A licença poética de Adélia Prado, para um descanso profundo, sem ao menos sonhar

Amor pra mim é ser capaz de permitir... Adélia PradoPaulo Peres
Poemas & Canções
 

A professora, escritora e poeta mineira Adélia Luzia Prado de Freitas, no poema “Exausto”, fala sobre a morte, conforme expressa sua vontade de descanso absoluto. O modo como a autora coloca as palavras dá a entender que o tal sono trata-se da morte. Além disso, Adélia Prado se utiliza de verbos que não dão ideia de movimento, como dormir, descansar e sonhar, reforçando a ideia de morte.

Também podemos notar que, existe uma comparação da vida com uma planta. Talvez a citação da planta aconteça pelo fato que a vivência de uma permanece em plena quietude, que é o que a morte nos oferece. Todavia, traduzindo seu conteúdo para uma coisa mais humana, ou seja, trata-se da vontade de Adélia Prado de voltar ao início de tudo, da vida, quando era uma “semente” no ventre de sua mãe. A retratação de ambos é capaz de ser nada mais que uma sátira, atentando-se ao fato de que nossa vida acaba debaixo da terra, quando a de uma planta começa debaixo dela.

EXAUSTO
Adélia Prado

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Uma canção em homenagem à vida simples dessa gente que trabalha a terra

Funarte - Portal das Artes

Cristina Saraiva cultiva as origens dos brasileiros

Paulo Peres
Poemas & Canções

A produtora, professora de história e compositora (letrista) carioca Cristina Gomes Saraiva discorre, na letra de “Minha Terra”, sobre o que realizou no lugar onde sempre viveu. A música “Minha Terra” foi gravada por sua parceira Simone Guimarães no CD Aguapé, em 1998, pela Tiê/Cid.

MINHA TERRA
Simone Guimarães e Cristina Saraiva

Foi nessa terra
que vivi a vida inteira
que cravei minha bandeira
que plantei meu coração
no pé da serra
levantei minha tapera
trabalhei toda essa terra
e cuidei da criação
e nessa terra
me casei com minha amada
vi crescer a criançada
ensinei o que aprendi
e na viola, na enxada
meu caminho fiz do nada
fiz sozinho
minha vida construí
mas numa tarde
pelo mês de fevereiro
foi chegando um forasteiro
de gravata e certidão
e sem cuidado
foi dizendo, violeiro
busca outro paradeiro
que comprei todo esse chão
por essa estrada
feita de pedra cortante
de saudade, de instante
vou levando o que sobrou
minha viola
meu facão
minha enxada
a mulher, a criançada
e a fé no Criador

O amor desesperado de Adalgisa Nery, “antes e depois de todos os acontecimentos”

Imagem representativa do artigo

Adalgisa Nery, retratada por Portinari

Paulo Peres
Poemas & Canções

A jornalista e poeta carioca Adalgisa Maria Feliciana Noel Cancela Ferreira (1905-1980), mais conhecida como Adalgisa Nery, fala do seu amor em todos os sentidos.

EU TE AMO
Adalgisa Nery

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita do tempo
Até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.

Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
Em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a ideia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente

Uma canção de Johnny do Matto e Coquito, em homenagem a um lugar belíssimo, chamado Lumiar

Johnny do Matto (@JohnnyMatto) | TwitterPaulo Peres
Poemas & Canções
O administrador de empresa e poeta carioca Marcos Fernandes Monteiro, conhecido como Coquito, na letra de “Lumiar” fala de um vilarejo bucólico que pertence ao Município de Nova Friburgo (RJ), repleto de vida, diversão e um ótimo lugar para quem deseja somente descansar. A música “Lumiar” foi gravada por Johnny do Matto no CD Parcerias, em 2009, produção independente.
LUMIAR
Johnny do Matto e Coquito

Nada mais que rotina
Nada mais que colina
Nada mais verde no olhar
Nada mais simples do que Lumiar
Nada mais do que o barro
Amassado pelo pé
Que caminha léguas distantes
Nada mais do que a palha que queima no cigarro
Mas sustenta o sonho adiante
Nada mais que um abrigo
Um recanto, um amigo
Gente na praça
Gente no Beco
Na travessa
Gente que peca
Mais que confessa
Tudo é muito sem pressa
Onde o tempo se expressa
Tudo apenas humano
Meio Froidiano
Mais muitos anos
Tudo na essência da terra
O milagre daquela serra

Uma poesia livre de Abgar Renault, para louvar a intangível beleza da mulher amada

Biografia -

Abgar Renault, absolutamente romântico

Paulo Peres
Poemas & Canções
O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995) descreve, neste poema, a “Intangível Beleza” de uma mulher que surge como uma sereia.
A INTANGÍVEL BELEZA
Abgar Renault


Saiu da mão direita de Deus e é contemporânea do Gênesis.

