
Troca de mensagens durou todo o dia da prisão
Malu Gaspar,
Johanns Eller
Rafael Moraes Moura
O Globo
Uma intensa troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes se estendeu por todo o dia da prisão do dono do Banco Master pela Polícia Federal (PF), em 17 de novembro de 2025.
Dados obtidos a partir do celular do executivo, apreendido com ele no momento da prisão, mostram que Vorcaro prestava contas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o avanço das negociações para a venda do Master e sugerem que ele também falou sobre o inquérito sigiloso que tramitava na Justiça Federal de Brasília e acabou levando à sua prisão.
BLOQUEIO – Nessas mensagens, Vorcaro relata que antecipou o negócio e que conseguiu salvá-lo, embora não fosse do jeito que ele queria. Também menciona um vazamento que “será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Duas vezes, durante o dia, ele pergunta a Moraes se tinha alguma novidade, e ainda questiona: “Conseguiu bloquear?”
O blog teve acesso com exclusividade aos prints de nove mensagens trocadas entre os dois via WhatsApp entre as 7h19m e as 20h48m daquele dia. Esse último contato com o ministro do Supremo se deu pouco mais de uma hora antes da abordagem policial no Aeroporto Internacional de Guarulhos, que ocorreu por volta das 22h.
Tanto o dono do Master como Moraes escreviam o texto nos blocos de notas de seus aparelhos, tiravam prints e depois enviavam como imagens de visualização única. Por isso, as mensagens do ministro não estão disponíveis. Já as de Vorcaro continuaram acessíveis no próprio celular.
MENSAGENS – Os horários de cada nota do banqueiro obtida pela reportagem coincidem com os das mensagens, em geral enviadas um minuto depois de serem salvas. Apenas uma foge do padrão e tem um intervalo de seis minutos entre o horário em que a nota foi fotografada e seu envio.
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Procurado, o ministro Alexandre de Moraes preferiu não se manifestar. Em nota enviada na tarde de quinta-feira, quando foi publicada a primeira reportagem sobre os diálogos, o magistrado afirma que “não recebeu as mensagens referidas na matéria” e que “trata-se de ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o STF”. Consultada, a defesa de Vorcaro afirmou que não comentaria.
Conforme publicamos na quinta-feira, inicialmente a informação obtida pela equipe da coluna era de que Vorcaro havia entrado em contato com Moraes uma única vez, no início da manhã do dia 17. Só após a publicação da primeira matéria obtivemos a íntegra da comunicação entre os dois.
GRUPO FICTOR – A conversa começou às 7h19m da manhã. Em uma referência ao negócio com o grupo Fictor, que seria anunciado naquela tarde, Vorcaro relata a Moraes a tentativa de “antecipar os investidores” e diz que há possibilidade de “assinar e anunciar ainda hoje uma parte”, o que, caso se concretizasse, o levaria a “ir pra lá tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros”.
Em seguida, muda de assunto: “De um lado, acho que o tema de que falamos começou a dar uma vazada, obviamente sem qualquer detalhes (sic). Mas a turma do BRB me disse que tá tendo um movimento de sacanagem do caso. E que a mesma jornalista de antes estava fazendo perguntas lá.”
O trecho que vem a seguir é vago, mas parece fazer referência ao inquérito sigiloso que corria contra o banqueiro na Justiça Federal: “Se vazar antes será péssimo, mas pode ser um gancho para entrar no circuito do processo”. Ele então finaliza pedindo: “Se tiver alguma novidade vamos falar”.
VISUALIZAÇÃO ÚNICA – Conforme mostram os registros do celular, Moraes responde às 8h16m, com uma mensagem de visualização única. Se o trecho a respeito dos investidores é uma referência clara à compra do Master pelo grupo Fictor, que seria anunciada na tarde daquela terça-feira para a surpresa do mercado financeiro, a parte em que ele fala em “entrar no circuito do processo” é menos explícita, mas guarda conexão com a cronologia dos fatos sob investigação.
