A loucura que sempre envolve a criatividade dos poetas, segundo João de Abreu

João de Abreu Borges - Chá.com Letras

João de Abreu, poeta revisitando a loucura

Paulo Peres
Poemas & Canções


Formado em Letras (Português e Literatura), artista gráfico, músico e poeta carioca João de Abreu Borges (1951-2019), no poema “Loucos os Poetas”, louva a doce loucura de quem traz a poesia na alma e não enxerga horizontes.

 

LOUCOS OS POETAS
João de Abreu

Loucos, distantes da realidade,
Os poetas nunca sentem saudade
Nem pensam no que o futuro vai trazer

Loucos, os poetas, amam como girassóis,
Diamantes e manhãs
São tão claros que enxergam no escuro

Loucos, os poetas, agarram-se entre as estrelas
Promovem feias e belas
E acabam com suas vidas
Entre os planetas que orbitam ao seu redor

Loucos, os poetas, sem ter qualquer nome algum
Não querem ser apenas um
E tornam-se os homens
Que ocupam a nossa mente e a nossa voz

Loucos,
são estrelas de tudo que não tem forma,
Porque não saíram de uma forma
E se sustentam sobre tantos pés

Estetas,
são tão loucos, não só por serem tão poetas,
Mas por terem as pernas tortas
E sempre driblarem os “joãos”

Loucos,
os poetas, que não enxergam horizontes
E só passam pelas pontes
Quando por elas passam os mais intensos vendavais

Loucos,
os poetas, que gritam pelos oprimidos
Sentem a dor dos sem-sentidos
E ficam ouvindo o mar quando ouvem os sem-faróis

Loucos,
os poetas, mesmo sem querer poder
Podem o que eles querem ser
Apenas com sua dor por sobre a palma da mão

Ainda olha para a lua
Como se ela ainda fosse sua
Última esperança, tanto quanto é esta canção
Ainda hoje, e principalmente hoje,
Mais do que nunca
Nua.

“De volta pro meu aconchego”, uma obra-prima de Dominguinhos e Nando Cordel

Musical com Dominguinhos, Liv Moraes e Nando Cordel - YouTube

Nando Cordel, Dominguinhos e a cantora Liv Moraes

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, instrumentista e compositor pernambucano Fernando Manoel Correia, nome artístico Nando Cordel, faz versos para diversos estilos musicais: xotes, forrós, frevos etc. Seu primeiro sucesso foi “De volta pro meu aconchego”, cuja bonita letra versa sobre o voltar para os braços da pessoa amada. Esta música foi gravada por Elba Ramalho no LP Fogo na Mistura, em 1985, pela Ariola.

DE VOLTA PRO MEU ACONCHEGO
Dominguinhos e Nando Cordel

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero
Um abraço, para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade

Que bom poder estar contigo de novo
Roçando teu corpo e beijando você
Pra mim tu és a estrela mais linda
Teus olhos me prendem, fascinam
A paz que eu gosto de ter

É duro, ficar sem você vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que vou mergulhar
Na felicidade sem fim

Um poema desesperadamente erótico, na criatividade sempre audaciosa de Hilda Hist

Fragmento Literário: Hilda Hilst - FrasesPaulo Peres
Poemas & Canções

A ficcionista, dramaturga, cronista e poeta paulista (1930-2004) Hilda Hist é considerada pela crítica especializada como uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX. Para Hilda, o desejo não lhe mete medo, conforme revela neste poema.

DO DESEJO
Hilda Hilst

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado,
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara.
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grande espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura. Crueldade.

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada a tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.

Um samba de protesto social, na parceria de Martinho da Vila com João de Aquino

João de Aquino | IMMuB - O maior catálogo online da música brasileira

João de Aquino, um grande mestre da MPB

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O escritor, cantor e compositor Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila (Isabel), nascido em Duas Barras (RJ), e o violonista carioca João de Aquino expressam na letra de “Pensando Bem” uma mistura de revolta e resignação numa situação-limite sugerida. Este belíssimo samba foi gravado por Luiza Dioniozio, no CD Devoção, em 2009.