Seus curvos braços, feitos para fecharem-se,
ainda estão imóveis, em golfo abertos,
friamente, diante de todas as águas,
com seus peixes, suas ondas, seu sal cheio de música.
Apenas os estremece, às vezes, um ritmo de fuga ante o esplendor do fogo próximo.

Compõem sua boca as curvas do infinito e a luz,
e habitam seus olhos de maio e de distância
os vocábulos de oculto país, verdes, esveltos e evasivos.

O romper do dia espera o alvorecer dos seus pés no chão,
caem as noites e murcham os coraçõe ao esmorecer de suas pálpebras,
e as tardes refugiam-se em seus cabelos de crepúsculo.

Seu ser interior e corporal é a linfa de uma fonte ausente:
pensá-lo é escalar o vértice, regressar às origens,
ver a poesia nascendo e projetando no mundo o seu mistério.

Que gesto apartará as colunas e separará terras e águas?
Que tacto se deslumbrará nos brancos astros?
Que lábio incendiará a ânfora no abismo?

(Do ninho de suas mãos obscuros pássaros cantam:
sua beleza é uma ilha de nenhum mar.)

Um poema-manifesto de Waly Salomão, propondo que se adote um frenesi pela vida

TRIBUNA DA INTERNET | O poeta Waly Salomão vendo a vida copiar a arte

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Paulo Peres
Poemas & Canções

O advogado e poeta baiano Waly Dias Salomão (1943-2003), no poema “Hoje”, demonstra  seu frenesi pela vida, a sua sede de celebrar o momento presente: o aqui e o agora. Logo, mesmo sem expressá-lo claramente, ele demonstra o desejo implícito de passar uma borracha no passado, de suplantá-lo, sempre cultuando o ritmo do presente.

HOJE
Waly Salomão

O que menos quero pro meu dia
polidez, boas maneiras.
Por certo,
um Professor de Etiquetas
não presenciou o ato em que fui concebido.
Quando nasci, nasci nu,
ignaro da colocação correta dos dois pontos,
do ponto e vírgula,
e, principalmente, das reticências.
(Como toda gente, aliás…)
Hoje só quero ritmo.
Ritmo no falado e no escrito.
Ritmo, veio-central da mina.
Ritmo, espinha-dorsal do corpo e da mente.
Ritmo na espiral da fala e do poema.
Não está prevista a emissão
de nenhuma “Ordem do dia”.
Está prescrito o protocolo da diplomacia.
AGITPROP – Agitação e propaganda:
Ritmo é o que mais quero pro meu dia-a-dia.
Ápice do ápice.

Alguém acha que ritmo jorra fácil,
pronto rebento do espontaneísmo?
Meu ritmo só é ritmo
quando temperado com ironia.
Respingos de modernidade tardia?
E os pingos d’água
dão saltos bruscos do cano da torneira
e passam de um ritmo regular
para uma turbulência
aleatória.

Hoje…              

 

Uma toada para louvar o nascer do dia e a natureza, na visão de Cláudio Nucci e Juca Filho

Claudio Nucci - Ritmo Melodia

Nucci, um dos mais conhecidos compositores de Sampa

Paulo Peres
Poemas & Canções

O produtor musical, cantor e compositor paulista Claudio José Moore Nucci, mais conhecido como Claudio Nucci, na letra de “Acontecência”, em parceria com Juca Filho, faz uma narrativa bucólica dos acontecimentos ao amanhecer.  Essa toada foi gravada pelo próprio Claudio Nucci, em 1980, pela EMI-Odeon.

