Intervenção de Lula mostra que eleitor pobre ainda não está apoiando Boulos

Os motivos de Boulos para ter Marta Suplicy como vice na disputa pela  Prefeitura de São Paulo - Folha PE

Lula acha que Marta vai atrair os eleitores mais pobres

Demétrio Magnoli
Folha

No sexto dia, Lula criou Marta e, no sétimo, Suplicy protestou. A exposição de um paradoxo aparente? Uma aposta no ilusionismo? Um lance arriscado de realismo político? O novo “dedazo” de Lula é tudo isso – e algo mais. Lula crê que Marta, crème de la crème da elite paulista, alarga o apelo da chapa às periferias pobres de São Paulo.

Isso implica admitir que Boulos, o indômito líder dos sem-teto, só entusiasma a classe média descolada. Talvez tenha razão: o paradoxo é só aparente, mais uma ilusão da política simbólica.

FRENTE AMPLA – Operação Alckmin 2.0? Alckmin foi jogada de gênio, não por seu peso eleitoral específico, mas por persuadir eleitores avessos ao PT de que Lula 3 seria diferente de Dilma 1. Marta acredita que desempenha o mesmo papel –e, por isso, divulgou seu “manifesto por uma frente ampla”.

Boulos tentou, gentilmente, corrigir o erro conceitual, falando em frente democrática. Nem um, nem outro.

A correção certa veio de Baleia Rossi, do MDB: frente restrita, de esquerda. Alckmin era um líder histórico do PSDB que usou a legenda do PSB. Marta, porém, nunca firmou-se como liderança de algum outro partido – e retornou ao ninho petista. PSOL + PT é, de fato, frente de esquerda. Lula, contudo, move-se no campo das narrativas: as repercussões do voto de Marta pelo impeachment de Dilma. Sob esse prisma, a “operação Marta” é Alckmin 2.0.

ESTRANHAS ALIANÇAS – Nos estados e municípios, o PT firma alianças com “golpistas”. O “golpista” Alckmin tornou-se vice de Lula. A “golpista” Marta foi elevada a vice na chapa paulistana e acolhida de volta no PT. Só o impagável Eduardo Suplicy – além, claro, do segmento mais simplório da militância de esquerda– ainda dá crédito à lenda do “golpe do impeachment”.

Fiel à lenda, Eduardo acusou Marta por seu voto “golpista” –e, ainda, pelo gesto ímpio de oferecer flores à ex-deputada bolsonarista Janaina Paschoal, a “musa do impeachment”. Daí, cavou uma trincheira de resistência – mas do jeito exótico dele.

SUPLICY REAGE – Primeiro, exigiu prévias, instrumento ausente do estatuto e da tradição do PT no caso de candidaturas a vice. Depois, em nome da “união da família”, declarou-se fora da disputa – como se uma eleição intrapartidária pudesse ameaçar os laços de respeito ou carinho entre um casal de idosos divorciados e seus três filhos na meia idade.

Finalmente, num ápice kafkiano, lançou a candidatura da vereadora Luna Zarattini, impondo-lhe o constrangimento de recusar, “honrada e surpresa”, a missão de desafiar a ungida de Lula.

Lewandowski, o ministro do STF que presidiu o processo de impeachment, atestando sua legalidade, acaba de ser entronizado no Ministério da Justiça. O “golpe do impeachment”, alguém precisa explicar metodicamente a Eduardo Suplicy, foi uma invenção tática de Lula.

FALSO GOLPE – A narrativa lendária cumpriu duas funções paralelas. De um lado, inflamou a militância partidária, produzindo a corrente da resistência na hora em que a sobrevivência do PT encontrava-se sob ameaça. De outro, matou no berço a hipótese de um debate interno sobre o fracasso catastrófico da política econômica conduzida por uma presidente fabricada pelo próprio Lula.

O artifício demonstrou-se eficaz –ao menos do ponto de vista dos interesses de Lula e de um PT que desistiu de pensar longe. O partido manteve-se coeso, sob o comando imperial do líder. A noção econômica primitiva de que “gasto é vida” continua a circular na fortaleza lulista, para tormento de um certo Haddad. Mas o inventor da lenda jamais caiu na armadilha de acreditar na sua criação, uma imprudência que imolaria o PT no altar da insanidade.

A dissociação entre palavra e gesto tornou-se um modo de vida. O “golpe do impeachment” ressurge, esporadicamente, em palanques de campanha ou nas redes sociais. Eduardo não decifrou a farsa, nem mesmo diante da “operação Marta”. Tudo bem: quase ninguém se importa.

5 thoughts on “Intervenção de Lula mostra que eleitor pobre ainda não está apoiando Boulos

  1. “Intervenção de Lula mostra que eleitor pobre ainda não está apoiando Boulos.”

    Simples: Que aumentem o número de pobres e isso, enquanto locupletam-se, eles sabem fazer!

  2. 1) Repito, acho difícil a dupla Boulos-Marta ganhar

    2) As eleições em SP capital, a meu ver, serão melhores que no RJ…

    3) A disputa vai ser Tabata-Datena na frente, e espero que sigam assim até o final…com a força do Dr. Alckmin… que é médico…

    4) Anotem… o atual prefeito Nunes-Aldo Rebelo devem ficar em segundo…

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