PENSANDO BEM
João de Aquino e Martinho da Vila

Irmão,
A gente não tem nem mais o que comer
Trabalho não há também pra laborar
Então o que é que a gente vai fazer

Mulher,
Eu acho que a gente vai ter de roubar
Sair pelas ruas, botar pra quebrar
De fome é que a gente não pode morrer

Não sei,
Pensando bem acho que não vai dar
Roubar contraria as leis do Senhor
E a justiça dos homens vai nos condenar

A arte de sonhar neste mundo vil, segundo a reflexão poética de Helena Kolody

Helena Kolody | Literatura, Frases, Por do solPaulo Peres
Poemas & Canções
 

A professora e poeta paranaense Helena Kolody (1912-2004), no soneto “Sonhar”, explica o tamanho do sonho e da pureza para viver neste mundo.

SONHAR
Helena Kolody

Sonhar é transportar-se em asas de ouro e aço
Aos páramos azuis da luz e da harmonia;
É ambicionar o céu; é dominar o espaço,
Num vôo poderoso e audaz da fantasia.

Fugir ao mundo vil, tão vil que, sem cansaço,
Engana, e menospreza, e zomba, e calunia;
Encastelar-se, enfim, no deslumbrante paço
De um sonho puro e bom, de paz e de alegria.

É ver no lago um mar, nas nuvens um castelo,
Na luz de um pirilampo um sol pequeno e belo;
É alçar, constantemente, o olhar ao céu profundo.

Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

O eterno drama do sertanejo, na visão social de Marcos e Paulo Sérgio Valle

MPB - Episódio 51 - Marcos e Paulo Sérgio Valle - Rádio Super - A Original

Paulo Sérgio e Marcos Valle, grandes compositores

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor, instrumentista, arranjador e compositor carioca Marcos Kostenbader Valle e seu irmão Paulo Sérgio retratam na letra de “Terra de Ninguém” a submissão, a injustiça, o sofimento, a luta, a fome e a esperança que o nordestino carrega em busca de um pedaço de terra para plantar. Esta bossa-nova foi gravada por Elis Regina e Jair Rodrigues no LP Dois Na Bossa, em 1964, pela Philips .

TERRA DE NINGUÉM
Marcos e Paulo Sérgio Valle

Segue nessa marcha triste
Seu caminho aflito
Leva só saudade e a injustiça
Que só lhe foi feita desde que nasceu
Pelo mundo inteiro que nada lhe deu
Anda,teu caminho é longo
Cheio de incerteza
Tudo é só pobreza,
tudo é só tristeza
Tudo é terra morta
Onde a terra é boa
O senhor é dono
Não deixa passar
Pára no fim da tarde
Tomba já cansado
Cai o nordestino
Reza uma oração
Pra voltar um dia
E criar coragem
Pra poder lutar pelo que é seu
Mas,um dia vai chegar
Que o mundo vai saber
Não se vive sem se dar
Quem trabalha é quem tem
Direito de viver
Pois a terra é de ninguém

Quem sabe isso quer dizer amor?, perguntam musicalmente os irmãos Lô e Márcio Borges

Márcio Borges e Tavinho Moura no Centenas & Dezenas - Santa Tereza Tem

Márcio Borges é hoje diretor do Clube de Esquina

Paulo Peres
Poemas & Canções

O escritor, diretor do Museu do Clube da Esquina e poeta mineiro Márcio Hilton Fragoso Borges é, sem dúvida, um dos melhores letristas do nosso cancioneiro popular, criador da expressão “os sonhos não envelhecem”.

Na belíssima letra de “Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, em parceria com o irmão Lô Borges, Márcio Borges tentar explicar como, através de atos e sentimentos, é possível amar e se sentir amado.

Entretanto, alguns professores de literatura acrescentam que a letra também se refere a todas as oportunidades que devemos buscar para que possamos ser felizes, ou seja, tornar nossos sonhos reais só depende unicamente de cada pessoa que, inclusive, poder transformar o ribeirão em braço de mar, cujo significado é o estreitamento da relação, um conhecimento mais profundo do indivíduo: sua alma. A música foi gravada por Milton Nascimento no CD Pietá, em 2002, pela Warner.