ACONTECÊNCIA
Juca Filho e Claudio Nucci

Acorda ligeira e vem olhar que lindo
Sobre o morro sol se debruçar
Leite novo espuma dessa madrugada
Passarada vem te despertar
Tantos pés descalços
Posso ver meninos a correr na direção do dia
Banho de açude alegre e lava o corpo
Fruta fresca é pra te alimentar
Acorda ligeira e vem ver que bonito
Pelo pasto solta a vacaria
Na barra da serra gavião campeiro
Vem primeiro vento costurar
Tantos pés descalços posso ver libertos
A correr na direção do dia
Chuva desce pra regar a terra
Engravidar sementes em frutas se tornar

“Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”, poetizava Viinicius.

Jornal do Povo - Fotos - Veja fotos, frases e trechos de poemas de Vinícius  de MoraesPaulo Peres
Poemas & Canções
 

O diplomata, advogado, jornalista, dramaturgo, compositor e poeta Vinícius de Moraes (1913-1980) foi um poeta essencialmente lírico, notabilizou-se pelos seus sonetos, como o belíssimo “Soneto de Fidelidade”, que transmite uma visão do amor mais realista: a de que o sentimento amoroso deve ser sim, infinito, mas “infinito enquanto dure”. No lugar do platonizante e transcendente, o amor mais cotidiano, sujeito às mudanças que o tempo e que a vida impõe.

SONETO DA FIDELIDADE
Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Edu Lobo e Chico Buarque foram buscar inspiração em Dante para criar “Beatriz”

Edu Lobo e Chico Buarque, grandes parceiros e amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

Os compositores cariocas Chico Buarque de Holanda e Edu Lobo deixaram a genialidade invocar inspiração para compor a música “Beatriz”, e foram buscar um poema de Jorge Lima, no qual a personagem chamava-se Agnes e era equilibrista, mas chegou a um ponto que a letra não saía com esse nome, Agnes. Então, surgiu o nome “Beatriz”, que era a musa inspiradora de Dante Alighieri, a qual podemos notar quando os parceiros fazem alusão ao citar na letra “comédia” e “divina”, mencionando à grande obra de Dante, “A Divina Comédia”. Dizem que Dante viu Beatriz uma única vez, e nunca falou com ela, nutrindo uma paixão que iria inspirar seus poemas. Beatriz é uma das canções do musical “O Grande Circo Místico”, cujo disco com o mesmo nome foi lançado, em 1983, pela Som Livre.

BEATRIZ
Edu Lobo e Chico Buarque

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

No Dia do Poeta, confira um soneto que reflete justamente a emoção de fazer poesias

Efigênia Coutinho | Oceano de Letras

Efigênia Coutinho fez um soneto em louvor à Poesia

Paulo Peres
Poemas & Canções

Hoje é o Dia do Poeta e, neste sentido, publicamos a definição de “Ser Poeta”, na visão da artista plástica e poeta Efigênia Coutinho, nascida em Petrópolis (RJ). A seu ver, a poesia será sempre um meio de comunicação de sentimentos na escrita. “Tenho um ritmo pessoal, operando desvios de ângulos, mas sem perder de vista a tradição, procurando atingir o núcleo da ideia essencial, a imagem mais direta possível, abolindo as passagens intermediárias”, revela.


SER POETA

Efigênia Coutinho

A noite sempre cálida me espera,
Tenho em versos a recente emoção
Da inquietude que abraça a quimera,
Enquanto no meu peito pulsa a oração.

A noite ouve o acalanto, esta voz
Que brada a rima solta, e então viajo;
E busco o sopro terno do ninar em nós,
Onde se farta o frêmito voraz, que trajo.

Lá , ao vento espalhado, e envolto,
Meu verso solto, que diz: mortal, eu sou
Na arte que te fecunda e faz envolto…

Porque ser poeta é ser alguém que embelezou
A prosa e o lado vil do caso vário,
E deu-se a Deus que equilibra este rosário.  

A definição precisa do amor, na visão poética de Tobias Barreto, é surpreendente

TRIBUNA DA INTERNET | “A mocidade corrige o erro de Deus!…”, pregava o  abolicionista Tobias BarretoPaulo Peres
Poemas & Canções
O jurista, filósofo, crítico e poeta sergipano Tobias Barreto de Menezes (1839-1889) assim demonstrou liricamente sua definição do que seja amar.

