.
Passa a verde.
Liberta-se. Enraíza.
Abre folhas espaldeiradas.
Encorpa. Encana. Disciplina,
com os poderes de Deus.

Jesus e São João
desceram de noite na roça,
botaram a benção no milho.
E veio com eles
uma chuva maneira, criadeira, fininha,
uma chuva velhinha,
de cabelos brancos,
abençoando
a infância do milho.

O mato vem vindo junto.
Sementeira.

As pragas todas, conluiadas.
Carrapicho. Amargoso. Picão.
Marianinha. Caruru-de-espinho.
Pé-de-galinha. Colchão.
Alcança, não alcança.
Competição.
Pac…Pac…Pac…
a enxada canta.
Bota o mato abaixo.
Arrasta uma terrinha para o pé da planta.
“- Carpa bem feita vale por duas…”
quando pode. Quando não…sarobeia.
Chega terra. O milho avoa.

Cresce na vista dos olhos.
Aumenta de dia. Pula de noite.
Verde Entonado, disciplinado, sadio.

Agora…
A lagarta da folha,
lagarta rendeira…
Quem é que vê?
Faz a renda da folha no quieto da noite.
Dorme de dia no olho da planta.
Gorda. Barriguda. Cheia.
Expurgo: nada…força da lua…,
Chovendo acaba – a Deus querê.

” – O mio tá bonito…”.
” – Vai sê bão o tempo pras lavoras todas”.
” –  O mio tá marcando…”.
Condicionando o futuro:
” – O roçado de seu Féli tá qui fais gosto…
Um refrigério”.
” – O mio lá tá verde qui chega a s’tar azur…”.
Conversam vizinhos e compadres.

Milho crescendo, garfando,
esporando nas defesas…

Milho embandeirado.
Embalado pelo vento.

“Do chão ao pendão, 60 dias vão”.
Passou aguaceiro, pé-de-vento.
” – O milho acamou…” ” – Perdido?”…Nada…
Ele arriba com os poderes de Deus…”
E arribou mesmo; garboso, empertigado, vertical.

No cenário vegetal
um engraçado boneco de frangalhos,
sobreleva, vigilante.
Alegria verde dos periquitos gritadores…
Bandos em sequência…Evolução…
Pouso…Retrocesso…

Manobras em conjunto.
Desfeita formação.
Roedores grazinando, se fartando,
foliando, vaiando
os ingênuos espantalhos.

“Jesus e São João
andaram de noite passeando na lavoura
e botaram a benção no milho”.
Fala assim gente de roça e fala certo.
Pois não está na taipa do rancho
o quadro deles, passeando dentro dos trigais?
Analogias…Coerências.

Milho embandeirado
bonecando em gestação.
– Senhor!… Como a roça cheira bem!
Flor de milho, travessa e festiva.
Flor feminina, esvoaçante, faceira.
Flor masculina – lúbrica, desgraciosa.

Bonecas de milho túrgidas.
negaceando, se mostrando vaidosas.
Túnicas, sobretúnicas…
saias, sobre-saias…
Anáguas…camisas verdes…
Cabelos verdes…
– Cabeleiras soltas, lavadas, despenteadas…
– O milharal é desfile de beleza vegetal.

Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas.
Cabelos prateados, verde-gaio.
Cabelos roxos, lisos, encrespados.
Destrançados.
Cabelos compridos, curtos,
queimados, despenteados…
Xampu de chuvas…
Flagrâncias novas no milharal
– Senhor, como a roça cheira bem!…

As bandeiras altaneiras
vão-se abrindo em formação.
Pendões ao vento.
Extravasão da libido vegetal.
Procissão fálica, pagã.
Um sentido genésico domina o milharal.
Flor masculina erótica, libidinosa,
polinizando, fecundando
a florada adolescente das bonecas.

