
Ilustração Thiago Lucas (Arquivo do Google)
Pedro do Coutto
A política brasileira já vive, na prática, o calendário de 2026. Ainda que a eleição esteja distante no papel, os movimentos de bastidores se intensificam, revelando ambições, testes de lealdade e disputas silenciosas por espaço. Reportagem de O Globo mostra que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, atua para se manter na corrida presidencial, disposto, se necessário, a renunciar ao cargo no início de abril do próximo ano para cumprir a regra da desincompatibilização, exigida seis meses antes do pleito de outubro.
A exigência prevista na legislação eleitoral — consolidada na Lei Complementar nº 64/1990 e reiterada pela jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral — impõe uma escolha clara: ou o poder executivo local, ou a aposta nacional. Ao aceitar esse risco, Tarcísio sinaliza ao mercado político que não quer ser apenas uma alternativa de ocasião, mas um nome disposto a pagar o preço institucional da candidatura.
CONVERGÊNCIA – Ele não está sozinho. Ratinho Júnior, governador do Paraná, já admitiu publicamente aceitar uma candidatura presidencial pelo PSD ou até mesmo ao Planalto, se houver convergência. O cálculo é o mesmo: para disputar, terá de deixar o cargo no mesmo prazo. Em Minas Gerais, Romeu Zema (frequentemente citado como presidenciável no campo liberal) também se enquadra nessa regra, assim como Ronaldo Caiado, em Goiás, e Eduardo Leite, no Rio Grande do Sul, cujo nome volta e meia ressurge nas rodas políticas como alternativa de centro.
O que une esses governadores não é apenas o calendário, mas a tentativa de ocupar um vácuo político que se abre entre a polarização consolidada e o cansaço do eleitorado. Ao mesmo tempo, o que os separa é a capacidade de transformar viabilidade administrativa em densidade eleitoral — um desafio que o Brasil já viu derrotar muitos “bons gestores” nas urnas.
MICHELLE BOLSONARO – Nesse tabuleiro, outro movimento chama atenção: a crescente presença política de Michelle Bolsonaro. Em reação a críticas do blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, ela divulgou carta pública nas redes sociais, rebatendo questionamentos sobre sua atuação. O episódio mais recente ocorreu após Michelle compartilhar um vídeo de Tarcísio de Freitas criticando a política econômica do governo Lula e, simultaneamente, curtir um comentário da primeira-dama paulista sugerindo que o governador deveria ser “o novo rumo do Brasil”.
O gesto, aparentemente trivial no universo das redes sociais, tem peso simbólico. Michelle ocupa hoje um espaço singular no bolsonarismo: não é apenas herdeira de um capital eleitoral expressivo, mas também um termômetro das tensões internas do campo conservador. Ao sinalizar simpatia por Tarcísio, ainda que de forma indireta, ela alimenta especulações sobre alianças futuras e sobre quem poderá herdar, de fato, o espólio político de Jair Bolsonaro.
Ao longo dos últimos meses, esses sinais dispersos compõem um mesmo enredo: a eleição presidencial já começou nos bastidores. Governadores calculam prazos, grupos testam narrativas e lideranças digitais disputam influência. Nada está decidido, mas muita coisa já está em jogo. No Brasil, como a experiência ensina, quem subestima o peso desses movimentos preliminares costuma chegar atrasado à largada.
Em tempo para reflexão dos tidos e havidos desassemelhados!
https://www.facebook.com/share/v/1B14dakjVp/
O jeito é cercar a Praça dos Três Podres, a começar pelo STF, e denominar Papudona de luxo.
Bota os anexos, o TCU e a Praça dos Tribunais no balaio.
Onde a impunidade reina sobre o Brasil.