
Vorcaro e Henrique complementam versões sem divergências
Johanns Eller
Rafael Moraes Moura
O Globo
A acareação entre o CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa no dia 30 de dezembro foi marcada por um clima de cordialidade e convergência de versões. O confronto de narrativas foi realizado por determinação da Polícia Federal (PF) após divergências nos depoimentos da dupla à delegada Janaina Palazzo acerca das fraudes na tentativa de compra do Master pelo banco de Brasília.
No entanto, o que se viu foi Vorcaro e Costa complementando as versões um do outro e ponderando eventuais diferenças no relato acerca, por exemplo, do valor a ser ressarcido pelo Master ao BRB após a aquisição ser vetada pelo Banco Central (BC). As informações constam da transcrição da acareação, à qual a equipe do blog teve acesso.
SUBSTITUIÇÃO DE PAPÉIS – Vorcaro disse à PF que a reposição dos R$ 12,2 bilhões investidos pelo banco estatal em carteiras fraudulentas da instituição privada já havia sido liquidada com a substituição dos créditos, ou seja, a substituição dos papéis comprados por ativos do próprio Master – entre ações de outras empresas, créditos consignados, imóveis, garantias, títulos de renda fixa e os chamados FIDCs (fundos de investimento em direitos creditórios).
Embora o próprio banqueiro tenha admitido no depoimento que apenas R$ 10,2 bilhões dos R$ 12,7 bilhões foram substituídos, Vorcaro argumentou na acareação que o restante não havia sido ressarcido por “questões de formalização” e que o Master havia apresentado ao banco de Brasília garantias que supostamente cobririam esse montante, mas o processo foi interrompido pela liquidação do banco pelo BC em novembro passado.
“DIFERENÇA” – Costa, por sua vez, alegou à delegada que havia uma “diferença” a ser paga pelo banco de Vorcaro, sem mencionar tais garantias. Este foi um dos pontos que levou a PF a realizar o confronto entre versões.
Mas quando o representante da Procuradoria-Geral da República (PGR) apontou a contradição “bastante controvertida” entre os depoimentos neste tópico durante a acareação, tanto Vorcaro quanto o ex-presidente do BRB pareceram concordar acerca das cifras a serem ressarcidas. “Acho que a gente disse as coisas de uma maneira diferente, mas que vai chegar na mesma conclusão”, respondeu Paulo Henrique Costa.
“Ou seja, dos R$ 12,7 bilhões, tinham sido substituídos R$ 10,2 bilhões. Tinha R$ 1,6 bilhão de treasuries em processo de liquidação e existiam R$ 9 bilhões de garantias adicionais”, completou o ex-dirigente do BRB.
CONCORDÂNCIA – Na sequência, Vorcaro e Costa seguiram concordando acerca da substituição dos créditos. Quando o representante da PGR indagou se os R$ 10,2 bilhões repostos tinham lastro – dado o histórico de fraudes do Master – e se a precificação dos ativos dependia de alguma auditoria, novamente não houve divergências.
O ex-presidente do banco estatal respondeu que não havia discordância de valores em relação aos créditos consignados e de pessoas jurídicas, títulos de renda fixa e aos FIDCs e informou que os imóveis tiveram uma avaliação independente. Nesta etapa, Vorcaro não rebateu e disse ter repassado ativos já com o cálculo do deságio para o BRB.
DIVERGÊNCIAS – A indefinição, segundo Costa, seria a precificação das ações de empresas repassadas pelo Master na escala dos R$ 800 milhões, o que não teria sido resolvido até a data da acareação. O banqueiro não rebateu a versão e a delegada da PF avançou com o confronto de versões abordando outras divergências dos depoimentos, que também resultaram em convergências entre os investigados.
Conforme informou o blog de Julia Duailibi no G1, durante a acareação, o ex-presidente do BRB afirmou que só após revisar os contratos descobriu que as carteiras de crédito envolviam terceiros. Já Vorcaro afirmou que desde o início das negociações entre o Master e o BRB esse modelo de negócios havia sido acertado.