De acordo com a PF, àquela altura o banqueiro já estava preocupado com os desdobramentos do processo que o levaria para a cadeia. Três horas depois da resposta de Moraes, às 11h08m, o site O Bastidor publica a informação de que havia um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília sobre uma fraude bilionária envolvendo a compra do Master pelo BRB, sem mencionar risco de prisão.
ACESSO ILEGAL – Segundo a apuração da PF, o banqueiro obteve a informação a respeito do inquérito sigiloso a partir de um acesso ilegal aos sistemas da própria corporação. Depois, usou o site para torná-la pública, “esquentando” a informação, para então poder apresentar uma petição diretamente ao juiz da Vara, Ricardo Leite. Nesse documento, ele busca impedir “medidas cautelares eventualmente requeridas” e barrar o risco de uma prisão, que havia sido determinada pelo juiz apenas 18 minutos antes, às 15h29m. A petição da defesa foi enviada às 15h47m.
A próxima comunicação entre Vorcaro e Moraes se dá às 17h22m, quando o negócio da Fictor estava prestes a ser noticiado pela imprensa. O dono do Master escreveu novamente para o magistrado: “Fiz uma correria aqui pra tentar salvar. Fiz o que deu, vou anunciar parte da transação”. Moraes não responde de imediato. Quatro minutos depois, Vorcaro emenda, então, com a mensagem revelada ontem pela equipe do blog: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”.
O ministro do Supremo responde às 17h31m, sempre por meio de prints do bloco de notas que só podem ser visualizados uma vez pelo interlocutor. O CEO do Master volta a pedir por atualizações de Moraes às 20h04m com uma nota salva às 19h58m, sempre com o cuidado de não mencionar o assunto que o preocupava: “Alguma novidade?”. O magistrado responde com duas mensagens em sequência às 20h21m e 20h23m. Vorcaro escreve novamente para Moraes às 20h48m, no que, segundo o material apreendido e periciado pela PF, seria a última mensagem compartilhada com o ministro antes da prisão.
“ACHO QUE PODE INIBIR” – Pelo conteúdo, depreende-se que ele responde a uma pergunta sobre o negócio com a Fictor: “Foi. Seria melhor na sexta junto com os gringos mas foi o que deu pra fazer dentro da situação”. E emenda: “Acho que pode inibir”, sem dizer exatamente o que poderia ser inibido.
Encerrando a conversa, Vorcaro comunica ao ministro: “Amanhã começam as batidas do [André] Esteves [dono do BTG Pactual]. Tô indo assinar com os investidores de fora e estou online”. Dessa vez, segundo os registros do celular do banqueiro, Moraes não respondeu com outra mensagem de visualização única. Reagiu apenas com o emoji de polegar levantado em sinal de aprovação.
Vorcaro jamais decolaria rumo a Malta e o Master seria liquidado menos de 12 horas depois pelo Banco Central. O CEO do Master só seria solto 11 dias depois por determinação da desembargadora Solange Salgado, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1).
MONITORAMENTO – A magistrada, porém, impôs a Vorcaro o monitoramento por tornozeleira eletrônica e o recolhimento do seu passaporte, cautelares mantidas até sua nova prisão na última quarta-feira (4) por determinação do relator do caso no STF, ministro André Mendonça.
Há ainda outro registro de diálogo entre o ministro e Vorcaro, em 1º de outubro de 2025, mas novamente sem conteúdo, porque o banqueiro e Moraes apagavam as mensagens ou enviavam com visualização única. De acordo com investigadores, há também telefonemas entre eles.
CONTRATO – O Banco Master contratou em janeiro de 2024 para representá-lo judicialmente o escritório Barci de Moraes, onde trabalham a mulher e dois filhos de Alexandre de Moraes, com a previsão de uma remuneração mensal de R$ 3,6 milhões ao longo de três anos.
O contrato do Master com a mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, previa que o escritório da família trabalhasse na defesa dos interesses da instituição e de Daniel Vorcaro junto ao Banco Central, à Receita Federal, ao Cade, à Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e ao Congresso Nacional – mas a atuação de Viviane é desconhecida em todos esses órgãos e instituições