AMAR

Tobias Barreto

Amar é fazer o ninho,
Que duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vem,
Flor, querida, noiva, esposa…
Cabemos na mesma lousa…
Julieta, eu seu Romeu:
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! onde estamos?
E ouvir uma voz: no céu!

Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegamos loucos, perdidos
Onde não chega ninguém…
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria,
Ver uma corça bravia,
Pasmada olhando pra ti!

Um belo samba de Nonato Buzar e Chico Anysio, em homenagem ao Rio de Janeirio

Chico Anysio - Wikiwand

Chico Anysio também era pintor, compositor e escritor

Paulo Peres
Poemas & Canções            

Conhecido pelo trabalho como humorista, ator, pintor, escritor e comentarista de futebol, o cearense Chico Anysio (1931-2012) também teve uma carreira menos conhecida como compositor. Junto com o cantor maranhense Nonato Buzar, ele escreveu “Rio Antigo”, conhecida na voz de Alcione no CD Celebração, em 1999. A letra de “Rio Antigo” transporta-nos a algumas décadas do século passado até o final dos anos cinquenta.

RIO ANTIGO
Nonato Buzar e Chico Anysio

Quero um bate-papo na esquina
Eu quero o Rio antigo
Com crianças na calçada
Brincando sem perigo
Sem metrô e sem frescão
O ontem no amanhã
Eu que pego o bonde 12 de Ipanema
Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema
Domingo no Rian
Me deixa eu querer mais, mais paz

Quero um pregão de garrafeiro
Zizinho no gramado
Eu quero um samba sincopado
Taioba, bagageiro
E o desafinado que o Jobim sacou
Quero o programa de calouros
Com Ary Barroso
O Lamartine me ensinando
Um lá, lá, lá, lá, lá, gostoso
Quero o Café Nice
De onde o samba vem
Quero a Cinelândia estreando “E o Vento Levou”
Um velho samba do Ataulfo
Que ninguém jamais gravou
PRK 30 que valia 100
Como nos velhos tempos

Quero o carnaval com serpentinas
Eu quero a Copa Roca de Brasil e Argentina
Os Anjos do Inferno, 4 Ases e Um Coringa
Eu quero, eu quero porque é bom
É que pego no meu rádio uma novela
Depois eu vou à Lapa, faço um lanche no Capela
Mais tarde eu e ela, nos lados do Hotel Leblon

Quero um som de fossa da Dolores
Uma valsa do Orestes, zum-zum-zum dos Cafajestes
Um bife lá no Lamas
Cidade sem Aterro, como Deus criou
Quero o chá dançante lá no clube
Com Waldir Calmon
Trio de Ouro com a Dalva
Estrela Dalva do Brasil
Quero o Sérgio Porto
E o seu bom humor
Eu quero ver o show do Walter Pinto
Com mulheres mil
O Rio aceso em lampiões
E violões que quem não viu
Não pode entender
O que é paz e amor

“É preciso encontrar as cores certas para poder trabalhar a Primavera”. ensina Thiago de Mello

Thiago de Mello, retratado por F.C. Lopes

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O poeta amazonense Amadeu Thiago de Mello, no poema “Mormaço de Primavera”, chama atenção para os valores simples da natureza humana, principalmente a esperança, porque, apesar dos pesares, devemos sempre continuar, mesmo que ainda seja difícil distinguir “o sujo do encardido,/ o fugaz, do provisório”, temos que avançar, temos que lutar, tendo em vista “que é preciso encontrar as cores certas/ para poder trabalhar a primavera”.

MORMAÇO DE PRIMAVERA
Thiago de Mello

Entre chuva e chuva, o mormaço.
A luz que nos entrega o dia
não dá ainda para distinguir
o sujo do encardido,
o fugaz, do provisório.
A própria luz é molhada.
De tão baça, não me deixa sequer enxergar o fundo
dos olhos claros da mulher amada.

Mas é com esta luz mesmo,
difusa e dolorida,
que é preciso encontrar as cores certas
para poder trabalhar a Primavera.