Boneca de milho, vestida de palha…
Sete cenários defendem o grão.
Gordas, esguias, delgadas, alongadas.
Cheias, fecundadas.
Cabelos soltos excitantes.
Vestidos de palha.
Sete cenários defendem o grão.
Bonecas verdes, vestidas de noiva.
Afrodisíacas, nupciais…

De permeio algumas virgens loucas…
Descuidadas. Desprovidas.
Espigas falhadas. Fanadas. Macheadas.

Cabelos verdes. Cabelos brancos.
Vermelho-amarelo-roxo, requeimado…
E o pólen dos pendões fertilizando…
Uma fragrância quente, sexual
invade num espasmo o milharal.

A boneca fecundada vira espiga.
Acontece a grande exaltação.
Já não importam as verdes cabeleiras rebeladas
A espiga cheia salta da haste.
O pendão fálico vira ressecado, esmorecido,
No sagrado rito da fecundação.

Tons maduros de amarelo.
Tudo se volta para a terra-mãe.
O tronco seco é um suporte, agora,
onde o feijão verde trança, enrama, enflora.

Montes de milho novo, esquecidos,
marcando claros no verde que domina a roça.
Bandeiras perdidas na fartura das colheitas.
Bandeiras largas, restolhadas.
E os bandos de passo-pretos galhofeiros
gritam e cantam na respiga das palhadas.

“Não andeis a respigar” – diz o preceito bíblico
O grão que cai é o direito da terra.
A espiga perdida – pertence às aves
que têm seus ninhos e filhotes a cuidar.
Basta para ti, lavrador,
o monte alto e a tulha cheia.
Deixa a respiga  para os que não plantam nem colhem
– O pobrezinho que passa.
– Os bichos da terra e os pássaros do céu.

“Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração…”

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Milton e Brant, uma amizade que se tornou uma parceria eterna

Paulo Peres
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O advogado, compositor e poeta mineiro Fernando Rocha Brant (1946-2015), na letra de “Canção da América”, lembra o desejo de frátria, devido aos laços histórico/afetivos que unem os países americanos, em especial, os latino-americanos. Pelo potencial confraternizador que carrega, a canção tornou-se o hino de celebração das amizades, mormente, para retratar os encontros e as despedidas existentes em nossa vida. Esta música foi gravada por Milton Nascimento, em 1980, no LP Sentinela, pela Ariola. E deve ser cantada sempre, como se fosse um hino do Dia do Amigo, que se comemora hoje, 20 de julho.

CANÇÃO DA AMÉRICA
Milton Nascimento e Fernando Brant

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir
Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam “não”
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração
Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

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DIA DO AMIGO
Paulo Peres

Não existe palavra
Que possa definir
O real significado,
A bênção Divina
E a felicidade infinita
De tê-lo como amigo.

No suspiro do vento e na lágrima do mar, o sofrimento poético de Cecília Meireles

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Site Poemas & Canções
A professora, jornalista e poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), no poema “Noturno”, mostra sua dúvida e seu sofrimento.

NOTURNO
Cecília Meireles
Suspiro do vento,
lágrima do mar,
este tormento
ainda pode acabar?

De dia e de noite,
meu sonho combate:
vem sombras, vão sombras,
não há quem o mate!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
as armas que invento
são aromas no ar!

Mandai-me soldados
de estirpe mais forte,
com todas as armas
que levam à morte!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
meu pensamento
não sabe matar!

Mandai-me esse arcanjo
de verde cavalo,
que desça a este campo
a desbaratá-lo!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
que leve esse arcanjo meu longo tormento,
e também a mim, para o acompanhar!

Na visão do cordelista, chamar “estádio” de “arena” é uma tremenda ignorância

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Chico Salles queria que cada coisa tivesse seu nome certo

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O engenheiro, cantor, compositor e cordelista paraibano Francisco de Salles Araújo (1951-2017), neste “Martelo Recado”, faz uma crítica aos novos nomes dos nossos estádios de futebol.
MARTELO RECADO
Chico Salles


Dizer que lugar longe é caixa prego
Ou então que bezerro é garrote
Chamar Cervantes de Dom Quixote
E que todo analfabeto é cego
Possa ser perdoado, eu não nego.
Falar que assistência é ambulância
É um papo de pouca substância
E assim prefiro sair de cena,
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.

