
Emendas parlamentares criam um parlamentarismo informal
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Há algo de profundamente disfuncional na política brasileira contemporânea que já não pode ser explicado apenas pela polarização, pela crise de confiança institucional ou pela instabilidade económica. O eixo estrutural do problema encontra-se noutro ponto: na conversão silenciosa do Orçamento da União num instrumento de poder concentrado, operado por membros do Congresso que, sem assumir formalmente a tarefa de governar, passaram a condicionar o Executivo, redesenhar políticas públicas e interferir no próprio rumo do Estado.
O mecanismo tem nome técnico conhecido — emendas parlamentares —, mas o seu efeito político é bem mais profundo: a consolidação de um arranjo informal de poder, opaco e assimétrico, que corrói os fundamentos da representação democrática. A expansão acelerada dessas emendas, sobretudo após a experiência do orçamento secreto, alterou de forma substancial o equilíbrio republicano entre os Poderes.
GESTORES – Deputados e senadores deixaram de exercer prioritariamente as funções clássicas de legislar e fiscalizar para assumir, na prática, o papel de gestores paralelos de recursos públicos. Muitas vezes, fazem-no sem critérios claros, sem rastreabilidade adequada e sem qualquer avaliação consistente de impacto. Governar passou a significar negociar verbas; legislar, em numerosos casos, tornou-se uma atividade secundária.
Não se trata de uma anomalia episódica, mas de uma mutação estrutural do sistema político. Dados do próprio Orçamento Geral da União indicam que, em pouco mais de uma década, o volume de recursos sob controlo direto do Congresso se multiplicou, atingindo montantes comparáveis aos de ministérios inteiros.
A promessa original — descentralizar investimentos e aproximar os recursos das necessidades locais — foi progressivamente substituída por uma prática que favorece a concentração de poder em poucos gabinetes, a reprodução de redes eleitorais clientelistas e a transformação do orçamento em moeda de troca política.
PARADOXO – O resultado é um paradoxo democrático: mandatos legislativos acumulam influência executiva sem o ónus do voto programático, da responsabilidade administrativa ou da prestação de contas institucional. Não apresentam planos nacionais, não respondem por políticas integradas, mas intervêm decisivamente nelas.
Na prática, o Executivo vê-se frequentemente refém de um Legislativo que exerce poder orçamental sem responsabilidade governativa, incapaz de planear a longo prazo e constantemente pressionado por bloqueios e condicionamentos travestidos de negociação política.
É neste contexto que se intensificam as tensões entre o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal. Ao impor limites às emendas de relator e exigir transparência, publicidade e critérios objetivos, o STF não invade competências legislativas, como sustentam alguns críticos, mas reage a um vazio institucional perigoso. Quando o sistema político falha em produzir mecanismos de autocontenção, o Judiciário é empurrado para o centro da arena — não por vocação, mas por necessidade.
RESPOSTA – O protagonismo do Supremo não surge no vácuo. Ele responde a um Parlamento que, ao mesmo tempo que reivindica soberania, opera mecanismos que fragilizam a legitimidade do próprio regime representativo.
A questão das emendas não é apenas jurídica ou orçamental. É essencialmente política e ética. Ela toca o núcleo da pergunta que sustenta qualquer democracia: quem governa e em nome de quem? Quando recursos públicos são distribuídos segundo lealdades pessoais, interesses eleitorais ou acordos de bastidores, o cidadão deixa de ser sujeito de direitos e transforma-se em espectador de um jogo que não controla.
Os efeitos são concretos e mensuráveis. Políticas públicas tornam-se fragmentadas, obras são pulverizadas, prioridades nacionais cedem espaço a interesses localizados e desconexos. Municípios recebem verbas sem capacidade de execução, enquanto áreas estratégicas — saúde, educação, ciência, cultura — ficam subordinadas à lógica do varejo político. A desigualdade territorial aprofunda-se e a ideia de projeto nacional esvanece.
EFEITO PEDAGÓGICO – Mais grave ainda é o efeito pedagógico desse arranjo. Ao naturalizar a captura do orçamento, o sistema transmite a mensagem de que o poder não se exerce por meio de ideias, programas ou debate público, mas pelo acesso privilegiado a recursos e influência. Trata-se de uma erosão silenciosa da política como espaço de mediação coletiva.