“Flor Amorosa”, obra-prima de Catulo e Joaquim Callado, no tempo da música romântica

Paulo Peres
Poemas & Canções

O relojoeiro, músico, cantor, compositor e poeta maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) e seu parceiro Joaquim Callado (1848-1880) criaram o célebre choro “Flor Amorosa”, gravado por Aristarco Dias Brandão, em 1914, pela Odeon.

FLOR AMOROSA
Joaquim Callado e Catulo da  Paixão Cearense

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque
É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa
Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor
Oh, dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor
Em uma taça perfumada de coral

Um beijo dar não vejo mal
É um sinal de que por ti me apaixonei

Talvez em sonhos foi que te beijei
Se tu pudesses extirpar dos lábios meus
Um beijo teu tira-o por Deus
Vê se me arrancas esse odor de resedá

Sangra-me a boca, é um favor, vem cá
Não deves mais fazer questão
Já perdi, queres mais, toma o coração
Ah, tem dó dos meus ais, perdão
Sim ou não, sim ou não
Olha que eu estou ajoelhado
A te beijar, a te oscular os pés

Sob os teus, sob os teus olhos tão cruéis
Se tu não me quiseres perdoar

Beijo algum em mais ninguém eu hei de dar
Se ontem beijavas um jasmim do teu jardim

A mim, a mim
Oh, por que juras mil torturas
Mil agruras, por que juras?
Meu coração delito algum por te beijar não vê, não vê
Só por um beijo, um gracejo, tanto pejo
Mas por quê?                   

No Dia Do Mestre, uma homenagem poética na sensibilidade de Cora Coralina

O que vale na vida não é o ponto de... Cora CoralinaPaulo Peres
Poemas & Canções

Cora Coralina, pseudônimo de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), nasceu em Goiás Velho. Mulher simples, doceira de profissão, tendo vivido longe dos grandes centros urbanos, alheia a modismos literários, produziu uma obra poética rica, conforme o belo poema “Elevar”, que publicamos hoje para homenagear o Dia do Mestre.

ELEVAR 
Cora Coralina

Professor, “sois o sal da terra e a luz do mundo”.
Sem vós tudo seria baço e a terra escura.
Professor, faze de tua cadeira,
a cátedra de um mestre.
Se souberes elevar teu magistério,
ele te elevará à magnificência.
Tu és um jovem, sê, com o tempo e competência,
um excelente mestre.

Meu jovem Professor, quem mais ensina e quem mais aprende?
O professor ou o aluno?
De quem maior responsabilidade na classe,
do professor ou do aluno?
Professor, sê um mestre. Há uma diferença sutil
entre este e aquele.
Este leciona e vai prestes a outros afazeres.
Aquele mestreia e ajuda seus discípulos.
O professor tem uma tabela a que se apega.
O mestre excede a qualquer tabela e é sempre um mestre.
Feliz é o professor que aprende ensinando.
A criatura humana pode ter qualidades e faculdades.
Podemos aperfeiçoar as duas.
A mais importante faculdade de quem ensina
é a sua ascendência sobre a classe
Ascendência é uma irradiação magnética, dominadora
que se impõe sem palavras ou gestos,
sem criar atritos, ordem e aproveitamento.
É uma força sensível que emana da personalidade
e a faz querida e respeitada, aceita.
Pode ser consciente, pode ser desenvolvida na escola,
no lar, no trabalho e na sociedade.
Um poder condutor sobre o auditório, filhos, dependentes, alunos.
É tranquila e atuante. É um alto comando obscuro
e sempre presente. É a marca dos líderes.

A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
O melhor professor nem sempre é o de mais saber,
é sim aquele que, modesto, tem a faculdade de transferir
e manter o respeito e a disciplina da classe.

Reflexões sobre a funcionalidade desse tal computador, na visão poética da Thais Beija-flor

Questão 358852 12 ESPM 2018/1 - Estuda.com ENEM - O maior site de questões  para o ENEM e Vestibulares do BrasilPaulo Peres
Poemas & Canções

A poeta paulista Thais Silva Francisco, pseudônimo, Thais Beija-flor, transformou em versos suas experiências para se adaptar ao uso do computador.


