Charge de Mário Adolfo (Dito & Feito)
Vinícius Cassela,
Caetano Tonet,
Vladimir Netto
G1
Registros financeiros do Banco Master apontam que, em 2024, a venda das operações de crédito consignado ao CredCesta rendeu mais ao banco do que os juros cobrados dos servidores públicos nessas mesmas operações.
As informações constam na escrituração contábil do banco e foram enviadas pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o crime organizado. Ao todo, o Master registrou receita de R$ 1,6 bilhão com a venda de parte das operações de crédito do CredCesta em 2024. Ao mesmo tempo, o banco registrou receita de R$ 709 milhões com os empréstimos consignados ofertados.
RECEITA BILIONÁRIA – Entre 2022 e 2024, o banco registrou uma receita de R$ 2,4 bilhões com venda da carteira de consignados do CredCesta, contra R$ 1,9 bilhão de receita gerada pelas mesmas operações. Essas diferenças indicam que o banco de Daniel Vorcaro apostava no ágio que poderia ganhar com a revenda dessas carteiras.
Apenas em 2024, o Master registrou um direito a receber de R$ 10,5 bilhões relacionados ao CredCesta. O valor pode ser em decorrência de novos empréstimos consignados firmados entre o banco e servidores ou até mesmo a recompra de carteiras que anteriormente foram vendidas pelo Master.
No entanto, o banco informou ter baixado R$ 14,4 bilhões no mesmo período, seja pelo recebimento de parcelas ou venda de parte da carteira para um terceiro. As informações repassadas pelo banco à Receita Federal não detalham quais instituições financeiras adquiriram essas operações em 2024. Entretanto, de acordo com a investigação da Polícia Federal, as relações entre Banco Master e Banco Regional de Brasília começaram em junho daquele ano.
CREDCESTA – O CredCesta foi a porta de entrada do Banco Master para operar na modalidade de crédito consignado e liga o ecossistema do banco ao PT da Bahia. Em 2018, o empresário Augusto Lima foi licitante único da privatização da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que comportava a rede de supermercados Cesta do Povo e o programa de consignado. O processo foi comandado pelo então governador Rui Costa, atual ministro da Casa Civil, e do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, então secretário de Desenvolvimento Econômico.
No edital, o governo se comprometeu a transferir ao comprador, por 15 anos, os “direitos de exploração comercial” do CredCesta, assegurando sua continuidade “nas mesmas condições regulamentares em que atualmente operado”.
A licitação também garantiu a manutenção dos limites de crédito consignado em folha e autorizou a ampliação das funcionalidades do cartão, inclusive com a incorporação de serviços “creditícios, financeiros, securitários e congêneres”.
EXPANSÃO – Na prática, Augusto Lima não apenas herdou o Credcesta, como teve a oportunidade expandir o negócio para além da finalidade original de compra de gêneros alimentícios. Duas semanas depois da privatização, Rui Costa editou um decreto que reorganizou o CredCesta.
A medida transformou o modelo em um cartão de crédito consignado: o servidor usa o cartão e o valor é descontado automaticamente do salário. O texto também definiu limites de desconto e regras para o uso do crédito. Na prática, essa combinação entre o que já estava previsto no edital e as regras criadas depois pelo decreto acabou valorizando o CredCesta dentro do negócio.
ATRATIVIDADE – Enquanto o Cesta do Povo enfrentava dificuldades, dando um prejuízo anual de R$ 60 milhões, o programa de crédito tinha características mais atrativas: uma base garantida de clientes, baixo risco de calote e possibilidade de expansão para outros serviços financeiros.
Em nota enviada ao G1, Jaques Wagner confirmou que conheceu Augusto Lima em 2017, quando era o secretário responsável por conduzir o processo de privatização da Ebal. “Naquele período, uma das atribuições da pasta era conduzir o processo de venda do Supermercado Cesta do Povo, ocasião em que o referido empresário apresentou proposta e arrematou o ativo”, diz o senador em nota.
CARTEIRAS PODRES – Um documento interno produzido pelo Banco Regional de Brasília (BRB), aponta que à época do anúncio de compra do Banco Master, a equipe técnica já sabia que parte das carteiras de crédito consignado oferecidas por Daniel Vorcaro não tinha lastro, ou seja, eram podres.
A análise considerou 1,9 milhão de contratos que tinham sido adquiridos, de 615 mil clientes diferentes. Assim, em média, cada cliente deveria ter três contratos de empréstimo com o Banco Master.
O mesmo documento, ainda aponta que parte das operações repassadas ao BRB foram adquiridas pelo Master e tiveram a firma reconhecida dois dias antes do banco de Daniel Vorcaro repassar a mesma carteira ao Banco de Brasília. As carteiras de crédito consignado pertenciam a Tirreno e foram compradas pelo Master por R$ 6,3 bilhões e repassadas ao BRB por R$ 11,5 bilhões.
“O Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos, ex-presidente do Banco Central”, afirmou Lula
“(…) Daniel Vorcaro criou o Master e o transformou em uma usina de fraudes (…). Mas uma lacuna importante (da história) permanece, por determinação do Banco Central.
Até hoje não se sabe como Vorcaro conseguiu aprovação do BC para assumir o controle de outro banco encrencado, o Máxima, em outubro de 2019, oito meses depois de a mesma operação ter sido vetada pela mesma autoridade monetária.
O mistério permanece porque o BC se recusa a fornecer as informações que mostrariam quanto foi empregado na compra e a origem dos recursos. A guinada do veto para a autorização ocorreu depois que Ilan Goldfajn deixou o comando do banco e foi substituído por Roberto Campos Neto.
O fato de Campos Neto ser o presidente do BC quando Vorcaro passou a ser dono do Master tão pouco tempo depois de a operação ter sido vetada, tem sido usado por ministros como Rui Costa e pelo próprio Lula, que afirmou na semana passada que “o Master é obra, é ovo da serpente do Bolsonaro e do Roberto Campos, ex-presidente do Banco Central”.