Dois caminhos para o país, um teste para a democracia

O fim da escala 6×1 é uma conquista. Agora é preciso protegê-la

Senado aprovou o fim da escala 6×1 por 75 votos a um

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A aprovação de uma medida por ampla maioria não significa que todos os partidos partilhem a mesma visão sobre o futuro das relações de trabalho. A votação de 14 de outubro, por 75 votos a um, demonstrou o amplo apoio parlamentar ao fim da escala 6×1, mas não eliminou as diferenças sobre os caminhos para garantir melhores condições aos trabalhadores. O único voto contrário foi o do senador Hamilton Mourão.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019, aprovada em dois turnos pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, prevê a redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, além de dois dias de descanso remunerado por semana, um deles preferencialmente aos domingos. O objetivo é ampliar o tempo disponível para descanso, convívio familiar, estudo e cuidados pessoais, preservando a remuneração.

DEBATE PÚBLICO – A trajetória da proposta combina mobilização social, articulação parlamentar e decisão política. A pressão de trabalhadores e movimentos sociais levou o tema ao debate público. No Congresso, a PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes, serviu de base para a proposta aprovada, enquanto a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton, foi apensada à primeira. A Câmara concluiu a votação em maio.

A atuação do governo Lula foi decisiva para dar dimensão institucional à pauta. O presidente assumiu publicamente a defesa da redução da jornada, e o governo incorporou o tema à sua agenda política e às negociações com o Congresso. Ao assumir essa causa, Lula contribuiu para transformar uma reivindicação histórica em prioridade nacional, somando-se à pressão social e parlamentar que impulsionou a proposta.

A conquista não pertence exclusivamente a um partido ou a um governo. Os seus efeitos devem ser avaliados pelo que podem representar para a vida de milhões de trabalhadores, independentemente dos dividendos políticos que a aprovação possa gerar.

POSICIONAMENTOS – A votação ocorreu a onze dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro. A proximidade da disputa eleitoral não permite atribuir a decisão a uma única motivação, mas torna inevitável examinar as posições dos candidatos diante de uma pauta de forte impacto social.

No caso de Flávio Bolsonaro, a sequência dos acontecimentos merece atenção. Antes de anunciar o voto favorável, o senador criticava a proposta e defendia um modelo alternativo, baseado na remuneração por hora trabalhada. Em 13 de outubro, declarou que votaria a favor do fim da escala 6×1, afirmou defender «algo ainda melhor» e sustentou que o governo deveria compensar os custos para o setor produtivo. No dia seguinte, votou favoravelmente à PEC nos dois turnos, de forma remota.

A mudança de posição não encerra a discussão sobre o modelo de relações de trabalho que Flávio defende. O senador é um dos signatários da PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho, líder da oposição no Senado e coordenador da sua campanha presidencial. A proposta prevê a possibilidade de escolha entre o regime tradicional da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e um regime flexível, no qual a remuneração depende das horas efetivamente trabalhadas. Nesse segundo modelo, férias, 13.º salário e FGTS seriam proporcionais às horas trabalhadas. A proposta também estabelece um valor mínimo para a hora trabalhada, calculado proporcionalmente ao salário mínimo ou ao piso da categoria.

PODER DE NEGOCIAÇÃO – A questão central não é apenas a possibilidade de escolha, mas as condições em que ela ocorre. Quando o trabalhador depende do salário para sobreviver e o empregador controla a oferta de horas, a liberdade formal para optar por um regime flexível não significa necessariamente poder real de negociação. Se a remuneração depende das horas disponibilizadas, o empregado pode ficar exposto a oscilações de rendimento sem controlar a quantidade de trabalho que receberá.

A PEC apoiada por Flávio prevê a prevalência do contrato individual sobre eventuais acordos coletivos em matérias como compensação de horários e redução da jornada. Na prática, essa regra pode ampliar o poder das empresas para negociar condições diretamente com cada empregado, mesmo quando existe uma relação desigual entre as partes.

Sob o argumento da autonomia, existe o risco de enfraquecer a proteção coletiva e transferir parte da insegurança económica para quem vive do próprio trabalho. Quem controla a distribuição das horas e quem suporta as consequências quando elas diminuem? A pergunta é especialmente relevante para quem não dispõe de margem financeira para compensar uma redução inesperada dos rendimentos.

ARGUMENTO – Rogério Marinho sustenta que a proposta amplia a autonomia do trabalhador e preserva direitos previstos na Constituição. Mas a manutenção formal desses direitos não resolve, por si só, o problema das condições desiguais de negociação. A flexibilidade pode responder às necessidades de determinadas atividades económicas. O ponto decisivo é saber quem determina quantas horas serão trabalhadas e quem assume os custos quando não há trabalho suficiente.

A posição do PL indica que a disputa continuará para além da votação. O líder do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcante, afirmou que a sigla pretende defender, em 2027, uma proposta alternativa sobre o tema, caso Flávio vença a eleição. O anúncio sinaliza a intenção de retomar a discussão para promover um modelo diferente daquele aprovado pelo Senado.

É nesse contraste que o voto de Flávio deve ser compreendido. Apoiar o fim da escala 6×1, num momento de forte mobilização social e ampla adesão parlamentar, não elimina as diferenças entre os projetos em disputa. A PEC 221/2019 prevê a redução da jornada sem diminuição salarial e dois dias de descanso remunerado por semana. Já a PEC 12/2026 abre espaço para vincular a remuneração às horas efetivamente trabalhadas e altera o papel da negociação coletiva em matérias específicas.

VERDADEIRAS INTENÇÕES – Não é necessário presumir as intenções de Flávio para reconhecer que os dois modelos podem produzir efeitos distintos. A questão não se resume a ser favorável ou contrário à flexibilidade, mas a saber se o trabalhador terá condições reais de escolha, previsibilidade de rendimento e proteção suficiente para negociar com o empregador.

O argumento a favor da flexibilidade merece ser considerado. Há setores com horários complexos e custos reais de adaptação. Mas a liberdade formal de negociar não significa que as partes tenham o mesmo poder para recusar condições. Quem depende do salário para pagar a renda da casa e as despesas básicas tende a ter menos margem para rejeitar o que lhe é oferecido. Um valor mínimo por hora não garante, por si só, um número mínimo de horas nem um rendimento mensal estável.

A votação de 14 de outubro mostrou que o fim da escala 6×1 pode reunir uma maioria parlamentar sem encerrar a disputa sobre o futuro do trabalho no Brasil. A mobilização social, a pressão no Congresso e a decisão de Lula de assumir publicamente a pauta ajudaram a transformar uma reivindicação histórica em prioridade política. O alcance da conquista dependerá também da forma como os novos direitos serão protegidos e aplicados.

