
Vendido a Vorcaro, Moraes está inteiramente desmoralizado
Vinícius Valfré, Aguirre Talento, Weslley Galzo e Gustavo Côrtes
Estadão
Documentos da CPI do Crime Organizado, da Aeronáutica e de empresas de táxi aéreo indicam que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes viajou de Brasília para São Paulo em agosto de 2025 em um avião de empresa da qual o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, era sócio. No dia seguinte à viagem, ele teria se reunido com o banqueiro, segundo mensagem de Vorcaro enviada a então namorada na ocasião.
Moraes acessou o terminal de aviação executiva do aeroporto de Brasília às 19 horas do dia 7 de agosto de 2025, segundo dados enviados à CPI pela Inframérica, administradora do aeroporto da capital federal. Era uma quinta-feira, após sessão plenária do STF.
DECOLAGEM – A reportagem analisou os registros de partidas e chegadas de Brasília naquela data mantidos pela Aeronáutica. Após a chegada de Moraes, três aeronaves voaram para Congonhas, em São Paulo.
Às 19h16, decolou um avião da empresa FSW PSE, que tem Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro entre os sócios. A reportagem teve acesso a um documento ao qual o piloto que conduziu a aeronave Falcon 2000, da FSW, neste dia afirma categoricamente que o ministro Alexandre de Moraes não esteve a bordo. Em seguida, um voo da Prime, empresa que teve participação de Vorcaro até setembro de 2025, partiu de Brasília para o Aeroporto de Congonhas. O Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou às 20h05 e aterrissou às 21h33.
O terceiro voo com destino a Congonhas realizado pela aviação secundária em Brasília, no dia 7 de agosto, partiu às 20h29. Era uma aeronave da Secretaria de Segurança Pública de Mato Grosso.
REUNIÃO COM VORCARO – Um dia após embarcar em Brasília, o ministro teve uma reunião com Daniel Vorcaro. Ao menos foi o que o banqueiro relatou em conversa com a ex-namorada Martha Graeff, encontrada no celular dele e obtida pela CPI do INSS.
Às 18h39 de 8 de agosto de 2025, o banqueiro escreveu para Martha Graeff, em duas mensagens de texto: “Tô com Alexandre e tenho reunião depois com Ciro”. Essas seriam referências ao ministro do STF e ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).
No dia 11 de agosto, segunda-feira, o ministro fez palestra em programação jurídica do Tribunal de Contas de São Paulo.
OUTRAS VIAGENS – Em 16 de maio, os registros apresentam nova vinculação entre a presença de Moraes no terminal executivo e avião ligado a Vorcaro. Naquela data, a entrada do ministro no terminal foi registrada às 9h30. O PR-SAD decolou para Congonhas às 9h37, segundo a Aeronáutica. Um outro voo para São Paulo só decolaria às 21h51.
Uma dinâmica semelhante ocorreu em 1º de agosto. Moraes e a mulher dele, a advogada Viviane Barci, além de um policial da equipe do ministro, chegaram ao terminal às 12h40, conforme o registro da Inframérica. O único voo que partiu para Congonhas foi o PR-SAD, às 12h44.
Em nota divulgada na terça-feira, 31, o escritório de Viviane Barci afirmou que “contrata diversos serviços de taxi aéreo, e que entre os que já foram em algum momento contratados está o da empresa Prime Aviation”.
HONORÁRIOS – Disse também que “todos os valores eram pagos compensando os honorários advocatícios nos termos contratuais”. A reportagem perguntou ao escritório, ainda na quarta-feira, dia 1º, se Viviane e Moraes usaram o voo das 20h05, da Prime. Não houve nova manifestação.
O Master, de Vorcaro, firmou contrato com o escritório de Viviane Barci em fevereiro de 2024 por um total de R$ 129,6 milhões em três anos, recebendo R$ 3,6 milhões mensais em honorários. As informações foram divulgadas pelo jornal O Globo.