QUEM SABE ISSO QUER DIZER AMOR
Lô  Borges e Márcio Borges

Cheguei a tempo de te ver acordar
Eu vim correndo à frente do sol
Abri a porta e antes de entrar
Revi a vida inteira

Pensei em tudo que é possível falar
Que sirva apenas para nós dois
Sinais de bem, desejos vitais
Pequenos fragmentos de luz

Falar da cor dos temporais
Do céu azul, das flores de abril
Pensar além do bem e do mal
Lembrar de coisas que ninguém viu

O mundo lá sempre a rodar
Em cima dele, tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor?
Estrada há de fazer o sonho acontecer!

Pensei no tempo, e era tempo demais
Você olhou sorrindo pra mim
Me acenou um beijo de paz
Virou minha cabeça

Eu simplesmente não consigo parar
Lá fora o dia já clareou
Mas se você quiser transformar
O ribeirão em braço de mar

Você vai ter que encontrar
Aonde nasce a fonte do ser
E perceber meu coração
Bater mais forte só por você

O mundo lá sempre a rodar
Em cima dele, tudo vale
Quem sabe isso quer dizer amor?
Estrada há de fazer o sonho acontecer!

A definição de poesia, na visão de Guilherme de Almeida, a partir de reflexões sobre a rosa

Guilherme de Almeida - tradição e invenção - Templo Cultural Delfos

Guilherme de Almeida era imortal da Academia

Paulo Peres
Poemas & Canções

O desenhista, cinéfilo, jornalista, advogado, tradutor, cronista e poeta paulista Guilherme de Andrade de Almeida (1890-1969), chamado de o Príncipe dos Poetas Brasileiros, em sua busca por uma definição poética, chega à conclusão de que a poesia não é apenas uma rosa.

DEFINIÇÃO DE POESIA
Guilherme de Almeida

Aí está a rosa,
aí está o vaso,
aí está a água,
aí está o caule,
aí está a folhagem,
aí está o espinho,
aí está a cor,
aí está o perfume,
aí está o ar,
aí está a luz,
aí está o orvalho,
aí está a mão
(até a mão que colheu).
Mas onde está a terra?
Poesia não é a rosa.

Lembranças de um tempo de sonhos que ficaram para trás, na visão de Lula Barbosa

Tempo de Fé - song by Lula Barbosa | SpotifyPaulo Peres
Poemas & Canções
 
O cantor e compositor paulista Luiz Carlos Barbosa, nome artístico Lula Barbosa,  na letra de “Tempo de Fé”, relembra a herança de um tempo vivido na juventude que, infelizmente, não volta mais. A música foi gravada pelo próprio Lula Barbosa no Lp Os Tempos São Outros, em 1986, pela CBS.
TEMPO DE FÉ
Lula Barbosa
Tempo em que os amigos de fé

Ao redor das fogueiras
Sentavam pra conversar
Viver era uma brincadeira
Gostosa de se brincar.

Tempo em que se fazia de conta
E a alegria era tanta
Tanto que a vida
Era fácil de se levar
Tempo em que os violões
Despertavam paixões
Na voz do cantador
E os moços teciam versos
Falavam só de amor.

Tempo passou tão depressa
Que os moços e os versos
Ficaram pra trás
Do outro lado do muro,
Dos sonhos
E sabem que o tempo
Não volta jamais.

Um poema altamente negativo de Gregório de Mattos, que era conhecido como “Boca do Inferno”

Os larápios enriquecidos, na poesia satírica de Gregório de Matos, o “Boca  do Inferno” - Flávio ChavesPaulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Gregório de Mattos Guerra (1636-1695), alcunhado de “Boca do Inferno ou Boca de Brasa”, é considerado o maior poeta barroco do Brasil e o mais importante poeta satírico da literatura em língua portuguesa, no período colonial.

Gregório ousava criticar a Igreja Católica, muitas vezes ofendendo padres e freiras. Criticava também a “cidade da Bahia”, ou seja, Salvador, como neste poema “Triste Bahia”.