GARANTIAS – O desafio agora é garantir que a redução da jornada se traduza em mais tempo para viver, sem abrir caminho a mudanças que transfiram aos trabalhadores os riscos da falta de horas e de rendimento. O voto favorável de Flávio não apaga a sua assinatura numa proposta de orientação diferente.

Para o eleitor, importa saber não apenas quem votou pelo fim da escala 6×1, mas também quem defenderá a renda, o descanso e o poder de negociação dos trabalhadores quando chegar a hora de definir as regras. É nessa diferença, para além do placar do Senado, que se mede o alcance de cada compromisso. 

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O que cada candidatura pretende fazer com o poder?

Marcelo Copelli

Um primeiro turno presidencial não se limita a definir quem segue adiante. Funciona como radiografia do debate público: revela os temas que mobilizaram o eleitor, os argumentos que ganharam espaço e, sobretudo, aquilo que continuou sem resposta. Depois de uma campanha mais uma vez moldada pela polarização, a proximidade da votação pede menos aritmética e mais exame do que cada candidatura efetivamente oferece ao país.

O Brasil não será governado por slogans, mas por decisões que envolvem economia, segurança, serviços públicos, contas do Estado, tecnologia e política externa. Essa pauta permanece intacta, seja qual for o resultado, e exige mais do que a escolha de um adversário.

PROGRAMAS DE GOVERNO – Todos os candidatos entregaram programas ao Tribunal Superior Eleitoral, que passou a reuni-los e organizá-los por área, permitindo consulta e comparação. O que importa, portanto, não é a existência formal dos documentos, mas quanto do seu conteúdo chegou ao palanque e quanto ficou confinado aos arquivos da Justiça Eleitoral.

Essa distância ajuda a entender a campanha. Em boa parte da disputa, o esforço para impedir a vitória do outro lado ocupou tanto espaço quanto o debate sobre o que se faria depois de vencer. Essa lógica apareceu também dentro dos próprios campos políticos, à medida que diferentes concorrentes passaram a disputar o voto daqueles que estavam fora do grupo visto como mais competitivo.

Na reta final, Flávio Bolsonaro intensificou o apelo ao voto útil e buscou eleitores de outras forças à direita; Caiado e Zema estão entre os candidatos atingidos por essa dinâmica de concentração do voto. É a lógica de uma eleição em dois turnos, mas com um custo conhecido: quanto mais urgente a arregimentação de votos, menos espaço sobra para confrontar as alternativas que disputam o mesmo eleitorado.

IDENTIDADE ELEITORAL – A direita brasileira oferece um exemplo claro dessa dinâmica. Desde 2018, boa parte desse campo construiu sua identidade eleitoral sobre a oposição ao PT, a agenda de costumes, a segurança pública, a crítica ao tamanho do Estado e, mais recentemente, o confronto com o Supremo Tribunal Federal. São temas que fazem parte do debate sobre o país. O que se pergunta é se uma identidade forjada na oposição se converte, sem atrito, em plano de governo.

O programa de Flávio Bolsonaro mostra essa tensão. Reúne propostas para diferentes áreas, defende mudanças na administração pública e na segurança e assume expressamente o legado de Jair Bolsonaro. Propostas, portanto, não faltam. A questão é como elas se encaixam. Que despesas seriam reduzidas? Que políticas seriam preservadas? Como seriam financiadas as novas prioridades? E como essas escolhas se relacionariam com crescimento e proteção social? Uma coisa é enumerar medidas; outra, mostrar como formam uma arquitetura de governo.

Os problemas brasileiros também não se resolvem isoladamente. Segurança pública depende de Estado, investigação e prevenção; educação exige mais do que recursos; crescimento depende de produtividade e investimento; e a transição tecnológica e energética impõe escolhas que terão efeitos sobre a economia e a posição do país no mundo. Nenhuma dessas questões cabe numa única promessa. Qualquer candidato terá de dizer o que prioriza, quanto custa e quem paga.

POLARIZAÇÃO – As pesquisas divulgadas ao longo da campanha colocam Lula e Flávio Bolsonaro à frente no primeiro turno, e a comparação entre os dois já tem material de sobra. De um lado, Lula, cujas decisões e números estão registrados e podem ser cobrados item a item, e que precisará dizer o que mantém, o que corrige e o que deixou por resolver.

De outro, Flávio Bolsonaro, que propõe mudanças em várias áreas ao mesmo tempo em que reivindica a continuidade do campo político ao qual pertence. Um tem balanço a prestar; o outro, uma mudança de rumo a explicar sem abandonar essa identidade.

A polarização simplifica esse exame. Para os adversários, Lula é a origem de quase todos os males; no discurso de setores governistas, o bolsonarismo cumpre papel análogo. O Supremo é obstáculo para uns, o Congresso ou o Planalto o culpado para outros. A política vira uma sucessão de responsáveis, e as soluções ficam para depois. A fórmula mobiliza, mas explica pouco sobre como um país se administra.

SEGUNDO TURNO – Se houver segundo turno em 25 de outubro, o eleitor perderá variedade e ganhará precisão: poderá perguntar não só o que cada candidatura pretende fazer, mas com que dinheiro e por meio de quais articulações institucionais. E o país não começa do zero a cada quatro anos. Já experimentou diferentes políticas econômicas, programas sociais, estratégias de segurança, arranjos entre os Poderes e formas de inserção externa. Há acertos a preservar, erros a corrigir e decisões a rever.

Para a direita, depois de anos de protagonismo eleitoral, já não basta ser contraponto ao PT ou força de reação às instituições. É preciso exibir uma concepção própria de Estado, desenvolvimento, proteção social e segurança que funcione fora do palanque. O adversário ajuda a definir uma identidade, mas não faz as vezes de plano. Ao campo governista cabe a cobrança inversa: ter governado não dispensa prestar contas, reconhecer limites e explicar o que será feito com aquilo que continua sem solução. Continuidade também precisa de justificativa.

FORA DOS PALANQUES – Por isso, a votação de domingo deve ser lida para além da soma das intenções e da arquitetura das alianças. A pergunta que atravessa esta campanha, e que valerá ainda mais num eventual segundo turno, não é quem derrota quem, mas quem explica o que fará com o país que receberá no dia seguinte. O próximo governo encontrará problemas concretos, restrições orçamentárias e um ambiente internacional em transformação. Esse Brasil não é o dos palanques.

Já não basta mobilizar identidades nem reunir votos contra alguém. É preciso dar razões para governar e mostrar como elas viram decisão. É nessa travessia, da oposição ao poder, da promessa à execução, que as diferenças entre as candidaturas precisam ser examinadas — e que o eleitor tem o direito de cobrar respostas desde já.