ESSE TAL COMPUTADOR
Thais Beija-flor

Fui chegando de mansinho,
teclando esta máquina de escrever
com um teclado diferente, que, sensivel ao toque,
ia deixando na tela, as letrinhas estampadas…

Ora, ora, pensava eu. Onde estaria o papel,
para uma carta poder escrever?
E, se eu errasse, como iria apagar?
Teria que começar tudo de novo?
Essa máquina é bem diferente da
Olivetti e da Remington
que eu usava, quando no escritório
eu trabalhava!..

É…e isso já faz bastante tempo!!!
E neste tempo todo, envolvida eu estava
em muitas fraldas, pratos, panelas,
vassoura e escovão,
mercado, feira, até mesmo sacolão.
Cuidando da casa, zelando pela familia…
quase sem tempo para uma carta escrever!…

De repente, pé ante pé,
chegou bem pertinho de mim,
minha pequena já crescidinha,
e, toda prosa, com seus olhinhos brilhantes,
foi logo dizendo assim:

– Clica aqui mamãe, e sua letrinha muda de cor…
Olhe aqui, se errar, basta clicar Backspace,
Maiúsculas??  Aperta aqui ó…nesta setinha
ou então, em Caps Lock..
Quer colocar numa folha de papel, mamãe???
– É só clicar em Arquivo, Imprimir…e,
não esquecendo de ligar a Impressora,
e abastecê-la com sulfite,
sua carta já vai sair no papel,
prontinha, para envelopar, selar e postar…

Mas…presta atenção mamãe,
se você colocar o endereço aqui no Para:….
e clicar no Enviar…. nem de selo vai precisar,
pois esse tal computador, sua carta já registrou,
e enviando já está…Sem demora,
seu destinatário vai receber….
e depressinha responder…

Viu só mamãe??
Esse é o Computador, e na escola
já estou utilizando… é da hora!!
Vai lá mamãe querida,
aprende logo, e você verá que
muitos Amigos você fará!!!…
(e fiz mesmo!! bons Amigos)

Admirada com essa filhota sabida,
fui logo me aprimorando….
Cá estou eu agorinha
contando pra Teinha e prá todos vocês,
como foi que conheci,
esse tal Computador!!…

Maravilha da Tecnologia!!!

Hoje, já escrevo poesias, coloco flores e fantasias,e,
num papel de carta especial, logo envio meu Bom Dia!!
Numa página caprichada, até mesmo musicada,
vou pedindo aos Micronautas,
que usem e abusem dos recursos desta máquina,
mas, que seja sempre para o bem,
de toda a humanidade!!…

Foi assim que conheci,
Esse Tal Computador!!! 

Um poema desesperado de Castro Alves, pelo amor da atriz Eugênia Câmara

Livro: Como Eu VI Castro Alves e Eugenia Camara - Leitao de Barros | Estante Virtual

Eugênia e Castro Alves, um grande amor

Paulo Peres
Poemas & Canções

 

O baiano Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871), considerado um dos mais brilhantes poetas românticos brasileiros, é chamado de “cantor dos escravos” pelo seu entusiasmo diante das grandes causas da liberdade e da justiça: a independência da Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel da imprensa e acima de tudo isso a luta contra a escravidão.

O poema “O Gondoleiro do Amor” concentra toda a face lírica do poeta, porque descreve o trajeto de um amor de início inconstante, que vai se concretizando e superando os elementos predominantes ao possuir uma mulher de carne e osso, afeita às sugestões de um cenário perfeito para a plenitude amorosa.

O poema é uma barcarola dedicada a Eugênia Câmara, atriz portuguesa e o grande amor de Castro Alves. Vale ressaltar a associação da cor dos olhos da “dama negra” com a ideia de profundidade.

O GONDOLEIRO DO AMOR
Castro Alves

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar…
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pescador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
-Rosa aberta com o biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!?…

Teu amor na treva é – um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa – nas calmarias,
É abrigo – no tufão;

Por isso eu te amo querida,
Quer no prazer, quer na dor…
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor

Adoção de criança, um ato muito nobre, exaltado poeticamente por Teresa Drummond

TRIBUNA DA INTERNET | Teresa Drummond comanda no Rio de Janeiro o projeto “ Poeta, Saia da Gaveta”

Teresa comanda o projeto Poeta, Saia da Gaveta”

Paulo Peres
Poemas & Canções

A ativista cultural, professora, escritora e poeta carioca Teresa Drummond mostra, poeticamente, que a adoção de uma criança somente acontece quando o coração ordena. Vale ressaltar que, Teresa Drummond dirige e Neudemar Sant’Anna coordena o projeto “Poeta, Saia da Gaveta”, evento que acontece toda segunda terça-feira do mês, de março a dezembro, das 19 às 23 horas, na Casa do Bacalhau, na Rua Dias da Cruz 426 – Méier – Rio de Janeiro. Todavia, este ano não aconteceu tal evento por causa da pandemia.