Tratar as emendas como detalhe técnico é sustentar uma ilusão confortável. O que está em causa é a forma de governo que se instalou sem debate público, sem voto e sem transparência: um parlamentarismo informal, sem primeiro-ministro, sem programa e sem responsabilidade claramente atribuída — mas com enorme capacidade de bloquear, impor e desfigurar políticas públicas.
CAPACIDADE DE GOVERNAR – Reequilibrar este sistema exige mais do que decisões judiciais. Requer coragem política, revisão do pacto orçamental e compromisso efetivo com a democracia substantiva. Significa devolver ao Executivo a capacidade de governar, ao Legislativo a função de legislar e ao cidadão o direito de compreender, fiscalizar e decidir.
Enquanto isso não acontecer, o Brasil continuará a viver sob a aparência de uma democracia funcional, mas com um orçamento capturado e um poder exercido longe da luz pública. E nenhuma democracia sobrevive por muito tempo quando o centro das decisões se desloca do voto para o balcão.
Para piorar MUITO , o centro oeste, o sul e o sudeste têm 70% da população e contribuem com 90 % dos impostos federais mas o poder está todo nas mãos das regiões norte e nordeste. Das presidências das casas legislativas ao processo orçamentário. Tudo errado e distorcido. Os trilhões transferidos para essas regiões nas últimas décadas se bem empregados as teriam transformado em primeiro mundo com IDHs da Bélgica porém o dinheiro todo foi surrupiado pelos oligarcas locais como Batoré, Sarney, Lira e cia. Esses oligarcas corruptos estão transformando o Brasil num imenso Maranhão e escravizando uma nação inteira.
O escravista Norte, é atrativa posição “lojística” dos “manequins”!
Digamos assim: É o “pedágio”(preço cobrado), sob aprazível impositiva e serviçal locupletação!
Mas foi o próprio Presidente Luís Inácio da Silva9vulgo Lula) , quem se permitiu submeter-se as ” mazelas e imposições ” criminosas dos congressistas/parlamentares , em nome da farsa da tal governabilidade do país , com o agravante de que envolveu o poder judiciário nesses crimes , ao aciona-lo para resolver um problema que é exclusivo do poder executivo , que se nega a dar um basta nesses roubos cometidos pelos ” congressistas/parlamentares do dinheiro público em mais 60 bilhões de reais , através de vários subterfúgios visando legitimar tais crimes contra o Brasil e seu povo .
José Carlos, depois que o Congresso se arvorou o poder de determinar o valor das emendas, cujo valor se multiplicou por mais de dez vezes aos longos de um período relativamente curto, com um aumento enorme no mandato do Bolsonaro, e de tê-las tornadas impositivas, dizer que um presidente “permite submeter-se às mazelas e imposições dos congressistas e parlamentares” é uma grosseira inversão dos fatos.
Nenhum presidente tem hoje poder para resolver esse problema, que só poderia ser corrigido pelos próprios congressistas, que obviamente não têm o menor interesse em fazê-lo, e a única coisa que pode fazer é exatamente recorrer ao poder judiciário para evitar as ilegalidades mais flagrantes, o que não significa “envolver o poder judiciário nesses crimes”, mas sim em utilizar o único recurso que lhe resta dentro da legalidade.
Esse crescimento das emendas foi um roubo de poder econômico orquestrado pelos próprios congressistas, que destrói a ideia básica de que o executivo deve planejar e executar, e o congresso fiscalizar, os investimentos necessários ao funcionamento do país.
Na Venezuela, substituiram mais um serviçal fraterno e Khazariano “preposto”!
O preço futuro dos combustíveis dirá quem realmente com narrativas e facinho “usurpou e comanda” o país, à exemplo do Brasil!
Senhor Wilson Baptista Junior , sim , mas essas imposições são oriundas do ” famigerado orçamento secreto ” no governo anterior em paga para mantê-lo no cargo , frente aos inúmeros crimes que Jair Bolsonaro cometeu ao longo de todo o seu mandato , sendo que o Presidente Lula prometeu dar um basta nesses crimes e não cumpriu , pelo contrario terminou agravando-os , por se submeter a esses criminosos congressistas , a ponto de chegarmos a esse absurdo de os congressistas meterem as mãos em cerca de 60 bilhões de reais , a fundo perdido e usarem a seu bel-prazer , sem dar satisfações a quem quer que seja .