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O Tribunal que virou parte

Crise deixou de ser uma história sobre dois ministros

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

Existe uma ironia desconfortável no centro da crise que hoje divide o Supremo Tribunal Federal: a Corte criada para mediar conflitos entre os demais poderes tornou-se, ela própria, incapaz de resolver uma controvérsia que envolve dois de seus integrantes. Quando a instituição responsável por dar a palavra final passa a ser também parte do conflito, a questão deixa de ser apenas saber quem tem razão e passa a ser descobrir qual mecanismo institucional ainda é capaz de produzir uma resposta confiável.

Os fatos ajudam a entender como se chegou a esse ponto. Em 1º de setembro, o ministro André Mendonça, relator do inquérito sobre o Banco Master, determinou a retirada de sigilo de um relatório da Polícia Federal produzido a partir do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O material trouxe à tona mensagens trocadas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, incluindo manifestações de gratidão do banqueiro ao ministro dias antes de sua prisão.

CONTRATOS – Entre os documentos estavam ainda contratos de serviços advocatícios envolvendo o escritório da mulher de Moraes, Viviane Barci de Moraes, com partes ligadas ao caso. A divulgação desses elementos, por si só, não estabelece irregularidade, mas ampliou as dúvidas que passaram a cercar a relação entre o ministro e pessoas diretamente envolvidas no caso.

Dois dias depois, Moraes reagiu divulgando trechos de outro relatório da PF e pedindo ao presidente da Corte, Edson Fachin, a abertura de investigação contra o colega, sob a alegação de abuso de autoridade. Fachin retirou o caso do inquérito das fake news, abriu procedimento apartado sob sua própria relatoria e deu cinco dias para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, se manifestassem.

Nesta terça-feira, a crise subiu mais um degrau. Mendonça determinou o afastamento preventivo de Rodrigues e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada da Costa, segundo a decisão, sob a alegação de que ambos produziram e direcionaram relatórios de inteligência sobre magistrados e outras autoridades.

PEDIDO DE VISTA – A Segunda Turma do Supremo formou maioria para manter a medida, mas o julgamento foi interrompido por pedido de vista de Gilmar Mendes. Na véspera, treze ex-ministros e ex-presidentes da Corte haviam enviado carta a Fachin classificando o momento como uma das crises mais graves da história do Supremo, sem citar nominalmente nenhum dos dois ministros — ao contrário de Marco Aurélio Mello, que dias antes classificara a relação revelada como “impensável” e defendera publicamente a conduta de Mendonça.

A disputa processual que se seguiu devolveu simetria ao quadro. A Advocacia-Geral da União recorreu da decisão de Mendonça, sustentando que nomear e afastar o diretor-geral da PF é atribuição do presidente da República, e avalia apresentar uma suspensão de liminar diretamente a Fachin — instrumento excepcional, raramente usado contra decisão de um ministro do próprio Supremo.

Ao mesmo tempo, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a nulidade do procedimento aberto por Mendonça contra Moraes, argumentando que a investigação de um ministro dependeria de autorização do colegiado, não de decisão monocrática do relator. Tanto o ato que deflagrou a crise quanto a resposta mais recente a ela estão, portanto, sob contestação jurídica — o que já basta para afastar qualquer leitura simplista de que um dos lados age dentro da lei e o outro fora dela.

DISPUTA DE PODER – É justamente aí que o episódio se torna revelador. Instrumentos concebidos para auxiliar a Justiça — sigilo, relatório de inteligência, medida cautelar — passaram a ocupar o centro de uma disputa de poder entre ministros, quando as fronteiras institucionais se tornam pouco nítidas. Isso não torna, por si só, alguma medida ilegítima; reforça, porém, que, quanto maior o poder institucional envolvido, mais rigoroso precisa ser o controle sobre a forma como ele é exercido.

A origem política das indicações acrescenta outra camada ao problema. Moraes chegou ao Supremo por indicação de Michel Temer; Mendonça, por indicação de Jair Bolsonaro. Num ambiente menos polarizado, isso pertenceria à biografia dos ministros; no Brasil atual, tornou-se atalho para explicar decisões antes mesmo de seus fundamentos serem examinados. É significativo que o próprio Temer, ciente disso, tenha telefonado a Moraes defendendo uma composição com Mendonça — e tenha reconhecido, em seguida, que o afastamento da cúpula da PF tornou qualquer trégua mais distante.

Uma crise dessa natureza não pode depender da habilidade pessoal de seus protagonistas: quando uma Corte constitucional precisa de intermediação externa para administrar uma divergência interna, o problema já é institucional, não pessoal.

PERÍODO ELEITORAL – O calendário eleitoral torna tudo mais delicado. O país se aproxima de uma eleição presidencial em que a polarização segue sendo elemento central da disputa, e qualquer decisão envolvendo Moraes, Mendonça, a PF ou o governo será avaliada politicamente antes de ser examinada juridicamente. Uma medida contra a corporação poderá ser vista como sinal de independência por um lado e como interferência por outro; o inverso vale para uma decisão favorável a ela. O mérito jurídico corre o risco de chegar ao debate público depois da percepção política — quando deveria ser exatamente o contrário.

Não há solução que passe por fingir que a divergência não existe. Ministros de uma Corte constitucional podem e devem discordar. O problema começa quando a divergência deixa de ser processada por mecanismos capazes de preservar a confiança na instituição e passa a contaminar as próprias estruturas encarregadas de investigar e decidir.

Essa exigência vale para todos os lados: suspeitas sobre um ministro devem ser apuradas; indícios de abuso de autoridade também; uso irregular de inteligência policial exige responsabilização; interferência em competência do Executivo exige revisão. O que não pode prevalecer é a ideia de que a legalidade de uma decisão varia conforme o grupo político que dela se beneficia.

POLARIZAÇÃO – É aqui que a crise deixa de ser uma história sobre dois ministros e passa a dizer algo sobre o país. A polarização brasileira transformou quase toda divergência em disputa de identidade — o adversário deixou de ser alguém que pensa diferente para se tornar uma ameaça ao próprio campo político. Essa lógica atravessa Congresso, Executivo, partidos e redes sociais e chega inevitavelmente às instituições que deveriam oferecer contenção para os conflitos, não reproduzi-los.

Transformar Moraes e Mendonça em símbolos de campos opostos seria, por isso, a pior resposta possível. O ministro indicado por Temer não deve ser julgado pela trajetória de quem o indicou, assim como o indicado por Bolsonaro não deve receber, por isso, certificado prévio de independência ou de suspeição. Ambos precisam se submeter aos mesmos parâmetros, aplicáveis independentemente de quem esteja sentado do outro lado da disputa.