TRISTE BAHIA
Gregório de Mattos

Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas, nem faladas.
São, ó Bahia, vésperas choradas
De outros que estão por vir estranhos.
Sentimo-nos confusos e teimosos
Pois não damos remédios as já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas
Como que estamos delas desejosos.
Levou-me o dinheiro, a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
macutas, correão, nevelão, molhos:
Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que quem o dinheiro nos arranca,
Nos arranca as mãos, a língua, os olhos. 

Um desesperado poema de amor de Gonçalves Dias, no silêncio da noite, à espera do amanhecer

Gonçalves Dias, o poeta com ideais nacionalistas – Academia Popular de  LetrasPaulo Peres
Poemas & Canções
 
O advogado, jornalista, etnógrafo, teatrólogo e poeta romântico maranhense Antônio Gonçalves Dias (1823-1864) no poema “Leito de Folhas Verdes” faz uma declaração de amor marcado pela angústia da espera, que descrevem os sentimentos e o pensamento do “eu poético feminino” em um aspecto temporal que se inicia com a chegada da noite e se prolonga até o amanhecer do dia seguinte.

LEITO DE FOLHAS VERDES
Gonçalves Dias

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,

No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas

A arazóia na cinta me apertaram.
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Lá solta o bogari mais doce aroma
Também meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil

A brisa da manhã sacuda as folhas!
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.

Brilha a lua no céu, brilham estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágico respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.

Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento;
Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertaram.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas! 

Em poucos versos, uma canção completa e inesquecível: “Prelúdio para Ninar Gente Grande”

Show presta homenagem aos 90 anos de Luiz Vieira, que fez sucesso com  'Menino Passarinho' - Cultura - Estadão

Luiz Vieira, um compositor realmente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

A balada “Prelúdio para Ninar Gente Grande”, mais conhecida como Menino Passarinho, em razão do verso “sou menino passarinho, com vontade de voar”, retrata a bela poesia existente no clima místico-romântico vivido pelo radialista, cantor e compositor pernambucano Luiz Rattes Vieira Filho (1928-2020).

Foi um dos maiores sucessos de Luiz Vieira que ele próprio gravou, em 1967, pela Copacabana.

PRELÚDIO PARA NINAR GENTE GRANDE
Luiz Vieira

Quando estou nos braços teus
Sinto o mundo bocejar
Quando estou nos braços teus
Sinto a vida descansar

No calor do teu carinho
Sou menino passarinho
Com vontade de voar
Sou menino passarinho
Com vontade de voar.

Gilberto Freyre ouvia as vozes, via as cores e sentia os passos do outro Brasil que vem aí

Sem um fim social o saber será a maior das futilidades.... Frase de Gilberto Freyre.Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O sociólogo, antropólogo, historiador, pintor, escritor e poeta pernambucano Gilberto de Mello Freyre (1900-1987), além de se consagrar como um estudioso da história e da cultura brasileiras, também dedicou-se à poesia. É bem verdade que aquele que se dedica a ler com atenção seus livros pode perceber o dom literário do sociólogo, cuja habilidade na escrita torna atraentes os temas que aborda em seus estudos.

 

“O outro Brasil que vem aí “ é um poema que traz a defesa das singularidades nacionais que estão presentes em seus textos sobre a formação da sociedade brasileira e é uma amostra do dom literário que o sociólogo possuía. Iniciando-se com os versos “Eu ouço as vozes / eu vejo as cores / eu sinto os passos / de outro Brasil que vem aí”, Freyre projeta para sua nação o desejo de ver seu pleno desenvolvimento social, de estar numa terra onde pessoas de todas as origens sociais possam ser donas de seus próprios destinos. O poema, além de ser uma aula sobre a brasilidade, é um fragmento de esperança lançado pela pena de Gilberto Freyre.


O OUTRO BRASIL QUE VEM AÍ

Gilberto Freyre

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.
As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrer pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

A alma do vaqueiro nas agruras do sertão, na visão realista do poeta popular Geraldo do Norte

Diploma de Nordestino - Geraldo do Norte - YouTubePaulo Peres
Poemas & Canções

O radialista, declamador, letrista e poeta Geraldo Ferreira da Silva, nascido em Parelhas (RN), mais conhecido como Geraldo do Norte, “O Poeta Matuto”, em suas poesias aborda sempre temas regionais, como a vida no sertão, as festas religiosas, os problemas sociais como a fome e o preconceito contra o nordestino, homenagem aos grandes nomes da região e, é claro, a vida e o trabalho do vaqueiro, presente neste poema “Alma de Vaqueiro”.