O contrato foi encerrado em novembro, após a liquidação do Master pelo Banco Central, após pagamento de R$ 75 milhões.
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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Resposta oficial do gabinete no Supremo: “O ministro Alexandre de Moraes jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro ou em sua companhia e de Fabiano Zettel, a quem nem conhece”. A nota é capciosa, porque o ministro e a esposa viajavam em aviões que pertenciam a empresas de Vorcaro, e uma delas até hoje é administrada por Zettel, cunhado do banqueiro. Tudo isso deixa uma pergunta que não quer calar. O que falta para o impeachment de Moraes? Perto das armações dele, que “vendia” proteção milionária a Vorcaro, mas não conseguiu entregar, as pedaladas fiscais de Dilma Rousseff e Guido Mantega são uma brincadeira de criança. Definitivamente, a presença de Moraes no Supremo é um tapa no rosto dos homens de bem deste país. Apenas isso. (C.N.)
Não vai demorar e vão decretar 1000 anos de sígilo
Moraes e Toffoli são alvos de novos pedidos de impeachment por conta do escândalo do Master
Os desdobramentos das investigações do caso Banco Master fizeram aumentar o número de pedidos de impeachment protocolados contra ministros do STF.
Só neste ano, já foram 11 novos pedidos de cassação de integrantes da Corte, levando a um total de 97 em tramitação no Senado, a quem cabe examinar a questão. Moraes é alvo de mais da metade deles (50).
Dos 11 pedidos apresentados desde janeiro de 2026, seis pedem a cassação de Moraes e outros seis miram Toffoli. Uma das petições, assinada por um empresário pecuarista, solicita a perda de cargo dos dois ministros.
Em comum, todos mencionam as investigações do Master, que trouxeram à tona as conexões pessoais do dono do banco, Daniel Vorcaro, com Moraes, Toffoli e seus familiares.
As petições alegam que Moraes deve ser punido por crime de responsabilidade devido ao contrato de R$ 129 milhões firmado pelo escritório de sua mulher com o Master.
Também apontam as mensagens trocadas entre o ministro e Vorcaro no dia de sua primeira prisão, em novembro do ano passado, conforme revelou o blog.
Cinco horas antes de ser detido por policiais federais no aeroporto de Guarulhos, Vorcaro perguntou a Moraes se tinha alguma novidade, e ainda questionou: “Conseguiu bloquear?”
Ao acionar o Senado em março deste ano para pedir a cassação de Moraes, um grupo de 33 deputados, a maioria integrante da tropa de choque bolsonarista na Câmara, alegou que “os fatos revelados pela imprensa, baseados em dados extraídos pela Polícia Federal, demonstram uma teia de relações financeiras e comunicações extraoficiais que aniquilam a presunção de imparcialidade de Moraes”.
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Perda de confiança
O caso Master levou o Supremo a mergulhar numa crise institucional sem precedentes – cujo desfecho ainda é imprevisível.
Para o professor de ciência política Marco Antonio Teixeira, da FGV, o aumento no número de pedidos de impeachment expõe a crise de credibilidade do STF.
“Diferentemente das anteriores, essa crise não é motivada por divergência com decisões do Supremo e sim de questionamento à conduta dos ministros, como a proximidade de Toffoli com o caso Master e o contrato do escritório de advocacia da mulher do Moraes”, afirma.
Sinal de alerta
Em dezembro do ano passado, Gilmar – alvo de 10 pedidos de impeachment – deu uma polêmica decisão que escancarou o temor do Supremo com o risco de cassação dos magistrados.
A liminar esvaziava o poder de parlamentares e de cidadãos comuns de pedirem a cassação de magistrados, deixando essa prerrogativa apenas para a Procuradoria-Geral da República (PGR).
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Procurados pelo blog, Toffoli e Moraes não se manifestaram.
Fonte: O Globo, Política, Opinião, 02/04/2026 05h03 Por Malu Gaspar / Rafael Moraes Moura — Brasília