O desafio não é descobrir qual dos dois ministros prevalecerá, mas preservar uma estrutura em que nenhum deles precise se sobrepor ao outro para que as instituições funcionem. O Supremo foi concebido para arbitrar conflitos que o sistema político não resolve sozinho; quando a própria Corte enfrenta dificuldade para organizar um conflito nascido dentro dela, a pergunta deixa de ser quem tem razão em determinado processo e passa a ser se ainda existem regras reconhecidas por todos para dizer quem tem o poder de estabelecer essa razão.

CONFIANÇA – O que está em jogo não é a vitória de um ministro sobre o outro, mas algo mais elementar: a confiança de que, mesmo na mais profunda divergência, existe um caminho capaz de separar investigação de eventual desvio de finalidade e decisão de demonstração de força.

Se esse caminho for preservado, a crise poderá deixar limites mais claros para o exercício do poder. Se não for, o Supremo correrá o risco de confirmar, dentro de suas próprias paredes, aquilo que deveria ajudar o país a superar: a transformação permanente do conflito em guerra de posições.

A direita em três atos exibe um discurso que desaba diante da realidade

Oposição obstrui e fim da escala 6×1 não vai a plenário

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Há uma contradição no centro do debate político desta semana: uma parcela importante da direita brasileira que constrói seu discurso em torno da defesa do trabalhador atuou, de formas diferentes, para resistir à proposta de redução da jornada e ao fim da escala 6×1. Houve voto contrário, ausência no momento da deliberação e, por fim, uma articulação política que terminou sem a votação em plenário.

A sequência oferece um teste particularmente revelador da distância entre discurso e prática. Quando a defesa do trabalhador deixou o terreno das palavras e chegou ao voto, à presença e à deliberação, as escolhas feitas por esse campo político abriram uma contradição que merece ser examinada.

DISCUSSÃO ANTIGA – O primeiro ato se passou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Ali, na quarta-feira, tramitou a Proposta de Emenda à Constituição que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas, sem corte salarial, com período de transição de 14 meses. A discussão tampouco é nova. A redução da jornada de trabalho integra há décadas o debate internacional sobre direitos trabalhistas, produtividade e qualidade de vida.

A votação foi simbólica, sem contagem nominal, mas quatro senadores fizeram questão de registrar em ata seu voto contrário: Rogério Marinho, Hamilton Mourão, Tereza Cristina e Jaime Bagattoli, todos ligados a partidos que integram ou gravitam em torno do campo bolsonarista no Congresso.

Marinho, líder da oposição, não se limitou a votar contra. Apresentou uma proposta alternativa que mantém as 44 horas semanais e a escala 6×1, permitindo jornadas negociadas diretamente entre patrão e empregado, com remuneração calculada por hora trabalhada. O discurso fala em liberdade e valorização de quem trabalha; diante da necessidade de apresentar uma alternativa concreta, a proposta foi preservar a jornada mais longa.

AUSÊNCIA – O segundo ato ocorreu na mesma sessão da CCJ e teve como protagonista Flávio Bolsonaro. Pré-candidato à Presidência pelo PL e integrante suplente da comissão, o senador esteve ausente no momento em que a PEC foi aprovada. Em seguida, evitou declarar publicamente como votaria no plenário, embora Daniella Marques, coordenadora econômica de sua campanha, tenha classificado o debate como populista e defendido que o trabalhador pudesse ampliar livremente a própria jornada.

Era possível construir uma posição sobre o tema fora da sala de votação; na deliberação da comissão, porém, a cadeira permaneceu vazia. A ausência não permite atribuir uma intenção específica. Permite, no entanto, registrar um fato político: numa das primeiras decisões relevantes sobre a proposta, o pré-candidato que pretende disputar a Presidência não participou da votação.

ADIAMENTO DA VOTAÇÃO – O terceiro ato levou a disputa da comissão ao plenário e terminou com o adiamento da votação para depois do primeiro turno das eleições de outubro. Na noite de quarta-feira, o núcleo governista desistiu de submeter a PEC ao plenário diante da redução do quórum e da falta de segurança de que estariam assegurados os 49 votos favoráveis exigidos em cada um dos dois turnos.

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues, atribuiu a falta de quórum a uma ação coordenada da oposição. Citou nominalmente Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, e Rogério Marinho, coordenador de sua campanha, como articuladores de um movimento para desestimular a presença de parlamentares governistas. A consequência política foi objetiva: a votação não ocorreu, e a proposta ficou para depois do primeiro turno das eleições de outubro.

SEQUÊNCIA – Três atos, uma só disputa. O voto contrário na comissão, a ausência no momento da deliberação e a articulação atribuída pelo líder do governo à atuação direta de Flávio Bolsonaro e Rogério Marinho não são fatos equivalentes. Mas ajudam a compor o retrato de uma resistência à proposta que assumiu formas diferentes ao longo da mesma semana.

Primeiro, houve a oposição declarada. Depois, a ausência. Por fim, uma disputa em torno das condições políticas para que a votação pudesse sequer ocorrer. Em comum, um dado difícil de ignorar: a pauta avançou na comissão, mas encontrou resistência organizada antes de chegar ao plenário.

DISCURSO E PRÁTICA – Isso não é peculiaridade de um partido nem generalização sobre toda a direita brasileira, que é plural e inclui correntes liberais, conservadoras e de centro que não se reconhecem nos episódios descritos aqui. Trata-se de um recorte sobre o campo radical que se consolidou na política nacional nos últimos anos e sobre a distância que, neste caso, se estabeleceu entre a retórica em defesa de quem vive do próprio trabalho e as posições adotadas diante de uma proposta concreta.

Discursa-se em nome do trabalhador. Na comissão, quatro senadores ligados a esse campo registraram voto contrário. Rogério Marinho, líder da oposição, apresentou uma alternativa que preserva a jornada de 44 horas e a escala 6×1. E, antes que a proposta chegasse ao plenário, a sessão terminou sem a votação, em meio a uma disputa política cuja falta de quórum foi atribuída pelo líder do governo a adversários da medida.

A pergunta que este debate deixa, portanto, não é quem falou mais alto. Discursos sempre encontram espaço. A questão é o que permanece quando a política exige voto, presença e deliberação. Do voto contrário à ausência, passando pela disputa que impediu a votação em plenário, diferentes formas de resistência marcaram uma mesma sequência.   E fica uma pergunta que nenhuma campanha responde apenas com bandeiras: quando chega o momento de transformar discurso em decisão, o que prevalece — a promessa feita ao trabalhador ou as escolhas reveladas na prática?

Lula, Trump e o desafio de negociar sem se curvar às pressões externas

Lula e Trump retomam o diálogo em meio à crise comercial

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Duas agendas se cruzaram nos últimos dias e colocaram no centro do debate político uma questão decisiva para 2026: quem define as prioridades do Brasil. De um lado, Lula reuniu Hugo Motta e Davi Alcolumbre para tratar do fim da escala 6×1, dos minerais críticos e de incentivos a datacenters — temas que envolvem a distribuição dos ganhos do desenvolvimento, o controle de recursos estratégicos e a posição do país na economia digital.