TENSÃO – A acareação foi convocada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli para contrapor versões sobre o caso Master, antes mesmo de serem colhidos depoimentos, o que contrariou a PF e a PGR. A audiência foi marcada por tensões e climão entre o gabinete de Toffoli, a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República sobre a condução dos trabalhos.
Enquanto o juiz auxiliar de Toffoli, Carlos Vieira von Adamek, homem de confiança do ministro, insistiu que os investigados prestassem depoimentos antes e a acareação fosse realizada só depois, a delegada da PF apontou que não havia nenhuma decisão formal do magistrado do Supremo nos autos do processo nesse sentido – apenas a determinação de realizar a acareação. O juiz auxiliar entrou em contato com Toffoli, que fez uma autorização oral para que os depoimentos fossem realizados antes da acareação.
Negócio nada ecumênico entre padre e pastor expõem os tentáculos do Banco Master
A confusa relação do padre José Carlos Toffoli, agora cônego, com o pastor Fabiano Zettel, empresário, não é exatamente ecumênica, após o padre e seu irmão venderem para o pastor metade da participação de ambos, que totalizava R$ 6,6 milhões, num resort de super luxo.
É tudo estranho, intrigante, mas confirma o principal: o poder de alcance de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Vorcaro, empresário e “banqueiro liquidado”, vai tomando a forma de um imenso polvo, com tentáculos por todas as instâncias de poder, seja público ou privado, ateu ou religioso, deixando um rastro de biografias arrasadas, tornozeleiras vergonhosas, instituições arranhadas e dúvidas sobre personagens que deveriam se comportar acima de qualquer suspeita.
O pastor Zettel é cunhado e operador financeiro de Vorcaro. Já o “padre Carlão” é irmão do ministro do STF Dias Toffoli e do engenheiro Eugênio Toffoli, seu sócio, oficialmente, em resorts de super luxo que não condizem em nada com o desapego de padres e cônegos nem com a residência de classe média do engenheiro. (…)
Além de Toffoli, que assumiu a relatoria justamente do caso Master, o maior escândalo financeiro do País, e saiu dificultando as investigações, o Supremo fica numa situação constrangedora também pelas relações familiares do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. Um contrato de advocacia de R$ 129 milhões não é pouca coisa…
Os tentáculos do polvo Vorcaro chegam ao Congresso, onde o deputado Hugo Motta, atual presidente da Câmara, apresentou uma emenda fantástica, obrigando que seguradoras e empresas de previdência privada invistam algo em torno de R$ 9 bilhões em créditos de carbono.
O que uma coisa tem a ver com a outra, ninguém sabe. Mas… o empresário Henrique Vorcaro, pai do polvo, mergulhou nesse negócio. Algo a ver?
No TCU, causa estranheza a insistência como o ministro Jhonatan de Jesus, ex-deputado do Centrão, quis inverter o jogo – e as investigações. Seu alvo não era o Master, era o BC. Será que ele pretendia anular a liquidação do banco de Vorcaro? É o que dez entre dez investigadores imaginam.
Em outra dessas “coincidências” da vida, a campanha de “influencers” que receberam fortunas para proteger o Master e acusar o BC vai na mesma linha e no mesmo tom, foco e tempo dos movimentos do ministro Jesus, que também não parecem tão religiosos.
E os tentáculos continuam, com as suspeitas de que o governador Ibaneis Rocha tenha acertado com Vorcaro que o BRB, o banco estatal de Brasília, despejasse bilhões na compra de títulos podres de um banco privado, e de que o empresário Nelson Tanure seja “sócio oculto” do Master.
Sem contar a aplicação de quase R$ 1 bilhão do RioPrevidência, o fundo de previdência dos funcionários do Estado do Rio, num banco já bichado. E pode haver casos em outros estados…
Fonte: O Estado de S. Paulo, Opinião, 24/01/2026 | 20h00 Por Eliane Cantanhêde