ALMA DE VAQUEIRO

Geraldo do Norte

Eu ofereço orações
Para as almas dos vaqueiros
Que assim como zelações
Percorrem sertões inteiros.
Por isso em noites escuras
Olhando bem pras alturas
Se vê Luz, o Fogaréu…
Não temem, mantenham a calma
Que com certeza são almas
Nos cavalgados do Céu.
Então, se ouvir um tropel
Feito estouro de boiada
É só tirar o chapéu
Se benzer, sem temer nada
Pois são almas com saudade
E, soltas da gravidade,
São livres na Cobertura
E sobre corcéis alados
Vêm ver como tem passado
Os bichos dessa planura.
Aqui, sofreram agruras
Correndo atrás de animais
Se embrenhando nas lonjuras
Como quem busca ideais.
Desse jeito faz sentido
Pra quem tem bicho perdido
Se armar de muita fé
E rogar para os vaqueiros
Que eles chegarão ligeiros
Pra fazer o que puder.
E nem precisam sequer
Prometer às santas almas,
Uma oferenda qualquer;
Milho, feno, fruta ou palma
Pois o melhor pagamento
Pra um vaqueiro é o alimento
De um animal de estimação
E eles amaram todos
Tratavam e mantinham gordos
Sem nenhuma distinção.
Doutores na profissão
Foram obstetras de vacas
Puxando crias à mão
Quando as mães estavam fracas
E assim salvaram magotes
Toda sorte de filhotes.
Vaqueiro tem a mão santa
Onde põe um dedo cura
E na fé forte e segura
Faz crescer tudo o que planta.
No trabalho se agiganta
Vivendo o fim de aventuras
Conselhos , não adianta,
Faz parte da conjuntura.
Brincadeiras perigosas
Estripulias amorosas…
Eles tiveram demais
Com sua fé e seus cantos
Seus olhos só viram o pranto
Quando morreram animais
Pros bichos, foram babás
Por feiras, campos e baias
Das caatingas, generais
Nunca fugiram dos raios
Com chapéus de abas curtas
Sua figura se avulta
Na cultura brasileira
Forrós, repentes, cantigas,
“Causos”, histórias antigas
E as receitas caseiras.
Quando um bicho de primeira
Que ele mesmo amansou
Foi pro abate na feira
Sentiu-se tomado de dor.
E como contra-veneno
Pra um outro animal pequeno
Transferiu o seu carinho
Do animal que se foi
E assim amansa outro boi
Pr’aquele patrão mesquinho.
Vai fazer seu caminho
Sobre a cela do alazão
Tapando pedra e espinho
Jamais perde a atenção
Seu despertador é o galo
Seu companheiro o cavalo
Melhor amigo, seu cão
Se sofre de amor, não diz
É um São Francisco de Assis
De bota, chapéu e gibão.
Vaqueiro de convicção
Se uma cobra morde o bicho
Ele parte pra ação
Suga o sangue no capricho
Mas se morre um animal
Reza, faz “pelo sinal”
Guardando um dia de luto
Os bichos todos agradecem
Mugidos são como prece
Pr’aquele Cristo Matuto.
Pra um vaqueiro é insulto
Se o chamam de boiadeiro
Porque faz lembra o vulto
De um machante, de um toureiro
O vaqueiro é protetor
Seu papel é defensor
Honra o nome e a arte
Não mancha as mãos de sangue
Desse povo, dessa gangue
O vaqueiro não faz parte.
Vê nuvens em estandartes
As flores dos trapiás
Que a natureza reparte
Com o canto dos sabiás
E oferece as estrelas
As moças depois de tê-las
Na quentura da paixão
E sempre assumem a vera
Os filhos da primavera
Que nascerão no verão.
Difícil definição,
Meio sonho, meio mágoa
Feito fruto do sertão
Que tem mel em vez de água
O vaqueiro desse jeito
Juntando dentro do peito
Pedaços de integridade
Meio animal, meio santo
A roupa de couro é um manto
Ele inteiro, Humanidade.
Quando Deus cheio de bondade
Lança a terra a escada
O velho sela a saudade
E sobe a última morada
Mas lá em cima ele não para
Tropeia em noites claras
Abóia na imensidão
De repente, a luz um rastro….
É ele montando um astro
Dando aos bichos a benção.
Foi vida com coração
Doação o tempo inteiro
Cumpriram a obrigação
E deixaram pros herdeiros
Não dinheiro, mas um nome
E os valores que não somem
E nem se perde no tempo.
Em cada velha fazenda
Um vaqueiro virou lenda
Deixaram lição no exemplo.
Neste poema contemplo
Quem cumpriu com seu dever
E hoje se acha no templo
Magnânimo do poder.
Porque cumpriu a missão
Na luta sem omissão
Ou um minuto de pausa
Por Deus, tem que ser benquisto
Porque com Jesus Cristo
Deu a vida numa causa.