Do outro, Brasília e Washington confirmaram para a próxima segunda-feira uma reunião entre o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, a primeira desde que as negociações foram interrompidas em julho. A retomada foi precedida por um telefonema de uma hora e vinte entre Lula e Trump, no qual o presidente brasileiro contestou as medidas adotadas pelos americanos e defendeu a reabertura do diálogo comercial.

PRIORIDADES – À primeira vista, são assuntos distintos. Mas ambos remetem à mesma disputa: a capacidade de o Brasil estabelecer suas próprias prioridades diante de pressões econômicas, políticas e externas. O embate comercial com os Estados Unidos, assim, ganha uma dimensão que ultrapassa a disputa tarifária e coloca sob exame o discurso de patriotismo que a direita bolsonarista transformou em um de seus principais ativos.

A crise tarifária oferece o primeiro caso concreto. As duas sobretaxas em vigor — 25% sob a Seção 301 e mais 12,5% sob alegação de trabalho forçado — podem elevar a carga a 37,5% sobre setores como calçados, máquinas, madeira e móveis, atingindo US$ 6,6 bilhões em exportações brasileiras. Diante desse cenário, Lula contestou as justificativas americanas, manteve o comitê de resposta ao tarifaço e, ao mesmo tempo, retomou a negociação técnica. Não se trata de escolher entre confronto permanente e acomodação. Trata-se de negociar sem aceitar que uma pressão externa determine as escolhas do país.

Nesse contexto, a atuação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos adquire relevância política. Em meio à crise, ele buscou interlocução direta com autoridades americanas, incluindo a audiência pública realizada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR.

EFEITOS NAS ELEIÇÕES – Segundo apurações da imprensa, sua articulação considerou os efeitos que a tarifa poderia produzir na disputa eleitoral brasileira. Houve, inclusive, um pedido público para que a medida fosse suspensa por cerca de seis meses, justamente no período que antecederia a eleição.

Não há ilegalidade ou anormalidade no diálogo de um político brasileiro com autoridades estrangeiras. O ponto é outro. Quando uma medida comercial atinge setores da economia nacional, o primeiro critério deveria ser seu impacto sobre o país. Se o cálculo central passa a ser sua utilidade para uma candidatura ou um grupo político, abre-se uma distância entre o discurso de soberania e a prática.

É dessa distância que surge a discussão sobre o verde e amarelo. Nos últimos anos, a direita bolsonarista procurou associar os símbolos nacionais a um campo político específico e transformou o patriotismo em um de seus principais instrumentos de mobilização. Mas a apropriação da bandeira não comprova a defesa dos interesses nacionais. O critério está nas posições adotadas quando o Brasil entra em choque com os objetivos de uma potência estrangeira.

TESTE PARA A DIREITA – Esse será um teste para a direita em 2026. Não se trata de defender hostilidade aos Estados Unidos. O Brasil deve negociar e manter relações com Washington, assim como com outras potências e parceiros comerciais. Ter proximidade ideológica com Trump ou com a direita americana, por si só, não compromete a defesa dos interesses nacionais. A incoerência aparece quando esse alinhamento passa a orientar a reação a medidas que atingem diretamente o país.

A pauta doméstica discutida nos últimos dias reforça a dimensão concreta desse debate. O fim da escala 6×1 diz respeito à forma como o país distribui os ganhos da produtividade e organiza o tempo de trabalho. A política para minerais críticos envolve uma escolha sobre o lugar que o Brasil pretende ocupar nas cadeias globais: continuar como fornecedor de matéria-prima ou ampliar o processamento, a tecnologia e a agregação de valor dentro do território nacional. Os incentivos a datacenters dizem respeito ao controle da infraestrutura necessária para uma economia cada vez mais dependente do processamento de dados e da inteligência artificial.

Não são assuntos desconectados. Todos envolvem desenvolvimento e autonomia. Está em disputa quem se beneficia do crescimento, quem controla recursos estratégicos e qual parcela do valor produzido permanece no país. É a mesma lógica presente no confronto comercial com os Estados Unidos: preservar a capacidade nacional de definir prioridades em um ambiente de crescente pressão externa.

POLÍTICAS PÚBLICAS – Soberania, portanto, não é apenas uma questão de fronteiras ou de retórica nacionalista. Ela se expressa na capacidade de definir políticas públicas, estabelecer prioridades econômicas, proteger setores estratégicos e negociar com outros países sem subordinar decisões internas a objetivos externos. É nesse terreno que o discurso político precisa ser confrontado com os fatos.

A resposta apresentada pelo governo Lula combinou duas frentes: contestar as medidas adotadas por Washington e manter aberta a negociação, enquanto, internamente, leva ao centro da agenda temas como trabalho, recursos minerais e infraestrutura tecnológica. Isso não elimina divergências sobre cada uma dessas políticas nem coloca as decisões do governo acima de crítica. Mostra, porém, uma concepção de soberania associada a escolhas concretas de desenvolvimento.

A tensão aparece em outro lugar. Um campo político que transformou o patriotismo em um de seus principais ativos terá de explicar como concilia esse discurso com uma estratégia que, diante de uma pressão comercial sobre o Brasil, colocou seus possíveis efeitos eleitorais no centro do cálculo. Não basta reivindicar a defesa da pátria contra adversários e instituições internas e, diante dos interesses de um governo estrangeiro ideologicamente próximo, alterar o critério de avaliação.

INTERFERÊNCIA – A eleição brasileira deve ser decidida no Brasil. Nenhuma potência estrangeira — Washington, Pequim ou Moscou — deveria interferir no resultado de uma disputa que cabe exclusivamente aos brasileiros. Esse princípio precisa valer independentemente de qual força política possa se beneficiar de uma eventual interferência.

É aí que o patriotismo deixa de ser um símbolo e passa a ser uma posição política verificável. Não se trata de quem reivindica a bandeira, mas dos critérios adotados quando interesses concretos entram em conflito. A defesa da autonomia nacional exige coerência justamente quando ela se torna politicamente inconveniente.

DIÁLOGO COM OS EUA – Os acontecimentos dos últimos dias tornaram esse debate mais concreto. Enquanto o país discute como distribuir os ganhos do desenvolvimento, controlar recursos estratégicos e construir infraestrutura para a economia digital, também retoma o diálogo com os Estados Unidos após um período de forte pressão comercial.

Economia, eleições e geopolítica se cruzam. Quando o cálculo eleitoral e o alinhamento ideológico entram em conflito com os interesses do Brasil, fica claro até onde vai o patriotismo — e onde ele termina: em Washington.

