
Moraes restringiu visitas a familiares e advogados
Luísa Marzullo
O Globo
A limitação de visitas imposta pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na decisão que concedeu a prisão domiciliar a Jair Bolsonaro esvaziou a capacidade de articulação do ex-presidente em um momento essencial para as negociações, na avaliação de aliados. A preocupação se dá porque a medida foi fixada por 90 dias, prazo que se estende até final de junho, a menos de um mês das convenções partidárias.
No mesmo dia, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou o ex-governador do Rio Cláudio Castro por abuso de poder político e econômico e o tornou inelegível até 2030. Ele almejava concorrer ao Senado em outubro, e as conversas sobre a substituição terão uma participação menos efetiva de Bolsonaro.
RISCO DE INFECÇÃO – A restrição foi justificada pelo risco de infecção após a pneumonia e pela necessidade de manter um “ambiente controlado”. Na prática, porém, faz com que o ex-presidente deixe de receber presencialmente deputados, senadores e emissários partidários que levavam diagnósticos eleitorais e saíam com encaminhamentos fechados sobre disputas estaduais. Bolsonaro estava especialmente interessado na construção de candidaturas ao Senado, segundo aliados.
Na Papudinha, esse circuito chegou a reunir ao menos 40 visitantes fora do núcleo familiar. Passaram pela unidade nomes como Tarcísio de Freitas, Rogério Marinho (PL-RN), Wilder Morais (PL-GO), além de deputados como Nikolas Ferreira (PL-MG), Hélio Lopes (PL-RJ) e Cabo Gilberto Silva (PL-PB).
Em reunião de cerca de duas horas, por exemplo, Marinho levou a Bolsonaro um mapa detalhado dos estados e saiu com orientações objetivas: priorizar São Paulo e Minas para evitar divisão da direita no Senado e segurar o avanço de candidaturas paralelas; no Paraná, evitar a dispersão, movimento que resultou na filiação do senador Sergio Moro ao PL, pré-candidato ao governo, e na composição com o ex-deputado Deltan Dallagnol ao Senado.
SONDAGEM – Em outro movimento, emissários do PL levaram ao ex-presidente a sondagem sobre Romeu Zema como possível vice e saíram com sinal verde para insistir na aproximação, mesmo com a resistência pública do governador. O mesmo ocorreu em São Paulo, onde Bolsonaro reforçou a necessidade de manter o controle sobre a segunda vaga ao Senado como ativo estratégico do partido.
Advogados e auxiliares levavam pesquisas internas, impasses locais e retornavam com orientação direta do ex-presidente sobre quem avançar, quem segurar e onde evitar divisão.
AUTORIZAÇÃO – A mudança de ambiente desmonta esse modelo. Na domiciliar, só têm acesso livre quem mora com Bolsonaro, como Michelle. Outras visitas dependem de autorização judicial e, na prática, foram desestimuladas. O resultado é que o ex-presidente deixa de arbitrar presencialmente esses impasses e passa a depender de relatos filtrados.
Hoje, esse núcleo se resume basicamente à ex-primeira-dama e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), autorizado a visitá-lo diariamente por cerca de 30 minutos, por integrar a equipe de defesa. A diferença é que, enquanto Michelle concentra o convívio cotidiano, Flávio segue em ritmo intenso de pré-campanha, com viagens e agendas fora de Brasília, o que reduz sua presença física.
CONTROLE – Esse desequilíbrio amplia o peso de Michelle. É ela quem passa a concentrar o fluxo diário de informações e, na prática, definir quem fala e o que chega ao ex-presidente. Aliados relatam que pedidos de interlocução já começaram a ser redirecionados a ela.
O redesenho ocorre em meio a divergências já abertas com o núcleo político de Flávio, principalmente sobre decisões em curso nos estados. No Ceará, por exemplo, Flávio atua por uma aliança com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB), enquanto Michelle defende a manutenção da candidatura do senador Eduardo Girão (Novo).




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BOCA DE JACARÉ – A chamada boca do jacaré – a diferença entre os que aprovam e desaprovam a atual gestão de Lula – está bem aberta: 20 pontos percentuais separam as duas curvas, de aprovação e de rejeição ao governo petista.