Na ironia poética de Francisco Alvim, a história do jangadeiro que queria um emprego público

FIRMA IRRECONHECÍVEL: BLOG DE ROBERTO BOZZETTI: FRANCISCO ALVIM, VEJAM SÓ

Francisco Alvim cria poemas anárquicos

Paulo Peres
Poemas & Canções

O diplomata e poeta mineiro Francisco Soares Alvim Neto, neste poema, conta a “História Antiga” do homem que queria um emprego público, uma prática iniciada no descobrimento do Brasil, com a célebre carta escrita por Pero Vaz de Caminha.

HISTÓRIA ANTIGA
Francisco Alvim

Na época das vagas magras
redemocratizado o país
governava a Paraíba
alugava de meu bolso
em Itaipu uma casa
do Estado só um soldado
que lá ficava sentinela
um dia meio gripado
que passara todo em casa
fui dar uma volta na praia
e vi um pescador
com sua rede e jangada
mar adentro e saindo
perguntei se podia ir junto
não me reconheceu partimos
se arrependimento matasse
nunca sofri tanto
jogado naquela velhíssima
jangada
no meio de um mar
brabíssimo
voltamos agradeci
meses depois num despacho
anunciaram um pescador
já adivinhando de quem
e do que se tratava
dei (do meu bolso) três contos
é para uma nova jangada
que nunca vi outra
tão velha
voltou o portador
com a seguinte notícia
o homem não quer jangada
quer um emprego público

Um pequeno grande poema de Flora Figueiredo, que nos ensina a não deixar portas entreabertas

Nó - Poema de Flora FigueiredoPaulo Peres
Poemas & Canções

A tradutora, cronista e poeta paulista Flora Figueiredo, em poucas palavras, faz um importante “Lembrete”, para nunca deixarmos portas entreabertas.

LEMBRETE
Flora Figueiredo

Não deixes portas entreabertas,
Escancare-as
Ou bata-as de vez.

Pelos vãos, brechas e fendas
Passam apenas semiventos,
Meias verdades
E muita insensatez.

A canção de Herivelto Martins e David Nasser que se tornou hino do Dias das Mães

Pensando em Ti”, um clássico inesquecível de Herivelto Martins e David  Nasser - Flávio Chaves

Herivelto e Nasser, grandes parceiros e amigos

Paulo Peres

Poemas & Canções

O  jornalista, escritor e letrista David Nasser (1917-1980), nascido em Jaú (SP),  é autor de diversos clássicos do nosso cancioneiro popular, entre os quais “Mamãe”, em parceria com Herivelto Martins, que passou a ser considerada como o hino do Dia das Mães. A música foi gravada por Ângela Maria, em 1956, pela Copacabana.