 

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Flávio Bolsonaro e o vazio que fica por trás do seu discurso de “confronto”

O vice de Flávio Bolsonaro não foi apenas uma escolha. Foi o que restou

A indicação de Gaspar coroou uma sucessão de recusas

Marcelo Copelli
Revista Fórum

Quando o Partido Liberal confirmou o deputado Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, a apresentação oficial insistiu na ideia de uma candidatura “puro-sangue”, fiel às origens do bolsonarismo e alheia à tradicional lógica de negociação do presidencialismo de coalizão brasileiro. A sequência de negociações, recusas e acomodações que antecedeu o anúncio, porém, revela uma realidade bastante distinta da narrativa apresentada pela campanha.

Horas antes do anúncio, uma sondagem BTG/Nexus registrava um cenário competitivo entre Flávio Bolsonaro e Lula. A notícia politicamente mais significativa daquele dia, porém, não estava nos números da pesquisa, e sim na forma como a chapa presidencial foi construída.

NEUTRALIDADE – Enquanto as pesquisas mantinham Flávio Bolsonaro competitivo na disputa, PP e Republicanos optavam por permanecer fora dela. Esse contraste entre desempenho eleitoral e isolamento político ajuda a explicar por que a vaga de vice terminou nas mãos de um deputado alagoano que, há poucos meses, dificilmente figurava entre os nomes mais cotados.

O centro dessa história não é Gaspar, mas quem recusou o convite antes dele. A campanha empenhou-se em atrair a senadora Tereza Cristina, do PP, a ponto de Flávio afirmar publicamente que ela já havia aceitado o convite. A federação PP-União Brasil, porém, decidiu manter neutralidade nacional na disputa, inviabilizando formalmente sua entrada na chapa.

A alternativa seguinte foi a economista Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e recém-filiada ao Republicanos, apoiada pelo próprio governador Tarcísio de Freitas. Também ali, entretanto, a resposta foi negativa: após consultas internas, o Republicanos optou por permanecer neutro. Duas tentativas, dois vetos institucionais. Não faltou disposição individual de alguns dirigentes para negociar; prevaleceu a decisão das estruturas partidárias.

SEM OPÇÃO – Não houve, portanto, opção por uma chapa exclusivamente do PL — houve o esgotamento de todas as alternativas fora dele. O próprio presidente do partido, Valdemar Costa Neto, tentou se antecipar a essa leitura ao dizer que a escolha de Gaspar já estava decidida “há seis meses”, cronologia difícil de sustentar diante da sucessão pública de tentativas encerradas apenas dias antes da convenção.

Fica, contudo, uma pergunta em aberto quando se descreve apenas a recusa: por que disseram não o PP e o Republicanos? Não por hostilidade declarada. Não por ruptura. A resposta está em outro registro, mais estrutural do que pessoal.

O comportamento do Centrão raramente é guiado por afinidades ideológicas. Seus partidos costumam aproximar-se menos dos projetos com os quais possuem maior identificação do que daqueles que consideram mais capazes de produzir poder político. A neutralidade de PP e Republicanos diz menos sobre divergências programáticas do que sobre avaliação de risco.

MARGEM DE MANOBRA – Em vez de se comprometer antecipadamente com um projeto cujo potencial ainda desperta dúvidas entre dirigentes nacionais, preferiram preservar margem de manobra para a fase decisiva da campanha. Antecipar esse movimento reduz a flexibilidade para negociar diante de um cenário político em transformação. Para um Centrão acostumado a ver candidaturas competitivas em agosto perderem fôlego até outubro, esperar continua sendo a opção de menor risco.

Segundo relatos publicados pela imprensa, Arthur Lira participou da construção da solução que levou Gaspar à vice-presidência — um movimento que reorganizou também a disputa ao Senado em Alagoas, onde o próprio Lira concorre a uma vaga. Ainda que interesses locais tenham pesado, o episódio evidencia que a definição da chapa respondeu muito mais a acomodações regionais do que à construção de uma ampla coalizão nacional.

Durante boa parte da última década, aproximar-se de Jair Bolsonaro era quase um movimento automático para partidos interessados em disputar espaço dentro do campo conservador. A negociação girava em torno das condições da aliança, não da própria existência dela. Em 2026, a situação parece diferente da observada nos anos de maior expansão do bolsonarismo: a adesão deixou de ser pressuposto e voltou a ser objeto de cálculo.

ATRATIVIDADE – Os episódios que cercaram a escolha do vice sugerem que o bolsonarismo já não exerce a mesma capacidade de atração sobre parcelas relevantes das lideranças partidárias que demonstrava em eleições anteriores.

Desde a redemocratização, a escolha de um vice raramente foi apenas isso — foi ponte para partidos, regiões, setores econômicos, bancadas no Congresso. Sarney, Itamar Franco, Marco Maciel, José Alencar, Michel Temer ampliaram, cada um à sua maneira, o espaço político de quem os escolheu antes mesmo da eleição.

No presidencialismo brasileiro, a escolha do vice raramente responde apenas à pergunta “quem governará em caso de ausência do presidente?”. Responde a outra, muito mais imediata: quem está disposto a dividir riscos antes mesmo da eleição? É por isso que as chapas costumam funcionar como radiografia das alianças efetivamente construídas por cada candidatura.

IMPASSE – Em vez de ampliar a base política presidencial, a escolha de Gaspar atendeu à necessidade de equacionar um impasse localizado e preservar equilíbrios regionais. É uma diferença significativa. Em campanhas competitivas, espera-se que a vice-presidência agregue novos apoios nacionais; aqui, ela funcionou sobretudo como instrumento de acomodação política. Seu alcance permaneceu regional, sem ampliar a projeção política da candidatura em âmbito nacional.

Competitividade eleitoral e capacidade de articulação política nem sempre caminham juntas. Um candidato pode reunir milhões de eleitores e, ainda assim, encontrar dificuldade para convencer partidos e lideranças de que vale a pena dividir os riscos de uma eventual vitória. Foi isso que a formação desta chapa tornou visível. PP e Republicanos não romperam com Flávio Bolsonaro. Apenas decidiram não aderir à sua candidatura.

Nenhum presidente eleito desde a Constituição de 1988 governou sustentado apenas pelo partido que o levou ao Planalto. Todos dependeram de maiorias parlamentares construídas por acordos amplos e, muitas vezes, heterogêneos. A capacidade de viabilizá-los antes da eleição não determina, por si só, o sucesso de um mandato. Mas costuma revelar quanto capital político uma candidatura consegue mobilizar antes mesmo de chegar ao poder.

ALIANÇAS – É por isso que a escolha do vice extrapola a composição de uma chapa. Ela funciona como um teste da capacidade de atração política de cada candidatura. Uma campanha pode vencer eleições com votos. No presidencialismo de coalizão brasileiro, porém, só governa com alianças.