ADOÇÃO
Teresa Drummond

Quando o coração reclama
o silêncio omisso
equilibrista
e na corda bamba grita
o desassossego…

Quando o coração aflito
se liberta de medos
e em seu espírito urge
o aconchego…

Quando o coração se surpreende
convexo, pleno, sem fronteira
e desponta o seio
da maternidade…

O coração desarma
o mito
e se faz ventre
diante do berço.

Duas canções maravilhosas, que fazem lembrar nossos tempos de criança

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René Bittencourt e o parceiro Chico Alves, o Rei da Voz

Paulo Peres
Poemas & Canções

O empresário artístico, jornalista e compositor carioca René Bittencourt Costa (1917-1979), na letra de ”Canção da Criança”, homenageia a garotada brasileira no seu dia. Essa valsa foi gravada por seu parceiro Francisco Alves, apelidado de “O Rei da Voz”, em 1952, pela Odeon.

CANÇÃO DA CRIANÇA
Francisco Alves e René Bittencourt

Criança feliz
Feliz a cantar
Alegre a embalar
Teu sonho infantil
Oh Meu Bom Jesus
Que a todos conduz
Olhai as crianças do nosso Brasil!

Crianças com alegria
Qual um bando de andorinhas
Viram Jesus que dizia:
Vinde a mim as criancinhas
Hoje dos céus, num aceno
Os anjos dizem: ”Amém”,
Porque Jesus, nazareno,
Foi criancinha também

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O cantor e compositor mineiro Ataulfo Alves de Souza (1909-1969) utilizou grande beleza poética para compor o nostálgico samba “Meus tempos de criança” (conhecido também como “Meu pequeno Miraí”), gravado por ele próprio, em 1956, pela Sinter, cuja letra traz lembranças de sua infância feliz em Miraí, Minas Gerais.

MEUS TEMPOS DE CRIANÇA
Ataulfo Alves

Eu daria tudo que tivesse
Pra voltar aos tempos de criança
Eu não sei pra que que a gente cresce
Se não sai da gente essa lembrança

Aos domingos missa na matriz
Da cidadezinha onde eu nasci
Ai, meu Deus, eu era tão feliz
No meu pequenino Miraí

Que saudade da professorinha
Que me ensinou o beabá
Onde andará Mariazinha
Meu primeiro amor onde andará?

Eu igual a toda meninada
Quanta travessura que eu fazia
Jogo de botões sobre a calçada
Eu era feliz e não sabia

“O amor não é o vinho embebedando lençóis”, avisa o poeta carioca Tanussi Cardoso

TRIBUNA DA INTERNET | “O amor não é o vinho embebedando lençóis”, avisa o poeta Tanussi Cardoso

Tanussi Cardoso, um poeta de bem com a vida

Paulo Peres
Poemas & Canções 

O advogado, jornalista, crítico literário, contista, letrista, poeta e carioca Tanussi Cardoso expõe a sua visão sobre o amor no poema “Cilada”. Aparentemente trágico, o poema exibe um humor latente e a ironia final fulmina toda a esperança de que um dia saibamos o que é essa coisa louca e bela chamada “amor”, segundo Tanussi Cardoso.


CILADA

Tanussi Cardoso

O amor não é a lua
iluminando o arco-íris
nem a estrela-guia
mirando o oceano

O amor não é o vinho
embebedando lençóis
nem o beijo louco
na boca úmida do dia

O amor não é a angústia
de se encontrar o sorriso
nem o vermelho
do coração dos pombos

O amor não é a vitória
dos navios e dos barcos
nem a paz cavalgando
cavalos alados

O amor é, sobretudo
a faca no laço do laçador
O amor é, exatamente
o tiro no peito do matador