MAMÃE
Herivelto Martins e David Nasser

Ela é a dona de tudo
Ela é a rainha do lar
Ela vale mais para mim
Que o céu, que a terra, que o mar

Ela é a palavra mais linda
Que um dia o poeta escreveu
Ela é o tesouro que o pobre
Das mãos do Senhor recebeu

Mamãe, mamãe, mamãe
Tu és a razão dos meus dias
Tu és feita de amor e de esperança

Ai, ai, ai, mamãe
Eu cresci, o caminho perdi
Volto a ti e me sinto criança

Mamãe, mamãe, mamãe
Eu te lembro o chinelo na mão
O avental todo sujo de ovo

Se eu pudesse
Eu queria, outra vez, mamãe
Começar tudo, tudo de novo

A “Bachiana” de Villa-Lobos, que Ferreira Gullar popularizou como “O Trenzinho Caipira”

TRIBUNA DA INTERNET | Ferreira Gullar fazia poemas para transformar dor em  alegriaPaulo Peres
Poemas & Canções

O jornalista, crítico de arte, teatrólogo, biógrafo, tradutor, memorialista, ensaísta e poeta Ferreira Gullar, pseudônimo do maranhense José Ribamar Ferreira (1930-2016), em “Bachianas nº 2” de Heitor Villa-Lobos, Ferreira Gullar, depois de várias tentativas, enfim conseguiu compor uma letra, fazendo com que aquela obra se transfigurasse em “O Trenzinho Caipira”, agora música vocal popular.

Na verdade, o poeta se aproveita de alguns versos de sua obra “Poema Sujo”, para manifestar as paisagens de sua infância no estado do Maranhão quando viajava de trem na companhia de seu pai, como também ocorreu com Villa-Lobos, mas não no Maranhão e, sim, no Rio de Janeiro.

A presença do trem é de extrema relevância, pois se torna o veículo que levará Heitor Villa-Lobos e Ferreira Gullar a uma viagem por diversos espaços sonoros do Brasil (rural e urbano), mas também revela uma expressão alegórica do desenvolvimento do país, isto é, a tensão entre o progresso, o moderno e a paisagem de pobreza.

A música “O Trenzinho Caipira”foi gravada, primeiramente, por Edu Lobo, no LP Camaleão, em 1978, pela Polygram.

Portal SESI EducaçãoTRENZINHO CAIPIRA
Villa-Lobos e Ferreira Gular

Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra…
Vai pela serra…
Vai pelo mar…

Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar…

Quando a beleza se une à tristeza, na criativa visão romântica de Luiz Bonfá

Luiz Bonfá | Musica

Luiz Bonfá era um violonista verdadeiramente genial

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Luiz Floriano Bonfá (1922-2001), considerado um dos maiores violonistas do país, que fez carreira nos Estados Unidos, revela a importância poética da união entre a “Tristeza” e a beleza. A música Tristeza foi  gravada por Luiz Bonfá no LP Solo In Rio, em 1959.

TRISTEZA
Luiz Bonfá

Tristeza é uma coisa sem graça,
mas sempre fez parte da minha canção.
Tristeza se uniu à beleza,
que sempre existiu no meu coração.

Beleza, tristeza da flor
que nasceu, sem perfume,
mas tem seu valor.

Beleza, tristeza da chuva
num dia de sol
a chorar lá do céu.

Beleza, camélia que vai
enfeitar um caminho feliz.
Beleza é o descanso do sol,
quando surge o luar no céu.

Uma canção de amor ecológica, de Fagundes Varela, embalada pela flor de maracujá

Fagundes Varela, no traço de Lula Palomanes

 Paulo Peres
Poemas & Canções

O poeta Luís Nicolau Fagundes Varella (1841-1875), nascido em Rio Claro (RJ), compõs uma declaração de amor embalada pelos mistérios da “Flor do Maracujá”.

FLOR DO MARACUJÁ
Fagundes Varela

Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do Sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá !

Pelo jasmim, pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá.

Pelas tranças da mãe-d’água
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá.

Pelas azuis borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!

Pelo mar, pelo deserto,
Pelas montanhas, sinhá !
Pelas florestas imensas
Que falam de Jeová !
Pela lança ensanguentada
Da flor do maracujá !

Por tudo que o céu revela !
Por tudo que a terra dá
Eu te juro que minh’alma
De tua alma escrava está !!..
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá !

Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em – a –
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!