O episódio talvez diga menos sobre Alfredo Gaspar do que sobre a própria reorganização da direita. Durante anos, o sobrenome Bolsonaro funcionou como ativo político suficiente para ordenar partidos, atrair aliados e disciplinar lideranças. A forma como a candidatura foi construída sugere que esse mecanismo já não opera com a mesma intensidade.

ARTICULAÇÃO LIMITADA – Mais do que definir um vice, esse processo revelou os limites da articulação política de Flávio Bolsonaro. O problema não está em Alfredo Gaspar. Está no significado político de sua indicação. Durante semanas, a campanha procurou ampliar sua base e terminou apenas administrando a ausência de novos aliados.

A vaga foi preenchida. O problema permaneceu.  Afinal, quando a escolha do vice só ocorre depois de esgotadas todas as alternativas, a notícia deixa de ser quem entrou na chapa. Passa a ser quem decidiu ficar de fora.

Espetáculo do vazio: como a direita trocou o projeto de país pela guerra política

Flávio opta pela espetacularização em pré-campanha

Marcelo Copelli
Revista Fórum

A pré-campanha presidencial de 2026 já expôs seu método antes mesmo de apresentar seu programa. Em vez de colocar no centro da discussão propostas sobre crescimento, produtividade, envelhecimento populacional, transição energética ou reforma do Estado, a direita brasileira voltou a organizar sua comunicação em torno da lógica do confronto permanente. O lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, realizado em São Paulo, tornou esse movimento evidente.

Na convenção que oficializou o nome do senador pelo PL para a corrida presidencial, sem vice definido e ainda sem uma coligação nacional consolidada, o momento de maior repercussão não foi um discurso sobre economia ou políticas públicas. Foi a exibição de um vídeo produzido por inteligência artificial reproduzindo a imagem e a voz de Jair Bolsonaro, utilizado pelo próprio filho para pedir apoio ao seu nome, mesmo com o ex-presidente submetido a restrições judiciais que o impedem de participar de atos públicos.

REAÇÃO – O episódio provocou reação imediata. A Federação Brasil da Esperança, que reúne o PT, apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial, distribuída ao ministro Kassio Nunes Marques. No Supremo, a defesa de Bolsonaro argumentou que o ex-presidente sequer teria condições de autorizar o uso de sua imagem diante das limitações impostas pela Justiça. A justificativa, porém, acabou ampliando uma questão central: se o próprio Bolsonaro não poderia validar publicamente a utilização de sua imagem, quem decidiu colocá-lo para “falar” na convenção?

A controvérsia dividiu espaço nas manchetes com outro episódio de forte impacto: a presença do presidente argentino Javier Milei, que utilizou seu discurso para atacar Lula e o ministro Alexandre de Moraes em termos que dificilmente seriam empregados por um político brasileiro em território nacional, protegido pela condição de chefe de Estado estrangeiro. A consequência foi uma crise diplomática entre Brasília e Buenos Aires, com a convocação do embaixador brasileiro para consultas e uma reação institucional do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, que classificou as declarações como desrespeitosas às instituições brasileiras.

Somaram-se ainda mensagens de apoio do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, utilizadas para associar a chapa à imagem de uma articulação conservadora internacional. O resultado foi simbólico: o evento que deveria apresentar Flávio Bolsonaro como candidato ao Planalto acabou dominado por controvérsias externas à formulação de um programa de governo — inteligência artificial, tensão diplomática e conflitos institucionais — e não pela apresentação de prioridades para o país.

MÉTODO POLÍTICO – Essa dinâmica não surgiu agora. Ela representa a continuidade de um método político consolidado desde 2018: transformar a política em uma disputa permanente de identidades, ameaças e inimigos, na qual conflitos com instituições, pautas de costumes e ataques simbólicos ocupam o espaço que deveria ser destinado à construção de um projeto nacional.

É preciso reconhecer que esse modelo teve eficácia política. A direita bolsonarista construiu uma identidade forte, mobilizou sua base de maneira consistente e alterou o funcionamento do debate público brasileiro como poucas forças políticas conseguiram fazer nas últimas décadas. Sua capacidade de criar engajamento e influenciar a agenda nacional é um fato político relevante.

O problema está em outro ponto: a mobilização passou a funcionar como substituta de uma formulação programática mais ampla. A extrema direita brasileira demonstrou força para organizar conflitos, mas ainda enfrenta dificuldades para apresentar uma visão de país que vá além da reafirmação de identidades políticas e da permanente busca por adversários.

SIMBOLISMO – A lógica do confronto permanente cumpre, nesse modelo político, uma função específica: manter a base mobilizada a partir de ameaças contínuas e disputas simbólicas que exigem posicionamento constante. Enquanto um programa de governo precisa lidar com escolhas, limites e resultados mensuráveis, a política baseada no conflito depende da produção permanente de novos antagonismos. O adversário deixa de ser apenas um concorrente eleitoral e passa a ocupar o centro da própria identidade do movimento.

No caso de Flávio Bolsonaro, essa limitação aparece de forma mais evidente. O senador foi lançado ao cenário presidencial pelo próprio pai, sem ter construído, até aqui, uma identidade política plenamente independente, e enfrenta dificuldades para consolidar liderança dentro do próprio campo. Pesquisas indicam que Michelle Bolsonaro apresenta maior competitividade entre segmentos como evangélicos e mulheres, enquanto o campo conservador continua marcado por diferentes grupos e interesses.

Ao mesmo tempo, setores do centro político e aliados da direita buscam nomes com maior capacidade de articulação e ampliação eleitoral, enquanto pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa ainda marcada pela vantagem de Lula em cenários de segundo turno. Flávio também carrega o peso de episódios que acompanham sua trajetória política, como as investigações envolvendo crime de corrupção na Assembleia Legislativa do Rio e questionamentos relacionados à aquisição de imóveis. São temas explorados por adversários e que não desaparecem apenas porque o debate público é ocupado por controvérsias momentâneas.

PRIORIDADES – Uma eleição presidencial deveria ser o momento de confronto entre diferentes visões sobre o futuro do país. Os desafios que estarão diante da próxima administração não pertencem a um único governo nem serão solucionados por uma única gestão. A qualidade da disputa democrática depende da capacidade de apresentar prioridades, escolhas e caminhos para enfrentar problemas estruturais. Quando a maior parte da atenção pública é absorvida por conflitos institucionais, embates simbólicos e disputas de identidade, reduz-se o espaço para discutir como cada candidatura pretende governar.

Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em diferentes democracias, forças políticas perceberam que a mobilização de ressentimentos, identidades e adversários simbólicos pode produzir resultados eleitorais relevantes. A diferença está no que acontece depois: transformar engajamento político em capacidade de formular políticas públicas diante de sociedades cada vez mais complexas continua sendo o principal teste para qualquer força que pretende governar.

ESPETACULARIZAÇÃO – A questão central para a direita brasileira, especialmente para sua vertente mais radicalizada, não é mais sua capacidade de mobilizar. O problema é que essa mobilização passou a ocupar o lugar que deveria ser destinado à construção de um projeto de país. Ao transformar espetacularização, desinformação, confrontos institucionais e conexões internacionais utilizadas como instrumentos de polarização em eixo da comunicação política, a extrema direita deixa em segundo plano a apresentação de respostas para os problemas concretos do Brasil.

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro não apresentou apenas uma estratégia de comunicação; expôs um método político. O centro da cena foi ocupado pela reconstrução artificial da presença de Jair Bolsonaro, pela internacionalização da disputa e pelo confronto com instituições.   O que permaneceu ausente foi justamente o elemento que deveria organizar uma candidatura presidencial: uma visão de futuro para o país, com prioridades definidas e respostas para os desafios que estarão diante da próxima administração. 

Onde termina a diplomacia e começa a ingerência

Trump tentar cruzar fronteira da democracia brasileira

Marcelo Copelli
Congresso em Foco

A diplomacia sempre conviveu com uma zona de ambiguidade. Todo Estado observa, comenta e reage aos rumos políticos de outros países — é o que se espera de qualquer ator relevante no sistema internacional. O problema surge quando essa observação deixa de ser análise e passa a ser tentativa de direção. A linha entre as duas coisas nunca foi traçada por lei, mas por um critério decisivo: quem fala, para quem fala e com que propósito.

Um chefe de governo pode, sem qualquer prejuízo às normas internacionais, expressar preocupação com a instabilidade institucional de outro país, criticar uma política econômica ou defender publicamente uma posição sobre direitos humanos. Isso é diplomacia — às vezes desconfortável, quase sempre interessada, mas ainda assim compatível com a soberania alheia.  

INFLUÊNCIA SOBRE ELEITORADO – Um dos sinais mais claros de que a diplomacia se transforma em ingerência aparece quando a manifestação deixa de se dirigir a governos ou instituições e passa a buscar, deliberadamente, influenciar a escolha política do eleitorado de outro país. Nesse momento, muda o interlocutor. E é essa mudança — mais do que o conteúdo da declaração — que transforma um comentário diplomático em pressão política.

A história oferece inúmeros exemplos dessa distinção, ainda que ela raramente tenha sido formulada de maneira explícita. Potências coloniais pressionavam governos recém-independentes por meio de embaixadas, acordos comerciais condicionados e apoio velado a facções internas — mecanismos que, justamente por serem indiretos, preservavam alguma plausibilidade de negação.  

O que mudou no século XXI não foi a existência da prática, mas sua escala, sua velocidade e seu alcance. Hoje, uma declaração de um líder estrangeiro chega ao eleitor comum antes mesmo de alcançar o Ministério das Relações Exteriores do país a que se refere. Ela é replicada por redes sociais, retransmitida pela imprensa e amplificada por influenciadores políticos, sem qualquer mediação diplomática. A ingerência já não precisa de embaixadores. Basta uma conta verificada e um fuso horário favorável.

PROTOCOLOS – Essa mudança de escala altera a natureza do próprio fenômeno. Quando a pressão externa dependia de canais diplomáticos, permanecia, ao menos formalmente, no âmbito das relações entre Estados — sujeita a protocolos, respostas oficiais e a uma linguagem que preservava alguma distância entre quem pressionava e quem era pressionado.  

Quando a mensagem passa a se dirigir diretamente ao eleitor, essa distância desaparece. O que antes era comunicação entre governos transforma-se em comunicação entre um líder estrangeiro e os cidadãos de outro país — e nenhuma instituição diplomática foi concebida para mediar esse tipo de intervenção.

É por isso que reduzir o debate sobre interferência a uma disputa entre simpatizantes e opositores de um governo específico é um erro de análise, não apenas de tom. O critério não pode variar conforme o destinatário da pressão. Um país que aceita a interferência quando ela favorece o governo que apoia e a condena quando prejudica esse mesmo governo não está defendendo a soberania; está usando o conceito como argumento circunstancial. A consequência é previsível: o princípio perde consistência, e as instituições deixam de dispor de um parâmetro confiável para reagir quando o fenômeno voltar a ocorrer, qualquer que seja sua direção política.

EXPOSIÇÃO – O Brasil reúne características que o tornam particularmente exposto a esse tipo de pressão. Sua relevância econômica, sua posição nas discussões ambientais globais, seu protagonismo em fóruns como o BRICS e sua influência regional fazem com que declarações de líderes estrangeiros sobre a política brasileira raramente sejam neutras ou desinteressadas. Isso, por si só, não representa um problema. É a condição normal de qualquer país com peso geopolítico. O problema não está no interesse internacional, mas na tentativa de convertê-lo em influência sobre escolhas que pertencem exclusivamente aos brasileiros.

Reconhecer essa fronteira exige instrumentos institucionais que ainda estão em construção em quase todas as democracias, não apenas na brasileira. Não se trata de blindar o debate público contra qualquer opinião estrangeira — isso seria não apenas impossível, mas incompatível com a abertura que se pretende preservar.  

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida nesse debate. Plataformas digitais, sistemas de recomendação algorítmica e mercados financeiros internacionais operam, cada um por mecanismos próprios, como canais adicionais de influência que não respondem a protocolos diplomáticos nem pertencem a um Estado específico.

INGERÊNCIA – Uma empresa de tecnologia que decide amplificar determinado conteúdo político, ou um fundo de investimento que condiciona decisões de alocação a expectativas eleitorais, pode influenciar o ambiente democrático de um país sem jamais emitir uma nota oficial. Limitar a discussão sobre ingerência aos governos estrangeiros significa ignorar uma parte essencial do problema contemporâneo.

No fim, a distinção entre diplomacia e ingerência depende de um princípio simples: opiniões sobre outro país fazem parte do jogo internacional; tentativas de dirigir a escolha de seus cidadãos, não. Sempre que essa fronteira for cruzada — por um governo, por uma plataforma ou por um mercado —, a resposta não deve depender de quem é favorecido ou prejudicado. Deve começar pela mesma pergunta, em qualquer circunstância: a quem essa mensagem realmente se dirige?

Porque nenhuma democracia permanece plenamente soberana quando a vontade de seus cidadãos deixa de ser formada livremente e passa a ser disputada por atores que jamais responderão às consequências dessa decisão.

Flávio Bolsonaro enfrenta o isolamento político de sua candidatura

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