Chamar o pederasta de baitola
É falado muito assim no Ceará
Dizer que camundongo é preá
Que a base do tempero é a cebola
Falar que a cueca é ceroula
Que a origem do cheiro é a fragrância
É parecido mais eu sei que tem distância
Por isso não merece qualquer pena
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.

Chamar a fechadura de tramela
Ou dizer que o sapo é cururu
Que o lugar do caroço é no angu
Que o melhor do boi á a vitela
E que lugar de flor é na lapela
Que a frequência é o mesmo que constância
Que no feio também tem elegância
São as verdades da gota serena,
Mas, chamar os estádios de arena,
É uma absoluta ignorância.

Tropeiro de cantigas, a autodefinição musical do cantor Paulinho Pedra Azul

Resultado de imagem para paulinho pedra azulPaulo Peres
Site Poemas & Canções


O cantor, compositor e poeta mineiro Paulo Hugo Morais Sobrinho nasceu na cidade de Pedra Azul, a qual adotou como nome artístico. É tido como um dos cantores mais conhecidos de Minas Gerais. Sua música registra influências que vão desde os Beatles e o samba até o mineiro Clube da Esquina.

O sonhar de um vaqueiro através de mudanças no seu cotidiano é o teor principal na letra de “Tropeiro de Cantiga”, música que faz parte do LP “Tropeiro de Cantigas” gravado por Paulinho Pedra Azul, em 1982, produção independente.

TROPEIRO DE CANTIGAS
Paulinho Pedra Azul

Eu sou um bom vaqueiro
Que dorme o dia inteiro
Pra poder laçar carneiros no céu
Lá eu tenho um mensageiro

Que faz da luz de um candeeiro
A chama do luar dentro de mim

Juro, eu sou assim
Tropeiro de cantiga
Que mudou de vida
Pra ser cantador
Passarim sem asa
Eu sou tudo e nada
Sou um sonhador

Um poema a quatro mãos, marcando a desigualdade social e o desamparo

Resultado de imagem para pobreza no brasilCarlos Newton

Os poetas cariocas Chico Pereira e Paulo Peres escreveram este poema em parceria, ou seja, cada um escreveu uma estrofe. Na primeira estrofe, o personagem se autodefine perante parte da sociedade que o marginaliza, enquanto que na segunda estrofe, esta sociedade que o marginaliza passa a utilizá-lo como objeto de promessas, quase nunca concretizadas, nos pseudos programas sociais e nas ridículas campanhas eleitorais.

O MENDIGO
Chico Pereira e Paulo Peres

Eu broto
igual flor suja, morta… morto…
Eu saio dos bueiros que ficam nos
cantos dos asfaltos
dos grandes centros urbanos

Eu sou o resto,
a sobra da humanidade
sou o filho do erro
ou o próprio erro

Como quem imagina, não vê,
só imagina…
Convivo com o rato
divido tudo com o rato
não tenho visão, nem tato,
audição e nem olfato

Como quem dança numa
breve manhã
como quem emana
do nada
como quem respira
o vazio
como quem espera
um assovio de ninguém…

A minha água é aguardente
a minha companhia é a solidão
a minha vida não é de gente
e a minha fome é ser cidadão

(Chico Pereira)

Eu sou o “outdoor” dos políticos
com promessas ilusionistas
de palavras equilibristas
entre tráficos sonhos trágicos.

Eu sou a sujeira varrida
para baixo dos tapetes
das calçadas, das marquises,
máscara, engano e ferida…

Sou a elite, destino trapos,
silenciosa e letal
das cidades em farrapos,
avesso cartão-postal.

Sou o limite humano
do negativo social,
escravo mundano
poema marginal.

(Paulo Peres)